Três Príncipes, Três Princesas
57 A missão de Rósalie
Notas iniciais
Bella
— Essa bandeja já não está lotada demais, filha? Você não vai conseguir carregar tudo isso lá para cima.
— Só mais um suco, Bá.
Ajeitei o copo do lado direito e por fim, parei para admirar minha primeira travessura do dia.
— Seria muito mais simples se você pedisse desculpa e depois descessem, como duas pessoas normais que são, para tomarem seu café na mesa.
— E qual seria a graça disso?
Perguntei sorrindo de lado. Eu sabia que isso a desabava.
Eu não estava muito a fim de conversar. Não quando sabia que ela tinha razão.
— Ah querida...
Minha Bá virou a cabeça de lado e me encarou com profundidade.
Eu odiava quando ela fazia aquilo, vinha lição de moral, na certa.
— Vocês precisam parar de brigar, Bella. Isso é chato, desgasta qualquer casamento, além de fazer muito mal para a pele.
Sorrindo, fui até ela e lhe beijei o rosto.
— Não se preocupe, Bá. Não estamos brigados. Só entramos em desacordo ontem à noite. Isso acontece com qualquer casal. Vou resolver isso agora, tá bom?
Sem esperar pela resposta dela, me afastei já com a bandeja em mãos. Eu tinha uma missão a cumprir.
— Isabella... Isabella...
— Te amo, Bá. E, aliás, nós não somos normais. Suas ideias nunca funcionarão para nós.
Ouvi seus resmungos e grunhidos enquanto me direcionava para o quarto sustentando uma enorme bandeja nas mãos.
Todos, a minha volta sabiam que equilíbrio não era o meu forte. Contudo, Edward merecia essa tentativa.
O que eu disse não era uma mentira, foi em tom de brincadeira, mas não era uma mentira, Edward e eu tentávamos ignorar isso, porém, creio que a tal normalidade nunca seja algo que faria parte de nossas vidas.
— Quem mandou ser filha de quem é?
Sussurrei já chegando a meu destino.
Segurar a bandeja e abrir a porta silenciosamente, não foram missões fáceis, somente depois de duas tentativas, eu consegui.
Edward estava da mesma maneira que o deixei a, mais ou menos, uma hora atrás: de bruços, descoberto e somente com uma deliciosa cueca- sunga encobrindo o corpo definido e bem cuidado.
Eu o amava tanto...
A noite passada havia sido a primeira, desde que viemos para nossa casa, que não fizemos amor. E meu corpo, meu coração e minha consciência estavam me recriminando por isso.
Maldita seja Isabella Swan e seu gênio. Eu precisava concertar isso.
Coloquei a bandeja no criado mudo e me aproximei devagarzinho, sentando a seu lado.
— Bom dia...
Baixei a boca em suas costas e a enchi de beijinhos doce.
Ele cheirava bom, muito bom, sabonete, creme de barbear e, a minha preferida, essência natural de Edward.
— Humm.
Resmungou de olhos fechados e sem se mexer.
— Acorde, meu amor. Já é dia. Precisamos trabalhar ou nossos filhos nunca terão o que herdar de nós.
Sem se virar, ele estendeu o braço até o seu lado e pegou o relógio de pulso.
— Você caiu da cama? Isabella Cullen não levanta tão cedo e pior, de bom humor? Isso está me cheirando a consciência bem pesada.
— Huum, talvez você esteja certo.
Lentamente ele se virou e sentou-se apoiando as costas na cabeceira da cama. Depois, cruzou os braços, numa postura rígida e defensiva e me olhou atentamente.
Isso seria bem mais difícil do que imaginei.
Deus! Eu nunca fora boa em pedir desculpas.
— Eu trouxe seu café...
Adiei o assunto colocando a frente dele as mais deliciosas guloseimas, pães e biscoitos que Bá preparara para iniciarmos nosso dia.
— Tem comida para um batalhão aqui.
— Eu sei, mas supus que te adoçar antes de começar com a conversa séria seria uma boa ideia de perdão sem precisar pronunciar tais palavras.
— Sua tentativa falhou, Bella.
— Droga!
Levantei-me e me coloquei a frente dele. A bandeja há muito já esquecida a seu lado. Ele, definitivamente, não tomaria café.
— Eu odeio brigar com você, Bella. Mas, às vezes você é intransigente demais. Isso me deixa louco.
Passei as mãos no cabelo nervosamente.
Ele voltou à postura inicial, braços cruzados e olhar penetrante, porém, não se levantou nem alterou a voz.
— Eu sei, Edward. Eu sei... E é por isso que estou aqui a essa hora, de bom humor e tentando te agradar. Mas, Deus! Não sei como fazer isso.
Apontei para o exagero a seu lado.
— Sei que te desapontei ontem, mas poxa, eu não queria encontrar com Jasper, muito menos Alice. Seu pai então? Nem me fale. Custava ter negado o convite de jantar lá?
— Custava quando mamãe estava envolvida. Eu devo muito a ela, aliás, nós devemos. Esme não tem culpa das confusões que nos metemos com os outros. Ela queria que jantássemos lá e você se negou. Custava ter feito isso por ela?
Ele devolveu minhas palavras.
— Amor, sua mãe merece tudo de nós. Mas, por Deus! Ela entenderia, era só você ter explicado.
— E ela te entendeu mesmo. Mas, eu odiei ter te deixado aqui sozinha. Somos casados, Bella. Não suporto a ideia de ir a qualquer lugar sem você. Mesmo que isso inclua um jantar idiota com sua Irmã e meu irmão.
Respirei fundo. Ele tinha os motivos dele. E além do mais, eu não queria brigar. Eu falaria as palavras e seria agora...
Se ele conseguia, eu também conseguiria.
— Tudo bem. Amor, me desculpe, ok? Essa “coisa toda” com Alice está me tirando do sério e...
Passei a caminhar de um lado para o outro, enquanto esfregava a testa e estralava os dedos.
Eu estava nervosa.
— Ei... Se acalme. Está tudo bem...
E então, para minha surpresa, os braços dele me envolveram e a boca passou a dar atenção a meus cabelos.
— Nem Alice, nem Jasper, nem ninguém vai ficar entre nós. Prometemos isso, não prometemos?
Acenei em acordo, me virei, ainda em seus braços, e então, descansei a cabeça em seu peito.
— Me perdoe por ontem. Estou com um caso complicado no hospital. Um garotinho de quatro anos está desmaiando e tendo fortes dores de cabeça e eu não encontro o motivo disso. O sofrimento de um ser tão pequeno me angustia. E ainda tem esse problema com Alice e as cobranças de seus pais e ainda tem...
— Shhh, shhhh... Tá tudo bem, Bella. Tudo bem. Pare de se desculpar. Venha! Vamos tomar café. Já passou. O que quer comer?
Edward me puxou de volta para a cama.
Mordi os lábios, insegura. Eu não queria voltar a contrariá-lo.
— Não quero nada, Edward. É tudo para você.
— Tem muita coisa aqui, princesa. E odeio quando sai sem comer.
Minimizando a situação e querendo mimá-lo um pouquinho, peguei um morango e levei a sua boca. Eu sabia que aquela não era a fruta preferida dele, mas era a minha e eu adorava como seus lábios a envolviam, sugavam, mordiam... Era erótico e muito excitante.
— Prometo que mais tarde como o que você quiser.
— Bella...
Antes que ele começasse com o discurso pressionei meus dedos em seus lábios. Não tendo alternativa, ele os sugou.
Aproveitando sua distração, me aproximei mais e comecei a provocá-lo esfregando o nariz abaixo de sua orelha e mordendo, um pouquinho mais forte, seu pescoço.
Hum! Aquilo deixaria uma marca. A minha marca em meu marido. Ah se Emmett visse.
— Jacob está pressionando para que eu refaça meus exames hoje, ou então, meu pai e você serão informados do quanto tenho negligenciado minha saúde.
— Mulher! Nunca sussurre o nome do Black enquanto me tortura. Isso desperta a fera adormecida em mim.
Ele estava brincando, tanto que gargalhou assim que soltou a frase, porém por baixo de toda brincadeira...
Eu precisava guardar essa informação.
E sem que eu me desse conta, Edward me empurrou, forçando meu corpo a deitar na parte de trás de nossa cama, e logo veio por cima de mim.
— Você é linda, sabia? Mesmo quando está “emburradinha”, é linda.
Seus olhos eram intensos. As mãos delineavam cada traço de meu rosto. Eu me sentia privilegiada demais quando ele fazia isso.
— Eu te amo.
Declarei incapaz de pensar em algo que explicasse melhor o que eu sentia por ele, ou que pelo menos igualasse o grande sentimento que ele demonstrava quando me olhava daquele jeito.
— Eu sei, eu sinto. É papável. Obrigado por não ter desistido de nós.
— Estou com saudades.
Afaguei seu cabelo na tentativa de dissipar lembranças ruins. Não precisávamos voltar aquilo.
— Também estou. Senti falta do seu corpo no meu ontem à noite.
Devagar e delicadamente ele arrastou o corpo no meu, insinuando, provocando, cheio de desejo.
— Promete não dormir chateada comigo mais? Mesmo que tenha que gritar ou quebrar algo em minha cabeça, promete que resolveremos as coisas antes de deitarmos? Odeio pensar que está tão brava a ponto de virar para o outro lado e ignorar minha presença.
— Prometo se você também prometer.
Ele assentiu já beijando meu ombro e pescoço.
— Eu prometo.
Murmurou soprando frio, enviando ondas de arrepios por todo meu corpo.
— Também prometo.
Gemi baixo, ansiando pelo que estávamos prestes a fazer.
Estávamos saudosos, então o café, o trabalho os compromissos tudo podia esperar, porque era a nossa hora, o nosso jeito de matar o que estava nos matando.
Eu tinha consciência de que não podíamos resolver todos os nossos problemas fazendo amor, mas por enquanto, essa era a alternativa que tínhamos.
Mas, algo me dizia que ainda pagaríamos por não conseguirmos, por meio de uma conversa normal, chegarmos a um ponto comum.
Edward e eu ainda tínhamos muito, o que aprender.
Alice
— Que horas é a consulta?
Merda! Outra onda de náuseas me assolou quando Jasper, sem ser anunciado, invadiu minha sala. Por que ele fazia aquilo?
Corri para o banheiro e coloquei para fora todo meu café da manhã.
— Alice?
— Saia!
Gritei impedindo-o de entrar. Aquele perfume dele era insuportável.
— Tudo bem, tudo bem. Vou esperar lá fora.
Respirei aliviada quando ele se foi e só então, sozinha, comecei todo o processo que vira Bella ensinar a Rosie no início da gravidez.
Respirar fundo e calmamente por três vezes, molhar a nuca e o rosto com água fria, relaxar por algum tempo e só então, escovar os dentes.
Eu queria o conforto dos conhecimentos e do abraço de minha irmã.
— Oh, Bells! Onde está você?
Gemi baixinho.
Minutos depois, sem como adiar mais o momento, voltei para minha sala.
Infelizmente, Jasper ainda estava lá.
— Está melhor?
— Estou, mas não se aproxime.
Adverti com as mãos estendidas. Aquele cheiro...
— Seu perfume me dá náuseas. Eu já te pedi para parar de usá-lo.
— E eu parei. Amor o que está acontecendo?
Amor? Amor? Quanta hipocrisia!
Mas, algo no final da fala dele me intrigou mais que sua falsidade. Se ele já havia parado com o perfume, por que eu ainda estava enjoando?
Será que não era o perfume afinal? Será que eu estava enjoada era do próprio Jasper.
Ah Deus!
— Não está acontecendo nada, Jasper. O que você quer aqui? Eu preciso trabalhar.
Coloquei a mão sobre a boca e o nariz e dei a volta, passando o mais longe possível dele, para chegar até minha mesa.
Eu podia imaginar as sobrancelhas arqueadas e a careta que ele devia estar fazendo.
Eu estava contrariando o grande Jasper Cullen e, por incrível que pareça, não estava me importando em nada com isso.
— Eu queria saber que horas é a consulta? Tenho que adequar minha agenda para que consiga vir te buscar a tempo.
Reprimi a irritação crescente acariciando minha pequena barriguinha de dois meses.
— Não tenho consulta hoje. Desmarquei.
— Quê? Está louca? Uma consulta com doutro Riley é muito difícil de conseguir e você precisa de acompanhamento pré- natal, o que significa, todo mês. E além do mais, quero ver meu filho, Alice.
Putz! O método anti- irritação, desenvolvido por mim, definitivamente não estava funcionando. Ele se achava no direito de estar indignado.
Ah Deus! Eu queria minha irmã.
— Só que o meu filho não quer ver você. Agora saia daqui, Jasper. Eu tenho mais o que fazer.
Levantei-me e apoiei as duas mãos em cima da mesa.
— Você está assim por causa da manha de sua irmã, não é? Só porque ela não foi ao jantarzinho de Esme. Bella está fazendo drama e colocando você contra mim. Será que não percebe isso?
Não, Bella não estava fazendo cena. Ela estava chateada de verdade.
— Não fale da minha irmã.
Apontei o dedo, muito irritada agora. Eu podia falar dos defeitos de minha família, já os de fora não.
— Por sua causa ela me evita, não atende meus telefonemas e não me convida para conhecer sua casa. Isso nunca aconteceu conosco.
— Alice...
— Não se aproxime.
Elevei o tom de voz, fazendo-o recuar.
— Amor, se acalme, tubo bem? Esse nervoso todo não pode ser legal para nosso garoto. Por que você não toma uma água e respira fundo, enquanto eu ligo para o doutor Riley e remarco sua consulta? Tenho certeza que ele compreenderá seu engano e te atenderá ainda hoje.
O bastardo falava baixo e devagar como se eu fosse uma retardada incapaz de compreender qualquer coisa.
— Você não entendeu, não é? Então vou ser mais específica: não vou à consulta nenhuma. Não sem minha irmã.
— Você só pode estar de brincadeira. Nós já falamos sobre isso, Alice.
— De brincadeira está você, Jasper. Eu não falei “sobre isso”, você falou. E por sua causa minha irmã nem me olha mais e essa situação está me matando por dentro. Eu não sou igual a você, aliás, minhas irmãs e eu não somos iguais a vocês. Nós nos amamos e nossa união vem em primeiro lugar. E pretendo, de qualquer maneira me resolver com Bella. Portanto, se você já disse tudo que tinha para dizer, vá embora. Eu, realmente, preciso trabalhar.
Senti a bili subir e uma pontada dolorosa no topo da cabeça.
Eu precisava me acalmar, urgentemente.
— Você está louca. Sua... sua...
Perdendo a paciência, que ele não tinha, Jasper se aproximou com duas passadas rápidas e largas.
Ah merda! Ele se aproximou, agora eu vomito mesmo.
Eu não tinha medo de uma agressão.
Deus! Claro que não tinha. Eu conhecia meu marido ele não era violento.
Porém, a lembrança de um Edward fora de si, me fez recuar um passo. Vai que é de família.
— Você vai sair daqui agora comigo, ou então eu vou...
— Vai o quê? Estou louca para saber o que fazer com minha irmã?
— Rosie?
Também sem bater, o que parecia estar se tornando algo normal em meu ateliê, ela entrou.
Linda, loira e muito grávida. De quantos meses ela estava mesmo? Sete?
— O que faz aqui, irmã? Eu nem sabia que estava em Forkian.
— Eu não estava.
Ignorando Jasper, ela veio até mim acariciou minha barriga e depois me estreitou em seus braços.
Imediatamente, senti vontade de chorar, Rosie lembrava conforto, tempos bons, casa. E com o afastamento de Bella, consequentemente, ela também havia se afastado.
Malditos hormônios!
— Só que Lizzie acordou de madrugada com vontade de almoçar com as tias. Isso te explica porque estou aqui?
Ela estava mentindo. O olhar e o dar de ombros foram para disfarçar algo por trás, que ela não queria deixar transparecer.
— Bella não vai. Está muito brava comigo. Dessa vez nem pelo cansaço eu a venci.
— Relaxe, baby. Eu cuido da Bells rebelde. Agora vamos, porque estou faminta e creio que também esteja. Você está meio verde, Alice.
Impulsiva como ela só, passou o braço pelo meu e começou a me arrastar para fora. Só tive tempo de pegar minha bolsa e nada mais.
Porém, um raspar de garganta nos fez parar.
— Lamento frustrar seus planos, Rósalie. Mas, Alice tem uma consulta agora e depois almoçaremos perto da clínica mesmo. Infelizmente, vocês terão que deixar essa reuniãozinha para depois.
Reuniãozinha? O que Jasper ainda estava fazendo ali?
— Ahh!
Ainda paradas, Rosie inspirou profundamente e então se voltou para ele.
Jasper Cullen não desistia, contudo, Rósalie Swan era uma oponente a altura.
Eu admirava demais isso nela.
— Hum! Espere só um segundo, deixe-me lembrar do que Bella disse há um tempo atrás.
Teatralmente, ela segurou o queixo com uma mão e bateu o indicador na testa.
— Ah sim! Lembrei! Eu, Jasper Cullen, sou Rósalie Swan Cullen, esposa de Emmett Cullen primeiro herdeiro direto de Ângelus, sou também a primeira princesa de Forkian, ou seja, herdeira direta do trono. Isso me dá um título a mais que você e consequentemente, mais poder. Então, se submeta.
Jasper fechou os punhos e cerrou os dentes pronto para retrucá-la, porém, Rósalie ainda não tinha dado a punhalada final.
Minha linda e loira irmã era o máximo.
— Agora se você acha isso pouco e tem alguma dúvida quanto a minha autoridade, talvez possamos ligar para meu pai. Tenho certeza absoluta que ele ficará muito feliz em sanar seus questionamentos, já que é o mais interessado e responsável por eu estar aqui, resolvendo um problema que você criou.
A menção e o tom com que ela usou ao falar de papai fizeram Jasper recuar.
A má fama de Charlie o precedia. Nem Jasper seria maluco o bastante para desafiá-lo.
— Foi o que eu pensei. Então, já que tudo foi esclarecido, vamos Alie? Ainda tenho uma batalha pela frente antes de poder alimentar essa garotinha esfomeada que é mesmo filha de Emm.
Sorrindo como duas crianças em noite de Natal, partimos sem olhar para trás, sem nos despedir.
Primeiro, porque Jasper não merecia nossa atenção. Segundo, porque eu estava morrendo de vontade de ver e fazer as pazes com Bella e terceiro, porque... Oras! Estávamos com muita fome, afinal, “ninguém é de ferro”.
Bella
— Avise a equipe e reserve uma sala de cirurgia para sexta- feira. Envie, por email, uma cópia dos exames do paciente de sexta e também dos que fiz hoje para o doutro Black.
Após me perder em Edward e chegar mais de uma hora atrasada, eu tentava colocar meu dia em ordem e quem penava era a coitada da Bree que escrevia, sem parar, em sua agenda, enquanto eu revia, atentamente, minhas últimas anotações.
— Também devo reservar o quarto de sempre, no hotel de sempre para o senhor Black? E também uma vaga na UTI para o pós-operatório do garoto?
— É bem provável que a secretária do senhor Black já tenha feito isso, mas não custa confirmar. Quanto a UTI deve reservar sim e não se esqueça de esvaziar minha agenda nesse dia e também.
— Sim, doutora. Porém, à noite você estará livre? Ligaram do palácio e pediram para agendar um jantar com você, Edward e a rainha nessa data. Já confirmei com o secretário dele, só falta seu aval. Preciso retornar a ligação para a acessória da rainha.
Jantar com Elizabeth, seria jantar com Tânia, eu não queria fazer isso. Não tinha boas recordações de nosso último encontro.
Porém, a lembrança da desolação de Edward quando me recusei a acompanhá-lo, ontem à noite me fez repensar.Ele merecia meu sacrifício.
— Sim, Bree. Confirme minha presença. Aproveite e diga a secretária do doutor Black que o plantão do pós- operatório é dele.
Jake tinha que fazer isso por mim.
— Tudo bem. Ah! Outra coisa. A companhia telefônica do seu celular avisou, por email, que fará manutenção na rede também na sexta. Então, provavelmente, você ficará incomunicável neste dia. Não se esqueça de avisar ao príncipe.
— Certo, Bree. Obrigada. Agora você pode...
— Oi! Não tinha ninguém na recepção. Então, nós fomos entrando. Atrapalhamos?
Hã?
— Rosie? O que faz aqui? Aconteceu algo? Qual foi a empresa aérea irresponsável que te deixou embarcar? Ficou maluca?
Imediatamente, me levantei. O medo de uma noticia ruim já tomando posse de todo meu ser.
— Não surte ainda, irmã. Está tudo bem, se acalme.
Sem cerimônias, ela entrou, com dificuldade para andar, mas, nunca perdendo a postura confiante. Cumprimentou Bree, com um sorriso, para então somente vir até mim e envolver seus braços em meu pescoço.
— Não vim num voo comercial, bobinha. Papai é mestre na arte de viajar com uma mulher grávida. Por que você acha que ele comprou o primeiro avião quando mamãe estava me esperando?
— Ah, Então o maluco é papai?
Perdi o “fio da meada” do dizia quando levantei meus olhos e percebi que Alice também entrara e se sentara, bem na nossa frente.
O que estava acontecendo?
— Oi, Bells.
Oi? O que ela estava fazendo ali?
Ignorei a saudação, não estava com vontade de brigar, não com Rósalie tão grávida entre nós.
— Suponho que Emmett também tenha vindo. Sim, porque estou partindo do princípio de que ele seja o responsável da relação de vocês. Rosie, você está com mais de sete meses, seu médico e eu a proibimos de viajar, lembra? O que faz aqui?
— Alice disse “oi”.
— Quê?
Perguntei não entendendo o que ela queria dizer.
— Alice disse “oi” para você. Seja educada e responda.
Putz! Eu esqueci que ela também sabia jogar o meu jogo de “ignorar pessoas e perguntas”.
— Oi.
Nem ousei olhar para minha irmã-falsa, quando fiz o que Rosie pediu, ela notoriamente, se divertia com a situação, pois, mordia os lábios segurando uma risada.
— Agora falemos sobre Emmett...
A irmã mais velha, me soltou, bufou inconformada e revirou os olhos para minha atitude nada adulta.
Bree já havia saído de fininho, supondo que a conversa era particular.
Boa garota!
— Emm está em casa. Você sabe, papai pode sem bem persuasivo quando quer.
Então era isso: um complô. Eu deveria ter imaginado que Charlie não demoraria muito a se intrometer para que Alice e eu resolvêssemos nossas diferenças.
Papai e mamãe podem não ter sido os pais mais presentes, porém, prezavam demais a amizade e cumplicidade entre minhas irmãs e eu.
— Nós viemos te buscar para almoçar. Lizzie está querendo passar um tempinho de qualidade com as tias.
Rá! Eu conhecia essa tática.
— Rosie, não vai dar. Edward e eu combinamos de...
— Liguei para ele quando estávamos vindo. Seu maridinho está ciente de que é toda nossa, pelo menos por algumas horas.
Edward traidor!
Ela pensou em tudo. Como me livrar?
Evidente que eu queria almoçar com ela e Lizzie, mas com Alice envolvida? Aí já era outra história...
— Não posso sair, Rosie. Tenho um paciente na ala pediátrica que requer minha total atenção.
Vi a raiva tomar sua face, porém, como veio, ela se foi e então, um enorme beicinho se pronunciou.
A mudança de tática evidenciou o quanto ela me conhecia, ninguém me vencia com gritos, já com bicos, palavras e amor...
— Você ia almoçar com Edward. Só queremos esse mesmo tempo.
— Alice tem razão. Para Edward você tinha tempo?
Rá! Por esse caminho não, irmãzinhas.
Ignorando-as, me sentei, abri alguns resultados de exames e fingi avaliá-los.
— Eu não vou. Estou ocupada. Quem sabe outro dia?
As duas fecharam a expressão. A brincadeira estava terminada.
— Tudo bem, sua intransigente. Você venceu, como sempre. Só faz o que quer. Espero que esteja pronta para enfrentar o papai.
Droga! Charlie, com certeza, destilaria sobre mim sua ira e seu discurso de família unida.
— E também espero que tenha outro presente em mente para seu marido. Porque eu não vou ficar me sacrificando por quem se recusa a ter um mísero almoço com minha filha e comigo.
Chantagista de uma figa essa Rosie. Agora ela havia pegado pesado. Eu precisava daquele carro para Edward.
— Passe bem, madrinha desnaturada. Pensando melhor, talvez eu a destitua desse cargo também. Você não anda merecendo minha consideração.
Ah não! Ela só podia estar de brincadeira.
Deixando-me atônita e sem palavras, ela pegou Alice pelo braço e a arrastou para fora.
Não! Ela não estava de brincadeira.
— Eu odeio vocês!
Reclamei já tirando o jaleco e pegando a bolsa.
Parada perto da porta, Rosie sorria sinicamente e vitoriosamente. Era óbvio que ela esperava essa reação de mim.
Como diz vovó, sou previsível demais.
— Então temos um terrível impasse, irmã. Porque Alice e eu a amamos incondicionalmente.
— Tá! Sei. Acredito.
Foi minha vez de usar o cinismo enquanto as seguia de perto, só parando para avisar Bree que estava de saída.
Sam e Zafrina se juntaram a nós assim que terminei de dizer tais palavras.
— Aonde vamos?
Perguntei tentando focar minha atenção em algo que não fosse o alvoroço que estávamos causando no hospital.
Por todo trajeto até a saída, fomos encaradas, sem o menor cuidado e educação, por vários funcionários e pacientes.
Eu não podia imaginar no que havia de tão interessante em Rosie, Alice e eu.
Éramos apenas três irmãs comuns saindo para um almoço em família.
— Vamos a um restaurante novo no shopping aqui perto. Alice já comeu lá e disse que eles fazem um camarão ao molho branco divino.
— No shopping? Rosie, seremos o centro das atenções.
Gemi inconformada.
Ela deu de ombros e parou ao lado do meu carro.
Foi minha vez de arquear as sobrancelhas. De que elas tinham vindo?
— O quê? Não tenho culpa de seu carro ser maior e mais confortável. E também não me importo em ser o centro das atenções. Um lugar movimentado evitará que você grite quando Alice começar a se desculpar.
Ponto pra ela.
— Tá certo. Então vamos de uma vez.
Entramos no carro e pela graça do bom Deus, Rósalie se sentou no meio.
Sam se colocou atrás do volante e Zafrina de carona a seu lado, mais dois carros nos flanqueavam, com certeza eram os seguranças delas.
— Vocês querem começar com a conversa aqui ou preferem a grande plateia do shopping? Não que eu seja contra um grande barraco, claro que não! Eles até me divertem, mas, algo me diz que nosso pai e sogro nos “mataram” se nossos rostos estamparem os principais “jornaizinhos sensacionalistas” de amanhã.
— Rósalie, porque você não para com essa função de intermediadora? Eu não estou a fim de conversar com Alice e nem ela comigo. Já somos adultas o bastante, resolvemos nossos problemas.
— Fale por você, irmã. Há dias que venho tentando me explicar e você se recusa a me receber e ouvir.
— Isso é uma atitude adulta para você, Isabella Swan?
Era isso, eu teria que ter uma conversa franca com Alice. E mesmo que tenha evitado esse momento, já estava na hora. Esme e Edward haviam pagado por esse desentendimento e isso, não era justo.
— Okay, vocês venceram. Sou toda “ouvidos”. Desembuche, Alice.
Rosie chegou mais para trás e Alice chegou para frente, estávamos nos encarando como há muito não fazíamos.
— Eu quero me desculpar por tudo que aconteceu naquele dia. Você não merecia e meu silêncio só serviu para incendiar as atitudes de Jasper. Perdoe-me, irmã. Eu não penso nada daquilo e você sabe disso.
— Sei? O que eu sei? Que não sou especialista para cuidar de você ou que seu herdeiro merece o melhor e isso não inclui minha capacidade?
— Bells, vá com calma.
Tarde demais.
— Não, Rosie. Calma não. Ela queria um momento comigo e agora ela tem. Seu marido tem razão, não tenho especializações para cuidar de você e eu sei disso, tanto que nunca fiz, nem nunca farei isso. Porém, eu sempre estive com qualquer um lá de casa quando o assunto envolvia saúde. Eu só quero acompanhar quem as atende, preciso ter certeza de que estão em ótimas mãos. É isso que tenho feito com Rósalie e o que pensei que faria com você também, mas pelo visto me enganei...
Uma grossa lágrima escorreu do rosto dela.
Droga! Eu odiava ser responsável pelo choro de alguém. Essa não era eu.
— Eu sei, irmã. Eu sei... Perdoe-me...
— Sabe e ficou quieta? Foi a outro hospital, se consultou com um médico que não conheço e o pior, deixou que, pela primeira vez na minha vida, eu duvidasse das minhas escolhas como profissional? Tipo estranho de saber esse seu.
— Bella, se acalme.
Rosie fez uma careta e gesticulou para a própria barriga. Era a maneira dela de dizer que Alice não podia sofrer grandes chateações.
— Não, Rosie. Deixe-a falar. Eu mereço.
— Ainda bem que concorda.
— Bella! Cale-se. Agora é a vez de Alice.
Cruzei os braços, irritada. Eu ainda tinha muito que falar.
Rósalie como mediadora era um saco.
— Sei que ficou chateada e com razão, mas irmã, naquele dia eu estava tão desnorteada. A gravidez que me pegou de surpresa, depois o médico, que eu não conhecia e por fim Jasper como todo aquele comportamento estranho. Eu não sabia o que fazer. Desculpe-me...
Ela escondeu o rosto com as mãos e começou a soluçar alto.
Zafrina e Sam me olharam pelo retrovisor também como forma de repreenda, porém, não disseram uma palavra.
Droga! Eu precisava que ela parasse de chorar.
— Tudo bem, Alice. Só se acalme. Levante a cabeça e a encoste no banco. Respire fundo e devagar. Se continuar nervosa vai sentir enjoos.
Com os olhos fechados ela fez o que pedi. Rosie retirou lenços umedecidos da bolsa e secou a testa e rosto dela.
Ficamos em silencio por alguns minutos tentando reencontrar a paz e companheirismo que tínhamos.
Nunca que imaginei que nos encontraríamos nessa situação, não nós, sempre tão unidas.
— Eu odeio ver vocês desse jeito. Prometemos que não deixaríamos que ninguém nos separasse. E olhe como estamos? Eu, o espírito rebelde desse trio intermediando uma volta. Vocês estão de brincadeira. Parem com isso, agora. Sou a mais velha e estou mandando.
Parecia meu pai falando e o pior, Alice e eu estávamos quietas e com vergonha, exatamente, como acontecia quando era papai a dar bronca.
— Alice, quem é você? Seu marido está fazendo um estrago em sua vida, percebe isso? Tome uma atitude. Ele não pode ter esse poder. Você é independente, bem resolvida. Tem um lar, uma família. Pare de se submeter a ele ou as coisas se tornaram um inferno. Droga, Irma! Ele está precisando que alguém o coloque em seu lugar. Faça isso ou se prepare para viver nesse pesadelo para sempre. Ele acha que pode tudo. Mostre-o o contrário.
Outra lágrima escorreu do rosto de Alice. Rosie a amparou com o lenço.
— E você, Bella? Quando vai parar de agir como uma adolescente? Aprenda a resolver seus problemas, irmã. Se fechar nunca é uma boa. Deixe as pessoas saberem que está zangada, chateada. Grite, fale, reclame, depois perdoe, esqueça e peça desculpas. Esse seu gênio ainda vai te colocar em problemas, escreve o que estou te falando.
Não tinha como contradizer Rósalie. Ela estava certa. Absolutamente certa. Eu também precisava mudar e sabia disso.
— Desculpe, Bells. Jasper tem me enlouquecido com essa história de reinado e agora tem mais essa insanidade de filho homem. Perdoe-me, irmã. Acho que tenho me deixado influenciar. Prometo me posicionar melhor a partir de agora. Ele não conseguirá nos distanciar, eu prometo. Perdoe-me por tudo. Não vou ser mais omissa, prometo.
— Altezas, chegamos.
Ignoramos Sam e não descemos do carro. Nós resolveríamos aquela situação primeiro.
Ela havia começado, agora era minha vez. Estava na hora de mostrar a Jasper o poder que tínhamos juntas.
— Eu te perdoo, Alice. Perdoe-me também. Tenho deixado à frustração me dominar. Vocês são donas de suas vidas e têm o direito de fazerem o que quiserem com elas. Prometo não deixar que isso interfira mais em nossa amizade.
Rosie agarrou nossas mãos e colocou uma sobre a outra.
Continuei a falar. Ainda havia algo que eu precisava esclarecer para ela.
— Também quero que saiba que pode confiar em mim, Alice. Amo Edward, mais do que tudo e nunca me interessaria por Jasper. Ele é que é maluco e está obsessivo comigo. Mas, eu nunca lhe darei a mínima chance de se aproximar, eu juro.
— Eu sei, Bells. Nunca me preocupei quanto a isso. Nunca...
— Ah droga! Parem já!
E logo estávamos enroladas num abraço só. Lagrimas transbordavam de todos os lados e nem nos importamos com os rostos borrados e inchados. O momento era mais importante.
Por Deus! Como eu estava com saudades delas.
— Agora já que eu as amo, vocês se amam e me amam também, será que podemos descer e almoçar. Por que se continuarmos aqui por mais dois minutos Lizzie vai começar a mastigar a placenta.
Gargalhamos alto. Era muito bom estar nesse clima outra vez.
— Venha, sua comilona. Vamos alimentar esses herdeiros Cullen de uma vez.
As puxei para fora e então desaparecemos para dentro do shopping.
Sabíamos que aquela não havia sido a primeira nem a última vez que nos desentendíamos, porém, havíamos acrescentado mais conhecimento pessoal em nossa relação e saíamos mais fortalecidas também.
E, não sei por que, mas algo também me dizia que conheceríamos uma nova Alice a partir dali.
Jasper que se cuidasse, porque uma Swan decidida é sempre uma Swan perigosa.
Fale com o autor