Três Desejos

14 Capítulo Treze


Capítulo Treze

Há muito tempo que Atena não chorava. Talvez a última vez em que o fizera foi quando seu filho Dédalo morreu (se não contasse a vez depois do beijo de Poseidon, é claro), mas ela não era o tipo de pessoa que se debulhava por qualquer coisa. Sua postura usual — e de muita honra, obrigada — era a de soberania, força e inteligência. Não tinha espaço para sentimentalismo ou qualquer coisa que viesse do coração em seu ramo de trabalho. Só o que usava era a mente e às vezes a força física, nada mais que isso. Ainda assim, ela tinha que admitir, chorar podia ser gratificante.

Não era sua intenção propriamente chorar. Acordara com lágrimas escorrendo de seus olhos, e isso não era sua culpa. Deuses eram seres espontâneos e de essência pura, ainda que a corrompessem com o decorrer dos séculos. Mas quando se sentou na cama, olhou para o lado e percebeu que Poseidon não estava ali, não proibiu a si mesma de chorar de verdade, com direito a soluços e cabelos bagunçados. Deixou que seu rosto se avermelhasse, que a cabeça doesse e que o travesseiro abafasse sua dor. Já que não podia conversar com ninguém, muito menos com Poseidon, que contasse seus sofrimentos para o silêncio da manhã. E foi um alívio. Foi um alívio saber que algo de humano ainda vivia em si. Porque sim, os deuses tinham um lado humano. Os humanos não haviam sido criados conforme sua imagem? E os humanos não compartilhavam de sentimentos divinos? Então, obviamente havia algo de humano nos deuses, e esse algo ainda era parte de Atena.

Finalmente pareceu que já não havia mais água para ser derramada de seu corpo, e as lágrimas cessaram, junto com os soluços. Atena foi até o banheiro e se olhou no espelho. Seu rosto estava horrível como o de qualquer um ficaria após uma temporada de choro. Olhos inchados, bochechas vermelhas, cabelos desgrenhados... Ela abriu a torneira e jogou água gelada no rosto até que só restassem pequenas marcas vermelhas quase imperceptíveis. Aceitável, mas Atena não tinha certeza se já podia sair.

Uma batida na porta, no entanto, contrariou sua ideia de sair da vista de todos por um tempo, e Atena andou arrastando-se sobre os próprios pés para atender. Se fosse Poseidon, ele sem dúvidas desconfiaria de algo com apenas uma olhada. Ele tinha esse dom de ler através dela como se ela fosse um livro aberto. Mas as batidas se tornaram mais fortes e constantes, e uma voz feminina chamou seu nome, com o prefixo "senhora", então Atena se tranquilizou antes de abrir a porta.

Parada no corredor, com o rosto quase tocando a madeira da porta, Helena tinha em mãos uma bandeja prateada carregada de alimentos para o café da manhã. A menina tinha os longos cabelos presos em um coque desajeitado no topo da cabeça e usava roupas parecidas com aquelas que vestia no dia em que conhecera Atena — sandálias, um pingente minúsculo atado ao tornozelo esquerdo e shorts jeans tão curtos que desapareciam sob o camisão com o nome de um time americano de basquete. Atena se perguntou como uma garota que sequer sabia pronunciar "França" conseguia se vestir tão parecida com as adolescentes de Nova York.

— Bom dia, Atena! — exclamou animada. — Poseidon me pediu para trazer seu café da manhã, porque ele não vai poder comer com a gente hoje.

— Oh. Bom dia — fez Atena, abrindo espaço para que Helena entrasse no quarto. — Ele chegou a dizer o porquê?

— Não — disse Helena. — Só disse que tinha que sair para resolver alguma coisa do reino.

Atena assentiu, pegando uma torrada da bandeja e mordendo. Helena aproximou o rosto dela, e franziu as sobrancelhas.

— Se me permite perguntar, está tudo bem?

Atena deu de ombros, tentando parecer casual.

— Claro que sim.

— Não parece — afirmou Helena, estreitando os olhos em desconfiança. — Se eu tivesse que chutar, diria que você esteve chorando.

— Impressão sua.

— Atena — Helena puxou seu braço, fazendo com que a deusa a encarasse. — Eu não sou burra. Sei que aconteceu algo. Não quer conversar sobre isso?

Atena suspirou.

— É complicado, Helena. Um assunto de milênios.

— Bem, eu tenho milênios — Helena apontou, se sentando na cama com um olhar sugestivo. — Me deixe adivinhar: tem a ver com Poseidon.

— E quando é que não tem a ver com ele?

Helena sorriu.

— Venha cá. Me conte tudo. Eu sinto que você não conversa com muitas pessoas.

— É verdade — Atena concordou. — Mas isso é porque eu não costumo ter tempo.

— Então esse será um desabafo perfeito! — Helena exclamou. — Temos todo o tempo do mundo. Venha, sente aqui.

Atena se sentou ao lado de Helena na cama e suspirou.

— Se eu te contar uma coisa, você promete não contar para ninguém?

— Mas é claro — Helena colocou a mão sobre o peito respeitosamente, como se estivesse prestes a cantar o hino nacional. — Essa conversa nem aconteceu.

— Bom... Eu não sei por onde começar — Atena puxava um fio desfiado do lençol, nervosa. — Essa noite eu... Eu...

Atena abriu e fechou a boca diversas vezes, tentando vocalizar palavras que não saíam.

— Tudo bem — Helena a acalmou. — Respire fundo. Não tenha pressa. Tome seu tempo.

— Okay. Essa noite eu tive uma memória — disse Atena lentamente. — Sabe, alguns anos atrás... E com isso eu quero dizer uns quatro milênios...

— Espere — Helena a cortou. — Quantos anos você tem?

— Ah, eu sou uma das mais novas — disse Atena. — Tenho quatro mil e quarenta e dois anos.

— Uau — os olhos de Helena brilharam. — E eu com meus três mil anos me achando velha.

— Você não viu nada — Atena sorriu. — Se não me engano, Poseidon tem mais de quinze mil e seiscentos anos. Hades é ainda mais velho: ele tem dezessete mil trezentos e doze.

— Ah, o Hades — Helena estremeceu. — Não gosto muito da presença dele. Ele me dá medo. Como se carregasse algo ruim. Da última vez que veio aqui, eu via coisas estranhas toda vez que ele passava por mim; como se fossem visões, é difícil explicar.

— Dificilmente alguém gosta de Hades — Atena abriu um sorriso triste. — Mas ele não é um deus ruim. Pelo menos não em comparação ao resto de nós. O que acontece é que os deuses tem medo demais para falar com ele.

— E você não?

— Eu o entendo — disse Atena. — Ele precisa manter uma postura para que seja respeitado. Isso é algo que temos em comum.

— Mas ele... Oh, esqueça — disse Helena. — Me desculpe pela interrupção. Por favor, prossiga.

Atena cruzou as pernas, apoiando os cotovelos sobre os joelhos.

— Noite passada eu tive uma memória — repetiu. — Há seis milênios, Poseidon e eu éramos amigos. Realmente amigos. Talvez até algo mais do que isso. Andávamos juntos para todos os lados. Ele já chegou a me trazer aqui antes — Atena lembrou. — Mas era no outro palácio, aquele que foi destruído, e você ainda não era nascida. Eu me lembrei de uma vez em que estávamos no jardim do Olimpo e ele... Ele disse...

O resto da frase se perdeu na garganta de Atena. Ela não conseguia falar. Doía tanto e tão profundamente que ela não podia verbalizar o que sentia. Era como se uma faca fosse cravada em seu peito, esperando pela palavra certa para rasgá-la de cima abaixo. E como se não bastasse, ainda havia Helena, olhando para ela de modo inquisidor.

— Eu não consigo, Helena — ela disse. — Me desculpe, mas eu não posso te contar. Não estou pronta para isso.

— Está tudo bem — Helena se levantou, pousando uma mão sobre o ombro de Atena. — Quando estiver pronta, sabe onde me encontrar.

Atena assentiu, agradecendo. Helena se dirigiu à porta, fazendo menção de sair, mas assim que a abriu, se deparou com Poseidon em pessoa parado bem na sua frente. Atena enrijeceu, se perguntando quanto da conversa ele teria ouvido, mas Poseidon tinha uma expressão neutra no rosto, então talvez ela não tivesse entregue seu segredo.

— Helena — ele cumprimentou simplesmente, e então se virou para Atena.

Suas sobrancelhas franziram no momento em que ele olhou para a deusa, e ela tinha certeza que ele havia reparado em seu rosto vermelho no mesmo instante; no entanto, ele não disse nada sobre o assunto.

— Bom dia, amor — foi só o que ele disse, mas ainda corria os olhos pelo rosto de Atena. — Já terminou seu café?

— Amor...? — Helena divagou, muito baixo, mas não recebeu qualquer atenção.

— Ainda não, mas não estou com fome — Atena respondeu e se levantou, esfregando as mãos para se livrar dos farelos de pão. — Aconteceu alguma coisa?

— Preciso que você venha comigo — disse Poseidon, misterioso. — Te explico no caminho.

Engolindo em seco, Atena simplesmente fez aparecer uma roupa decente em seu corpo e o seguiu. Assim que chegaram a um corredor deserto, Poseidon se virou para ela e se aproximou de seu rosto, parecendo muito preocupado.

— Vai me contar o que aconteceu? — ele perguntou.

— Nada aconteceu — Atena abriu um sorriso forçado, tentando disfarçar. — Por que a pergunta?

— Não minta para mim, Atena — Poseidon rolou os olhos. — Por que você estava chorando?

— Não é nada, Poseidon. Eu não estava chorando.

O deus dos mares respirou fundo.

— Eu vou deixar passar, só porque precisamos correr — ele disse. — Mas não pense que eu vou me esquecer. Vamos conversar sobre isso mais tarde.

Atena tinha arrepios só de pensar no inquérito que sofreria depois; sabia que Poseidon nunca desistiria de arrancar a verdade dela, e ela tampouco era capaz de mentir para ele. Temia que, se ele se esforçasse, acabaria tirando dela muito mais do que esperava.

Enquanto caminhavam em silêncio pelos corredores vazios de uma área do castelo que Atena nunca havia visto antes, a deusa desviou a atenção para a arquitetura do lugar para evitar pensar em Poseidon. Tinha um estilo olimpiano padrão, a tradicional arquitetura grega, mas todos os cantos tinham um toque inconfundível de Poseidon. Incrustadas no mármore impecavelmente branco, às vezes azulado, havia esmeraldas e diamantes em desenhos serpenteados, ora formando a forma de um tridente, ora dando a impressão do movimento das ondas. Em alguns corredores, principalmente aqueles virados para o lado de fora do castelo, as paredes eram inteiramente de vidro, dando vista para os jardins exuberantes e coloridos do palácio, e também para uma pequena parte do reino. Grego e impressionante, mas não ordinário. Assim como Poseidon.

Poseidon diminuiu o passo quando chegaram a um corredor onde havia uma única porta de madeira, com entalhes e inscrições que Atena não se deu ao trabalho de ler. Provavelmente diziam algo sobre coragem, batalhas e guerreiros. A porta se abriu sozinha, revelando uma sala elaborada; lembrava o escritório de Poseidon em muitos aspectos, desde a mesa de reuniões até a planta viva do reino desenhada no chão. A diferença era que aquela sala era muitas vezes menor. No entanto, a sala não estava vazia. No meio do ambiente, ladeado por dois tritões em armaduras completas, havia um homem muito jovem, de não mais que dezoito anos (ou talvez dezoito mil, se fosse imortal), as mãos atadas com algemas de bronze celestial. Era louro, com olhos azuis ofuscados por mechas que caíam sobre o rosto, e tinha algumas sardas nas bochechas. Se parecia muito com Apolo, e Atena pensou que ele poderia até ser filho do deus. Um pouco à frente dos três, estava o sumido general Dolfim. O homem fez uma reverência para Poseidon, tal como os dois soldados atrás dele, e em seguida repetiram o ato para Atena.

— Senhora Atena — disse o general. — Que prazer encontrá-la novamente. E se me permite dizer — ele se inclinou e beijou a mão de Atena, — está linda hoje. Como sempre, é claro.

Atena percebeu de soslaio a reação de Poseidon, com ar de divertimento: o deus tinha os braços cruzados e uma sobrancelha erguida, talvez em descrença, talvez em raiva; não havia como dizer. Atena voltou a olhar para frente, segurando o riso.

— Obrigada, general — ela respondeu, e então voltou a atenção para o jovem acorrentado.

— Ele diz que se chama Jack — disse Poseidon, e Atena foi capaz de sentir a desconfiança em seu tom. — Veio das terras fora do território de Atlântida e agora se apresenta para servir o meu exército. Queria ouvir a sua opinião sobre ele.

Atena não pôde deixar de se sentir lisonjeada por aquele voto de confiança, muito embora não fosse demonstrar perante aquela gente, e manteve sua postura. Aproveitou para analisar melhor o rapaz, tomando um pouco de proximidade. Ele tinha cheiro de terra, e não poderia ser diferente já que ele vinha de longe. Os cabelos estavam mal aparados, o que não costumava ser característica de um soldado, então ele dificilmente pertencera a um exército antes — e se pertencesse, quantos exércitos existiam com seres semi-humanos capazes de viver no fundo do mar?

Contudo, em nenhum momento o jovem desviara os olhos de Atena enquanto esta o analisava. E nunca alguém que não fosse um soldado corajoso, ou mesmo um deus disposto a morrer por qualquer que fosse seu propósito, enfrentava a deusa da sabedoria assim. Algo sobre aquele homem se tornou subitamente indecifrável, mas não parecia haver maldade nele.

— Você me parece limpo — Atena olhou fixamente para o jovem, que sustentou seu olhar. — Me conte sua história.

— Eu e minha família vivemos numa área afastada da cidade. Meu pai procura pedras preciosas e vende para uma joalheria no centro, e minha mãe é dona de casa — Jack explicou, e sua voz era quase uma melodia. — Tenho uma irmã mais nova de três anos, e como minha família já tem muitas despesas para arcar, me apresentei para o serviço militar.

— E por que a sua família mora afastada da cidade?

— A maioria dos territórios com pedras preciosas dentro da cidade já tem proprietários. O terreno onde fica a minha casa é o mais próximo onde meu pai pode fazer escavações sem ser incomodado.

Atena ponderou por um segundo e então se afastou, ficando ao lado de Poseidon.

— Eu acho que você deve dar a ele o benefício da dúvida. Embora... — Atena chegou mais perto de Poseidon para falar o que vinha a seguir. — Não acha que ele é um pouco baixo para um soldado?

Poseidon não conseguiu se conter e soltou uma risada bastante audível, à qual o general e os soldados reagiram com expressões de confusão, e Atena, que sabia exatamente a razão do riso, rolou os olhos.

— Eu não sou um soldado, Poseidon. Não preciso ser alta — ela disse, quase num sussurro. — Você sabe que eu escolhi minha altura de acordo com o método de batalha mais efet...

— Eu sei, amor, eu sei — ele abraçou os ombros de Atena, mas ainda tinha um sorrisinho debochado no rosto. — Podem levar o garoto, mas mantenham-no nos terrenos do palácio. Quero ficar de olho nele — Poseidon disse aos soldados, que o soltaram imediatamente.

Uma vez livre, a primeira coisa que Jack fez foi se dirigir até onde Atena estava e se ajoelhar diante dela, beijando em seguida a mão da deusa num cumprimento gracioso.

— Obrigado, minha senhora — disse, se colocando então de pé. — É uma honra receber a sua confiança.

Atena puxou a mão de volta, colocando junto da outra atrás das costas.

— Não há de quê, Jack. Mostre que estou certa ao confiar em você.

— Sim, minha senhora.

Os soldados agarraram os braços Jack e o levaram de lá, e Atena fazia menção de se virar para sair quando foi interrompida pela voz engraçada de Dolfim.

— Minha senhora — o general deu um sorriso de lado que era quase assustador, — eu estava indo agora mesmo conferir a reforma do Centro de Treinamento. Estava me perguntando se não gostaria de me acompanhar?

Atena olhou para Poseidon, dessa vez não para rir dele, mas como um pedido silencioso. Esperava que ele soubesse — mesmo que ela nunca tivesse dito em voz alta ou demonstrado na presença dele — que a presença do general Dolfim era incômoda para ela.

Ela não sabia quando havia desenvolvido aquela preferência por Poseidon a qualquer outro homem (na verdade, só havia descoberto esse sentimento depois das investidas tão insistentes do general) mas sabia que agora esse sentimento gritava dentro dela mais do que nunca. Ela não precisava, ela queria ele ali. Por sorte, ele pareceu entender seu olhar, porque se aproximou dela, lançando um olhar extremamente questionador na direção do general.

— É claro que vossa majestade também está convidado — Dolfim acrescentou, entendendo o recado.

Poseidon meneou com a cabeça e, junto de Atena, seguiram o general quando ele se dirigiu, parecendo muito contrariado, à porta. Chegando ao lado de fora, sua mão escorregou para baixo e ele entrelaçou a mão aos dedos de Atena. O ato pareceu vir dele com uma naturalidade incrível, mas Atena não pôde deixar de dar um sorrisinho envergonhado com aquele gesto tão espontâneo.

— Obrigada por isso — ela disse num murmúrio, embora já estivessem suficientemente longe.

Poseidon olhou para ela, um sorriso de lado nos lábios.

— Pelo quê?

Atena o encarou de volta, impaciência em suas orbes cinzentas.

— Você sabe pelo quê — ela respondeu, indicando o general com a cabeça. — Por ter vindo comigo. Eu não queria estar sozinha agora.

— Não é nada, amor. Você sabe que eu adoro sua companhia — Poseidon abriu um sorriso irônico. — Mas me diga uma coisa — seu semblante mudou rapidamente, — ele está te incomodando?

— Não, claro que não — Atena se apressou a dizer. — Ele nunca disse nada demais. Não é cheio de comentários pervertidos como alguns homens que eu conheço — (Poseidon alargou o sorriso). — Eu só não queria ficar sozinha com ele, você sabe. Ser elogiada o tempo todo é estranho.

— Acho que o general é um bom partido — Poseidon disse, e Atena era capaz de ouvir a diversão em sua voz. — Talvez você devesse investir nele, sabe? Ser a Sra. General do meu exército. Com certeza depois disso nós dominaríamos o Olimpo.

— Muito engraçado mesmo. Me segure, estou quase desmaiando de tanto rir — Atena disse, sem humor. — Não, eu passo. Não faz o meu tipo. Eu definitivamente não deixaria meu voto por um homem com músculos demais e cérebro de menos.

— Deusas castas têm um tipo? — Poseidon indagou. — Agora fiquei curioso.

Atena rolou os olhos.

— Quis dizer o tipo que eu gostaria se não fosse casta, Poseidon. Você com certeza entendeu isso.

— Claro — o deus sorriu. — E que tipo seria esse?

A deusa deu de ombros com descaso, mas entendeu exatamente aonde Poseidon queria chegar com aquela pergunta. E para ser honesta, talvez ele fosse mesmo o tipo dela, caso Atena não tivesse um voto.

— Não sei — ela olhou para ele, o medindo de alto abaixo. — Provavelmente o que passar mais longe de músculos demais e cérebro de menos.

Poseidon olhou para cada um de seus braços com interesse.

— Eu não tenho músculos demais — ele observou.

Atena não pôde se impedir de gargalhar com o nível de sua audácia, insinuando tão claramente o que ela pensou que ele insinuava. Seguindo a energia do momento descontraído, Atena cutucou o abdômen de Poseidon e apertou seus bíceps. Então, ela fingiu um semblante pensativo.

— Não — ela concordou. — Mas está a isso aqui de ter.

— Vou tomar cuidado — Poseidon garantiu. — E o cérebro de menos?

— Hum — Atena olhou para seu rosto, e honestamente, ela jamais conseguiria mentir diante dos olhos de Poseidon. — Tudo bem, nesse teste você passa.

Poseidon se virou para ela com o sorriso de um maratonista que havia conseguido o troféu de primeiro lugar, só por tê-la feito admitir que ele não era burro como ela sempre afirmava.

— Então está dizendo que eu sou o seu tipo? — ele perguntou, por fim.

Atena abriu um sorriso esperto.

— Talvez — disse ela. — Não se vanglorie tanto.

Mas já era tarde demais; o ego de Poseidon não podia ser contido a partir do momento em que ele ouvira aquilo, e o deus certamente guardaria aquela informação consigo pela eternidade.

— De toda forma, Dolfim costuma se jogar para cima de grande parte das mulheres que conhece — a voz de Poseidon agora era mais séria. — Às vezes não vai além de palavras, porque, você sabe, ele é casado; mas se você quiser, eu falo com ele.

— Espere — Atena arregalou os olhos. — Ele é casado?

Poseidon franziu as sobrancelhas para ela.

— Você não sabia?

— Mas é claro que não! — o choque de Atena era grande demais para ser escondido. — Como eu poderia saber, se ele dá em cima de mim o tempo todo?

— Pensei que Helena tivesse te contado — Poseidon encolheu os ombros. — É a única razão pela qual eu mesmo não mencionei antes.

— E por que Helena teria me contado algo assim?

— Bem, porque Dolfim é casado com ela. Francamente, Atena, logo você que é onisciente não descobriu um detalhe desses?

Atena ficou quieta por um instante, pasma demais para processar a informação. Agora tudo fazia sentido: por isso Dolfim se sentava na mesma mesa que Poseidon, embora fosse apenas um subordinado. Ainda assim, muita coisa não coincidia. Como o general poderia ter dado em cima de Atena bem na frente de sua própria esposa? Será que aquele era mais um dos típicos casamentos olimpianos, onde, depois de alguns anos, os títulos de marido e mulher não passavam de formalidades para satisfazer Hera?

— Não é possível — Atena ergueu um pouco a voz, não se importando mais se Dolfim conseguia ouvir ou não. — Como ele pode agir assim sendo casado?

O grupo chegou ao lado de fora do castelo, onde o luminar diurno misterioso iluminava os jardins cheios de cores que Atena havia visitado há poucos dias com Helena. Eles pareciam ainda mais bonitos e cheios de vida naquela manhã, e Atena se fez um lembrete mental de voltar ali assim que tivesse uma chance.

— Bem vinda ao mundo dos deuses não-castos — Poseidon respondeu com ironia à sua pergunta. — É assim que as coisas acontecem.

Atena balançou a cabeça, incrédula, enquanto atravessavam os jardins até uma entrada de vidro do outro lado.

— Isso é horrível, Poseidon. Não sei como a maioria dos deuses aceita com tanta serenidade — ela disse, e era sincera. — Não vou me casar, mas mesmo assistir a esses casamentos de longe já me dá desgosto.

— Se te serve de consolo — Poseidon, por alguma razão, arrancou da árvore mais próxima uma flor amarela aberta, — nenhum homem, em toda a eternidade, jamais trairia você, Atena.

— Isso não me é consolo nenhum — Atena afirmou. — E como você pode ter tanta certeza?

— Essa é uma daquelas coisas que nós simplesmente sabemos.

Poseidon sorriu e, num gesto de surpresa, prendeu a flor delicadamente sobre a orelha de Atena, cobrindo-a com a lateral do cabelo da deusa. Atena ficou um tempo sem saber ao certo como reagir àquela ação tão espontânea e inesperada. Mesmo depois de alguns segundos, não conseguiu fazer mais do que ficar muito vermelha.

— Fica mais bonita em você — Poseidon disse, como se ela já não estivesse suficientemente bestificada.

— Obrigada — ela disse, muito baixo, um sorriso bobo vagando em seus lábios.

O grupo se aproximou de uma construção metálica muito alta, que só podia ser o Centro de Treinamento. O lugar tinha um formato sóbrio, a entrada em um arco de ferro e as paredes externas feitas de vidro, de forma que era possível ver um pouco do que acontecia do lado de dentro. Atena podia ver alguns homens e mulheres em armaduras desmontáveis, lutando contra bonecos com espadas de madeira em mãos — só podiam ser os iniciantes. Assim que passaram pelas portas, o general Dolfim, que até então parecia ter se esquecido da presença deles, se virou para os dois e começou a falar:

— Este é o pavilhão recém-reformado dos soldados de nível 1. Aqui, os iniciantes aprendem a manejar a espada, ter resistência física e outras funções básicas.

Quando eles chegaram ao meio do cômodo, todos os presentes, incluindo algumas figuras vestidas de azul, que provavelmente eram os instrutores, pararam as atividades e se viraram. Eles então bateram com um pé no chão, uma mão no quadril e em seguida colocaram as mãos para trás. Aquela devia ser a saudação de Atlântida ao rei, Atena pensou.

— Majestade — a pessoa mais à frente proclamou e então se ajoelhou.

Atena observava quietamente a cena, absorvendo todo o silêncio e reverência daqueles jovens. Às vezes era difícil de lembrar que Poseidon, o brincalhão, na maior parte do tempo quase infantil, que fazia piadas sujas idiotas e tinha como passatempo favorito irritar Atena, era rei de todo o mundo subaquático. Para aquelas pessoas, ele era autoridade máxima, e ele provavelmente era tratado daquela maneira em todo o reino. Para Atena, ela pensou com um sorriso tímido, ele era o homem irritante que segurava sua mão do modo tão confortável como fazia agora e beijava seus ombros de noite enquanto a abraçava.

— Descansar, soldados — Poseidon disse, num tom muito calmo.

Os jovens desfizeram a postura e, lentamente, voltaram ao que estavam fazendo anteriormente. Atena e Poseidon seguiram com o tour guiado pelo general por todos os pavilhões e todos os níveis de conhecimento em luta, até o pavilhão onde os soldados mais desenvolvidos treinavam uns com os outros em armaduras completas e com espadas de verdade. Os dois ouviam silenciosamente cada palavra de Dolfim, mas eventualmente Poseidon fazia um carinho em sua mão com o polegar ou se abaixava para beijar seu pescoço muito discretamente, e a deusa não conseguia (e nem queria) fingir que não estava adorando. Era um sentimento diferente e bom receber todos aqueles toques dele, principalmente quando ela se lembrava da noite passada, quando ele havia beijado seu corpo tão apaixonadamente. Atena sentia um arrepio subir por sua espinha conforme as memórias vinham à sua cabeça.

Eles por fim chegaram à saída do Centro de Treinamento, e ali se acabava também a desculpa de Atena para segurar a mão de Poseidon e (finalmente!) a sua obrigação de ouvir a voz fina do general.

Dolfim se despediu deles como sempre: um aceno de cabeça para Atena e uma reverência para Poseidon, e se retirou, indo para fora dos portões do palácio. Atena então se virou para Poseidon, desenlaçando timidamente suas mãos para colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha.

— Bom... Imagino que você tenha coisas para fazer agora — ela comentou, sem muita coragem de olhar em seus olhos.

— Tenho sim — Poseidon suspirou pesadamente, quase que num lamento. — Vou terminar de ler alguns papéis antes de começar a me arrumar para a festa.

Atena franziu o cenho.

— Que festa?

Poseidon a encarou, parecendo abismado.

— Francamente, Atena, você está muito desinformada hoje — ele apontou. — Não acredito que Helena não te contou isso também? Pensei que ela tivesse ido no quarto para isso.

— Ela foi me levar o café da manhã — Atena respondeu. — Mas o que ela deveria ter me contado?

— Hoje é aniversário dela — Poseidon esclareceu. — E Helena sempre comemora seus aniversários, então hoje ela vai dar uma festa aqui no palácio para alguns amigos dela.

— Oh — Atena fez, sem saber mais o que dizer.

Helena havia tido todas as oportunidades possíveis de contar sobre seu aniversário e sobre a festa enquanto conversavam de manhã, mas por algum motivo havia escolhido não dizer nada. Atena não entendeu o porquê, mas não conseguia pensar em mais nenhum motivo além de a garota ter esquecido de mencionar.

— Eu não estava sabendo — Atena admitiu.

— Ela provavelmente esqueceu de te contar — Poseidon supôs. — Helena se empolga com qualquer assunto e esquece rápido o que estava dizendo. Mas eu estava contando com a sua presença nessa festa.

Atena abaixou a cabeça por um instante, sem saber o que fazer. Há muito tempo que não ia a uma festa, e definitivamente há muito tempo não ia em uma festa acompanhada por Poseidon — afinal, era como acompanhante dele que compareceria, certo? Ele era a única pessoa que ela conhecia em todo o reino, além de Helena, que estaria vagando pelo palácio o tempo todo. A deusa não sabia muito bem como responder àquele convite, mas não era como se estivesse cercada de opções.

— Tudo bem, eu acho — ela disse por fim, e Poseidon sorriu. — Só preciso sair para comprar uma roupa. Eu não trouxe roupas de festa.

Poseidon assentiu.

— Mas antes de você sair, podemos conversar?

Atena uniu as sobrancelhas, curiosa.

— Claro. Sobre o quê?

O deus começou a caminhar e Atena se colocou ao lado dele num silêncio desconfortável.

— Hoje de manhã... — Poseidon começou e Atena prendeu a respiração, desviando o olhar.

Depois de todos os acontecimentos — Jack, o general, o tour -, esperava que ele tivesse se esquecido do episódio da manhã. Aparentemente, estava enganada. Pior, tinha uma sensação desesperada no estômago, como se tivesse sido empurrada de uma ladeira. Ela sabia, sabia bem demais, que se Poseidon tentasse, o mínimo que fosse, tiraria a verdade dela. Bastava ele mirar os seus olhos com aquelas orbes verdes onde se perdia, e ela não ficaria surpresa se despejasse todo o seu sonho para fora. Precisou ativar o modo "resistência" em seu cérebro outra vez.

Poseidon olhou de relance para ela, analisando seu semblante tenso e sua respiração presa, e abriu um sorriso descarado com o canto dos lábios.

— Não pensou que eu ia esquecer, pensou?

— Eu tinha alguma esperança — Atena confessou.

Eles alcançaram as longas escadas pelas quais subiriam até o terceiro andar, onde ficava o escritório. Apesar de ser apenas dez da manhã, o palácio já estava plenamente ativo, com criados circulando por todos os lados com espanadores, bandejas e panos nas mãos. A luz do lado de fora entrava pelas paredes inteiramente de vidro do lobby, banhando as escadas de um branco-azulado, e Atena, mesmo com o estômago despencando, teve que tirar um segundo para admirar o efeito do reflexo da luz no vidro. Poseidon vinha silenciosamente atrás dela — parecia ter pensado melhor sobre discutirem aquele assunto cercados de tantos criados, e não se pronunciou de novo até chegarem à porta branca que Atena já conhecia e adentrar o escritório.

Atena nunca havia estado naquele cômodo de dia, e também nunca havia prestado muita atenção ao painel no chão que mostrava todo o reino e as pessoas que se movimentavam por ele sob a luz certa, mas era ainda mais impressionante daquele modo. As ruas, todas partindo do Palácio e se desenrolando para formar os quarteirões da cidade, agora estavam cheias de gente, parecendo pequenas formigas naquela maquete viva. Era quase possível ouvir o som das conversas e o sino que ficava no centro da cidade tocando.

O clique da fechadura indicou que Poseidon havia fechado a porta, e Atena sabia que sua boa desculpa teria que estar pronta naquele momento.

— Vai me contar o que aconteceu? — ele perguntou, se sentando em sua cadeira do outro lado da mesa de mogno.

As mesmas quatro pilhas altas de papéis de quando Atena esteve ali pela última vez estavam sobre a mesa (reforma da cidade, reforma do palácio, exército e variados), e Poseidon lançou um olhar rápido e quase ressentido para elas antes de voltar a fixar os olhos em Atena. A deusa se sentou na outra cadeira, do lado oposto a ele, e baixou os olhos, evitando o contato visual.

— Eu já te disse que não aconteceu nada, Poseidon.

Em resposta, o deus rolou os olhos, como se estivesse cansado daquilo.

— Amor, eu não te vi chorar muitas vezes na minha vida. Na verdade, só te vi chorar uma vez — ele apontou. — Quando Dédalo morreu. E depois disso, os monstros do Labirinto foram soltos. Qualquer coisa preocupante o suficiente para te fazer chorar, é importante.

Atena balançou a cabeça, um sorriso amargo em seus lábios.

— Não dessa vez. É sério! — ela exclamou, quando ele continuou a olhar desacreditado para ela. — Se fosse algo importante, eu te contaria, mas é só coisa minha.

— E quem disse que suas coisas não são importantes?

Atena finalmente tomou coragem e o olhou nos olhos. Ela esperava ver aquele brilho de sempre nas esferas verdes: o brilho de brincadeira, de diversão. O pior de tudo foi ler a preocupação evidente e real em seus olhos ao invés do desinteresse. Ele queria saber o que se passava, mas Atena não podia contar para ninguém, especialmente para ele.

— Obrigada por perguntar, mas realmente não é importante — ela mentiu mais uma vez. — Não se preocupe com isso.

Poseidon se inclinou para trás em sua cadeira, se espreguiçando.

— Vem cá.

Atena franziu as sobrancelhas, confusa. Já estava bem na frente dele, por que ele a chamaria para mais perto? Ainda assim, sem questionar, a deusa se levantou e caminhou até ele. Para sua surpresa, Poseidon envolveu sua cintura e a puxou para seu colo, de forma que estava de costas para o rosto dele.

Como se aquilo não fosse surpresa o suficiente, ele depositou um beijo cálido na curva de seu pescoço, subindo lentamente até chegar em sua nuca. A essa altura, o corpo de Atena já estava quente, e seus pelos, arrepiados.

— Eu quero que você saiba que pode me contar qualquer coisa, Atena — ele disse, a boca muito próxima de sua orelha. — Qualquer coisa. Mesmo que você ache que não é importante. Não precisa guardar só para você.

Atena podia jurar que sentiu seu coração sorrir com o efeito daquela frase. Um calor delicioso aquecendo o peito, algo que emanava ondas de alegria para o resto de seu corpo.

— Tudo bem. Mas não quero pensar nisso agora — ela suspirou e se levantou do colo do deus. — Preciso ir atrás de uma roupa. Você vai precisar de mim para alguma coisa?

Poseidon balançou a cabeça negativamente.

— Pode ir, e leve o tempo que precisar.

Atena abriu um sorriso pequeno.

— Okay. Até mais tarde, então.