Três Príncipes, Três Princesas
44 Acabando com algo que estava acabando conosco
Notas iniciais
Alice
— Alice? Alice? Onde está você, mulher?
— Aqui. No banheiro.
Respondi para um Jasper desesperado que me chamava em “alto e bom tom”.
Estava finalizando a maquiagem e logo desceria para tomar café. O batom escuro, era sinal de meu mau humor.
— Que foi?
Indaguei, já que ele havia chegado até mim e permanecia parado, no batente da porta, me encarando estranhamente e em silêncio.
— Nada.
Nada, mas, continuou lá, quieto feito uma estátua de sal. Eu não estava entendendo patavina.
— Jasper, tive a ligeira impressão de que precisava de alguma coisa quando me chamou. O que é?
Bati o pé, repetida vezes e voltei a encará-lo, agora pelo espelho, porque estava ocupada dando uns retoques finais no cabelo.
Eu voltaria a trabalhar depois do susto de ontem, minha coleção estava atrasada e eu não podia perder tempo.
Nossa equipe de segurança, garantira que não havia mais perigo, apesar de terem confirmado que o pacote, encontrado em frente ao ateliê, era mesmo um artefato explosivo. Porém, defeituoso. Já que não foi detonado e também de baixo alcance, ou seja, mesmo se a explosão lograsse êxito, não seria algo preocupante.
— Ah, sim...
Sacudiu a cabeça, como se tentasse recuperar os sentidos, a sanidade, o juízo, ou sei lá o quê. Ele estava estranho.
— Preciso do seu passaporte e carteira de identidade. Temos agendada uma viagem oficial ao Japão em dois meses. E a equipe de planejamento, vem me cobrando sua documentação.
— Ah! Sem problemas. Está tudo em minha bolsa. Você se importaria de pegar? Acho que a deixei em cima de nossa cama.
— Certo, pode deixar que eu pego. Ah! Alice?
— Hum?
Levantei uma sobrancelha para ele em resposta, enquanto voltava a lhe dar atenção.
— Você está bonita hoje. Aliás, você é bonita sempre.
— Obrigada, Jasper.
Respondi meio sem jeito.
Jasper não era dado a elogios gratuitos. Diferente de quando estávamos na cama, envoltos um no outro. Nela ele elogiava, guiava, instigava, exigia e amava como ninguém. Mas, fora dela, era completamente diferente. Severo, sério, até seco demais.
— Encontrou?
Perguntei tempos depois, ao mesmo tempo em que borrifava um perfume marcante e passava, pela última vez, a mão nos cabelos. Ajeitando os insistentes fios rebeldes.
Ele não respondeu.
— Jasper?
Insisti, já a caminho do quarto. Não era possível que já tivesse encontrado tudo que precisava. Minha bolsa era um enorme caos. Até eu me perdia dentro dela.
— Amor, estou te chamando e não responde. Encontrou os documentos?
— Não. Não encontrei, mas, encontrei isso. O que é, Alice? Não me disse que estava tomando medicamento.
Senti todo sangue fugir de meu rosto. Ele tinha nas mãos a ampola e o estojo de aplicação do anticoncepcional.
Mas que droga, Alice! Era pra ter me livrado daquilo ontem, porém, a confusão foi tanta que acabei me esquecendo.
— Ah! Não precisa se preocupar. Isso é somente um calmante que peguei com Bella a noite. Depois do dia conturbado que tivemos ontem, nós duas estávamos precisando. E funcionou. Percebeu como dormi?
Menti na “cara dura”. Eu não havia visto Bella depois de sua aparição apoteótica na sala. Aliás, somente Bá a havia visto quando lhe levara um lanche, já bem tarde da noite. Minha irmã se recusara, terminantemente, a sair do quarto, dizendo que não estava se sentindo muito bem. O que levou Edward ao desespero, outra vez.
O que achei, bem feito para ele! Uma hora “o babaca” teria que começar a pagar pelos seus erros.
— Interessante, Alice...
Delicadamente, ele guardou os objetos de volta na bolsa. Os olhos permaneceram cravados nos meus, sem desviar um milímetro.
— Porque o site de busca do meu celular...
Levou a mão ao bolso de retirou de lá o aparelho.
— Me dá um significado diferente para esse seu remédio. Escute só: “Contraceptivo; medicamento ou tratamento que evita a concepção, a fecundação, impossibilitando a gravidez”. Creio que sua irmã tenha se enganado, talvez eu deva falar disso com ela. O que me diz? Porque um erro desses é gravíssimo. Coisa de principiante. Imagina se ela faz isso no hospital? Sua reputação, de boa médica, vai “por água abaixo”.
E sem esperar minha reação ou resposta, foi se dirigindo para a porta.
Eu tinha que agir.
— Não! Jasper, espere...
Ele poderia estar blefando. É óbvio, que sabia que Bella não se enganaria com algo tão corriqueiro como um contraceptivo. Contudo, eu não poderia deixar que ele a confrontasse. Edward causaria outra guerra se os visse discutindo. Por isso, o impedi de sair antes que fosse tarde demais.
— Bella não tem nada com isso. Ela nem me receitou o remédio, eu o comprava e a obrigada a me aplicar. Deixe minha irmã fora disso, por favor. Ela já tem problemas demais.
Sua expressão se endureceu mais e agora, ele caminhava a passos controlados em minha direção.
— Por que, Alice? A única coisa que te pedi nessa “merda” de casamento foi um filho. E você, além de me negar, ainda mente e me apunhala pelas costas. Explique-me essa situação, “esposa”. Antes que eu saia por aquela porta e cometa uma loucura.
Diferente do irmão, ele falava baixo e ritmado. Cínico, calculista e frio. Eu não saberia definir qual dos dois, me amedrontava mais.
— Eu achei muito cedo, Jas. Queria me dedicar a minha carreira, primeiro. Fazer meu nome aqui em Ângelus. Queria aproveitar nosso casamento mais um pouco, nos fortalecer. Estamos tão instáveis ainda. Eu agi sem pensar, me desculpe.
— Ah que lindo! Que discurso bonito. Parece até meu irmão falando. Como pode papai e Charlie, terem errado tanto de casais?
Senti a dor das palavras duras. Ele iria torturar onde mais machucava.
Perdão não era uma palavra comum no dicionário de Jasper Cullen.
Eu perderia meu casamento e consequentemente, a coroa.
— Então você achou que mentindo e me enganando, conseguiria que nos fortalecêssemos? O que acha que sou, Alice? Um idiota? Ah, mas, isso acaba aqui. Acaba mesmo. Eu já devia ter colocado um ponto final nesse teatro, há muito mais tempo.
— Jasper, por favor...
Mas, ele já nem me ouvia mais. Eu podia ver as engrenagens funcionando em sua cabeça, a mil por hora. Ele estava traçando o próximo passo e acabara de se decidir.
— Na verdade, eu tenho é que te agradecer. Obrigada, Alice. Porque, você está me dando à oportunidade que eu tanto ansiava. E ela não poderia ter vindo em melhor hora. Nem posso me zangar com você. Tenho é que agradecer por ter me dado à chance de concertar a burrada de nossos pais.
E sem mais uma palavra, ele me deu as costas e saiu. Deixando-me louca de preocupação e me roendo de remorso por ter mentido.
Eu acabara de entregar meu marido nas mãos de Bella. Eu conhecia minha irmã, porém, não conhecia meu marido.
— Jasper!
Gritei, jogando tudo que estava em cima do criado mudo no chão.
Parece que um furacão resolvera passar pela nossa casa nos últimos dias, destruindo tudo que encontrava pela frente.
— Calma, Alice. Desespero não leva ninguém a nada. Pense... pense...
Mas, nada vinha à mente. Não conseguia me concentrar.
Porém, eu precisava concertar essa burrada, ou então, adeus reinado, adeus casamento, adeus sonho, adeus Jasper.
Esme
— Traga bolo, Charlote. Bastante bolo. Bella os adora e com bastante cobertura das mais variadas, morango, chocolate, caramelo, castanha. Precisamos agradar nossa garota.
— Esme?
Parei o que fazia.
Estávamos na sala de refeições e eu instruía Charlote no queria para o café da manhã.
— Sim?
Respondi, inocentemente.
Carlisle vinha bufando em minha direção. Era agora que eu lhe ensinaria uma lição. Minha nora era uma excelente professora. Mais uma qualidade para o currículo dela.
— Você sabe o que aconteceu com minhas roupas? Saí do banho e não as encontrei no lugar de costume.
— Ah, sim. Só um minuto, Chay, nós já continuamos. Deixe-me só terminar isso aqui.
Discretamente, ela se afastou.
Voltei minha atenção para meu marido, que só agora eu via, porque ele ainda estava dormindo no sofá.
Quase cai na gargalhada ao perceber que ele ainda usava a mesma roupa do dia anterior. Algo inaceitável para “tão alto e renomado monarca”.
— Sim, eu sei o que, por acaso, aconteceu com suas roupas.
— E?
Era agora...
— Elas migraram para outro lugar.
— Como?
Deixei o sarcasmo de lado. O assunto era sério e eu queria que ele entendesse minha raiva e minha atitude. As coisas começariam a mudar nessa casa. Ou por bem, ou por mal.
— Mandei colocá-las no quarto de hospedes, que coincidentemente, fica do lado do quarto de solteiro de Edward. Que mais uma vez, coincidentemente, é onde ele está dormindo, desde ontem.
— Você só pode estar brincando. O que pensa que está fazendo, Esme? Eu exijo que mande levar minhas coisas de volta.
— E eu as levarei. Assim que as de Edward voltarem para o quarto dele e da esposa. Antes não!
— Quê? Mulher, não estou te entendendo. Você só pode ter perdido o juízo.
Fechei mais expressão. Era agora que eu mostraria a ele, que com meus filhos ninguém brincava.
— É exatamente o que você ouviu, Carlisle. Você é um dos grandes responsáveis pela crise no casamento de nosso filho. E eu te avisei, mais de uma vez, para que mudasse de atitude e os deixassem em paz.E você ouviu? Não! Pois bem, agora é nosso casamento que está crise e tudo depende deles. Se Edward e Isabella ficarem bem, nós ficaremos. Agora se ela o deixar e partir para Forkian, eu aproveito a carona e vou junto.
— Você enlouqueceu, só pode. Não estamos em crise, mulher. Não temos nada com os problemas deles.
— Aí é que você se engana, meu rei. Praticamente, criei esses meninos, sozinha. Enquanto você permanecia enfurnado naquele palácio. E agora que estão adultos, você exige coisas absurdas deles e tenta os transformar em monstros e não maridos? Só por cima do meu cadáver, senhor meu marido.
Minha voz havia aumentado na medida que a raiva emergia.
— Graças a Deus, que Emmett não está aqui para você corrompê-lo também. Charlie é um bom exemplo para ele. Agora você? Veja Edward e Jasper? Eles não são os garotos dóceis, alegres e amáveis que eu criei.
Carlisle estava pasmo. Creio que não esperava que eu chegasse a tanto.
Bella me ensinou o caminho.
— Te aconselho a guiar melhor nossos filhos e a reconquistar sua nora. Você a deve mais desculpas que Edward. E se prepare, porque, se ela não amolecer o coração e perdoá-los. Eu endurecerei o meu. Agora, se isso era tudo, com licença, eu tenho um café para ajeitar.
— Mãe?
Fomos interrompidos por Jasper que descia as escadas, transtornado. Ele havia escutado nossa discussão?
— Que foi? Aconteceu algo?Você está bem? Alice?
Ele não respondia. Só estava vermelho e fumegando feito um animal selvagem.
Isso não era bom.
— Fale, Jasper.
Gritei.
E para “minha sorte” Edward escolheu esse mesmo instante para aparecer também.
Sua aparência era horrível, provavelmente ele não havia dormido. Porém, sua atenção já estava em nossa conversa.
— Bella?
Murmurou olhando para cima, pronto para fazer mais uma loucura.
Segurei seu ombro, o impedindo de agir antes de ouvir. Ele teria que reaprender isso.
— Não aconteceu nada. Deixem de ser paranoicos. Só estou atrasado para uma reunião e não vou tomar café. Vejo vocês no almoço.
Os olhos dele estavam em Edward. E nos todos sabíamos que ele mentia.
— Tudo bem, querido. Pode ir. Eu aviso seu pai. Mas, você tem certeza de que está bem?
Carlisle já havia nos deixado quando Jasper apareceu. Devia estar ocupado demais remoendo sua raiva. Os problemas dos filhos nunca eram de sua alçada.
— Está sim. Não se preocupe, mãe. Agora tudo vai dar certo. Eu lhe prometo. Nossa fase de alegria vai voltar para essa casa e voltarei a ser o velho Jasper. Pode acreditar.
Como há muito tempo ele não fazia, beijou minha testa e se afastou.
Algo me dizia que estava tramando e feio. Eu precisaria ficar atenta. Porque, com Carlisle como professor, nada de bom poderia sair dali.
Edward
— O que deu nele?
Indaguei Esme. Jasper não estava certo. O olhar dele falava mais do que seus atos. Ele parecia pronto para alguma coisa.
— Não sei e acho que você já tem problemas demais para ficar se preocupando com os dos outros.
— Mãe...
Argumentei sentando em meu lugar e esperando que os outros chegassem para que pudéssemos tomar nosso café.
Eu nem queria comer, eu só precisava ver Bella e ter certeza de que ela estava bem e aqui, ao alcance de minhas mãos e olhos.
— Mãe, não! Você não me ouve mais, Edward. E nem vou lhe aconselhar em como se livrar dessa confusão. Eu não o reconheço e não vou colocar a confiança que Bella tem em mim, por sua culpa. Você é dono do seu destino. Siga pelo caminho que achar que deve, mas, siga sozinho. Não me comprometerei, nem intercederei. Cresça! Já está passando da hora disso acontecer.
Ofeguei.
— Perdoe-me, mãe. Não sei o que está acontecendo. As coisas estão fugindo do controle. Meu casamento está escapando por entre meus dedos. Quanto mais seguro, mais aperto, mais fecho... Mais perco minha esposa. Ajude-me, mãe. Não me abandone também.
Lamentei a abraçando apertado. Sentia-me imponente, sozinho. Só precisava que alguém dissesse que tudo iria melhorar.
— Ah, meu filho! O que faço com você?
Esme afagou meus cabelos e secou minhas lágrimas. Ela entendia minha dor, eu sentia. E por mais que negasse, mesmo que fosse disfarçadamente, ela me ajudaria.
— Bom dia.
Nossa conversa foi interrompida.
Minha linda mulher estava a nossa frente. Os olhos estavam fundos e meio vermelhos, porém, ela parecia forte e implacável. Uma guerreira. Tive vontade de me aproximar e pegá-la nos braços. Será que eu me acostumaria a, pelo menos, cochilar sem o corpo dela junto ao meu? A cama era tão fria.
— Bom dia, querida. Sente-se. Vou mandar servir o café.
Bella assentiu. Ela estava tão linda. De calça jeans preta e justa e com uma blusa soltinha azul. Eu amava quando ela vestia azul. Nada de branco.
Claro! Ela não tinha mais nem uma peça branca.
— Esme?
Ela se aproximou de minha mãe e a abraçou, nos pegando de surpresa.
— Perdoe-me por ontem, minha rainha. Você é uma das poucas pessoas nessa casa, que não merecia minha ira. Perdoe-me, isso não irá se repetir. Não me deixarei corromper.
— Não peça desculpas, filha. Você não deve desculpas a ninguém. Muito ao contrário da dívida que temos com você. Esqueça isso. Está bem? Agora, sente-se. Vamos tomar café.
Mamãe estava eufórica e feliz. Ver que a raiva de Bella se dirigia somente a mim a tranquilizou.
Bella nem levantou os olhos para mim.
Eu estava, completamente, em apuros mesmo.
— Ah! Você precisa de roupas brancas, temos que dar um jeito de providenciar isso, enquanto, seus uniformes não chegam? Tenho uma amiga que tem uma loja conceituada no centro da cidade. Posso pedir para que ela traga algumas peças para você. Ela ficaria lisonjeada de vestir uma princesa, que é sócia de uma das marcas mais famosas da atualidade.
Esme me olhou de soslaio e com as sobrancelhas arqueadas. Era óbvio que explicitava o quanto me achava um idiota. E informando, indiretamente, que aquele custo também seria por minha conta.
Eu pagaria o que ela quisesse, se isso trouxesse Bella de volta para mim.
— Não se preocupe. Eu ajeito isso. Vou passar no shopping assim que sair do hospital e...
As duas emendaram uma conversa e mamãe se ofereceu para acompanhá-la. O que me deixou mais tranquilo. Imaginem o pandemônio de fotógrafos e pessoas seguindo Bella em um shopping? Sam e Zafrina, sozinhos, não conseguiriam. Eu teria que ver isso com Stephan.
Também não me passou despercebido que Esme a sentou do outro lado, no lugar que seria de Jasper, bem longe de mim, que me sentava ao lado dela, ao lado de Carlisle.
Às vezes acho que mamãe não facilitaria nada.
Logo Alice e papai se juntaram a nós. Os dois com expressões fechadas e silenciosas.
Somente mamãe e Bella conversavam.
— Me dá uma carona, Bells? Jasper já foi e como você passa na porta do Ateliê?
— Claro. Vamos?
— Vamos. Dê-me dois minutos.
As duas se abraçaram e voltaram a subir. Aproveitei a oportunidade, me despedi de meus pais e saí. Precisava ser rápido se quisesse começar a tramar um bom plano para requerer o perdão e meu posto de marido, da linda princesa de Charlie.
— Bom dia, Stephan. Vamos rápido e passe pelo caminho que fazemos quando deixamos Bella no hospital.
— Ah não, Edward. Suas cotas de burrices naquele lugar já saturaram. Não vou te levar até lá. Se quiser fazer loucura, faça sozinho. Não vou contribuir para que magoe, ainda mais, Isabella.
— Tá bom, Stephan. Eu já entendi e já aprendi. Não estamos indo para o hospital e é bem provável que tio Aro já tenha proibido minha entrada lá. Somente vamos pelo mesmo caminho, preciso começar minha redenção, por um lugar ali perto. Agora ande, quero fazer isso antes de Bella chegar ao hospital.
Bufando feito um touro, ele seguiu minhas ordens. Eu entendia e aceitava como todos estavam me tratando.
Mas, que doía, doía.
Eu parecia um estranho em minha própria casa e para minha própria família.
Bella
— Você tem certeza de que está bem? Bella, você deveria ter ficado em casa para descansar. E ainda acho que devíamos contar a papai do ocorrido de ontem.
— Olha só quem fala? E pare de insistir, Alice. Eu já disse para deixar Charlie fora disso. Você está ficando repetitiva. Sabia?
Passei os dedos em volta dos olhos dela. Eles também estavam vermelhos. Até poderia achar que era por minha culpa, tínhamos esse defeito de sofrer umas pelas outras, porém, algo me dizia que Alice estava com problemas. Mas, nada fez com que ela me contasse. Disse somente, que era problema de princesa herdeira. E que só ela e Rosie entendiam.
Foi a gota d’água para que eu me calasse. Eu odiava a volubilidade de Alice.
— Se juntar nós duas, não dá uma. Ainda bem que Rose está longe, ou ela nos sacudiria sem dó.
— Verdade.
Abracei-a e lhe beijei a face.
— Fique bem.
— Você também. Qualquer coisa ligue. Prometo que serei mais atenta a nossa família a partir de hoje, Lice.
Ela sorriu, um sorriso triste e estranho. Não entendi nada.
Assim que ela desceu voltamos a seguir para nosso destino. O ateliê e o hospital eram bem perto um do outro.
Então cerca de cinco minutos depois estacionávamos em nossa vaga de sempre.
Zafrina e Sam, me seguiam de perto. Os dois estavam mais calados e sérios que o normal. Creio que seja por mágoa, por eu não ter decidido voltar para Forkian ontem mesmo.
Eles não entendiam...
— Bom dia, Bree.
— Bom dia, doutora. Tudo bem?
— Tudo.
Ignorei seu olhar inquisidor, do mesmo jeito que ignorei os cochichos e dúvidas de todos por quem cruzei até chegar a minha sala.
— Agende para mim um horário com Aro, por favor. E também preciso que reagende meus pacientes, Bree. A partir de amanhã, atenderei somente em um horário e não farei plantões.
— Sim, senhora. Mais alguma coisa?
Respondeu já anotando tudo que eu dizia. A eficiência em pessoa.
Zafrina e Sam me estudavam com atenção, já em seus postos. Eles também tentavam me entender.
— Sim. Não agende pacientes que não estão na lista de espera. Tenho que resolver algumas coisas. Quando puder fazer isso de novo, lhe avisarei.
— Sim, senhora.
Sua resposta foi rápida e eficiente, mas seus olhos pareciam temerosos. Creio que já imaginava a que coisas eu me referia.
Se meu plano falhasse, não haveria alternativa. Teria mesmo que deixar Ângelus. Deus queira que não chegue a esse ponto.
— Assim que o primeiro paciente chegar, me avise. Estarei esperando.
— Sim, doutora. Tenha um bom dia.
Adentrei minha sala, fui até o banheiro, guardei a bolsa, não sem antes pegar o celular e colocar no bolso da calça. Eu havia aprendido a lição.
Prendi o cabelo, num coque alto. Vesti o jaleco e por fim, esterilizei as mãos.
— Pronto! Aqui, nada de senhora Cullen. Você é uma médica, Isabella. A doutora Cullen. Portanto, esqueça seus problemas. Seja profissional.
Resmunguei para minha imagem no espelho, ao mesmo tempo, que esfregava o líquido viscoso pelos dedos.
— Certo! Vamos lá.
Voltei para o consultório com os planos de me chafurdar em meio a, resultados de exames, biópsias e receitas. Porém, algo lutava contra mim e nada colaborava para o que eu tinha em mente.
— Ah, Edward! O que faço com você?
Flores. Ou melhor, Orquídeas.
Num vaso grande, porém, delicado. Brancas. Como a paz que tanto almejávamos.
Amor
Flores seriam uma boa forma de começar a me redimir?
Eu não vou desistir de você, princesa.
Perdoe-me?
Te amo para sempre.
Seu Edward
Não resisti ao impulso, tracei cada palavra com as pontas dos dedos. Ele havia escrito aquilo. A intensidade e o sentimento eram perceptíveis.
Eu ao amava tanto. Seria tão mais fácil se eu...
— Não! Brancas como seu uniforme, Isabella. Mantenha o foco.
Fechei o cartão, com violência e o devolvi ao arranjo.
Peguei aquilo tudo e marchei até Bree.
— De onde veio isso, Bree?
Os olhos dela se arregalaram de susto. Se continuássemos fazendo isso com a pobre garota, num futuro próximo ela sofreria de problemas psicológicos. E nos processaria por justa causa.
— A moça da floricultura, aqui de frente ao hospital, que trouxe. Verifiquei e assinei a nota de recebimento, Bella. Era do senhor Cullen. Sam confirmou a veracidade da assinatura. Segui todo procedimento padrão de segurança. Não há perigo, princesa. São flores de verdade, eu garanto.
Lamentei pela explicação dela. A paranoia quanto ao perigo de atentados, havia chegado até aqui e a estava afetando.
— Tudo bem, Bree.
Falei devagar e serenamente. Eu precisava que a cor voltasse ao rosto dela. Uma princesa mal- educada, não era minha personalidade. Bree não tinha culpa, ela não.
— Eu sei que são flores. Perdoe-me se expressei mal, Bree. Só me faça um favor, ok? Não receba nada destinado a mim, sem meu consentimento. Se vier do senhor Cullen então, nem precisa me perguntar. Devolva imediatamente. Estamos entendidas?
— Sim, senhora.
Sorri, para amenizar a situação. Lembrar-me-ia de discutir com Aro, em nossa reunião, um aumento para minha secretária. Ela merecia.
— Sam?
Imediatamente ele veio até mim. Um mínimo sorriso debochado despontava de seus lábios.
— Não, você não. Zafrina?
Certeza de que ele já tinha em mente o que eu pediria, por isso recuei. Eu não precisava de mais alguém atormentando Edward.
— Sim, Bella.
— Por favor, vá até palácio encontre Edward e devolva, pessoalmente, as flores. Diga que mandei dizer que não estou com humor para gracinhas e que odeio branco.
Passei-lhe o embrulho e imediatamente voltei a minha sala. Eu não estava para brincadeiras e não me deixaria desviar de minhas responsabilidades.
Nem por Edward.
Graças a Deus, cinco minutos depois, meu primeiro paciente chegou.
Suzie e seus pais vieram me mostrar os resultados de seus exames.
É, não havia jeito. Era cirúrgico. Um processo delicado, porém, cem vezes mais simples do que o de Nessie. Tanto que dessa vez eu faria aquilo sozinha. Não incomodaria Jacob. Ele tinha sua vida e eu tinha a minha. Teríamos que aprender a caminhar sozinhos também.
Tempos depois, quando a cirurgia de Suzie já havia sido marcada e eu já alertava sua família dos preparativos do pré- operatório, fui surpreendida com uma visita, no mínimo, inusitada.
— O príncipe Jasper está aqui, doutora. Informei-lhe que está ocupada e que sua agenda está cheia hoje, mas, ele insiste em falar com a senhora agora. O que faço.
Jasper aqui? Ou Alice estava com problemas, ou eu teria problemas.
— Peça-o que espere, Bree. Estou terminando.
Tirei dúvidas e tranquilizei, o máximo que pude, os pais de minha pacientezinha. E, por fim, os levei até a porta, deixando claro que me ligassem, se algo de urgente acontecesse.
— Obrigada, doutora- princesa. Você está linda hoje. Mais, linda ainda.
— Ah, gatinha! Você é que é linda e logo ficará boa.
— Tia Bella, quando eu ficar boa, a senhora me deixa usar sua coroa um pouquinho?
— Suzie!!
Peguei-a no colo, ignorando a repreensão dos pais e ignorando mais ainda, os curiosos que nos observavam na sala de espera.
— Claro que deixo, meu amor. Minha coroa é linda. Você vai experimentá-la um pouquinho e depois tiraremos várias fotos para que você mostre a seus colegas de escola que também é uma princesa. Combinado?
— Combinado.
O sorriso e o beijo que ganhei eram meu melhor pagamento.
— Tchau.
Despedi-me com um sorriso bobo. Suzie era linda. Eu amava, cada dia mais, minha profissão.
— Estou meio zonzo, doutrora. Será que pode me examinar e dar o diagnóstico?
Voltei minha concentração para os presentes na sala. E meu sorriso morreu ao encarar meu cunhado.
— A geriatria fica no andar de cima, Jasper. Se não está se sentindo bem, posso pedir a Sam que o acompanhe até lá.
Brinquei, mas, nem uma ponta de sorriso apareceu em meus lábios. Pela piadinha dele, eu já sabia que não havia nada com Alice. Então me restava à segunda opção.
— Bree, marque 15 minutos em seu relógio, esse seria o tempo do meu intervalo. Assim, que o tempo terminar me avise. Não posso deixar meus pacientes esperando. Então, a conversa com o senhor Cullen terá que ser interrompida.
— Sim, senhora.
Sam me olhos nos olhos. Era como se me alertasse. Acenei afirmativamente para ele. Eu não hesitaria em gritar.
— Bom Jasper, espero que sua conversa seja rápida. Não tenho muito tempo.
Dei a volta na mesa e me sentei em meu lugar. Apontei-o a cadeira na minha frente. Não me passou despercebido que ele se dirigia aos sofás.
Então, ele achava que nossa conversa seria mais íntima? Coitado.
— Quinze minutos, serão suficientes.
Ele se inclinou e colocou as mãos por cima das minhas. Imediatamente, as puxei e me recostei na poltrona.
— O que aconteceu? Alice está bem? Ela não me ligou e...
— Esqueça Alice, Bella. Estou aqui para falar de nós.
— Jasper eu...
— Não! Espere. Deixe-me falar primeiro.
Assenti e me calei. Eu queria saber o que ele tinha a falar.
Devagar e disfarçadamente, levei à mão a discagem rápida do telefone e apertei o número que ligava direto ao celular de Edward. Eu queria que ele escutasse essa conversa.
Só esperava que ele não agisse por impulso. Era agora que eu começaria meu teste.
— Meu casamento acabou, Bella. Exatamente como o seu. Alice mentiu. Ela estava tomando contraceptivos, sem que eu soubesse. Quando o que eu mais queria era ser pai.
Ele tentava fingir tristeza e amargura, mas, seus olhos não estampavam isso. Ele parecia aliviado e feliz.
Eu sabia que essa loucura de Alice iria acabar mal.
— Ela quis justificar, dizendo que é nova. Que nosso casamento precisava amadurecer e que sua carreira precisava se firmar. Mas, eu não quero saber. Ela mentiu e traiu minha confiança. Não a quero mais, Bella. E por isso estou aqui. Para concertar o erro de nossos pais, antes que você caia na lábia de Edward mais uma vez.
— Não estou te entendendo, Jasper. Seja mais claro, por favor. Nós só temos dez minutos agora.
Dei corda para ele se enforcar.
— Nossos pais cometeram um equivoco, Bella. Você e eu temos que ficar juntos. Edward e Alice se merecem. Eu a amo desde que coloquei os olhos em você, princesa. Tão doce, tão meiga, tão linda. Uma rainha genuína. Escola nenhuma formaria alguém como você. Está no seu sangue.
— Assim com está no sangue de minhas irmãs.
— Sim, está. Mas no seu se sobressai. Nós seremos os reis perfeitos, princesa. Inteligência, beleza e rigor. O povo a ama. Eles nem se importarão que troque Edward por mim. Eles sempre souberam que eu seria o rei. A rainha nunca importou, mas, você os conquistou.
Ele esqueceu a modéstia, o repeito e a educação.
— Separe-se de Edward e case-se comigo, Isabella? Eu a amo. Nós seremos muito felizes juntos.
Cinco minutos. Era agora. Jasper precisava aprender umas coisinhas.
Levantei, passei por ele e fui para perto da porta.
— Não existe nós, Jasper. Você enlouqueceu e tenho pena de Alice por tanta falta de sorte. Amo seu irmão e assim será para sempre. Entendeu ou quer que eu chame um tradutor?
— Ele não te merece.
Ele se levantou e veio para perto de mim.
Levei à mão a maçaneta, pronta para abri-la. Eu não seria ameaçada por idiota nenhum, nunca mais.
— E você merece? Poupe-me, Jasper. É casado com minha irmã. Nem se fosse o último homem da terra, eu me rebaixaria a tanto. União e respeito, podem não ser palavras existentes no dicionário da família de vocês, porém, existem no nosso.
— Não me venha com demagogia, Isabella. Alice não te respeitaria se estive em seu lugar. Estou te prometendo à coroa. O amor vem com o tempo. Te amarei por nos dois. Serei devoto a você e nunca a tratarei como meu irmão fez ontem. Você não deve nada a ele, assim como não devo a sua irmã. Esqueça-os e fique comigo. Seremos felizes, eu te prometo. Te darei filhos, dinheiro e muito poder.
Sua voz era baixa e controlada e ele estava muito perto agora.
— Você não ouviu, não é? Eu amo seu irmão. E amo Alice também. Eu não a magoaria por nada. Se ela não faria o mesmo por mim, azar o dela. Eu faria e faço qualquer coisa por ela e Rosie. Por isso, sugiro que saia de minha sala imediatamente, senhor Cullen. E que procure um psiquiatra, antes que seja tarde demais. Você só pode estar louco.
— Louco por você, princesa. Louco de amor.
— Ah! Poupe-me.
Revirei os olhos e trinquei os dentes. Ele estava passando dos limites. Minha paciência estava por um fio.
— Loucos vão ficar os jornais e a polícia quando eu o acusar de assédio, Jasper. Aposto que seu pai vai adorar também. O meu então? Assédio dá prisão perpétua aqui? Em Forkian dá. Você sabe que nossos reinos tem um acordo de troca de acusados, não sabe? Charlie vai amar acompanhar seu julgamento em nossa capital. Sam?
Chamei meu segurança sem hesitar. Contemplei, meu cunhado abrir a boca em incredulidade.
— Você não ousaria. Seria a minha palavra contra a sua.
— Claro que seria. Imagina em quem papai, Edward e Esme acreditariam?
Sam entrou e me encarou seriamente.
— Chamou, princesa?
— Sim. Acompanhe, por favor, o senhor Cullen até a saída, nossa conversa já terminou. E avise na recepção que a entrada dele, em meu setor, está proibida até segunda ordem.
— Sim, senhora.
— Você não pode fazer isso, sua vadia. Esse hospital é meu. Esse reino é meu. Vou expulsá-la daqui.
Com uma raiva tomando conta. E pensando em todas as vezes que ele instigou e incitou a dúvida de Edward, levantei a mão e a desci em seu rosto.
— Uma vadia que aprendeu a bater com o melhor, seu idiota. Você pode vir a ser rei algum dia, mas, por enquanto, isso aqui é meu. Ou quer que perguntemos a sua mãe, a seu pai, a seu tio, ao papa se quiser?
Sam se colocou a minha frente e o segurou pelos ombros. Jasper estava com a mão no rosto e segurava bem onde bati.
— Vamos rapaz. Se você não sair, vou chamar a segurança e o levaremos direto para a delegacia.
— Isso não ficará assim, Isabella. Eu expulsarei você e Edward, a pontapés, de meu reino. Espere e verá.
Ele se soltou de Sam e me apontou o dedo.
Só para provocar, sacudi os ombros, como se não me importasse.
— O melhor futuro rei de todos, Emmett, nos receberá, tenho certeza. Agora suma daqui, porque eu trabalho nessa vida.
Voltei a abrir a porta e apontei para que ele saísse.
Seus olhos injetados de fúria me acompanharam enquanto podiam, até que ele me perdesse de vista. Sam o acompanhou.
Voltei até minha mesa e encerrei a ligação feita a Edward. Se ele havia atendido já estava a par de tudo o que acontecera. Agora era esperar sua reação.
— Faça o certo, Edward. Por favor, faça o certo...
Conjecturei.
Sentei e fechei os olhos. Eu só queria dormir e acordar quando esse pesadelo todo tivesse acabado. Talvez daqui a dois meses?
O que mais faltava acontecer.
Será que nunca teríamos paz.
Eu só esperava que Jasper fosse parte do passado, um problema a menos. E se ele não tivesse entendido dessa vez, não entenderia mais.
Eu era de Edward, e se não fosse ele não seria ninguém.
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