Notas iniciais
OI, OI GENTEE! Okay, essas notas iniciais vão ser um pouquinho maiores, e dessa vez eu sei que eu realmente devo um pedido de desculpas. Permitam-me explicar. Eu sofri um pequeno acidente com a mão (estou bem, obrigada) que me impossibilitou de escrever por um tempo maior do que eu pensei que seria. Eu teria avisado, mas: 1º: Não se pode fazer capítulos de notas no Nyah 2º: Bem, eu não estava conseguindo escrever, não é (talvez isso devesse vir primeiro). De qualquer forma, peço mil desculpas. Não vai levar tanto tempo para os próximos capítulos, isso tudo só aconteceu porque eu sou terrivelmente desastrada. Sorry. E como hoje acordei inspirada por FINALMENTE poder postar, quero dedicar esse capítulo a todos aqueles que acompanham, comentam ou só visualizam (os famosos fantasminhas, terror da maioria dos escritores) essa história. Isso realmente me deixa muito feliz a cada vez que eu abro as configurações da história. Amo vocês todos. Boa leitura!

Capítulo Cinco

Atena havia acabado de guardar a sexta pasta no gabinete do escritório quando ouviu um barulho no andar de baixo. Soava como madeira e ferro se chocando, como se algo pesado tivesse caído no chão. Provavelmente era só Poseidon chegando em casa com seu jeito discreto de ser, mas era bom que ela checasse.

Pela primeira vez desde que chegara ali, Atena usou seus poderes para aparecer diretamente na sala de estar. O que encontrou foi uma estrutura circular de metal — um instrumento que lembrava um sol moldado em ferro — caída no assoalho de madeira, e Poseidon, parado na porta, esfregava a testa e amaldiçoava todos os seres viventes e não viventes que conhecia.

— O que aconteceu? — Atena perguntou, curiosa.

— Eu abri a porta e essa droga caiu da parede — Poseidon apontou para o objeto metálico. — Não faço ideia do que seja, mas sugiro que joguemos fora.

Atena se abaixou para analisar a coisa. Com certeza era um utensílio decorativo, mas Afrodite não era do tipo que usava coisas de metal para decorar a própria casa — seu estilo era mais como papel de parede florido e poltronas cor-de-rosa. Passando a mão sobre o objeto, Atena sentiu a vibração que vinha dele, como centenas de pequenas ondas de calor concentradas no ar. Havia magia ali, e forte. Ao seu toque, o objeto se acendeu, revelando uma imagem no círculo central: adolescentes, com arco e flecha na mão, vestindo camisetas laranja e jeans.

— Esse é o Acampamento Meio-Sangue? — Poseidon perguntou assim que parou de reclamar do galo que tinha na testa.

— É o que parece — Atena respondeu, levantando a tela e pendurando na parede mais próxima, onde estava anteriormente.

Assistiu a tela capturar nitidamente o voo de uma flecha do arco até o centro de seu alvo, sendo possível ouvir até mesmo os gritos ao fundo da arena de treinamento.

— Interessante — Poseidon concluiu. — É como aquele escudo da sua filha. Mas por que Afrodite teria um?

— Como sabe sobre o escudo de Annabeth?

Poseidon encolheu os ombros.

— Eu sei de tudo.

Atena se virou para ele pela primeira vez desde que ele chegara em casa. Suas roupas permaneciam intactas, tão limpas que seria impossível dizer que ele estivera em uma ilha, no meio da mata, não fossem por pequenos salpicos verdes de folhas em seu cabelo. Um calombo vermelho do tamanho de um polegar ocupava espaço em sua testa, escondido por mechas rebeldes que teimavam em escapar para a frente.

— Você está bem?

— Claro — Poseidon estreitou os olhos, o cenho um pouco franzido.

Não se lembrava da última vez que Atena havia perguntado se ele estava bem — pelo menos não de verdade, não naquele tom de preocupação, com os olhos adoravelmente curiosos. Achou muito estranho, mas para sua própria proteção, e para o caso do humor da deusa mudar subitamente e ela resolver que deveria agredi-lo ao invés de ser gentil, preferiu não comentar.

— O que você fez da sua vida inútil o dia inteiro?

O rosto de Atena se fechou tão rápido quanto havia se aberto quando o escudo acendeu, retomando a expressão branda e aristocrática que ela sempre carregava. Poseidon se perguntava se tanta auto-proteção era realmente necessária — será que Atena pensava que ele iria destruí-la caso não erguesse muralhas suficientes ao seu redor?

— Eu fiz da minha vida inútil muito mais do que você fez da sua, eu aposto — Atena respondeu, finalmente largando o escudo e indo sem mais para a cozinha.

Poseidon a seguiu, parando com os braços apoiados sobre a mureta que dividia a cozinha e a sala de jantar, enquanto Atena abria o forninho embutido à parede e tirava de lá duas embalagens redondas.

— Me dê uma resposta mais elaborada.

Com um suspiro, Atena apoiou os próprios braços na mureta, fitando as orbes profundamente verdes à sua frente.

— Primeiro eu rodei essa ilha toda e fiz um mapeamento dos possíveis pontos de ataque onde os titãs investiriam caso nos descobrissem — ela explicou. — Depois mapeei lugares onde poderíamos nos esconder temporariamente se esse ataque fosse uma surpresa. Fiz uma lista dos titãs que não lutaram na guerra contra Gaia, e eliminei alguns que provavelmente não estão envolvidos nisso. Estudei os pontos fracos de cada um, listei as melhores armas para lutar e montei uma estratégia para invadirmos o esconderijo deles, mas não tenho nada muito concreto até que você me diga exatamente o que está acontecendo lá. Ah, e eu também comprei comida.

Poseidon assobiou.

— Okay. Digamos que você fez um trabalho razoável.

Razoável? — Atena levantou as sobrancelhas. — O que você fez naquela ilha?

— O que eu tinha que fazer, oras — Poseidon argumentou. — Eu registrei o que os titãs estão fazendo e mapeei o esconderijo deles.

— Já é mais do que eu esperava — Atena murmurou, se virando para pegar as embalagens e levá-las até a mesa na sala de jantar.

— Eu ouvi isso.

— Era para você ouvir mesmo.

Com um estalar dos dedos de Atena, a mesa se arrumou magicamente, com talheres, copos e pratos para duas pessoas.

— Sabe, Atena, você é uma ótima criada — Poseidon observou em tom provocativo. — Quando se cansar do Olimpo me avise, talvez eu te contrate para trabalhar no meu palácio.

Os olhos cinzentos de Atena faiscaram como um céu tempestuoso coroado de raios. De repente, a colher com que ela servia a comida da embalagem para o prato parecia bem mais ameaçadora do que uma colher deveria ser.

— Não se esqueça de que ainda sou eu quem cuida da sua comida, Poseidon — ela avisou. — Minha gentileza pode não ser tanta ao não te envenenar se você repetir algo como isso.

Poseidon levantou as duas mãos, como quem se rende, e não pôde evitar dar um passo para trás, aproveitando a oportunidade para sentar em sua cadeira, na ponta oposta à de Atena.

— Então... — ele começou, parecendo um tanto nervoso. — Tem algo que eu queria conversar com você.

Atena ergueu os olhos, que passaram do cinza para o azul celeste tão rápido quanto se pudesse imaginar, tomados de curiosidade. Suas mãos relaxaram do aperto da colher; o por quê, Poseidon não sabia.

— Estou ouvindo.

— Bem, os titãs são extremamente sensitivos quando se trata da presença dos deuses, você sabe — Poseidon disse. — Eles quase me perceberam hoje, inclusive. Só me livrei porque, sendo o deus do mar, eu posso me misturar com ele, mas o que me preocupa mesmo é você.

Dessa vez, Atena definitivamente parecia surpresa. Ela soltou a colher, que caiu com um baque agudo sobre o vidro da mesa, e pareceu levar um segundo longo demais para que a ideia entrasse em sua mente.

— Você está preocupado... comigo? — ela repetiu, como se tentasse se fazer acreditar.

Poseidon sorriu de lado, aquele sorriso emblemático que fazia a deusa da sabedoria querer esganá-lo a cada vez que via, simplesmente porque não conseguia decifrá-lo de forma alguma.

— Não fique tão surpresa, eu nem sempre planejei matar você todos os dias — ele respondeu, sem prestar a devida atenção à reação de Atena ao ouvir isso. — O que quero dizer é que... preste atenção, porque não vou repetir: você tem muito poder, e sua aura é muito forte. Eles com certeza vão poder sentir a sua presença, e você sequer pode se misturar a algum elemento para ficar neutra.

Com um pigarro, Atena recobrou a postura e também se sentou. Parecia um tanto desconcertada, com as bochechas ligeiramente coradas e a cabeça baixa, algo que Poseidon se pegou achando adorável. Pela primeira vez, Atena parecia não ter uma resposta na ponta da língua para o que ele dizia.

— Eu posso lutar se um deles perceber a minha presença — ela sugeriu, mas, para variar, não parecia tão segura do que dizia.

— Um deles — Poseidon frisou. — Mas e se todos te notarem?

Se é que era possível, Atena ficou ainda mais corada.

— Oh — Poseidon fez, por pura diversão. — Você não pensou nisso.

E Atena preferiria morrer a admitir que não havia pensado em algo e Poseidon sim.

— Aonde você quer chegar? — ela disparou.

— Eu estou apenas tentando ajudar — Poseidon respondeu, a voz surpreendentemente calma. — Talvez a deusa da sabedoria consiga pensar em uma solução brilhante.

Atena mordeu o lábio inferior, olhando para todos os lugares possíveis, menos para Poseidon.

— Argh, eu te odeio! — ela exclamou. — Você sabia que eu não teria o que responder.

Poseidon não respondeu, apenas encarou Atena por um longo tempo.

— Espere... — ela disse. — Você já sabe o que fazer.

Ele concordou, de repente assumindo uma expressão grave e séria que não combinava em nada com seu rosto sempre brincalhão.

— Não é a melhor ideia do mundo, mas com o tempo que eu tive para pensar, me pareceu a mais razoável — ele fez uma pausa dramática que fez crescer em Atena um certo receio do que viria a seguir. — Talvez eu possa dividir temporariamente meus poderes com você.

Se antes Atena estava perplexa, a expressão em seu rosto agora estava fora do que o vocabulário humano podia descrever. Era evidente que ela tentava esconder seu choque, mas ela não conseguiu conter a tempo que seus olhos se arregalassem.

— Espere... você quer dizer... controlar o mar?

— Controlar não — Poseidon abanou a mão em um gesto indiferente. — Até o meu filho controla o mar. Você deve... como posso dizer? Se unir a ele, de forma que os titãs não sintam uma mudança na áurea. Precisa ter um domínio superior sobre ele.

Atena não conseguiu evitar erguer uma sobrancelha, por mais repetitivo que fosse esse ato na presença de Poseidon.

— O que você quer dizer com isso?

— Quero dizer exatamente o que você entendeu, Atena — Poseidon confirmou, porque sabia perfeitamente bem que ela havia entendido.

Atena fez uma pausa curta antes de responder, muito devagar:

— Pensei que esse fosse o papel da sua esposa.

— É. Bem, era, quando eu era casado — ele se corrigiu. — Mas uma coisa não necessariamente depende da outra.

— Como assim quando você era casado? — Atena perguntou, os olhos cheios de curiosidade.

— Longa história — Poseidon dispensou o próprio comentário. — Mas então, o que você acha?

Depois de um minuto longo demais, Atena assentiu.

— Tudo bem, eu acho. Preciso de algum tempo para pensar nisso. Tem mais alguma coisa que você queira me falar? Porque já estou indo para o quarto.

Poseidon pareceu pensar, mas decidiu se manter calado e, no fim, acenou negativamente com a cabeça.

***

Já deitada na cama de casal do quarto, Atena puxou as duas cobertas que usava por causa do frio e inspirou profundamente. O cheiro do perfume masculino que Poseidon usava imediatamente penetrou suas narinas — um cheiro nada mal, por sinal.

O barulho dos movimentos do deus no andar de baixo era perfeitamente audível com o silêncio da noite. Primeiro os passos arrastados até a cozinha, depois de volta à sala. O sofá se mexendo, e o som irritante de diversas vozes vindas da TV. Talvez Poseidon não estivesse sendo tão dramático ao reclamar do barulho na noite anterior, afinal, mas é claro que Atena nunca admitiria isso.

Numa pontada de compaixão que não lhe era própria, Atena se colocou a pensar se Poseidon não estaria com frio no sofá. Afinal, lembrava-se de se encasular num edredom na outra noite e ainda assim tremer como uma vara verde. O vento gelado que entrava pelas janelas do tamanho de paredes... ela tremia só de pensar. Mas como sentir pena de Poseidon não era de seu feitio, ela tratou de fechar os olhos e não se importar. Ainda assim, continuava ali: uma vozinha insistente e perturbadora que pedia piedade. Não faria mal se apenas descesse para dar uma olhadinha...

Ora essa, o que estava pensando? Era Atena, a deusa do sangue frio e da racionalidade. Sentir pena de seu arqui-inimigo era o ápice de sua loucura, só podia ser. Tinha que deixá-lo sentir o frio, morrer congelado se fosse preciso.

Mas como resistir à culpa pesando no peito, como se uma pedra fosse colocada ali? Como não escutar a voz que praticamente a empurrava para fora da cama e guiava até a porta?

Atribulados minutos de ponderação depois, e amaldiçoando a todos os seres que lhe vinham à mente, Atena atirou as cobertas de lado e saltou da cama, puxando o pijama que mais parecia um agasalho para junto de seu corpo. Maldito fosse seu coração piedoso. Tentou fazer em silêncio o trajeto até as escadas, para que Poseidon não percebesse que andava tão devagar, mas falhou miseravelmente ao tropeçar num vaso ao lado da porta — por que raios Afrodite tinha que colocar plantas do lado de todas as portas?

Desceu as escadas, começando a perceber a sombra do desespero que começava a se assomar em seu peito, se perguntando o que, exatamente, planejava dizer quando chegasse na sala sem que Poseidon pensasse que ela atingira a insanidade. Quando colocou o primeiro pé (que era o esquerdo, se é que tinha relevância) no chão da sala, o primeiro corpo que seus olhos detectaram foi o de Poseidon. Ele não parecia estar morrendo de frio, o que diminuiu consideravelmente as batidas preocupadas de seu coração, mas vestia uma camisa e estava embrulhado, então algo com certeza estava fora do normal.

Ele pareceu surpreso ao ver a deusa aparecer no alto da escada.

— Sim, Atena?

— Hum... oi — Atena arranhou o antebraço nervosa.

— O que traz seu ilustre ser aos meus aposentos? — Poseidon questionou, movendo ligeiramente a cabeça em sinal de atenção, mas nunca desviando os olhos da TV.

—Euvimverseestátudobem — Atena respondeu, tão rápido que nem ela mesma foi capaz de entender.

Poseidon riu, arqueando as sobrancelhas.

— Desculpe, amor, o que você disse?

— Eu vim... — Atena pigarreou e estufou o peito, acumulando coragem. — Ver se você está bem.

Aparentemente, isso foi mais que suficiente para que Poseidon se esquecesse da televisão e focasse completamente em Atena.

— Você não é a Atena.

— O quê?

— Não pode ser — Poseidon levantou, inclinando a cabeça para examinar Atena como se fosse um OVNI. — Qual é o meu sabor favorito de sorvete?

— Ah, por favor, Poseidon, por que eu sab...

— Você sabe de tudo — Poseidon insistiu. — Qual é o meu sabor favorito de sorvete?

— Ameixa, Poseidon, é de ameixa — Atena respondeu, rolando os olhos. — Que pergunta de segurança ridícula. Qual a relevância disso?

O olhar de Poseidon se demorou um pouco mais que o necessário sobre ela. Atena quis baixar a cabeça, sentindo que aquele par de olhos podia enxergar tudo o que ela pensava enquanto se encaravam, mas por seu orgulho e pela dignidade da qual ainda tentava zelar, manteve-se firme.

— Okay, então você está muito estranha, Atena — Poseidon disse por fim. — Por que eu não estaria bem?

— Está frio — Atena disse, como se isso explicasse tudo.

— E...? — Poseidon perguntou, exigindo uma explicação decente

— Ontem eu estava congelando aqui — Atena completou. — Eu só pensei que talvez... talvez... argh, deixa pra lá.

Atena não fazia ideia de como lidar com esse lado sentimental e piedoso que subitamente havia despertado dentro dela, e muito menos sabia como demonstrar esses sentimentos para Poseidon.

— Não — Poseidon balançou a cabeça, o rosto intimidantemente perto do seu. — Pode falar.

— Talvez você queira dormir no quarto — Atena disparou, muito lentamente, mal acreditando no que dizia. — Só por hoje.

O sorriso que Poseidon estampou no rosto depois de ouvir isso foi o mais ambíguo de todos os tempos. Chegava a ser cômico.

— Se você queria que eu dormisse com você, Atena, só precisava pedir.

Um leve rubor involuntário, seguido de um olhar fulminante, ocupou a face da deusa da sabedoria.

— Quer saber? Não sei porque me dei ao trabalho de vir até aqui. Espero que você morra de frio nesse sofá.

Sem esperar por uma resposta malcriada e infantil que provavelmente receberia, Atena subiu as escadas a passos duros. Com o sangue rugindo nos ouvidos, ela se sentia capaz de invocar outro raio sobre Poseidon. E talvez essa tenha sido mesmo a razão pela qual dezenas de nuvens cinzentas se acumularam no céu acima da casa, de onde vinham relâmpagos e trovões estrondosos — ou era apenas Zeus enfurecido com alguma coisa, para variar.

Não muito tempo depois que Atena estava deitada, ouvindo com deleite o som da chuva batendo nas árvores e sentindo o cheiro da terra molhada, batidas na porta a tiraram de seus devaneios.

— O que você quer, Poseidon?

Sem esperar por um convite ou permissão adequados, Poseidon adentrou o quarto, um travesseiro debaixo do braço.

— Por acaso a oferta de dormir aqui continua de pé?

Atena ponderou por algum tempo, olhando para a feição descarada de dó que o deus exibia, antes de confirmar.

— Se você se comportar como uma pessoa civilizada e se deitar bem longe de mim, sem problemas.

Acenando em concordância — até porque naquele frio não havia como discordar de quem oferecesse calor -, Poseidon tratou de se deitar a pelo menos quarenta centímetros de distância de Atena na cama, prezando pela vida que corria em seu corpo. Já Atena, com muita eletricidade vibrando ao seu redor, jamais havia se sentido tão estranha na vida como naquele momento. Tinha Poseidon deitado ao seu lado pela primeira vez em milênios, e não havia tentado matá-lo por ousar se aproximar de si. Talvez realmente estivesse louca.

— Viu só? Eu me aproximei e você não morreu.

— É um acontecimento único, pode ter certeza.

Ambos não disseram mais nada, cada um virado para uma extremidade da cama, sem vontade de dormir, mas sem coragem para falar. O primeiro a encher o peito e quebrar a tensão palpável foi Poseidon. Era sempre ele.

— O que você vai fazer amanhã?

Estranhando a pergunta, Atena se moveu ligeiramente para o lado dele ao responder.

— Ainda não sei. Acho que vou pegar o mapeamento que você fez e seguir algumas trilhas. Posso tentar ver se eles tem algum sistema de turnos ou formação.

— Você sabe que não adianta só observar por muito tempo, não sabe? — Poseidon perguntou. — Temos que encontrar uma estratégia para atacar assim que possível e terminar logo essa missão.

— É tão terrível assim? — Atena tentou soar casual, pensando não ter muito sucesso.

— Claro que é! — Poseidon exclamou como se fosse óbvio. — Quero voltar para a minha casa logo e me ver livre de tudo isso.

Atena se limitou a emitir um "hum" e se virar completamente para a beira da cama, puxando os cobertores até a cabeça. O silêncio que se seguiu parecia perfeitamente normal, mas como sempre, Poseidon percebeu a tensão no ar.

— Atena?

— Hum?

— Eu disse alguma coisa?

— Não.

— Algo aconteceu?

— Não.

Silêncio novamente.

— Por que você faz isso? — Poseidon soltou sem se conter.

— Isso o quê? — Atena perguntou, exasperada.

— É ignorante e evasiva o tempo todo — Poseidon disse. — Você acha que eu vou te matar se você for gentil por um milésimo de segundo?

— Ei, espere aí, princesinha delicada — Atena ergueu a mão, se voltando completamente para ele, — Será que você só se lembra do que te faz uma vítima? Eu te ofereci a cama hoje, tirando metade do espaço que eu poderia ter, sendo que você me deixou dormir no sofá gelado ontem!

— Foi o nosso acordo! — Poseidon protestou. — Não havia uma cláusula dizendo que eu deveria te oferecer alguma coisa.

— E ainda assim eu te ofereci — Atena argumentou. — Isso é o que chamamos de gentileza. Então da próxima vez, analise melhor sua situação antes de me condenar.

— Não foi desse tipo de gentileza que eu falei. Me referi àquela da qual você trata as pessoas como seres vivos e com um coração, sabe? Oh, provavelmente não. Você não deve ter um.

Atena não conseguiu responder por um tempo que foi suficiente para que Poseidon percebesse o peso das próprias palavras.

— Atena, não foi bem isso que...

— Não diga mais nada — ela interrompeu, se levantando. — Você já atingiu a sua cota diária.

— Eu não...

— Já chega, Poseidon.

Um agasalho completo surgiu sobre seu corpo, a envolvendo.

— Você queria se livrar de mim, não era? Pois bem, você conseguiu. De novo.

Sem se dar ao trabalho de sair pela porta, Atena desapareceu em poeira dourada, deixando para trás o aroma de rosas e um Poseidon que se sentia o mais estúpido dos seres viventes.

Notas finais
Até eu fiquei tensa depois desse capítulo. Ui. P.S.: Caso vocês tenham curiosidade em saber, a ilha onde eles ficam se chama Dauphine, e a ilha dos titãs é a de Castries. Eu não coloquei isso na história porque não achei que tivesse relevância, é só um acréscimo mesmo.