Capítulo Doze

O dia seguinte começou tão entediantemente normal que Atena se sentiu decepcionada assim que abriu os olhos. Era como sempre: ela acordara sozinha na cama, Poseidon já estaria no andar de baixo tomando o café da manhã ou assistindo televisão, ou talvez os dois. A vida podia ser dolorosamente repetitiva às vezes. Mas antes que Atena pudesse se levantar e lamentar ainda mais sobre a rotina, um som chamou sua atenção: o barulho de água caindo. Oh, isso mudava muita coisa. Porque estava no fundo do mar, e Atena tinha certeza de que no fundo do mar não chovia.

Então Poseidon não estava no andar de baixo; estava logo ali do lado, tomando banho. E pior do que ouvir o chuveiro ligado, foi ouvi-lo sendo desligado. Atena mais que depressa se deitou de novo e fechou os olhos, sem tempo de virar o rosto para o lado oposto ao banheiro.

Tão logo ela fechou os olhos, ouviu o tique da tranca da porta do banheiro sendo aberta, e em seguida o rangido da madeira se movendo. Talvez fosse a adrenalina, ou talvez Atena não estivesse em seu juízo perfeito, mas uma curiosidade súbita e infundamentada que se acendeu fez com que ela abrisse uma fresta dos olhos.

Poseidon estava parado de costas para ela, e por sua vez de frente para um enorme guarda roupa, coberto somente por uma toalha amarrada na cintura, e talvez Atena tivesse parado de respirar por um instante com o que viu. Suas costas eram musculosas e revestidas pelo bronzeado do qual ele não cansava de se gabar, e os músculos grandes se contraíam de forma atraente (Atena estava mesmo pensando aquilo?) quando ele se abaixava para colocar a roupa. A água pingando dos cabelos negros e escorrendo por suas costas proporcionava uma cena digna de filmes românticos clichês, mas era diferente ao olhar: a cena como um todo era atraente. Não só Poseidon (embora seu físico contribuísse muito), e não só os movimentos que fazia, mas todos os elementos juntos. Era tudo muito novo para Atena, aquele coquetel de emoções que confundiam sua mente. Nunca antes algo ou alguém fora capaz de colocar sua racionalidade de lado; e ainda assim, fora exatamente o que Poseidon fizera na noite passada, ao abraça-la tão naturalmente, e era o que fazia agora ao simplesmente levar Atena a se sentir... atraída. Céus, como ele conseguia fazer aquilo?

Por um instante a deusa ficou imaginando o que ele fazia para conseguir aquele corpo; provavelmente os combates de milênios ajudavam muito, mas não podia ser só isso. Um físico daqueles exigia manutenção. Talvez levantamento de peso ou algum tipo de arte marcial? Ou talvez ele só usasse seu poder divino de ter a aparência que quisesse? A mente casta de Atena já começava a castigá-la por tal comportamento quando, num movimento para colocar uma camiseta de botões, Poseidon se virou de lado, deixando visível um corte na lateral de suas costelas. Não era grande como o que Atena tinha nas costas, mas suficiente para causar um arrepio na deusa.

— Você está machucado — ela soltou, antes que percebesse.

Poseidon aparentou surpresa por um momento, fitando a deusa, que corou, mas em seguida deu um sorriso contido.

— Sim, eu reparei.

— Por que não me contou?

Poseidon deu de ombros.

— Não achei que fosse necessário — disse simplesmente. — Nem foi um corte feio. Só um arranhão de espada.

— Não é o que parece — Atena se levantou para analisar, e foi quase naturalmente que se viu tocando timidamente com a ponta dos dedos o corte rude que rasgava a pele do deus dos mares. Ele a observava quietamente de cima, e só agora ela começava a achar aquela cena um tanto quanto vergonhosa — mas tinha que admitir que sentiu uma pequena satisfação ao tocar seu abdômen e descobrir que ele era exatamente como ela imaginava ao toque: duro, resistente e forte, apesar do corte o maculando.

— Me deixe curá-lo para você — ela pediu, recobrando a concentração. — Não vai demorar nada.

— Mas você gastaria sua energia...

Atena o dispensou com um aceno de mão.

— Não é nada. Posso?

O deus deu de ombros, e Atena considerou aquilo como uma permissão. Como ela havia dito, levou menos que um minuto para que, com o seu toque e o uso de seus poderes, o corte já estivesse praticamente curado.

— Prontinho — ela concluiu, satisfeita.

Poseidon terminou de fechar a camisa para sair, deixando a gola torta e desarrumada. Atena torceu o nariz em reprovação.

— Está errado.

— Onde?

— Aqui — Atena ficou na ponta dos pés, se esforçando para alcançar ao menos a altura dos ombros de Poseidon, e passou os braços ao redor de seu pescoço, alinhando a gola da camisa, tal como seu perfeccionismo ordenava — Será possível que até nisso você tem que ser relaxado?

Quando terminou, longe de se sentir ofendido com seu comentário, Poseidon sorria para ela de forma incompreensível, o mais ambíguo dos sorrisos da face da Terra.

— O que foi? — ela perguntou.

Poseidon balançou a cabeça, rindo. E então, num movimento rápido, puxou a cintura de Atena e selou seus lábios brevemente. A deusa sentiu o calor delicioso de seu corpo, misturado à umidade do banho recém tomado, e foi com muito esforço que suas pernas não cederam aos lábios macios tocando os seus.

— Obrigado, Atena.

Atena estava perplexa. Nunca em sua vida! Quando foi que ele havia conquistado aquele direito de beijá-la assim sem terminar morto?

Talvez na noite passada quando ele te beijou e você não disse uma palavra, aquela parte chata de seu cérebro martelou.

— Mas o que você pensa que está fazendo?

— Procurando respostas — disse Poseidon, se dirigindo à porta.

— Para quê?

— Para o nosso acordo — respondeu antes de piscar para ela e sair do quarto.

Levou algum tempo até que Atena entendesse à que acordo ele se referia; e então a resposta veio à sua mente num estalo.

"Quando você me disser porque me beijou, eu te digo porque fiz meu voto."

— Idiota — resmungou, entrando no banheiro e batendo a porta com força.

***

Nunca foi tão difícil para uma deusa abrir uma porta como era para Atena empurrar a porta da sala de jantar naquele momento. Sabia que encontraria Poseidon do outro lado, com um sorriso sacana no rosto e respostas sarcásticas na ponta da língua para o que quer que ela dissesse. Ainda assim, respirou fundo e entrou no aposento.

A mesa enorme, com espaço para pelo menos 50 pessoas, estava disposta com os mais variados tipos de comida, como no dia anterior, mas todos os seus assentos luxuosos estavam vazios, com exceção de dois na ponta, ocupados respectivamente por Poseidon e Helena.

Atena não sabia como encarar Poseidon depois do que acontecera na noite passada e há poucos minutos no quarto, mas por sorte, Helena os poupou de um momento muito constrangedor ao exclamar, com a boca cheia de torradas:

— Bom dia, Atena!

— Bom dia — a deusa respondeu. — Dormiu bem?

Era uma pergunta estúpida, de fato; mas Atena não queria ter que dirigir a palavra à Poseidon, e Helena parecia disposta a responder qualquer pergunta com entusiasmo, por mais estúpida que fosse.

— Não muito, já que perguntou — admitiu a garota. — Tinham duas baleias discutindo bem na janela do meu quarto. Tive que ir até lá para acabar com aquilo e conseguir dormir em paz.

— As baleias estavam... discutindo? — Atena perguntou, sentindo vontade de rir.

— Elas fazem muito isso — afirmou Helena. — Discutem por tudo. Uma raça muito briguenta, são insuportáveis.

— Bem, isso é... interessante — Atena comentou, sem saber mais o que dizer.

O silêncio habitual se instalou sobre a sala de jantar, e só foi quebrado quando, novamente, Poseidon se levantou.

— Vamos, Atena?

— Para onde?

— Ao parquinho — Poseidon rolou os olhos. — Discutir estratégias de ataque, é claro. Não combinamos de fazer isso hoje?

Não, Atena pensou, mas não vocalizou, porque realmente tinham que fazê-lo.

— Oh, é mesmo — Atena se colocou de pé. — Te vejo mais tarde, Helena.

— Até mais — disse a menina, fazendo sinal para que um criado viesse recolher sua comida.

Poseidon guiou Atena pelo emaranhado de corredores que compunham o palácio até uma sala no último andar, bem longe de onde ficavam os quartos, e onde os criados não mais circulavam freneticamente, e um silêncio pesado recaía sobre eles.

— Olhe só, você não pode fazer isso — Atena disse, sem se conter.

Poseidon se virou para ela, ainda caminhando, as sobrancelhas franzidas.

— Isso o quê?

— Me beijar e depois me ignorar como se nada tivesse acontecido — ela respondeu. — Não estou dizendo que você tem que cair de joelhos diante de mim e se declarar, mas pelo menos diga alguma coisa!

A sobrancelha de Poseidon arqueou em divertimento, conforme um sorriso se formava em seu rosto.

— Está precisando conversar, Atena?

— Mas é claro que não! — a deusa já começava a se irritar. — Só quero que você faça alguma coisa.

— É mesmo? — Poseidon deu um passo em sua direção. — Como o que?

— Eu não sei! — Atena admitiu. — Talvez você deva começar parando de me tratar como um ser incapaz de pensar ou de sentir.

— Primeiro você queria conversar, depois queria que eu fizesse alguma coisa, e agora quer que eu pare de fazer as coisas — Poseidon chegava cada vez mais perto. — É melhor se decidir, amor.

— Argh — Atena fez, zangada. — Como você é irritante!

E ali já estava claro demais que seus argumentos haviam acabado.

— Estou falando sério — Poseidon chegou tão perto que Atena teve de se encostar contra a parede do corredor vazio. — Você tem que escolher um dos três, porque todos é impossível.

— Eu quero que você faça alguma coisa — Atena disse firme, mas sem pensar direito.

— Eu imaginei — a essa altura seus corpos já estavam colados, o rosto de Poseidon a centímetros do seu.

Atena não era burra para não saber o que ia acontecer, e honestamente, não sabia o que fazer quanto a isso. Mas foi poupada de precisar fazer qualquer coisa quando, num gesto que a surpreendeu, Poseidon se afastou, balançando a cabeça, um sorriso em seu rosto.

— Vê, o problema aqui não sou eu, Atena. Seu problema está na guerra travada entre isso — ele apontou para o lugar onde ficava o suposto coração de Atena — e isso — completou, apontando agora para a cabeça da mesma.

Boquiaberta e chocada, Atena ficou ali parada enquanto assistia Poseidon se afastar e parar na frente de uma porta específica quase no fim do corredor.

— Você vem?

Saindo do transe, ela se adiantou e passou rapidamente por ele, adentrando a sala. E pelos deuses, era simplesmente o melhor salão de planejamento de guerra que ela já havia visto em toda a sua eternidade. Havia uma mesa enorme no lado direito, provavelmente onde Poseidon se reunia com seus comandantes para discutir os ataques e defesas; e do lado esquerdo havia um tabuleiro imenso no chão, que, Atena reparou ao se aproximar, era uma planta perfeita do reino de Atlântida, e as imagens dele se moviam, assim como as pessoas se moviam do lado de fora.

— Isso é incrível! — Atena exclamou. — Onde você conseguiu?

— Um presente de Hécate por ter feito um favor a ela — disse Poseidon. — É bem útil quando acontece uma guerra aqui no reino, mas não no nosso caso.

— Você gosta de fazer favores — observou Atena em um tom irônico.

— Só para as deusas mais bonitas, você sabe — disse Poseidon, dando uma piscadela.

Atena revirou os olhos e se sentou em uma das cadeiras próximas à mesa, conjurando alguns papéis em tamanho grande.

— Então — ela suspirou, — vamos começar?

***

Depois de tanto tempo planejando as maiores guerras da humanidade, Atena pensou que montar um ataque como aquele seria moleza. Estava enganada. Quando ela e Poseidon finalizaram tudo o que era necessário, já estava escuro do lado de fora, e Atena sentia o estômago embrulhado pela fome; afinal, não podia pausar seus projetos para comer. Poseidon não parecia pensar o mesmo, já que fizera ao menos três refeições ao longo do dia, enquanto Atena tagarelava mais para si mesma do que para ele sobre o que deveria ser feito.

Terminados os projetos, Atena fez com que desaparecessem, sendo guardados em um lugar seguro (vulgo uma gaveta na escrivaninha do escritório que ficava em seu palácio no Olimpo, onde ninguém se atreveria a entrar sem a sua permissão). Poseidon se entretia em rabiscar qualquer coisa em uma folha restante quando Atena se levantou, estalando cada um de seus ossos ao se espreguiçar.

— Estou indo jantar — anunciou. — Você vem?

Poseidon balançou a cabeça.

— Vou falar com o general, preciso me atualizar sobre o exército — ele explicou. — Mas fique à vontade para pedir que façam a janta só para você.

Atena assentiu e deixou a sala. Era uma sorte que sua memória divina não deixasse escapar nenhum detalhe, e ela decorara o caminho de volta ao cômodo que mais acessara durante a sua estadia ali: a cozinha. Abriu a geladeira, pegando qualquer coisa comestível que visse pela frente, e dispôs tudo sobre o balcão, selecionando um certo grupo de alimentos para comer. A deusa não via necessidade de convocar toda uma equipe de criados só para preparar a janta dela, não quando a geladeira de Poseidon era tão cheia de comidas acessíveis.

— Então é você — disse uma voz feminina desconhecida à sua frente. — A mulher pela qual o rei me trocou.

Atena ergueu os olhos, visualizando a próxima pessoa que enviaria para o Tártaro, e se deparou com uma náiade morena, de estatura um tanto quanto baixa e muito cheia de pompa para quem encarava uma deusa em pleno uso de seus poderes.

— E você é...?

— Nathalie — respondeu a náiade, cheia de pose. Talvez Poseidon a tivesse mimado além do recomendado. — Nathalie Frey.

— Nathalie Frey — Atena esfregou as mãos, eliminando os vestígios de sujeira que havia ali. — Você sabe quem eu sou?

— Não me importa quem você é! — disse Nathalie. — Eu fui trocada!

— Meu nome é Atena — disse a deusa. — E eu sou a última pessoa que você quer ter como inimiga nessa vida. Eu sugiro que você cale a boca e saia daqui agora mesmo se gostaria de ficar ilesa.

— Não me importa quem você é; eu vou ser a rainha desse reino, você sabe — alegou Nathalie. — O próprio senhor Poseidon prometeu que...

— Eu não preciso nem ouvir para saber que ele prometeu a mesma coisa para um milhão de outras iguais a você — Atena interrompeu. — Me deixe tirar essa ilusão da sua cabeça agora mesmo: se existe uma coisa que você não vai ser, é rainha.

— Ele não estava mentindo — Nathalie insistiu, mas começava a parecer incerta. — Ele expulsou Anfitrite do palácio por mim.

Atena mal conseguia acreditar que estava tendo uma discussão estúpida como aquela com o que parecia ser uma adolescente sedenta por poder.

— Por você? Não, não por você, menina tola — Atena balançou a cabeça, rindo. — Por ele. É sempre por ele.

— Você diz isso por inveja! — Nathalie gritou, e Atena se alegrou ao perceber que seus argumentos estavam esgotados. — Porque não pode ter o mesmo que eu.

— Inveja? — Atena riu, só porque estava começando a ficar seriamente irritada. — Escute, Nathalie, você realmente precisa que alguém enfie a verdade nessa sua cabeça. Eu sou Atena. Já fiz centenas de coisas que você jamais imaginaria. Já conquistei uma cidade, e já derrubei uma nação. Se eu quisesse esse reino, eu o teria.

— E quem garante que você não quer?

Atena crispou os lábios.

— Saia daqui.

A náiade arregalou os olhos, abrindo um sorriso maldoso.

— Oh, então você qu...

Um olhar: tudo o que foi necessário para que a náiade levasse as mãos ao pescoço, sufocando a si mesma.

— A única razão pela qual eu não vou te matar, Nathalie — disse Atena, vendo o rosto da garota ficar vermelho, e deste para roxo. — É porque sou uma convidada aqui, e não vou sair fazendo justiça como bem entender em um reino que não me pertence. Mas continuo sendo uma deusa, e se eu ver essa sua cara esnobe na minha frente outra vez, você não vai sobreviver para contar histórias sobre a mulher terrível que te ameaçou. Entendeu?

Atena deixou que Nathalie voltasse a respirar, e a náiade se sentou, tossindo desenfreadamente.

— Sim, senhora — respondeu, tão rouca que mal conseguia falar.

Sem precisar de mais avisos, saiu correndo da cozinha. Atena suspirou e arrumou a bagunça que fizera no balcão, guardando todas as coisas de volta no armário. Ao voltar para o corredor onde ficava seu quarto e o de Poseidon, ficou em dúvida por um instante de em que porta entrar. O mais lógico seria ir para o seu próprio quarto, mas a vontade que tinha era de voltar ao quarto de Poseidon e questioná-lo sobre a menina irritante que havia acabado de fazê-la perder a cabeça. Ela não sabia o por quê, só queria. Mas tomou uma decisão racional, e fazia menção de abrir a porta do próprio quarto quando sua dúvida foi sanada por completo:

— Nunca pensei que você fosse mulher de uma noite só, Atena.

A deusa revirou os olhos, sem poder se conter diante de uma pessoa tão infame e tão incrivelmente irritante.

— Eu não vou dormir no seu quarto de novo.

— Por que não? — Poseidon se escorou na porta do próprio quarto. — A cama não estava quente o suficiente?

Atena corou, mas não fraquejou.

— A pergunta não é "por que não?", mas "por que sim?" — disse Atena.

Vendo que não teria resposta além de silêncio, Atena girou a maçaneta e entrou no quarto; mas antes que fechasse a porta, a mão de Poseidon envolveu seu pulso.

— Por que eu estou pedindo?

Atena suspirou.

— Isso não é um motivo.

— Não, não é — Poseidon concordou. — Mas, não te ameaçando, é claro, eu sou o rei desse lugar. E assim sendo, tecnicamente você tem que fazer o que eu quiser, estando sob os meus domínios. Do contrário, eu posso te torturar e matar. É uma lei antiga, pelo que me lembro. Mas claro, sem ameaças.

Atena inclinou a cabeça para o lado, de forma alguma atingida por aquela ameaça.

— Talvez "por favor" fosse suficiente.

Poseidon fez uma reverência, estendendo a mão.

— Então por favor, senhorita, me concederia a honra de sua companhia em meu quarto?

Atena refletiu.

— Se você se comportar...

Poseidon abriu um sorriso sacana que sugeria exatamente o contrário do que ele disse a seguir:

— Prometo que vou me comportar, amor.

Não era lá a declaração mais confiável, mas Atena escolheu acreditar. Ela se sentou na cama, fechando os olhos. Sentia um cansaço tão grande pelo trabalho do dia inteiro que poderia dormir ali mesmo, como estava.

— Você vai tomar banho primeiro ou eu vou? — ela perguntou.

— Pode ir primeiro — Poseidon cedeu. — Ou podemos ir juntos, se você quiser.

Atena torceu o nariz, em uma careta de desgosto e se levantou.

— Se você entrar nesse banheiro, eu arranco seus olhos fora.

Poseidon levantou as mãos como quem se rende e se afastou. Atena fechou a porta e se despiu, olhando-se em seguida no espelho da bancada próxima. Pelo dia exaustivo de trabalho e pelo estresse que passava nos últimos dias, esperava estar com uma aparência horrível, mas se deparou exatamente com o contrário: tinha as bochechas rosadas, os olhos brilhantes e algo diferente em seu rosto. E sabia exatamente a que se devia isso. Deveria se castigar por tal coisa; estava transgredindo seu próprio voto na cara dura, sem pensar nas consequências ao deixar que Poseidon a tratasse daquele modo e se rendendo tão gratuitamente. Céus, quando alguém poderia dizer que Atena, a toda poderosa Atena, deixaria de pensar?

A deusa entrou debaixo do chuveiro, deixando que a água quente eliminasse todas as suas preocupações por pelo menos alguns minutos. Um bom banho sempre deixava Atena relaxada. E além do mais, proporcionava um bom ambiente para pensar sobre a vida. Clichê, mas verdade. Afinal, apenas as verdades mais comuns se tornavam clichês.

— Ei, Atena! — Poseidon bateu na porta. — Ande logo, eu estou com sono.

— Espere um pouco — respondeu Atena. — Ou vai dizer que está preocupado com a conta de água?

— Muito engraçado mesmo — retrucou Poseidon. — Vai demorar muito?

— E se eu for?

— Eu invado o banheiro.

— Você não...

— Duvida? Eu vou contar até três.

— Mas eu ainda não...

— Um.

Atena desligou o chuveiro e correu até o roupão pendurado sobre um suporte do lado de fora do box.

— Dois.

— Espere só um...

— Três. Pronto?

Atena abriu a porta do banheiro, ofegante. Poseidon estava realmente encostado na parede ao lado, mas a julgar pela tranquilidade que exibia, não parecia ter intenção alguma de adentrar no banheiro.

— Você é um infeliz, Poseidon.

O deus percorreu um olhar pelo corpo de Atena, coberto apenas por uma toalha, antes de voltar a focar em seus olhos.

— Eu sei — Poseidon piscou, sorrindo. — Mas sou um infeliz que vai tomar banho antes de amanhecer.

Ele entrou no banheiro, abandonando no quarto uma Atena com a cara fechada.

Minutos depois, Atena estava apoiada sobre o guarda-corpo da sacada, admirando a beleza da capital Atlântida. Nunca havia visto a cidade de perto, mas do alto do palácio de Poseidon, se parecia muito com Nova York: tinha os mesmos milhares de luzes durante a noite, as mesmas ruas repletas de pessoas passeando; a única diferença era a aparência antiquada, herança da arquitetura grega das edificações. Atena adorava observar aquele tipo de coisa, e mal reparou no tempo que passou ali, até que Poseidon saiu do banho, dessa vez já decentemente vestido (e com isso pode-se concluir que ele usava uma calça de moletom, e nada mais) e chamou sua atenção.

— Seu corte melhorou? — ele perguntou enquanto esfregava uma toalha no cabelo bagunçado.

Atena se virou para trás, se assustando com o som de sua voz, e deu de ombros.

— Acho que sim — disse. — Não o senti doer mais.

— Posso ver? — Poseidon pediu.

Atena hesitou. Não havia mal algum em deixar que Poseidon visse, não fosse o fato de que o corte se estendia desde o seu ombro até a sua cintura, e ela não usava nada além de roupas íntimas debaixo do roupão (ficara distraída demais com a vista da sacada para se lembrar de colocar uma roupa). Por outro lado, se dissesse que não, Poseidon começaria um questionário imenso do por quê da resposta, e a convenceria de deixá-lo ver o corte de um modo bem mais constrangedor. Foi pensando nisso que voltou para o quarto e parou de costas para ele, abaixando uma parte mínima do ombro de seu roupão. Mas Poseidon, sempre imprevisível e atrevido, tomou a liberdade de puxar o nó que mantinha o roupão fechado e abaixar ainda mais o tecido, de modo a deixar as costas de Atena quase que completamente visíveis.

— Pode segurar o cabelo para frente?

Sem entender porque o fazia, Atena pegou o próprio cabelo e o jogou sobre o ombro esquerdo, segurando-o ali.

— Não está tão mal — disse Poseidon, correndo um dedo pela extensão do machucado e fazendo com que um calafrio percorresse a espinha de Atena. — Está quase cicatrizado. Você se curou sozinha?

Atena negou com a cabeça.

— Eu não consigo — disse aborrecida. — Foi muito profundo. Mesmo a magia que você usou foi superficial.

— Estranho — Poseidon comentou.

Poseidon deslizou o pano do roupão de volta ao lugar, e Atena tinha certeza de que havia conseguido passar por aquela, mas seu corpo, tão traiçoeiro, não colaborou. Ao toque áspero de Poseidon em seu ombro, seu corpo se arrepiou por inteiro. O deus dos mares, que não deixava passar nada, percebeu o gesto e riu. E então deslizou o braço até a cintura de Atena e ao redor desta, lhe causando mais um calafrio gostoso ao tocar a pele nua de sua barriga não coberta pelo roupão aberto, e muito lentamente, encostou os lábios na curva de seu pescoço, a barba rala arranhando deliciosamente a pele de sua clavícula.

Atena não o afastou dessa vez. Afinal, já havia quebrado, em parte, o seu voto ao beijá-lo da primeira vez — e da segunda, e da terceira. De que valeria resistir tão intensamente se iria se render no final? Assim, ela deixou que ele a beijasse. Deixou que explorasse sua pele com os lábios, que colasse seu corpo ao dele e que a fizesse esquecer de tudo o que era errado enquanto atirava a cabeça para trás, se apoiando no ombro dele.

— Me diga uma coisa, Atena — Poseidon mordiscou seu ombro, próximo à curva do pescoço. — Se você não quer, por que nunca me para?

— Eu nunca disse isso — Atena respondeu num impulso, mordendo os lábios para não gemer enquanto falava. — Disse que não posso.

— E por que, exatamente, você não pode?

— Você sabe o por quê.

— Não, não sei — Poseidon girou-a até que estivessem frente a frente, e Atena quase choramingou porque ele havia parado o que fazia. — Sei sobre o seu voto, mas não sei o motivo dele, o que é igual a não saber.

— Você ainda não me disse porque me beijou — Atena rebateu. — Esse foi o nosso acordo.

— Então não é porque há uma consequência caso você quebre o voto?

Atena mordeu o lábio com mais força. Se fizesse um pouco mais de pressão, com certeza sangraria. Poseidon demonstrou surpresa genuína à sua falta de resposta.

— Não há uma consequência, Atena?

Lentamente, a deusa negou com a cabeça.

— Acho que eu sempre considerei a possibilidade — ela admitiu. — Eu não seria burra a ponto de me castigar voluntariamente por quebrar o meu voto.

— É curioso, vindo de você — era a primeira vez que Atena via Poseidon se chocar com uma atitude sua. — Eu realmente não sabia.

— Ninguém sabia. Essa era a intenção.

Atena não sabia porque estava contando aquilo para Poseidon. De todas as pessoas no mundo, ele era o último que deveria saber. Mas ainda assim, algo dizia que podia confiar nele para guardar aquela informação.

— Eu não vou contar para ninguém — Poseidon garantiu. — Mas... talvez eu exija algumas coisas em troca.

— Isso é chantagem?

— Claro que não — Poseidon levantou o roupão de Atena até os ombros outra vez, um sorriso sacana no rosto. — Longe de mim fazer algo assim com você, amor.

Atena se sentou na cama, realmente triste por não sentir mais os beijos de Poseidon em seu pescoço, mas então se lembrou que tinha um outro assunto em mente. Ela não sabia como abordar aquele assunto com Poseidon — sequer sabia se devia abordá-lo, mas se não o fizesse, com certeza aquilo ficaria rondando sua mente por dias e dias.

— Eu consigo ouvir sua mente funcionando daqui, Atena — Poseidon disse, se sentando à sua frente e a tirando de seus devaneios.

A deusa ergueu o olhar para ele.

— Do que você está falando?

Poseidon levantou uma sobrancelha.

— Vá em frente, pode perguntar — ele disse. — Você parece estar sendo atormentada.

Atena respirou fundo antes de falar.

— Tudo bem. Tente não me achar estranha por isso, mas... — Atena ergueu uma sobrancelha. — Quem é essa Nathalie?

Poseidon inclinou a cabeça, confuso.

— Eu é que te pergunto. Quem é Nathalie?

— Uma náiade que veio falar comigo hoje — Atena esclareceu. — Ela disse que eu roubei você dela e algumas outras coisas.

— Oh, então esse era o nome dela — Poseidon riu. — E...?

— E disse que você tinha prometido que ela seria rainha de Atlântida — Atena continuou, tentando parecer casual. — E que você deixou Anfitrite por causa dela.

— Incrível — Poseidon balançou a cabeça. — Todas as coisas que ela disse estão erradas. Bom, talvez nem todas. Mas eu nunca prometi que ninguém seria minha rainha e eu definitivamente não me separei de Anfitrite por causa de uma náiade cujo nome eu acabei de descobrir.

— Então ela inventou tudo isso para me provocar? — Atena perguntou, incrédula.

— Provavelmente — Poseidon concordou, um sorriso de pura diversão se formando em seu rosto. — E o mais interessante é você ter caído na história dela. Por que essa curiosidade, Atena? Ciúmes?

— Não seja ridículo — Atena rolou os olhos. — Eu fui confrontada por uma náiade e quis esclarecer o porquê. É só.

— Aham — Poseidon não parecia acreditar. — E eu nasci ontem.

— Parece — Atena brincou com uma pontinha solta do lençol, não sabendo como faria a próxima pergunta. — Posso te perguntar uma outra coisa?

Poseidon se aprumou no lugar.

— O que você quiser, amor.

— Quando eu estava conversando com Helena no jardim... — Atena fixou os olhos em Poseidon, que parecia muito interessado. — Ela me disse que Anfitrite não gostava de mim.

Pela primeira vez em muito tempo, Atena viu Poseidon parecer alarmado, como se ela fosse uma bomba a segundos de explodir. Era tão estranho, e não combinava com seu semblante sempre tão relaxado, mas seus lábios se crisparam e seus olhos ficaram mais atentos.

— Qual é a sua dúvida? — ele se esquivou, como se soubesse exatamente aonde Atena queria chegar.

— Isso é verdade? — Atena perguntou, por fim.

— É sim — Poseidon respondeu, muito curto.

— Por quê? — Atena insistiu.

— Anfitrite não gostava de nenhum olimpiano — disse Poseidon, mais uma vez se esquivando.

Atena estreitou os olhos.

— Mas por que Helena falou especificamente de mim?

Poseidon respirou fundo.

— Atena, isso envolve muito mais do que você entenderia — ele disse, se levantando e indo até o interruptor para apagar a luz.

— Acho que meu cérebro consegue processar sua resposta, Poseidon — Atena se levantou e foi atrás dele.

— Não tem a ver com a capacidade do seu cérebro, amor — Poseidon suspirou. — Se tivesse, é claro que eu te contaria. Tem a ver com o fato de que você nunca foi casada ou qualquer coisa parecida, e não sabe como isso funciona.

— Me dê uma versão que eu consiga entender, então — Atena estava muito perto de Poseidon, bem debaixo de sua respiração quente, e apesar do clima tenso que pairava sobre eles, estava determinada a obter uma resposta.

O silêncio pairou pelo ambiente por um longo tempo enquanto os deuses se encaravam, de pé, uma concentração tão grande de poder em um só lugar que o quarto poderia muito bem explodir a qualquer instante.

— Anfitrite sempre me acusou de ter uma preferência por você, entre todos os olimpianos — Poseidon respondeu por fim, e embora parecesse ter escolhido cuidadosamente as palavras, Atena sentiu o peso do que ele disse. — E ela se sentia ameaçada por isso porque você é melhor do que ela. É melhor em todos os aspectos, e ela sempre soube disso. Eu sempre soube disso. E ela odiava o fato de que eu sabia. — o deus suspirou. — E parece que ela estava certa, afinal.

A respiração de Atena ficou pesada. Ela entendia a profundidade daquilo, muito mais do que Poseidon imaginava.

— Ela não gosta de mim porque eu sou... eu?

— Superficialmente, é por aí — Poseidon cruzou os braços. — Ficou simples o bastante para você entender?

— Sim — Atena assentiu, abaixando a cabeça.

Havia falado demais. Não deveria ter forçado Poseidon a responder uma pergunta daquele nível quando ela mesma se recusava a dizer o motivo para ter feito seu voto. Agora sentia algo pesar em seu coração, e tinha certeza de que era culpa. Só não sabia como se desculpar por algo que não tinha como consertar.

Só então havia ocorrido a ela que talvez Anfitrite tivesse mesmo ido embora por causa dela, e isso só fazia Atena se sentir pior. E se ela tivesse acabado com um casamento já fraco? E se a razão pela qual Poseidon agora estava sozinho fosse ela? E se houvesse muito mais coisas envolvidas no ressentimento que ele tinha dela do que ela suspeitava?

No escuro do quarto, Atena só conseguia saber que Poseidon tinha deitado na cama pelo rangido que ecoou pelo cômodo quando o colchão se moveu. Em silêncio, ela se arrastou pelo quarto e se sentou do seu lado. O deus estava de costas para ela, o que definitivamente era um sinal de que algo estava errado, mas Atena realmente não sabia o que dizer. Como abordaria aquele assunto sem deixar tudo pior?

Atena simplesmente pegou a mão de Poseidon e acariciou com o polegar. Ela nunca tinha parado para pensar que nunca havia feito aquilo antes — segurar a mão de Poseidon espontaneamente, sem intenção de levá-lo à algum lugar -, mas se pegou gostando da sensação. Sua palma era áspera e calejada, marcada pelo que a deusa sabia serem batalhas mortais ou mesmo, ela suspeitava, por pescarias. E ela não sabia porque fazia aquilo, só sabia que um impulso dentro dela dizia que devia fazer.

— Me desculpe — disse tão baixo que só no silêncio absoluto daquele quarto sua voz era audível. — Você estava completamente certo. Eu sou racional por inteiro, e realmente nunca vou entender de verdade como funcionam os sentimentos ou como é dedicar a minha vida a outra pessoa além de mim, e tudo o que tem relação com isso é incompreensível para mim. Me desculpe por te fazer falar sobre isso — a essa altura um nó havia se formado na garganta de Atena, e sua voz logo ficaria embargada. — Eu prometo não tocar mais nesse assunto e te deixar em paz agora.

Atena soltou sua mão e saiu dali o mais rápido possível antes que não conseguisse controlar a vontade inexplicável que sentia de chorar, mas assim que alcançou a porta, já havia alguém lá.

Os braços de Poseidon envolveram sua cintura carinhosamente, e ele puxou o corpo de Atena para junto do seu. A deusa teve que respirar muito fundo para sustentar um semblante ameno.

— Não é verdade, Atena — ele disse, e sua voz era muito mais do que um calmante para ela. — Você mais do que ninguém sabe o que é dedicar sua vida a outra pessoa.

— O que você quer dizer? — Atena olhou para baixo, temendo que seus olhos estivessem vermelhos.

— As coisas que fazem com você no Olimpo? — a voz de Poseidon estava carregada de uma raiva que ela só havia visto uma vez, na última vez em que tocaram nesse assunto. — O tempo que eu passei com você foi suficiente para perceber. Você mal come. Você não dorme direito. Você passa o dia trabalhando, e sempre que qualquer coisa dá errado, você acha que é sua culpa. Os olimpianos jogam tudo em cima de você, e você carrega as responsabilidades de todos nas costas e nem recebe um agradecimento por isso. Se isso não é dedicar a vida a outra pessoa, então eu não sei o que é.

Atena engoliu em seco, ouvindo atentamente a tudo o que ele dizia.

— E sobre os sentimentos — Poseidon colocou uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha. — É claro que você entende. Você está viva. Se você não sentisse, nem estaria aqui. Se você não sentisse, não teria compaixão de todos os deuses a ponto de carregar a vida deles nas costas. E se você não sentisse, também não me faria sentir do jeito que eu me sinto.

Atena finalmente criou coragem para olhar em seus olhos. E as orbes verdes de Poseidon só podiam ser a coisa mais linda que ela já havia visto.

— Do jeito que você se sente? — Atena questionou, confusa, tentando ler através de seus olhos verdes que a fitavam no escuro. — E que jeito é esse?

— Eu não sei — Poseidon admitiu, e Atena sentiu que o aperto em sua cintura vacilou. — Mas definitivamente é algo inédito para mim, e você é a única que causa isso.

Atena não sabia muito bem como responder àquilo, mas por sorte, Poseidon continuou a falar.

— Mas principalmente, você estava errada sobre a última parte. Você não me deixaria em paz indo embora. Muito pelo contrário — Poseidon beijou sua testa — a única coisa que me deixa em paz é a sua presença aqui, amor. Não é à toa que eu te peço para dormir comigo todas as noites. Você tem... alguma coisa, eu não sei... que me dá tranquilidade.

— De verdade? — Atena perguntou, sem acreditar.

— Eu não minto para você, Atena — Poseidon garantiu. — Agora, você poderia me fazer o favor de continuar aqui comigo?

Atena assentiu com a cabeça, incapaz de fazer qualquer outra coisa, e se deixou ser guiada por Poseidon até a cama. A deusa se jogou sobre os travesseiros, exalando fortemente, e só então se lembrou que ainda usava apenas um roupão por sobre suas roupas íntimas.

— Argh — ela soltou quase involuntariamente.

— O que foi? — Poseidon perguntou, se sentando ao seu lado depois de terminar uma xícara de café.

— Esqueci de colocar uma roupa — disse Atena.

Não era a coisa mais sensata a se dizer do lado de Poseidon, ela refletiu depois. Mas o que fora dito não podia voltar à sua boca.

O deus levantou uma sobrancelha maliciosamente.

— Bem, você não precisa colocar uma roupa.

Atena corou.

— Por que será que eu já imaginava que você fosse responder algo assim? — ela perguntou.

— Porque é verdade, amor — Poseidon respondeu simplesmente.

Atena fazia menção de se levantar para se vestir quando o deus rolou na cama até atingir uma posição em que estava em cima dela, os braços ladeando sua cabeça e os olhos muito fixos nos seus.

— Tem certeza de que quer ir colocar uma roupa?

— Não sei — Atena respondeu, só pelo pequeno prazer de ver Poseidon se derreter com sua resposta; ela não realmente planejava dormir seminua ao lado dele. — Ainda não me decidi.

— Eu te ajudo a tomar uma decisão — o deus respondeu.

Numa reviravolta que a deusa não esperava, Poseidon se abaixou e abocanhou seu pescoço, enchendo a curva de beijos e mordidas que subitamente a fizeram delirar. O plano de Atena não era exatamente esse ao provocá-lo minutos atrás, mas como ela preveria que ele faria isso?

— Poseidon — ela chamou sua atenção com muito esforço. — Você disse que ia se comportar.

O deus dos mares ergueu a cabeça para encará-la e sorriu descaradamente.

— Disse? — ele voltou a se abaixar, dessa vez para se encontrar com seus lábios, onde os selou brevemente com os dele. — Não me lembro.

Poseidon voltou a beijá-la, dessa vez muito mais intensamente, atacando sua boca como se dependesse de Atena para viver. Suas línguas dançavam uma dança desenfreada, se enroscando uma na outra enquanto, lentamente, uma das mãos do deus ia até o nó já folgado do roupão e o desafazia. Atena estava muito ciente de tudo aquilo acontecendo; estava ciente de estar sendo discretamente despida por ele, da mão do deus passeando livremente por sua pele exposta, mas honestamente, nem uma única célula de seu corpo queria que aquilo parasse, e a deusa não teve qualquer motivação para impedir Poseidon quando o deus por fim abriu seu roupão e jogou o tecido para o lado, expondo o corpo da deusa quase completamente.

Ele abandonou seus lábios com uma mordida no final, para então seguir para o pescoço e clavícula de Atena. Sua boca não parava de morder e chupar sua pele, enquanto uma de suas mãos subia e se agarrava na coxa da deusa. A essa altura ela já estava extasiada, fora do controle de seu corpo e de seus pensamentos de uma forma que jamais imaginara, e só o que conseguia era sentir uma necessidade maior; queria que Poseidon fizesse mais, queria senti-lo mais. De onde vinha isso ela não fazia ideia; era um sentimento inédito. Mas que Poseidon fazia maravilhas com ela naquele momento, era uma verdade inegável.

Ele desceu os beijos para seus seios, ainda cobertos pelo sutiã fino, mas Atena já sentia um pedaço do paraíso sendo tocada ali ainda que por cima do tecido. O deus a mordiscava e beijava e com as mãos fazia ainda melhor — apertava suas coxas, sua cintura, onde quer que alcançasse. Atena percebeu que ele estava tentando não ultrapassar os limites, mantendo seus toques muito cuidadosos apesar da carta branca da deusa, e bem lá no fundo, ela foi grata por isso. Poseidon não se demorou muito em seus seios, não quando tinha o corpo todo à disposição, e logo desceu ainda mais, marcando sua barriga e seu umbigo, e por fim chegando à zona onde apenas a calcinha de Atena o separava da pele da deusa. Ele parou ali, sabendo que já não podia mais ir em frente mesmo antes que Atena o tivesse chamado.

— Poseidon... — ela pediu naquele único momento de sobriedade em que ele havia feito uma pausa.

O deus voltou à altura do rosto de Atena, sorrindo levemente.

— Eu sei, amor... — ele a beijou brevemente. — Desculpe.

— Tudo bem — Atena concedeu. — Você não precisa parar.

Ele balançou a cabeça, beijando desesperadamente os lábios da deusa outra vez. Suas mãos voaram para a cintura dela, se agarrando à sua pele e trazendo Atena para mais perto de si, de forma que seus corpos se tocavam quase que completamente. Levou algum tempo até que ambos ficassem sem ar e o deus fosse obrigado a se afastar.

— Não fale isso — ele avisou. — Se eu não parasse agora, não conseguiria parar mais. E nem você.

— É, talvez você esteja certo — Atena admitiu.

Nunca havia passado por aquela experiência antes, mas tinha que admitir que nos poucos minutos em que Poseidon beijava seu corpo, sua consciência parecia tê-la abandonado. Com pouquíssima insistência da parte do deus, ele poderia ter feito o que quisesse sem um protesto sequer vindo dela. E Atena era realmente grata porque, sem qualquer pedido dela, ele sabia a hora de parar.

Poseidon rolou de volta para o seu lugar, ao lado de Atena, e abraçou a deusa, como ele já parecia ter criado o hábito de fazer.

— Boa noite, Atena — ele disse, pondo fim às divagações dela.

A deusa o encarou por apenas um segundo, absorvendo para si a energia tão boa que vinha de seus olhos, e sorriu antes de responder:

— Boa noite, Poseidon.

***

Apesar de todo o conforto que era Poseidon e de todo o cuidado e carinho que ele teve com ela, naquela noite Atena não conseguiu dormir muito bem. Talvez porque o clima tendesse a ficar estranho quando se dormia ao lado de alguém que havia te agarrado poucos minutos antes, cujas marcas de beijos e mordidas ainda eram visíveis no pescoço, e cujos dedos repousavam tranquilamente sobre sua cintura. Talvez porque muitos pensamentos adversos ribombassem em sua mente. De qualquer forma, só conseguiu dormir quando, no meio do sono, Poseidon se virou para o outro lado, e um espaço maior que dois centímetros os separou.

Seus sonhos também não foram os melhores. Os deuses não costumavam ter sonhos, mas quando algo perturbava muito sua mente, tinham memórias do passado ou visões do futuro. No caso de Atena, foi uma memória do passado. Ela viu Poseidon (mas que novidade!) sentado com ela na grama verdinha que revestia os jardins do Olimpo. Tinha um sorriso lindo no rosto; não um dos sorrisos maliciosos que costumava dar, e tampouco um sorriso irônico, mas um sorriso verdadeiro. Atena, deitada com a cabeça sobre suas pernas, se juntava a ele em uma gargalhada, uma gargalhava viva que a deusa jamais havia dado de novo desde então. Poseidon pegou a mão de Atena e levou aos lábios, depositando ali um beijo.

— Atena, eu vou me casar com você qualquer dia desses.

— Aham — Atena deu mais uma risada, puxando de volta a própria mão. — Se me lembro bem, você disse isso para uma ninfa do campo ontem mesmo.

— Ah, aquilo foi só charme — Poseidon dispensou o comentário com um gesto. — Estou falando sério. Vou me casar com você, amor. Você vai ser a minha rainha. E nossos filhos vão se chamar Alexandre e Sophia. Serão um casal. E vamos ter um cavalo marinho de estimação.

— Uau. Tudo bem, então — Atena riu mais uma vez, enquanto o deus corria uma mão pelo cabelo dela. — Já que você já planejou tudo... Mas me dê algum tempo para considerar os nomes.

— O quanto você quiser.

Poseidon beijou o topo de sua cabeça, e então a lembrança se dissolveu em uma densa fumaça preta e Atena acordou suada, com lágrimas caindo de seus olhos.