Três Desejos
4 Capítulo Quatro
Notas iniciais
Capítulo Quatro
O sofá realmente não era a melhor das opções, Atena descobriu enquanto se revirava no móvel, buscando um sono que não vinha. Talvez na próxima vez devesse competir com Poseidon em algo mais estratégico, onde com certeza ganharia. Mas dessa vez, pelo tamanho de sua estupidez, era obrigada a machucar as costas no móvel duro enquanto o deus dos mares dormia tranquilamente numa cama confortável no andar de cima. O pensamento causou ainda mais raiva.
Bufando, Atena se levantou, caminhando a passos duros até a cozinha. Começou a preparar – fazendo o máximo barulho que podia, para que Poseidon, numa tacada de sorte, acordasse de seu maldito sono – um suco de maracujá, e entornou toda a jarra de uma vez assim que pronto. Se depois daquela dose não dormisse, então não dormiria nunca mais.
Voltou para a sala, dessa vez arrastando os pés sonoramente pelo assoalho de madeira, e estava prestes a se jogar no sofá e desfrutar do doce mundo de Morfeu quando a voz que menos queria ouvir naquele momento veio da escada:
—– Eu entendo que seja complicado dormir num sofá, amor, mas existem deuses que possuem camas e quartos, e que ficariam maravilhados se você parasse de fazer barulho.
—– Me desculpe se interrompi seu sono da beleza, amor –– Atena retrucou com um sorriso cínico. –– Eu só precisava de uma pequena ajudinha para dormir. Nada que leve a noite toda.
Foi só quando parou de coçar os olhos e ergueu a cabeça que Atena respirou fundo e teve que cruzar os braços. Poseidon vestia apenas uma calça de moletom, e nada mais. Os cabelos pretos estavam agonizantemente bagunçados, os fios espetados em todas as direções, e seus olhos verdes apresentavam certa vermelhidão pelo sono. Atena tentou inibir o sentimento estranho que a atingiu ao vê-lo tão bonito sem esforço algum, um friozinho no baixo ventre vendo o contorno perfeito de seus músculos emoldurado pela luz pálida que vinha da enorme janela de vidro atrás dele, mas seus olhos recaíram involuntariamente para o peitoral desnudo e o abdômen bem definido até o V que os ossos do quadril dele formavam antes de desaparecer debaixo do cós da calça, e ela se viu hipnotizada por aquela visão.
—– O que foi que eu disse sobre semi-nudez na minha presença? –– Atena indagou num fio de voz, tentando se recompor.
—– Você não teria que se incomodar em repetir isso se me deixasse dormir –– Poseidon respondeu, descendo os degraus que faltavam para que alcançasse o chão da sala. –– E agora me fez perder o sono.
—– Que pena –– Atena fez um bico nada convincente, –– porque estou capotando. Aproveite bem a sua noite, então.
—– Você não pode dormir enquanto eu estou acordado –– Poseidon se sentou no exato lugar onde Atena estava prestes a deitar. –– A culpa é toda sua por eu ter perdido o sono.
—– A culpa não é minha se um simples liquidificador te acorda. Você é quem tem o sono delicado de uma princesa.
—– Então imagino que tenhamos invertido os papéis, e nesse conto, você é o dragão malvado que aprisiona a princesa.
—– É uma boa teoria.
Atena puxou uma coberta do encosto do sofá e se enrolou no tecido, se contentando em ficar sentada em um canto enquanto o vento frio entrava pela janela.
—– Eu bebi uma jarra de suco de maracujá –– ela resmungou mais para si mesma do que para ele. –– Vou acabar dormindo sentada aqui.
—– Durma, oras –– Poseidon respondeu, apanhando o controle para ligar a televisão.
Atena lançou um olhar de esguia para ele. Sem camisa, despreocupado, com a luz da lua e o som das ondas quebrando do lado de fora, lembrava até da época em que...
Não, Atena falou para si mesma. Não podia sentir falta. Mesmo sabendo que, naquela época, talvez estivessem dormindo em um sono tranquilo à essa hora, ou conversando deliberadamente sobre um assunto banal, ao invés de competir para ver quem irritava mais ao outro.
—– Não existem mais boas programações na TV Hefesto – Poseidon lamentou para si mesmo. – Tudo o que tem aqui são fofocas, Olimpo e Afrodite, o que é igual a fofoca.
—– Eu não poderia me importar menos –– Atena se levantou, ainda com a coberta enrolada ao seu redor. –– O que quero é que você saia para que eu possa dormir.
—– Já disse que não –– Poseidon respondeu. –– Agora vou assistir. Quem sabe na programação dos mortais esteja passando alguma coisa interessante...
—– Se vai ficar aí enrolando, eu vou dormir no quarto.
Mas antes que Atena alcançasse o primeiro degrau da escada, Poseidon apareceu à sua frente, fechando o acesso com o próprio corpo. Atena respirou fundo e ergueu a cabeça para encontrar seus olhos verdes faiscantes de diversão.
—– Você realmente não entende a regra de não usar nossos poderes, não é? Eu não usei meus poderes para nada até agora! –– Atena protestou. –– Isso é injusto.
—– Se você não pensou nisso, a culpa não é minha, amor –– Poseidon disse, cruzando os braços. –– E injusto é o que você estava prestes a fazer. Eu ganhei o jogo.
—– E, no entanto, está desperdiçando seu prêmio –– Atena observou.
Ninguém disse nada por um tempo. Apenas ali, braços cruzados, olhares em fogo, o desejo implícito que sempre pairava entre eles de matar um ao outro; até que Poseidon foi aquele a quebrar o silêncio.
—– Certo, vamos fazer assim –– ele propôs. –– Você pode ficar com o quarto essa noite, mas só se amanhã você for vigiar a ilha.
Atena ergueu uma sobrancelha. Parecia justo que a pessoa que dormisse no lugar mais confortável fosse aquela a ter trabalho durante o dia, enquanto o outro tinha folga. Porém, não poderia deixar que seu orgulho fosse pisado de tal forma.
—– Não –– respondeu por fim. –– Eu durmo no sofá, e amanhã é seu dia de vigiar a ilha.
Poseidon deu de ombros, como se já esperasse por aquilo.
—– Fechado.
Mas ele não seguiu para o seu quarto, como deveria ser. Pelo contrário, voltou para o sofá e continuou trocando os canais na TV.
—– Não especificamos nada sobre horários no acordo, não é? –– Poseidon perguntou, sorrindo.
Atena bufou, mas sem poder discutir, voltou a se sentar no sofá. Era inútil tentar enfiar qualquer coisa na cabeça dura de Poseidon, e brigar com ele só traria prejuízos para aquela missão. Sabendo disso, mesmo se sentindo profundamente incomodada com a presença dele ali, Atena engatinhou para o canto mais distante do sofá e recostou a cabeça ali, determinada a ficar acordada até o segundo em que Poseidon não aguentasse mais e fosse dormir; mas segundos depois, sua vista escureceu e ela foi levada pelo mundo dos sonhos.
***
Quando acordou, pela manhã, Atena estava sozinha na sala. Estava completamente deitada no sofá, a cabeça recostada sobre um travesseiro que ela não se lembrava de ter pego na noite passada, e um cobertor grosso, do qual ela também não se lembrava, envolvia seu corpo. A luz do sol matinal passava sem filtros pela janela de vidro, atingindo seu rosto como um grande farol. Não eram exatamente as férias na praia que ela imaginava. Espreguiçou-se, tirando o emaranhado de cabelos do rosto, e se levantou do sofá, jogando o próprio cobertor no chão. Seguiu para a cozinha, as pernas parecendo pesar uma tonelada a cada passo, e apanhou um copo no que parecia ter sido o milésimo armário que abriu. Nada naquela casa era acessível; ela chegou a encontrar comida em um armário ao lado das panelas. Se havia algo que Afrodite não tinha era senso de organização.
Quando finalmente conseguiu encontrar tudo o que precisava, já era tarde demais para manter as esperanças de passar a manhã inteira em paz; ouviu o som de passos na escada, e segundos depois, Poseidon adentrava a cozinha, os cabelos ainda mais bagunçados do que na noite passada, e esfregando os olhos.
—– Oh, você acordou –– Atena observou quase como uma reclamação. – Eu tinha esperança de que você morresse durante o sono.
—– Imortal, amor –– Poseidon retrucou, com a voz rouca, como quem se desculpa. –– E bom dia para você também.
— Bom dia — Atena resmungou em resposta.
Ele começou a vasculhar os armários assim como Atena em busca de comida. Quando voltou, tinha em mãos um saco de bacon congelado e massa para panquecas. Atena interrompeu sua atividade de cortar um pão e arqueou as sobrancelhas.
—– Você vai comer isso? —– ela perguntou, torcendo o nariz. –– Como café da manhã?
Poseidon derramou um pouco de óleo em uma frigideira, jogando ali o bacon logo em seguida. O cheiro delicioso de fritura invadiu o ar, mas Atena fez questão de não se sentir tentada por algo tão gorduroso.
—– Algum problema? –– Poseidon indagou.
—– Bem, tirando o número de calorias dessa coisa, as doenças que ele causa e o mal que faz para o corpo, são poucos os reais problemas —– Atena respondeu.
—– Atena, eu acho que há uma coisa que você não entende desde o dia em que veio à esse mundo –– Poseidon pegou outra panela de dentro do forno, e nessa derramou um pouco da massa de panqueca. –– Somos deuses. As leis da biologia humana não se aplicam a nós.
Atena soltou um longo suspiro, apanhando o próprio prato e um copo de suco bem gelado de laranja ao se dirigir para a sala.
—–Seres perdidos, é isso que vocês são –– ela murmurou antes de cruzar a porta.
Por um acaso muito conveniente, o sofá possuía um apoio para comidas: um espaço retangular feito para o prato e um encaixe redondo para o copo. Ao menos em alguma coisa Afrodite tinha que acertar. Odiando o silêncio da sala, Atena tirou o controle de cima da mesinha de centro e ligou a televisão, passando rapidamente pelos canais em busca de uma programação que prestasse. Parou quando achou um canal de História, transmitindo um documentário sobre a Idade Média. Acabou se entretendo tanto com o programa que mal reparou quando Poseidon chegou e se sentou ao seu lado, trazendo em sua bandeja comida suficiente para alimentar um exército inteiro, e também os generais. Só se deu conta da presença do deus quando o mesmo pegou o controle e, sem dizer nada, começou a passar os canais.
—– O que você está fazendo?! –– Atena meio que perguntou, meio que exclamou.
—– Estou procurando um programa legal –– Poseidon respondeu, com tamanha naturalidade que sequer parecia ter percebido o que acabara de fazer.
—– Aquele era um programa legal! –– Atena protestou, e se esticou para tomar o controle de volta. –– E eu estava assistindo primeiro.
—– Chama aquilo de “programa legal”? –– Poseidon virou todo o corpo na direção de Atena, mas esticou a mão para longe quando ela tentou alcançá-lo. –– Me diga: existe alguma coisa sobre a Idade Média que você não saiba?
—– Não –– Atena confessou. –– Mas eu estava assistindo antes de você! — a deusa se colocou de joelhos no sofá e passou as duas mãos ao redor do pescoço de Poseidon, numa tentativa ainda inútil de retomar o controle.
O deus, percebendo que ela não desistiria tão fácil, largou seu prato de lado e se jogou para trás, colocando o controle ainda mais longe; Atena, no entanto, não hesitou em se apoiar sobre a barriga dele e engatinhar até sua mão. Estava perto o suficiente para alcançar o controle quando Poseidon fez o objeto desaparecer de sua mão para algum lugar que só ele sabia onde — o que deixou uma situação singularmente constrangedora na qual ele estava deitado, com um braço para cima, e Atena completamente apoiada sobre ele, seus rostos perigosamente perto. A deusa teve que balançar a cabeça para afastar os pensamentos que a acometiam olhando no fundo de seus olhos verdes tão próximos dos seus, que pareciam ondular como o oceano e esconder tantas coisas quanto o mesmo.
— Golpe baixo, Poseidon — ela disse, vagarosamente, só porque era preciso quebrar aquele silêncio embaraçoso. — Não foi justo.
— A vida não é justa, amor — ele disse, sorrindo de soslaio, como quem se desculpa.
Atena saiu de cima dele, tentando fazer aquela cena tão natural quanto fosse possível, enquanto resmungava que “não estava tão interessante, de toda forma”, mas no final das contas, Poseidon conjurou de novo o controle e voltou ao canal que ela estava assistindo.
—– Você é bipolar, você sabe –– Atena comentou. –– Talvez, quando voltarmos, deva se tratar sobre isso. Ninguém merece seus transtornos de humor.
Poseidon não se deu ao trabalho de responder. De algum modo que Atena tentou não pensar a respeito, ele terminou de comer antes dela, e ainda perguntou se ela queria que ele levasse seu prato. Atena recusou, o cenho franzido por tamanha educação, porque ainda havia muita comida em seu prato.
—– Que horas você pretende sair? –– ela perguntou quando ele voltou para a sala.
O programa interessante chegara ao fim, dando lugar a uma reportagem sobre desastres naturais que Atena preferiu não assistir – afinal, o causador de grande parte dos desastres naturais estava bem ali, do seu lado, e o outro grande causador era seu pai. Talvez perguntar para eles fosse mais interessante.
Uma camiseta apareceu nas mãos de Poseidon, e ele a vestiu desleixadamente. Era impressionante o quanto ele podia se aproveitar dos próprios poderes para não ter que subir uma escada e dar alguns passos.
—– Daqui a alguns minutos –– ele respondeu, relanceando um olhar para o relógio de parede que ficava no canto da sala. –– Só vou esperar até o café fazer digestão; não é legal passar mal durante uma missão secreta, você sabe.
—– Vai levar mais que alguns minutos para isso que você chama de café fazer digestão –– Atena disse. –– E por que você se veste como uma pessoa decente para ver os titãs, mas comigo se recusa a usar uma camiseta?
—– Não é sobre a minha companhia, é sobre o lugar que eu estou, e enquanto eu puder chamar isso aqui de “casa”, vou ficar exatamente como fico na minha casa.
—– Como você pode chamar esse lugar de casa? É um castigo.
Poseidon deitou sobre Atena um olhar indecifrável sob os profundos olhos verdes.
—– Não acho que o castigo seja o lugar, Atena.
Com um simples aceno de cabeça, ele cruzou a porta para o lado de fora.
Fale com o autor