Três amigas e o amor.

39 Ana - Chega de sofrer!


No domingo de manhã, Ana acordou com tivesse voltado de um enterro, com os olhos inchados e lágrimas secas no seu rosto. Seu sono foi agitado, chorou até dormir, confusa com por seus sentimentos dúbios de amor e ódio por Marcelo, mesmo sabendo, que ele não tinha o direito fazer isso com ela, escondendo-lhe a verdade. Ela estava apaixonada por um homem, que não conhecia direito e que não sabia o que queria da vida. Levantou-se, arrastando-se pelo apartamento, fez um café preto e encheu uma xícara e sorveu um grande gole, o calor da bebida a reconfortou um pouco, pela noite mal dormida remoendo tudo o que aconteceu, tinha se decidido que não adiantava sofrer, precisava esquecer e seguir em frente.

Em um gesto de negação, Ana olhou para as pastas em cima da mesa, pensou que era tempo de se concentrar no seu trabalho e na sua carreira, iria se dedicar de corpo e alma, isso a ajudaria a distrair-se, por isso tentou, ou melhor, fingiu que trabalhava.

No fim da manhã, seu telefone tocou insistentemente, considerou não atendeu, não queria falar com ninguém, mas na tela surgiu o nome de Raquel, a única pessoa que conhecia seu drama.

— Oi, Ana! Como você está? – a amiga indagou preocupada.

— Como eu poderia estar? Péssima! – Ana confessou, sem rodeios. — Marcelo esteve aqui ontem à noite, veio se explicar. Como o que ele fez tivesse explicação!

— E o que você fez?

— O que eu poderia ter feito? Ouvi as baboseiras que ele tinha a me dizer e mandei o embora, de volta para noivinha dele! — Ana falou com sarcasmo.

— Fez bem, Ana. Afaste-se dele. Você só vai sofrer.

— Rachel, eu já estou sofrendo muito. Eu estava apaixonada, abaixei a guarda e entrei de cabeça nessa relação. Vai ser difícil superar, mas eu vou conseguir — Ela sabia, que haveria muita dor e choro até que pudesse esquecer, mas essa seria uma cicatriz, que ficaria para sempre no seu coração.

— Tenho certeza que você vai sair dessa, Ana – Raquel a incentivou, sem muita convicção.

— Ainda, não acredito, como pude ser tão estúpida, caindo nessa história dele, logo eu tão precavida – Ana se culpava, com raiva de si mesma.

— Ana, Marcelo é bonito, culto, bem-educado e rico, qualquer garota ficaria de quatro com o interesse dele, não foi culpa sua – Raquel a consolou. — Caso precise de um ombro para chorar, pode me ligar a qualquer hora. Está bem? — Ofereceu se, apesar dela mesmo, estar precisando de um ombro amigo.

— Obrigada, eu vou lembrar disso.

O resto do dia, Ana tentou, inutilmente, continuar sua vida normal, contudo não conseguia se concentrar, para se distrair ligou a televisão e ficou mudando de canal aleatoriamente, procurando algo que prendesse sua atenção, parou em um canal de notícias, onde aparecia uma linda paisagem de praias de areias brancas e águas verdes, falava em um empreendimento internacional, a construção de um grande resort na área, que aumentaria o crescimento da região. Por favor, hotel, não! Ana pensou e mudou de canal.

Mas, em um impulso masoquista, pegou seu computador e digitou: Marcelo MontReggio e apertou a tecla e centenas de páginas apareceram, a família era discreta, porém importante para virar notícias. Passou por dezenas imagens de Marcelo em diferentes ocasiões, sempre lindo e charmoso, sabia que isso pioraria a sua situação, mas, não conseguiu resistir a esse impulso mórbido. E foi uma foto, em particular, que chamou sua atenção, onde Marcelo e Mariane brindavam, então, entrou na página que anunciava o noivado de um dos casais mais bonitos da sociedade. Ana ficou olhando a foto por um tempo, fechou a página e o desligou o computador. Chega de sofrer! Decidiu.

No decorrer dos dias, Ana voltou ao trabalho e a vida retornou ao seu ritmo normal de trabalho-casa, de vezes enquanto, havia um cineminha com Sílvia ou um almoço com Raquel, e muitos telefonemas entre as três, cada uma com sua história. Ana, também, trabalhava muito, para não pensar em Marcelo, na maioria das vezes não conseguia, depois lembrava das mentiras dele e ficava com muita raiva, outra vez.

Foi em um dia que estava de péssimo humor que Alberto ligou, quase como se adivinhasse.

— Ana, você sumiu?

— Eu não ando muito bem, ultimamente – admitiu, sem dar detalhes.

— Problemas no trabalho? – ele testou.

— Não.

— Então, o seu namorado misterioso?

— Por favor, Alberto – pediu, exaltado.

— Acertei?

— Sim, ele não era quem eu pensava – confessou, pressentindo o riso dele do outro lado.

— Eu lamento, Ana – ele declarou não muito sincero. – Se quiser conversar...

— Obrigada, mas não estou pronta para isso ainda.

— Quando achar que estiver, é só me ligar.

— Até mais, Alberto.

O tempo passava cruelmente devagar, assim como a dor no peito de Ana. Então em uma certa manhã qualquer, ao chegar ao escritório, encontrou Maria e Clara, cochichando entre si, com ar tenso.

— Bom dia, meninas — Ana as cumprimentou, sem muito entusiasmo, já passando direto.

— Bom dia! – as duas mulheres responderam, uníssono, olhando a com um certo ar misterioso, que Ana não entendeu, mas deu de ombros, seguindo o seu caminho.

— Ana, doutor Tavares pediu para você ir à sala dele, assim que chegasse — Clara comunicou, com um peculiar tom formal.

Ana pensou se haveria algo errado e dirigiu-se à sala do chefe e bateu na porta.

— Pode entrar! – Ouviu a voz ordenar lá de dentro.

— Bom dia, Tavares. O senhor queria falar comigo? Há algum problema? — Ana estava ansiosa pelo chamado, normalmente, não eram tão formais ali.

— Bom dia, Ana! Não há nada errado – ele a tranquilizou e continuou. – Ana, ontem, recebi um telefonema de um possível cliente, ele tem um problema um tanto diferente do que costumamos lidar por aqui, mesmo assim, pediu ajuda do nosso escritório.

— Sim, e em que eu posso ajudar? — Ela quis saber, já curiosa com a história.

— Este cliente foi bem específico e pediu que você fosse a advogada responsável pelo caso dele –Tavares explicou de modo formal.

— Eu? Por que eu? E que tipo de caso seria esse? – questionou, espantada com aquele pedido, já que era praticamente uma novata.

— Bem, ele não quis falar, exatamente, qual seria o assunto. Falou por alto, que era algo grande e muita gente poderia sair ganhando e outras perdendo, pelo o que eu entendi.

— Eu não estou entendendo, porque ele teria escolhido logo a mim, já que é um caso tão grande, mas está bem. Quando posso encontrá-lo? Ele virá aqui ou eu irei no escritório dele?

— Nenhum dos dois. Ele também foi específico quanto a isso, pediu para você encontrá-lo em um restaurante, se possível hoje à noite — Tavares comunicou, para o total espanto dela.

— Está brincando! Em um restaurante e à noite? Isso parece algum tipo de brincadeira! — ficou irritada e aflita, com a situação inusitada.

— É sério mesmo. Ele falou que não queria ser visto aqui, nem que visse você no escritório dele para não despertar suspeita. Assim em um restaurante, pareceria apenas um simples jantar — Tavares explicou a lógica da situação, parecia razoável.

— Mas, não seria perigoso, encontrar um estranho, sozinha, e à noite — Ana estava meio assustada.

— Não, é um lugar público. E pelo que eu ouvir falar sobre esse cliente, ele é bem sério.

— Está bem. Qual é o endereço e o horário? — Ela concordou, ainda desconfiada.

Tavares deu um cartão com o nome e o endereço do restaurante para Ana, que pareceu lhe familiar, tinha visto o nome daquele restaurante em algum lugar antes.

— Ana, você vai e volta de táxi, por conta do escritório. O jantar fica por conta do cliente. Vou passar uma mensagem confirmando a reunião. Obrigado, é só. Bom dia — conclui, a dispensando, não dando chance para discussões, então sem opção, ela saiu da sala e foi para sua mesa, começar a trabalhar. Mas, pegou-se imaginando, que tipo de caso seria este, parecia coisa de filme, no entanto, ainda achava que deveria ser alguma brincadeira, ou talvez, fosse algum maluco. Decidiu, que se houvesse qualquer suspeita ou algo anormal, iria embora, correndo.