Três Príncipes, Três Princesas
88 A redenção de Charlie Swan
Notas iniciais
Edward
— Vai precisar de nós ainda hoje, senhor?
Peguei minha maleta juntamente com o paletó que estavam em cima do banco, bem ao meu lado no carro.
— Não, Demetri. Estão dispensados.
Respondi servindo também para Sam, que infelizmente, mais uma vez, voltara a meus serviços, só que agora subordinado a Demetri.
Stephan achava que, antes ele comigo que com Bella.
E manda-lo embora não era uma opção, porque apesar de tudo, era leal.
— Tenha uma boa noite, Edward.
Sorri em retribuição para logo depois já afrouxar a gravata e adentrar, mais uma vez pela garagem, minha casa.
Havia sido uma segunda feira infernal e estava exausto, pronto para jantar e descansar nos braços de minha mulher.
Os compromissos com o reino exigiram que eu a deixasse e fosse trabalhar, o que, diga-se de passagem, foi um verdadeiro martírio, pois desde que voltamos de Pushian ela não tocara mais no assunto do pai e a irmã bastarda.
Bella agora sofria e remoia, em silêncio, antes de dar o próximo passo.
Acho que a única coisa boa disso tudo é que ontem à noite, depois que colocamos os meninos para dormir, Bella olhou pela janela e disse que precisava começar a se preparar melhor para comandar o reino ao meu lado.
Ou seja, ela decidira. Nós não aceitaríamos a proposta de Charlie.
E mesmo que fosse uma decisão tomada no calor de sua decepção com o pai, não pude deixar de aceita-la com muita felicidade. Não era segredo para minha esposa que eu preferia Ângelus, mas a opinião dela era meu tudo e se ela decidisse que queria ir para Forkian, nós iríamos.
Pelo visto, Charlie perdera a grande oportunidade de ter Bella e os meninos por perto.
Ponto para Esme e vovó Elizabeth que estavam apreensivas com essa possibilidade.
— Boa noite, Edward. Dê-me aqui suas coisas. O jantar está quase pronto.
Sem permitir que eu respondesse ou negasse, Bá arrancou de mim tudo que eu carregava nos braços.
— Obrigado! Como foi o dia por aqui, Donna?
No palácio foi uma loucura fui abordado inúmeras vezes por papai e Jasper querendo saber como minha mulher estava.
Pelo telefone fui bombardeado por ligações de Charlie, Renée, Rosie, Alice e Jacob, o dia inteiro.
Perdi as contas de quantas vezes os implorei para que respeitassem o tempo de Bella.
Charlie e Jacob não pensavam assim. Azar o deles.
Ainda tinha o fato de que tive que me reunir com a acessória de imprensa procurando um meio de abafar a nossa saída repentina do evento de sexta. E também a procura de uma alternativa para manter Sue calada, antes que Bella fosse mais atingida ainda.
Como eu disse; Um dia de merda.
— Foi tudo tranquilo, senhor. Os telefones continuam desligados. O acesso a casa, mais restrito do que nunca e Stephan continua pairando por minha cozinha de minuto a minuto.
— Tenha paciência, Bá. Ele só está fazendo o trabalho dele. Bella não quer ser incomodada. Stephan garantirá isso. Doa a quem doer.
Retirei uma garrafa de cerveja, long neck, da geladeira abri e bebi diretamente no bico.
Esse ato me lembrava tanto Carlisle. Ele sempre nos dizia que se sabia se um homem era um homem de verdade pelo que ele bebia. Segundo meu pai, cerveja era coisa de moleque.
Se levarmos em consideração essa opinião, Emmett, Jas e eu ainda não passávamos de uns rapazotes.
Mas, fazer o quê se cerveja era a melhor coisa para se aliviar e refrescar a tensão do dia?
— Eu sei que é o trabalho dele, mas é muito difícil “ver de fora” tudo que minha menina e a família estão passando. Eu queria poder fazer mais.
Encostei-me ao balcão da cozinha para apreciar o restante de minha bebida, ignorando os outros empregados que cuidavam do jantar.
Fazer aquilo ali me impediria de beber na frente dos meninos e dar mau exemplo.
— Você pode ajudar, Bá. Continue tendo paciência e cuidando de tudo aqui em casa. Tudo se ajeitará a seu tempo.
Virei o restante da garrafa e a coloquei em cima da pia, pronto para sair dali.
— Bella comeu?
Perguntei já no limite da cozinha com a sala de jantar.
— Só o que você obrigou, na hora do almoço. À tarde, alimentou os meninos, mas não quis nada.
— Ok, Bá. Vou cuidar disso. Acrescente purê de batata ao cardápio de hoje. Não me importa o que tenha preparado. Ela e os meninos adoram. Vamos influenciá-los como pudermos.
Ela somente acenou em concordância e correu para seguir minha ordem.
Eu, por outro lado, continuei caminhando até ouvir risadinhas e vozes na sala de televisão.
— “Exe”, mamãe?
— Esse é azul, filho.
— “Ajul, ajul”.
— “Exe”, mamãe?
— Esse é laranja, Liam.
— “Aanja”, não. “Aanja”, “ajedo”.
— Não a fruta, amor. Laranja também é uma cor.
Desabotoei os três primeiros botões da camisa e também os punhos, dobrei as mangas até os cotovelos, e parei no batente da porta da sala de televisão só para apreciar a vista.
— “Vemelho”.
— Isso, Andrew. Vermelho, filho.
Bella estava sentada no tapete juntamente com os meninos.
Estavam rodeados de lápis de cores, canetinhas e muitos livros de super- heróis para colorir.
A cada lápis que um deles pegava, mostrava a mãe, que dizia o nome da cor, e eles repetiam para logo depois falarem sozinhos. Já aprendendo as cores.
Deus! Eles só tinham um ano...
— “Exe”, aqui?
— Não, amor. O Hulk é verde, Andrew. O corpo dele não é "bege". É dessa cor...
— “Exe”?
— Isso! Esse, filho.
Ele pegou a canetinha verde, sem que ela tivesse que mostrar qual era a verde.
— Papai quer colorir.
Anunciei-me, impossibilitado de ficar de fora do lindo momento família.
— Papai!
Abaixei-me e abri os braços para receber os dois que corriam para mim, ao mesmo tempo.
— “Sadade”, papai.
— Muita “sadade”.
— Papai também sentiu falta da família linda dele.
Os peguei e beijei suas bochechas, enquanto nos guiava para perto de Bella que só acompanhava, com olhos apaixonados, nossa interação.
— “Coloindo”, papai.
— Mesmo? Papai quer ver.
Os coloquei no chão, que logo correram para pegar, cada um, o livrinho que coloria.
Sentei-me ao lado de Bella e puxei seu rosto para mim.
— Também senti falta de você, senhora Cullen.
— Humm!
Beijei seus lábios com devoção aproveitando os poucos segundos que tínhamos antes dos “foguetinhos” reivindicarem atenção.
— “Bejo”, mamãe.
— “Bejo” do papai, Drew.
Não disse? Limitei-me a sorrir ao ver o bico que Andrew fazia em direção a mãe, exigindo um beijo também.
Liam, por outro lado, me defendeu. Dizendo que aquele beijo era meu.
— Ah, mamãe beija demais esse menino lindo.
Com carinho, ela debruçou nosso ciumento no colo, e beijo, barulhentamente, a barriguinha dele.
Andrew se contorcia de rir.
— “Amalelo”, papai.
— Nossa! Que lindo, filho. Deixa o papai te ajudar.
Peguei de Liam o lápis e o livrinho e passei a colorir com ele. Logo Andrew se juntou a nós, querendo também participar da brincadeira.
— Como foi no trabalho?
Bella, aproveitando que eles estavam entretidos comigo, se posicionou atrás de mim e passou a massagear meus ombros, fazendo mais pressão nos nós que ali existiam.
— Cansativo. Vocês não estavam lá. Estou pensando seriamente em dispensarmos Tia. Aí eu levaria os meninos para o escritório. Aposto que alegrariam aquele lugar rapidinho.
— Rá! E seu pai te deserdaria.
— Existe a possibilidade.
Sorrimos um para o outro e me encostei a ela, ou melhor, deitei todo nela, meio de lado, meio de costas.
— E aqui, como foi?
Delineei as grandes olheiras evidenciadas pelas últimas três noites insones dela.
Andrew e Liam estavam distraídos, um pouquinho mais afastados de nós, conversando em sua própria língua sobre desenhos e cores.
— Animado. Desse jeitinho que está vendo.
Apontou para os filhos e sua bagunça no meio de nossa sala.
— Dei o dia de folga a Tia. Mas, ela insistiu em vir à noite. Já deve estar chegando. Eu precisava passar um tempo com eles... Prometa-me que seremos pais melhores do que os nossos foram, Edward?
— Eu prometo.
Voltei a beijar seus lábios para selar a promessa.
Bella era linda demais!
— Já decidiu o que vai fazer?
Ela respirou fundo e negou.
Bella podia evitar o assunto enquanto podia, mas, se eu perguntava respondia. Era a nossa maneira de sermos o casal que planejamos.
— Ainda não. Sei que preciso falar com eles. Mas... Não estou pronta. Espero estar mais forte quando isso acontecer. Não quero começar a falar com Charlie e chorar. Quero confronta-lo. Acho que começarei com mamãe. Será mais fácil começar por ela. Só de imaginar o que passou todos esses anos... Já Alice e Rosie, acho que já estou meio que acostumada a me decepcionar com elas.
Concordei beijando sua testa. Ela estava cheirosa e fresca. Sinal de que tinha dado banho nos meninos e se banhado também.
— O que acha de termos outro?
— Quê? Como assim?
Apontei para nossos pequenos.
Andrew estava sentadinho de costas para nós, enquanto Liam estendia os braços e ria para o irmão.
— Você é maluco, Edward. Eles só têm um ano. E ainda corremos o risco de termos mais dois. Vai arriscar?
— Claro que vou. Temos condições. Dois, três, quatro... O número é só um mero detalhe. Sinto falta de você grávida. Manhosa, fogosa. Sinto falta de algo que não vivemos. O fim de uma gravidez tranquila. De ser acordado a noite porque sua bolsa estourou e já está sentindo contrações. Sinto falta de segurar sua mão enquanto toma a anestesia, ou empurra com sofreguidão para trazer nosso filho ao mundo. Quero viver isso com tranquilidade.
Acariciei o rosto delicado e sequei uma lágrima que desceu dos lindos olhos castanhos. Certeza de que era invadida pelas lembranças de quando os meninos nasceram.
Droga! Não era minha intenção. Só queria convencê-la a me dar mais presente daqueles.
— Quero seus olhos no nosso próximo.
— Rá. Vai sair a sua cópia outra vez. Olhe só para eles e...
Os olhos dela saíram de mim e foram para os meninos e, sem mais nem menos, seus lábios começaram a se formar um “o”.
Logo fui empurrado de seu colo e ela se levantou com tudo, para ir ao encontro deles.
— Andrew!
Sentei-me, assustado, pronto para ajudar no que tivesse acontecido.
Só não estava preparado para contemplar uma das visões mais hilárias de minha vida desde que Andrew e Liam chegaram.
— Filho, no irmãzinho não.
— “Rimãozinho” não, mamãe?
Andrew tinha uma canetinha verde nas mãos que usara para, literalmente, colorir o rosto e braços do irmão.
Tínhamos nos distraído o quê? Três minutos?
— “Iam”, “Ulk”, mamãe.
— Eu “Ulk”, mamãe.
Liam abriu seus bracinhos, quase que como mostrando os músculos, numa pose perfeita de afilhado de Emm, e depois deu seu maior sorriso banguela para nós.
Foi impossível não gargalhar.
— Edward, não ria! Não está ajudando.
Imediatamente me calei e me pus de pé para ajudar como podia. Mesmo que, por dentro, segurasse uma grande risada da situação.
— Ok, campeão. Deu por hoje. Vamos tomar banho com o papai. Enquanto a mamãe tem uma conversinha com o seu irmão.
— Banho não, papai. Eu “Ulk”.
— Banho sim. Nada de Hulk para você. Você pode ser o Thor, é muito mais legal.
Peguei meu pequeno nos braços, evitando olhar para Bella e gargalhar.
Eles eram fogo, isso os influenciaria nas traquinagens e ela me enforcaria depois.
Tirei o celular do bolso: Emm e Stephan precisavam ver aquela cena.
— O que o Thor faz, papai?
— Ah! O Thor tem um martelo e sai martelando tudo por aí e...
— Edward! Por favor, vida!
Bella voltou a chamar minha atenção.
É, martelo não seria uma boa ideia.
— Não, filho. O Thor é chato. Você pode ser o Capitão América ele tem um escudo que...
Raciocinei um minuto antes que Bella ficasse mais irritada.
— Não. Esse também não.
Pensei num escudo voando por sobre os vasos de porcelana que vovó insistia em espalhar por nossa casa.
— Filho, lápis e canetinhas só podem ser colocados no papel e livros. Não pode colorir o irmão.
— “Diculpa”, mamãe.
— Eu desculpo, amor. Mas, não faça mais e...
Afastei-me com Liam, antes que me derretesse pelas desculpas de Andrew.
Que fora divertido fora. Mas, que Bella nunca me escutasse achando as traquinagens deles bonitinhas.
— “Apitão”, não, papai? Então “Vo” “chê” o quê?
Perguntou meu pequeno, da maneira dele, me trazendo de volta para a realidade de dois superdotados que me indagavam feito crianças de cinco anos.
— Ah, você pode ser o Batman.
— Que ele “fax”, papai?
— Ah, ele é bem legal. Tem uma capa, uma máscara, um carrão e muito, muito dinheiro.
Passamos pelo quarto deles e fui para o meu, que era bem maior e melhor para um banho duplo.
— “Caão” vovô vai “compá” para “Dew” e “Iam”. “Dinheio” é chato, papai. Não “quelo” ser o “batma”. “Quelo” ser o “ulk” mesmo.
Então, sorrindo muito para os bracinhos cruzados e o biquinho, totalmente da mãe, em sinal de emburro, tirei uma foto e mandei para os padrinhos de meus filhos com a seguinte legenda:
A mãe do Hulk quer que ele seja o Batman, mas ele se recusa.
#AchemBonitinhoEmSegredoOuBellaMeMata.
Enviei, já me abaixando para tirar as roupas dele.
— Tudo bem, Liam. Vamos pensar nisso depois. Agora vamos tomar banho porque mamãe precisa jantar e hoje tem carninha com batatinha. O que acha?
— Ehhh!
Gritou correndo para dentro do box.
Liguei o chuveiro e deixei que ele se divertisse um pouquinho antes de retirar as minhas e me juntar a ele.
Era hora de o pequeno Hulk voltar a ser o Liam da mamãe.
Bella
— Não pode “cololir” o “rimãozinho”, mamãe?
Deus do céu! Ele era fofo demais.
— Não, amor, não pode. O irmãozinho é só para brincar, amar e proteger.
Estendi para ele a caixa para que colocasse os lápis e canetinhas que haviam espalhado por toda a sala. Os livros já havíamos empilhado e colocado em cima do sofá.
Ajudar a guardar os brinquedos depois de brincar era uma coisa que eu já exigia deles. Senso de responsabilidade se adquiri desde pequeno.
— “Diculpa”, mamãe. Drew não “cololi” mais “Iam”. Não “pecisa” ficar “tliste”.
Sorri para a carinha de luxo que ele fez ao tocar meu rosto e clamar, verdadeiramente, meu perdão.
— Mamãe desculpa, príncipe. Claro que desculpa. Que tal se formos ver se Bá já terminou o jantar?
— Ehhh!
Colocou os últimos lápis na caixa e estendeu os bracinhos para mim.
Deixei tudo bem arrumado e rumei, com ele nos braços, em busca de Donna. Era o momento de aproveitar a oportunidade para deixa-la saber que eu não estava com raiva. Minha babá era a que menos tinha culpa naquilo tudo.
E agora com a cabeça mais tranquila eu conseguia ver isso com mais clareza.
Aliás, eu podia ver coisa demais agora. Só precisava começar a agir e era aí que as coisas começavam a se complicar. Eu me sentia fraca só de pensar em conversar com meus pais e...
— O quê vai fazer me barrar também? Encoste a mão em mim se tem coragem. Olhe a minha idade e a sua. Respeite-me, garoto.
Merda! Eu conhecia aquela voz.
— Isabella!
Parei bruscamente e segurei Andrew mais forte junto ao peito quando vovó Marie apontou o dedo em minha direção.
Stephan estava parado no batente da entrada da frente, impedindo-a de entrar. Ele não a segurava só barrava a porta.
— Deixe de ser mimada e nos deixe entrar.
— “Sabella”, bis-vovó!
Andrew sorriu e estendeu o braço para vovó assim que a reconheceu. Troquei um olhar com Stephan e acenei em acordo para que ele a deixasse entrar.
— Eu estar chateada com tudo que me escoderam a vida toda é ser mimada para a senhora?
Fechei a expressão e segurei Andrew quando ela fez menção de pegá-lo.
Na porta Stephan barrou a entrada de mais alguém: Charlie.
Merda!
— Não, querida! Não foi isso que eu quis dizer. O “mimada” foi por estar nos proibindo de entrar. Se não quiser nos ver é só ordenar. Você é capaz disso, filha. Mas, eu lhe imploro, deixe- nos falar. Só precisamos te contar como as coisas aconteceram. Seu pai cometerá uma loucura se não te dar a versão dele dos fatos. Prometo que aceitaremos o que decidir depois de nos ouvir. Só...
— Vovô!
Liam, que vinha do andar de cima nos braços de Edward, gritou assim que viu Charlie esperando do lado de fora pronto para entrar assim que eu permitisse.
Stephan continuava lá, parado e com expressão de poucos amigos. A mesma que Edward fez ao se deparar com aquela confusão.
— Posso saber o que está acontecendo aqui?
Postou-se ao meu lado demonstrando toda força que eu precisava naquele instante.
Vovó se aproximou mais. Edward também segurou Liam com mais força.
— Vovô, papai.
Os meninos se mexiam, agitados. Charlie era o avô que amavam e era impossível que se mantivessem inertes quando ele estava por perto.
Da porta, Charlie demonstrou sofrimento na face ao ser impedido de estar com os netos.
— Vai nos privar de conviver com eles, Bella? Esse é seu veredito, tirar os meninos de nossas vidas?
Lágrimas escorreram dos olhos de vovó e foi impossível não me comover.
Andrew e Liam começavam a choramingar também loucos de vontade de receberem atenção de minha família.
— Não, vovó! Mesmo que eu quisesse, não puniria meus filhos a esse ponto. Eles não têm culpa. Stephan, deixe-os entrar. Vamos acabar logo com isso.
Coloquei Andrew no chão e incentivei meu marido a fazer o mesmo com Liam.
Foi instantâneo. Eles correram para os braços de Charlie e de Renée, que estava logo atrás deles. Rosie e Alice vieram logo depois.
Muito bom!
Eles sabiam que vovó Marie conseguiria entrar.
— Ah! Vovô sentiu tanta saudade! Tive tanto medo!
— Vovô medo, “Drew”.
— Vovô “Charie” não “te medo” de nada, “Iam”.
Papai beijava os netos e os apertava em um abraço aconchegante. Meus pequenos conversavam e riam para o avô.
Cruzei os braços e fechei a expressão quando minhas irmãs fizeram menção de vir até mim.
Edward me segurou pelo ombro, acho que se lembrando de que eu partira para cima de Leah e só parara por causa de uma gravidez. Essa desculpa, Alice e Rosie não tinham.
Então era melhor se precaverem.
— Podemos falar com você, filha? Por favor?
Renée, que também tinha as mãos nos netos, pediu humildemente.
Charlie me olhou ansioso, esperando por uma resposta.
Edward aumentou seu aperto em mim, passando toda força que eu precisava.
— Stephan, você viu se Tia já chegou?
Não respondi. Dirigi-me a meu amigo como se nem estivessem ali. Tortura-los um pouquinho não era pecado, era?
— Chegou, minha rainha. Está na cozinha jantando com Benjamin. Quer que mande chama-la?
Lavantei a sobrancelha indagando-o silenciosamente o motivo do “minha rainha”.
Creio que seja para passar a todos a verdade de quem mandava. Mas, vai saber. Stephan é meio maluco.
— Não precisa, obrigada. Quero que leve os meninos até ela e peça que sirva o jantar aos meninos. Edward vai ajuda-los e...
— Não! Eu não vou sair do seu lado, princesa.
Edward pronunciou firme, me interrompendo.
— Peça a Bá que ajude Tia. Depois entretenham os meninos enquanto resolvemos assuntos pendentes. Estaremos no escritório. Não hesite em chamar.
Stephan e ele trocaram “o olhar” que dizia mais do que palavras.
Edward não me deixaria enfrentar meus pais, sozinha. Eu não esperava menos dele.
— Ok. “Ei turminha, fiquei sabendo que tem um Hulk por aqui. Padrinho quer saber dessa história. Tia e Benj também querem. Vamos lá contar a eles quem é o Hulk dessa casa”?
— Ah! Eu “Ulk” “Dinho”.
Virei-me para Edward buscando por uma explicação. Ele somente deu de ombros e abriu seu maior sorriso torto estonteante.
Maldito pai orgulhoso!
— Vovô, “vem”?
Stephan já tinha pegado os dois com aquela “história de Hulk”, porém Andrew logo viu que era tirado dos braços do avô e levado para longe. Imediatamente suas mãozinhas abriram e fecharam clamando meu pai para se juntar a eles.
Charlie, mais uma vez, se transformou numa faceta de homem desolado e envelhecido.
— Ah, campeão! O vovô está bem ali. Vamos na cozinha com o padrinho e rapidinho voltamos. Que tal se a gente pensar num super- herói bem legal para você enquanto janta? Acho que tenho uma fantasia do super- homem no meu carro. O que acha? Se comer tudo vai ganhar.
— “Supe- home”? Eu ser “supe- home”, “Dinho”?
— Não, “Drew”. Mamãe, “biga”. Papai “faoou”.
Voltei a olhar para Edward que, dessa vez, se escondia atrás de uma expressão orgulhosa e risonha.
— Falaremos sobre super-heróis mais tarde, senhor Cullen.
Sussurrei para ele já me encaminhando para o escritório.
Todos me seguiam.
— Esperarei ansioso, senhora Cullen. Acho que também tenho uma fantasia de Mulher Maravilha, do seu tamanho certinho, no carro. Mas, se preferir podemos falar de princesas também.
Abri minha boca em um “O” perfeito e me fiz de desentendida, porém, creio que minha expressão tenha me entregado porque ele voltou a sorrir, safado, e cochichar em meu ouvido, fazendo questão de mordê-la só para enfatizar seu ponto.
Eu estava fervendo de raiva de minha família ao mesmo tempo em que fervia de felicidade pelo companheirismo e plenitude em meu casamento.
Podia uma pessoa só ser o extremo de sentimentos num mesmo instante?
— Quero outro filho, princesa. Uma menina para ser mais exato.
Parei, o encarando sem acreditar no que ele dizia. Abri a porta do escritório para que os outros entrassem.
Vovó, Charlie e Renée foram os primeiros.
— “Querer” é meio complicado numa situação dessas, senhor meu rei. Poderá vir mais dois meninos.
— Não virão. Conheço minha “super-semente”, minha vida. E elas me obedecem. Eu queria dois meninos para me ajudar a cuidar de você e eis que temos Andrew e Liam. O próximo será uma menininha linda, geniosa e inteligente assim como a mãe. Será a minha perdição e terá a mim enrolado em seus dedinhos. Quer um futuro mais lindo?
Piscou matreiro antes de me roubar um beijo rápido e entrar, me deixando atônita e completamente confusa com aquele pedido.
Ele estava falando sério? Edward queria mesmo outro filho agora?
— Pelo menos no casamento as coisas então em ordem, não é, irmã? Posso sentir o calor das faíscas daqui.
Sacudi a cabeça, para me libertar do “feitiço Edward Cullen” e logo, com um suspiro e uma carranca de frustração, coloquei o braço na frente da porta proibindo e impedindo Alice e Rosie de entrar.
— Vocês não.
Repassei, em pensamento, tudo que nos levara aquele momento.
Eu não podia deixar que Edward me distraísse tanto assim.
— Como assim? Bella...
— Queremos conversar, Bells. Desculpar-nos também, irmã.
— Não! Podem sair por onde entraram. Não vamos conversar. Não preciso ouvir que Charlie as ameaçou para que não dissessem nada, já sei disso. Estou cansada de ser enrolada por vocês a vida inteira. O momento de falarem já passou. Estou exausta de desculpá-las a cada dia. Chega! Eu queria lealdade e nem isso poderam me dar. Acabou! Saiam daqui!
— Mas, Bella... Isso quer dizer... Quer dizer que... Não faremos mais parte de sua vida? Está desistindo de nós?
Rosálie me olhava espantada. Alice se calou e abaixou a cabeça. Era óbvio que entendendo o “cansada de desculpa-las”.
— Ainda não sei o que farei a respeito de vocês, Rosie. Minha vontade é de estapear as duas...
Edward, lá de dentro, resmungou algo como “é melhor irem embora mesmo, porque ela é bem capaz disso”.
— Mas, nem isso merecem. Prefiro que convivam com a dor na consciência de saber que me decepcionaram, mais uma vez, e que fizeram uma coisa que eu não faria com vocês. Temos um vínculo que não pode ser ignorado, mas no momento a única coisa que consigo sentir ao olhar para as duas é desapontamento. Então, é melhor se afastarem e deixarem que eu me cure. Quando achar que é hora de recomeçarmos, as procurarei. E aí talvez, só talvez falemos do assunto. Mas, o mais provável é que eu enterre, de vez, isso tudo hoje à noite.
Olhei sugestivamente para as pessoas já acomodadas e me aguardando temerosos ao perceberem a decisão que eu tomara em relação a minhas irmãs.
— Adeus!
Entrei e fechei a porta atrás de mim. Impossibilitando assim que me sensibilizasse com as expressões lamentosas delas.
Elas não teriam meu ódio, mas sofreriam com minha distância, enquanto eu pudesse.
— Agora a conversa é aqui. Podem começar.
Acomodei-me atrás da mesa de Edward.
Aquela posição mostrava que não estava aberta àquela conversa e que o fim não seria o esperado por eles.
Meu marido, antes de se posicionar atrás de mim e descansar as mãos em meus ombros, pegou uma garrafa de água, no frigobar atrás da porta, e colocou a minha frente. Era um pedido silencioso para que eu me mantivesse hidratada e calma.
Charlie acompanhou cada ato dele e terminou sua avaliação observando atentamente minha imensa foto na parede.
Sem dúvidas, ficou impressionado com a capacidade de Edward em surpreender e cuidar.
— Se pretendem ter uma conversa extensa e tranquila é melhor começarem logo. Stephan conseguirá, no máximo, 20 minutos de entretenimento com Andrew e Liam. Eles são espertos demais e entendem que alguma coisa está errada. Isso faz com que exijam a mãe com uma frequência absurda. E quando querem Bella só serve Bella. E não estou disposto a sacrificar minha família por nada nesse mundo. Então sejam práticos.
Virei o rosto e beijei a mão de meu marido, a da aliança. Era a minha forma de mostrar que concordava com cada palavra dele.
Charlie deu um suspiro alto, esfregou o rosto, parecendo desesperado, e então voltou a se pronunciar.
— Antes de começar, eu preciso dizer que lamento a forma como descobriu tudo, filha. Não era assim que eu queria que tivesse acontecido. Sempre esperei o melhor momento para te contar e...
— E o senhor pretendia me contar algum dia, pai? Não é isso que pareceu. Eu...
— Não! Princesa, por favor, não interrompa. Se você começar a contestar tudo, essa conversa não irá a lugar algum. Por favor, escute e depois que terminarem, terá sua vez.
Certo!
Foi minha vez de fechar os olhos e encostar a cabeça na cadeira e deixar que as mãos e as palavras de Edward me acalmassem.
— Você está coberto de razão, amor. Não vou interromper.
— Obrigado, Edward.
— Não me agradeça, Charlie. Não estou do seu lado. Preciso que minha esposa esteja calma e sã. Só quero acabar com isso de uma vez.
Vovó e mamãe não se manifestaram.
Renée tinha lágrimas nos olhos e mantinha cabeça entre as mãos. Já vovó tremia e mantinha os olhos fixos em mim.
— Tudo bem. Vamos com isso então...
Preparei-me. Era chegada a hora.
— Desde sempre nosso reino e todos ao nosso redor compartilhavam de um costume, que hoje é visto como arcaico, mas que antigamente era sinônimo de mais terras, poder e riqueza: o arranjo da união de famílias através de casamentos entre herdeiros.
Ah não! Aquela história de novo.
— E comigo não aconteceu diferente. Meu pai, o rei de Forkian, assim que nasci, seu único herdeiro, já começou a procurar por uma aliança que beneficiaria nosso reino. E foi assim que descobriu que a duquesa Sarah, esposa do duque Clark da província de Seatless tinha dado a luz a uma linda garotinha.
Os dedos de meu pai buscaram os de minha mãe e, com estranheza, vi Renée aperta-los em forma de apoio.
O que eu estava perdendo ali? Renée o havia perdoado? Charlie continuava a traindo.
— Geoffrey achou aí a oportunidade perfeita de agregar ao reino as terras tão sonhadas dos Dwyer. Terras essas que, inclusive ficam na divisa da fazenda de sua avó e que serão suas, algum dia. Enfim, meu pai entrou em contato com o pai de sua mãe e firmou nosso casamento para quando Renée completasse 16 anos. Eu, no caso, já teria 18. Meu pai era duas pessoas, Bella. Com mamãe era de uma maneira: a ignorava completamente, era até submisso. Mas, comigo fazia questão de mostrar seu poderio, arrogância e ambição. Creio que tenha aprendido tudo com o pai de sua avó. Afinal meu avô era terrível.
Dezesseis? Mamãe era uma criança.
Precisei tomar um pouco de minha água.
Vovó viu no meu ato uma forma de surpresa e resolveu que era sua vez de falar.
— Seus avós, pais de sua mãe, não estavam certos sobre o casamento, mas Geoffrey era convincente. Deus, como era! E quando colocava algo na cabeça, ninguém tirava. Eu bem que tentei, mas naquele tempo, quando o assunto era filhos, esposas não tinham opinião. Além disso, ele os prometeu muitas coisas, a principal era uma filha rainha e netos que seriam donos de tudo o que desejassem. Eles se renderam. Quem não renderia?
Vovó Marie buscou na bolsa um lenço e secou as lágrimas que escorreram, quando terminou de falar.
Ainda bem que tínhamos John agora.
— Então o tempo passou. Eu cresci sabendo que seria de sua mãe. A cortejei desde que adquiri certa idade. Eu sabia de minhas responsabilidades e as aceitava, fui criado para isso. Além disso, Renée era uma dama, exatamente como é hoje. Educada, meiga, inteligente, moldada para ser a minha rainha e eu não escolheria outra mãe para os meus filhos.
Fechei a mão em punho controlando o mau gênio. Ele tinha outra filha cuja mãe não era a nossa.
Demagogo de merda!
— E tudo estava certo e escrito. Porém, a vida não corre do jeito que planejamos. E um dia, no auge dos meus quinze anos, eis que surge Sue em minha vida. E peço desculpas, desde já, a você, meu amor. Porque não será fácil de ouvir o que tenho a dizer a partir de agora. Nunca falamos abertamente sobre isso. Mas, devido às circunstancias creio que seja necessário.
Por três segundos Charlie virou-se para Renée e olhando em seus olhos e acariciando seu rosto com carinho, se desculpou. Depois, fechou a expressão, e voltou a me encarar.
Eu quis demais tapar os ouvidos e evitar o que viria pela frente, mas...
— Era um dia comum. Estávamos no fim de uma aula quando fomos interrompidos para a apresentação de uma aluna nova: Sue. Naquele instante eu tive certeza de que todos os planejamentos de papai seriam destruídos. Aquela garota tímida, de olhar baixo, corpo desenhado e feições de anjo, seria minha perdição. E eu não podia estar mais certo. Em pouco tempo eu estava enredado e discutindo com Geoffrey sobre um rompimento com Renée.
— Na primeira oportunidade que vi seu pai, depois que ele conheceu aquela mulher, eu sabia que o havia perdido. Ele, que sempre fora atencioso e amoroso, estava distante e até rude quando indagado por mim, sobre o que estava acontecendo. Foi o início do inferno. Se eu tivesse contado a meu pai que algo estava errado poderia ter evitado muita coisa. Fui fraca, admito. Estava apaixonada e achava que com o casamento resolveria qualquer coisa.
— Agradeço a Deus, todos os dias, por não ter contado a ele. Você me deu os três melhores presentes do mundo.
Mais uma vez trocaram palavras de carinho e apoio. O que eu mais queria era sacudir minha mãe e mandar que acordasse. Contudo, Edward me manteve onde estava.
— Naquela época eu era arrogante e achava que podia tudo. Adolescência! Porém, seu avô era mais do que eu. Lembro, como se fosse ontem, quando o confrontei sobre meus sentimentos por Sue. Meu pai riu, sínico e sem dó me acertou com o jornal que lia. Disse que eu era um idiota e que caíra nas garras de uma “caça rei”. Que elas eram ótimas para se divertir, mas nunca para se apresentar aos pais. E que se eu insistisse naquela idiotice me deserdaria e se desfaria do reino para que eu não tivesse direito a nada quando ele morresse.
— Naquela noite, Charlie veio até mim e contou o que estava acontecendo. Chorou como uma criança, querida. E eu odiei mais meu marido por estar infringindo nosso único filho a tanta dor. Ele estava apaixonado e só queria ser feliz. Outra vez, confrontei Geoffrey. Mas, tive que me calar quando ele mostrou um dossiê da vida de Sue onde se lia da índole de sua família e da mesma. Geoffrey conseguiria provar que ela queria mesmo era o título. Que fora para a mesma escola de seu pai de caso pensado. E hoje eu vejo que foi mesmo, que ele estava certo. Mas, naquele momento e conhecendo seu avô, também não acreditei. Fiquei do lado de seu pai e lutamos até o final para que o compromisso dele com Renée, fosse desfeito.
Charlie segurou a mão de vovó, com a outra mão livre.
— Percebendo que eu tinha uma aliada forte, papai fez com que Sue fosse retirada da escola que frequentávamos. Expulsou a família dela do reino e fez o que pode para que nos afastássemos. Tudo em vão. Com a ajuda de mamãe, nos encontrávamos e vivíamos nosso tórrido romance. E com isso, os anos foram passando e eu sempre a prometendo que não me casaria. Que encontraria a solução e de que era ela que eu amava e que sempre a escolheria.
Foi minha vez de chorar. Se para mim era ruim de escutar aquilo, imagino para mamãe.
— Então, no aniversário de dezesseis anos de sua mãe, fui instruído por papai a pedi-la em casamento.
— Naquela ocasião eu já sabia que ele tinha outra, mas jurava para mim que mudaria aquilo quando nos casássemos.
Renée instintivamente acariciou o anel de noivado que usava na mão direita.
— Mais uma vez a discussão foi alta com meu pai e eu disse que não faria aquilo. E foi aí que descobri, de verdade, e face mais temida de Geoffrey Swan. Ele não disse uma única palavra somente acenou para seu chefe de segurança que, sem pensar duas vezes, me agarrou pelo braço e começou a me arrastar pela casa. Ele me expulsaria e eu não estava nem um pouco preocupado com isso. Se fosse para ser feliz com a mulher dos meus sonhos que fosse de qualquer jeito. Lembro muito bem, estava pronto para ser jogado porta a fora, quando mamãe viu aquilo e se desesperou.
Vovó esfregou os braços como se ainda sentisse a tristeza e a dor daquela situação.
— Eu quis correr até seu pai. Impedir que aquilo acontecesse. Ele era meu filho, eu daria a vida por ele. Nem isso fui capaz. Seu avô me segurou pelos braços e pediu que o segurança parasse um minuto. E quer saber o que ele disse sem um pingo de tristeza ou arrependimento?
Meneei a cabeça afirmativamente. As palavras não viriam de qualquer jeito.
— “Olhe bem para essa mulher, Charlie”. “Porque assim que passar por aquela porta será a última vez que a verá”. Meu pai fez comigo quase a mesma coisa que o pai dela fez com ela quando descobriu de John.
— Eu fiquei louca. Não entendi se ele estava ameaçando seu pai, me ameaçando ou a nós dois. Nem pensei direito, me livrei dele corri para meu filho e implorei para que ele parasse e pensasse no que estava fazendo. O reino, a nossa vida... Ele estava desistindo de tudo por uma mulher qualquer. Não me importei em como aquilo o afetaria, só queria que ele ficasse. Já havia perdido o amor da minha vida, não podia perder o meu filho. Não me importava de manter aquele casamento de fachada, mas também não achava justo desistir e deixar tudo para Geoffrey, afinal à herdeira do trono era eu. A morte de meu pai transformara Geoffrey em sua cópia.
— E também agradeço a Deus por mamãe ter feito aquilo. Vê-la chorar e se desesperar me fez pensar que não podia, em hipótese alguma, deixa-la sozinha nas mãos daquele homem. Eu me rendi a ele, a sua vontade e ao compromisso com os Dwyer. Terminei tudo com Sue e comecei a viver o que estava traçado para mim.
— Menos de um ano depois, estávamos casados e meu Charlie amoroso e atencioso estava de volta. Era a plenitude em terra. O meu sonho se realizara. Eu achava que a aventura havia se acabado com a aproximação do casamento e que agora eu seria feliz. Logo, fiquei grávida e a felicidade não poderia ser maior.
Mamãe sorriu, pela primeira vez desde que a vira, a lembrança era boa.
— Só que as coisas, mais uma vez, não sairam como a gente planejava. Quando Rosie tinha pouco mais de um ano, papai teve um infarto fulminante e veio a óbito. E sem me dar chance de recuperação, dois meses depois, mamãe desistiu do reino, e eu, com apenas vinte anos, tive que assumi-lo. Talvez, pela pressão da situação, culpei sua avó pela morte de Geoffrey. Acusei-a de não ter lutado por ele, de não ter colocado o casamento e o reino em primeiro lugar como eu havia feito. Talvez, pense assim até hoje.
Ele pensava. Lembrei-me, imediatamente, de como tratava John.
— E foi aí, que minha vida virou uma loucura outra vez. Uma filha pequena, um marido rei, inúmeras atribuições novas de rainha e mais uma vez grávida.
Rosie e Alice tinham pouco mais de dois anos de diferença, exatamente como Alie e eu.
— Foi aí que Sue voltou a aparecer em minha vida. Mais uma vez, aproveitando-se do momento. Primeiro com mensagens de apoio a meu luto, depois com desejos de “bom dia, boa tarde”. Depois vieram os “gracejos” mais ousados e por fim os “encontros ao acaso”. Ela sempre dava um jeito de estar onde eu estava sem sua mãe. E eu caí de novo... Posso culpar a situação, a carência, as preocupações, mas não... Hoje vejo que fiz exatamente o que ela planejara para mim.
— Nessa época fui uma megera com sua mãe, assumo. Ela me ligava aos prantos dizendo que Charlie a estava traindo. E eu? No meu mundo de felicidade com John, dizia que ela sabia desde sempre que Charlie amava outra mulher. Que a escolha de um casamento arranjado fora dela. Que sempre insistira nele e que deveria assumir as cosequências ou abandonar seu pai e deixar que ele fosse feliz com quem escolhera de verdade.
Abri a boca de espanto pela confissão de vovó Marie. Queria correr para perto de mamãe e abraça-la com toda minha força.
— Quando me dei conta de que não seria apoiada por minha sogra, recorri a meus pais. Implorei que me deixassem voltar para a casa deles, que agora já era em Forks, até que desse um rumo a minha vida. Todavia, eles também negaram ajuda. Disseram que uma mulher separada com duas crianças seria um escândalo. Que eu era uma rainha agora e que poderia muito bem conviver com uma traição de meu marido, afinal, isso era normal na monarquia. Eu estava sozinha. E não fui capaz, naquele momento de tomar a decisão certa.
— Graças a Deus!
Charlie voltou a murmurar.
— Além do mais, eu amava seu pai e sempre que o confrontava ele negava ou pedia perdão e dizia que já havia deixado de ver Sue.
— Dois anos depois e eu ainda levava um vida dupla. Sue me dava à felicidade e o amor que eu tanto ansiava. E sua mãe me dava um título e duas filhas. Eu estava pronto para dar um fim naquilo tudo quando começaram ainda mais as pressões, do conselho, por um filho homem... Um terceiro filho...
— E foi neste momento que Sue nos mostrou quem era de verdade... Deus, como fui ingênua! Arrependo-me tanto. Sua mãe sofreu demais.
O clima mudou pesadamente com as palavras de vovó.
— Não é segredo para ninguém que eu era taxado como amaldiçoado, que só “fazia” garotas. E eu sofria por isso, óbvio. Não queria ter mais um filho e sofrer a mesma decepção de saber que seria mais uma menina. Só que o destino estava mesmo disposto a me testar...
— E então “a cobra” se aproveitou da situação...
— Sue ficou grávida quase no mesmo instante que eu. A diferença é que ela planejou uma gravidez, já eu...
Mamãe não precisou dizer as palavras... Eu não havia sido planejada, desejada.
Senti a “bili” vir toda na garganta. Respirei fundo e tomei mais um gole de água.
Edward fez massagens circulares em meus braços.
— Eu fiquei louco. Gritei com sua mãe por ter engravidado de novo e gritei com Sue por ter me colocado naquela situação. Não sabia o que fazer.
— E só decidiu porque a vida o obrigou.
— Eu passei mal assim que ele saiu de casa. Há alguns dias começara a receber telefonemas e cartas da amante dele me informando da gravidez e dizendo que ele me deixaria porque ela lhe daria o tão sonhado filho homem. Foi aí que minha gravidez declinou. Eu quase te perdi tantas vezes... Mas, Deus foi justo comigo e logo descobrimos que ela teria uma menina.
Incontrolavelmente, me lembrei do que era ter um fim de gravidez arriscado. Senti muito por minha mãe.
— Minha pressão começou a subir. Tive deslocamento de placenta e perda de líquido. E numa ocasião o médico chegou a dizer que “nossa menininha” não resistiria. Para meu desespero, era outra menina.
Chorou alto, aos soluços. E eu senti todo o peso daquela situação.
— Essa informação foi o que bastou para que eu decidisse de uma vez por todas o que fazer. Numa conversa franca disse a Sue o que se passava. Confirmei que não poderia abandonar sua mãe, nunca pude. Eu havia te visto na ultra. Era a “coisinha” mais pequenininha e linda que já havia colocado os olhos. Apaixonei-me naquele momento. Eu quis você mais do que qualquer coisa. Decidi por você, filha. Eu lutaria por você.
— É daí que vem a expressão “doentinha” que Sue falou. Você usou as complicações da gravidez de minha mãe e meu estado para justificar o término.
Não resisti ao impulso de falar.
— NÂO! BELLA, VOCÊ NÃO PODE ACREDITAR NISSO!
— Charlie, pare de gritar. Estamos em nossa casa e sugiro que fale baixo ou então essa conversa termina aqui. Estamos em Ângelus, nossa casa. Somos herdeiros daqui, portanto nos deve obediência. Fale baixo. Meus filhos estão em qualquer lugar atrás dessa porta e não quero assusta-los.
Para espanto de meu pai, de uma vez só, Edward mostrava quem mandava e ainda o informava de que havíamos decidido por Ângelus.
Charlie pareceu mais desolado ainda.
— Tudo bem, desculpem-me. Vou me controlar. Mas, preciso que acredite, filha, de que decidi pelo termino com Sue porque me apaixonei por você. Se eu desistisse de meu casamento perderia Rosie, Alice, sua mãe e você. Eu não podia fazer aquilo.
— Então, ele ficou dois dias sumido. Quando voltou não me deixou mais até que você nascesse, se fortalecesse e não corresse mais risco de vida.
— Sue ficou muito brava, mas não pode fazer nada. Para acalmá-la e impedir que fizesse um escândalo, ofereci um acordo milionário e pedi que seguisse sua vida. Todavia, não parei por aí, obriguei Harry, um dos meus melhores amigos, mediante muito dinheiro também, a propor casamento a ela e assumir sua filha. Eu não queria mais contato, cortaria todos os laços e qualquer possibilidade de uma recaída. Quase perdera minha família por aquela loucura. Não estava disposto a arriscar.
Meu Deus do céu!
Mais uma vez fiquei boquiaberta. O que Charlie fizera?
— Quando fiquei sabendo de toda essa confusão, corri para cá em busca de consertar as loucuras de seu pai, mas já era tarde. Além disso, também fiquei completamente enfeitiçada pela garotinha de 23 cm que ajoelhara e domara o meu filho rebelde.
— Você foi a resposta de minhas orações, querida. Minha sogra e meu marido estavam comigo outra vez. Eu perdoei seu pai antes mesmo dele implorar e jurar que nunca mais me faria derramar uma lágrima.
— Rá! E mais uma vez foi enganada. Por que ele não cumpriu a promessa, mãe.
— Filha? Você não sabe o que está dizendo. Não foi assim que aconteceu. Espere...
As lágrimas escorriam com mais força e livremente. A dor já aumentava em meu peito.
Era agora que vinha a parte mais dolorosa para mim.
— Não, pai! Chega! Não quero mais ouvir, já podemos parar. Não quero escutar o senhor confessando que amou a ideia de ter uma filha com a mulher que sempre amou. Não quero lembrar como estava com Leah, todos os dias. Como a levava para escola e ficava dentro do carro para que não desse o azar de encontrar comigo e com Bá, porque eu, claro, ia com a babá. Não quero ouvir a parte de que nunca me defendeu das agressões dela, porque ela sempre dizia que eu era quem a agredia. Eu, logo eu, que não sou capaz nem de levantar a voz direito. Mas, o senhor não me deu nem o benefício da dúvida.
— Respire, princesa. Por favor...
— Bella...
Charlie se levantou e fez menção de vir até mim quando Edward esfregou minhas costas com mais força.
— Não! Não se aproxime. Eu estou bem.
O impedi. E ele, sem poder fazer nada, voltou a se sentar.
Renée, pelo que parece, não sabia daquela parte da história porque assim que ouviu meu relato, tentou puxar a mão de junto da de Charlie.
Ele a segurou com mais força.
— Não, filha! Não foi assim. Eu nunca mais voltei a me relacionar com Sue. Confesso que muitas vezes já a encontrei e que até estava no carro, algumas vezes, quando ela levava a filha para a escola. Mas, querida, não foi como você está dizendo. Não deixe que as palavras dela te envenenem...
Charlie implorava, com expressões, para que lhe desse uma chance.
— Sue ameaçava. Várias vezes, me ligava e dizia que se não me encontrasse com ela que faria um escândalo e exporia minha família. Eu não podia aceitar. Por isso me encontrava com ela, mas nunca mais tivemos nada. Não fui pai de Leah, Bella. Você precisa acreditar em mim. Era uma das exigências de Harry para encobrir meus erros, além de uma cadeira no conselho ele seria pai de Leah, o pai que ela merecia. Por vezes fui obrigado a dar-lhe presentes que Sue mesmo comprava. Ela contou à menina que eu era seu pai de verdade, inclusive a obrigava a me chamar de pai. Porém, eu nunca, sequer, a peguei no colo.
Por Deus! Como meu pai, o meu pai querido, foi capaz de amar alguém tão, tão... Sórdida.
— Eu te defendia como podia, filha. Cercava-te de seguranças e tentava, ao máximo, manter Sue e a filha dela longe de você. Só não podia fazer isso abertamente. Não podia enfrentar Harry ou Sue numa reunião de pais, seria colocar as mentiras que criei a prova. Inúmeras vezes liguei naquela maldita escola a fim de achar uma solução para o que aquela menina fazia e Sue sempre me ligava de volta depois de receber uma notificação. Perdão por isso, querida. Eu estava tão perdido...
Emocionalmente abalado pelas revelações e lembranças, ele soltou minha mãe e levou as mãos ao rosto, descansou os braços nos joelhos e chorou como um menino.
— Contudo, isso não foi nada. O auge da loucura veio com os dois acontecimentos seguintes. Estava em nossa casa, reunido com Billy e mais alguns monarcas decidindo, informalmente, alguns acordos de livre comércio, quando ligaram da escola pedindo para buscarem você mais cedo porque estava um pouquinho febril. Lembro-me de ter querido ir eu mesmo, mas estávamos com visitas e sua mãe me dissuadiu dizendo que sua imunidade sempre era baixa e que devia ser um resfriado a toa.
Edward me passou, outra vez, a garrafa de água. Eu hiperventilava.
— Calma, princesa. Calma...
Cochichou se abaixando e ficando ao meu lado.
— Só que não foi um simples resfriado, quem dera que fosse. No caminho Bá se desviou e foi direto para o hospital e sua mãe logo a seguiu. Renée sempre fora melhor do que eu quando o assunto era vocês. Eu não pude ir e mesmo angustiado tive que terminar com as reuniões do dia, antes de encontra-las.
“O reino em primeiro lugar”, lembrei-me das palavras dele a Edward quando o contamos a história de John e vovó.
— Quando por fim, consegui me livrar de tudo, vocês já estavam em casa. Foi muito difícil te encarar naquele dia, querida. Eu estava feliz, havia comprado uma boneca especial para você, sem nem saber que aquilo era um dos motivos que a levaram a aquele hospital Por certo, Sue descobriu e mandou fazer uma para filha também. Não entendo. Só sei que quando entrei no meu quarto aquela noite depois de ter te colocado para dormir, sua mãe estava louca de raiva insinuando que eu havia voltado com Sue. Mas, eu não havia. Eu não estava com ela aquele dia, princesa, eu juro.
Agora entendo o porquê de a boneca ter sumido misteriosamente, por certo mamãe achou que Charlie havia mandado fazer uma para a filha de Sue também.
— Fiquei louco aquele dia, filha. Eu quis matar Sue, a filha e Harry. E só não fiz uma besteira porque Renée foi capaz de se manter sã e acreditar em mim.
— Não havia outra maneira de seu pai atingi-la que não fosse financeiramente. Por isso, assim que fiquei sabendo do que acontecera, mais uma vez, vim para cá e, junto com ele, nos encontramos com aquela mulher e cortamos todos os benefícios que seu pai lhe dava para que ficasse quieta.
— E até que funcionou por um tempo. Seu pai pode até a participar mais de sua vida escolar, lembra?
Confirmei, respondendo a mamãe.
— Todavia, Sue não ficou quieta. Destilou toda sua raiva na filha e mais uma vez ela usou de sua crueldade com você. Foi o pior dia de minha vida. Mais uma vez Leah foi cruel e você ficou presa naquele banheiro.
Esfreguei a nuca tendo flashes de uma cena há muito esquecida: água, muita água. Tempestade, trovôes, frio, muito frio. E Jacob... Ah, Jacob...
— Lembro-me como se tivesse acontecido hoje mesmo. Eu havia te deixado na escola, estava chovendo muito. Tínhamos uma viagem marcada para o México e era só o tempo de passar em casa pegar sua mãe e as malas e ir para o aeroporto... Mas, infelizmente não foi nada disso que aconteceu. Leah a trancou no banheiro e quando Jacob e os professores te encontraram o lugar estava alagado e você nos primeiros estágios de hipotermia. Quando nos avisaram levantávamos voo, e nunca senti o tempo passar tão devagar até que conseguimos chegar até você.
Respirei com dificuldades. Eu me lembrava, lembrava com terror.
— Lembro-me de colocar suas mãozinhas nas minhas e sentir o tremor de medo de te perder, estava gelada, como se já não vivesse mais. Foi preciso muita medicação, esforço e técnica médica para que sua temperatura voltasse ao normal. Dias depois quando conseguimos respirar aliviados e leva-la de volta para casa, o pesadelo retornou com mais força, você escutou uma discussão minha e de sua mãe e...
Deus! A queda! Era isso... Alice dizendo que eles se separariam. Eu correndo e...
— Renée me cobrava uma atitude mais severa em relação a Sue e eu, estressado ao limite, fui capaz de dizer que não aguentava mais e que precisava de um tempo. Nunca fui tão infeliz numa colocação.
— Só demo-nos conta de que havíamos exagerado quando escutamos você correndo e depois a queda e o grito de dor. Mais uma vez fomos parar no hospital. Quando acordou, horas mais tarde, achava que ainda estava lá por causa do episódio do banheiro, não se lembrava de nada. Nunca vi seu pai respirar tão aliviado. O arrependimento pelas palavras veio imediatamente em forma de desespero. Ele me implorou perdão e jurou que nunca mais falaria algo assim, que éramos sua vida e que precisava de nós para seguir em frente.
— E desde então eu me recuso a falar com Sue sem sua mãe presente. Eu jurei para você naquele leito de hospital, mesmo sedada, eu jurei, que reestabeleceria de vez meu casamento e que faria minha esposa amada e minhas filhas felizes e que ninguém, mas ninguém mesmo, jamais encostaria um dedo em você. Que te protegeria e faria todos ao nosso redor fazerem o mesmo.
— É por isso que a protegemos tanto, querida. Você sempre achou que é pela saúde frágil, mas não é. Seu pai e sua mãe quase a perderam inúmeras vezes e juramos que isso nunca mais aconteceria. Você é nosso tesouro. A restauração da vida e do casamento de meu filho.
— E você cresceu vendo essa proteção e me amando como eu te amo, querida. Por isso, relutei tanto em te contar essa história. Rosie e Alice sabem que tipo de pessoa eu fui, não posso mudar a visão delas. Mas você... Eu não suportaria ver esse olhar de decepção que agora vejo quando olha para mim, Bells. Não queria perder o posto de super-herói, de admirado, de base, de porto seguro. Perdoe-me, filha. Eu fui infeliz em minhas atitudes, mas fiz tudo pensando em você.
O silêncio foi doloroso. Eles esperavam que eu me manifestasse. Mas, minha voz não saia estava embargada. Eu sangrava por dentro.
Por Deus, ele tinha seus motivos. Eu queria tanto perdoa-lo.
— Vida?
Assustei Edward ao me levantar abruptamente e me virar de costas para todos.
— Bella? Está sentindo algo?
As mãos dele vieram para minhas costas tocando em cada parte que podia. Ele sentia meu tremor.
— Eu... Eu, quero ficar sozinha com minha família. Por favor, nos deixem.
Cruzei os braços em forma de proteção. Minha cabeça estava a mil, eu não conseguia raciocinar.
— Então será assim, seu pai desabafa e conta tudo do jeito que aconteceu e você prefere se fechar e nos ignorar? Querida, ele está pedindo perdão. Assim como sua mãe, suas irmãs e eu. Pense bem no que fará, você é uma mãe agora.
Deixei que as lágrimas e o soluço rolassem. Eu estava exausta e pronta para me entregar a Edward, mas tinha que fazer alguma coisa.
— Eu...
Raspei a garganta impedindo que a voz embargada soasse mais abalada do que já estava.
— Eu estou tentando entender, vó. Juro que estou. Mas, a única coisa que consigo pensar agora é que Charlie foi egoísta. Ele só pensou em si e no que perderia se me contasse toda a verdade. Não consigo tomar uma decisão, não agora. Eu preciso de tempo. Por favor... Leah sofreu, eu sofri... Mesmo que não concorde com os meios dela, Sue fez um inferno em sua vida. O senhor tem ciência de que ela apanhava para conseguir me acompanhar na escola? Por Deus, estou tão chateada, pai. Preciso pensar no que fazer daqui para frente.
Encostei o corpo ao de Edward e deixei que ele me abraçasse e embalasse.
— Isso... Isso é um adeus, filha? Vai tirar sua família de minha vida? Vai... Vai tirar os meninos da gente? Vai me castigar privando-me do que mais amo? Por favor, Bells. Seja misericordiosa. Essa não é você, querida.
Visivelmente chocado e abalado pela minha reação e também por tê-lo chamado de “Charlie”, papai expos seus maiores medos aos soluços.
O rei de Forkian chorando? Isso era raro.
— Mamãe!!!
Liam, parece que até prevendo o que se passava naquele lugar, gritou do outro lado da porta, era contar os segundos para que começasse a chorar.
— Bella? Filha? Nós erramos e estamos dispostos a nos redimir. Ajude-nos. Nos dê uma segunda chance.
Renée se manifestou pela primeira vez depois que toda história foi revelada.
Gemi um lamento baixo.
— Não, “Dinho”! Mamãe!!!
Andrew também clamou já revelando o choro.
— O que decidir, princesa. Não se sinta pressionada. Você manda aqui. Está em nossa casa. Só respire e diga o que seu coração mandar.
Edward esfregou meus braços e falou o que eu precisava para tomar uma decisão.
Meus filhos clamavam por mim.
Virei-me e olhei os três, nos olhos.
— Não sou hipócrita a ponto de dizer que não o amo, pai. Nem de dizer que vou colocar uma pedra em cima disso e fingir que nada aconteceu. Está doendo, doendo demais...
Mais lágrimas desciam, deles e de mim.
— Preciso de tempo, pai. Muito tempo para conseguir deglutir tudo isso. Preciso de tempo para conseguir olhar para o senhor e não ver como Leah é parecida conosco. Preciso ver o meu paizinho em você de novo, Charlie. E no momento isso é impossível.
— Ah, Deus!
Ele se desesperou, tampou o rosto com as mãos e voltou a chorar. Renée e vovó seguraram seus ombros lhe passando conforto e apoio.
— Mas, também não sou cruel, nunca fui. Por isso, sofri tanto nas mãos de Leah e não começarei a ser agora. As portas de nossa casa e nosso reino estarão abertas sempre que quiserem visitar os meninos. Cresci com avós que me amavam e quero que Andrew e Liam saibam o que é isso.
Edward sorriu para mim com carinho e admiração.
— O tempo é nosso melhor amigo e só ele poderá dizer quando essa ferida cicatrizará. Enquanto isso, espero que respeite meu espaço.
— Respeite? Você está dizendo isso para seu pai somente? E nós, filha?
Tomando uma atitude, me soltei de Edward e caminhei até estar ao lado de Renée.
— Eu te amo, mãe! Nem posso imaginar o que passou e sofreu nessa situação toda. Eu não teria perdoado tanto. Te amo e não julgarei seu silêncio, nem o seu vovó. Eu conheço o pai que tenho.
— Ah, querida!
Aconcheguei-me nos braços de mamãe e chorei com ela todas as nossas lamúrias.
Vovó Marie se juntou aquele abraço.
— Mamãe!
— Mamãe!
As vozes mais lindas do mundo agora não disfarçavam a impaciência e a irritação.
— Perdão, princesa. Lamento demais interromper, mas Andrew e Liam estão chamando e prometemos que nunca os deixaríamos chorar por nossas ausências enquanto pudermos evitar e...
— Você está certo, Edward. Essa conversa já terminou mesmo.
E com um último beijo em vovó e mamãe deixei o escritório em fui em busca de meus pequenos, Edward me seguiu.
Nossa pequena família era prioridade e por eles eu seria capaz de tudo, até de deixar que Charlie frequentasse minha casa, mesmo sem conseguir olha-lo nos olhos por enquanto.
O tempo, e só o tempo, seria nosso melhor amigo agora...
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