Acordei em uma cama de hospital um tanto quanto macia, mas fria. Estava assustada e não lembrava o que aconteceu para eu parar ali. Alguns flashbacks me vieram a memória, mas nada de tão grave que me fizesse desmaiar e ter de parar em um quarto daqueles. Me sentia impotente por fazer tanto esforço para lembrar de algo que não conseguia.

Me sentei na cama e senti uma dor profunda e mais dolorosa do que qualquer outra que havia sentido na minha vida. Levantei a blusa para ver de onde vinha e me assustei tremendamente com o que vi. Tinha duas enormes mordidas na minha costela direita e grandes arranhões na esquerda. Devia ter quebrado várias pela profundidade que elas se encontravam. Abaixei a blusa, me deitei de novo e respirei contanto até dez.

Um médico quebrou o silêncio daquele ambiente frio e cheio de cores claras com o abrir da porta de madeira. Ele veio caminhando em minha direção e me disse que eu teria complicações graves caso a pessoa que me encontrou não trouxesse-me a tempo ou ficasse do jeito que fui encontrada por mais tempo.

– Dr. por favor, me diga o que eu tenho. — implorei.

– Você foi vítima de algum animal quando voltava para casa hoje. — ele falou calmamente.

– Algum animal? Pera aí, que animal? — eu já estava desesperada.

– Não sabemos, mas suponhamos que seja algum cachorro bravo que escapou.

– Cachorro bravo? Escapou? — perguntei já não acreditando mais.

– Sim, minha querida. Preciso que fique em repouso até irmos a cirurgia.

– Cirurgia?

– Sim, você quebrou três costelas direitas e uma esquerda.

– O meu Deus. — coloquei as mãos na boca, chocada.

– Eu sinto muito.

– Aham. — comecei a chorar.

– É sua mãe está aí e quer vê-la, com licença.

– Ok. — continuava chorando.

– Você vai ficar bem.

Ele se retirou do quarto enquanto eu chorava de desespero e de desgosto. Sabia quem tinha feito aquilo, mas não sabia o motivo e nem o que fiz para merecer aquilo. Sabia que teria de enfrentá-lo e colocá-lo contra a parede, mas como se eu estava naquelas condições e nem me mexer direito podia.

Minha mãe antes de entrar ainda conversou alguns minutos com o médico e se chocou cada vez que ele falava da cirurgia, mas ela agradeceu por terem salvo minha vida e que fariam o possível para me salvar e tirar-me daquela situação. Ela entrou e correu para um abraço onde nós duas começamos a chorar.

– Filha, me desculpe.

– Não mãe, me desculpe.

– Minha filhinha, sinto muito com o que aconteceu. Se lembra de algo?

– Não mãe, só lembro de estar com alguns amigos e voltar para casa. Depois apaguei.

– Entendi. Você precisa descansar.

– Eu sei. Você também.

– Não posso, tenho de trabalhar. — ela riu.

– Eu sei. — eu ri também.

– Filha, lembra daquelas tentativas de assassinato que apareciam na tv?

– Sim, mas por que isso agora? Não basta meu sofrimento? — falei irônica.

– Parece que pegaram o assassino.

– O QUÊ? — gritei.

– É, parece que sim.

– Como assim mãe?

– Vou ligar a tv, deve estar passando. — ela se levantou e ligou.

Na televisão dava o comercial do programa jornalístico que passava aquele horário, mas logo voltou e não tirei um minuto os olhos daquela tela. Voltando passou a previsão do tempo e algumas notícias antes de chegar a que me interessava. E ela chegou. Minha mãe tinha ido ao banheiro, mas eu prestei total atenção.

Disseram que haviam pego o suspeito de ter cometido todos aqueles assassinatos e eu já comecei a temer o pior, mesmo sabendo do que ele era capaz. Quando deu a cara do cidadão comecei a chorar de alívio por não ser Toyo, mas sim um cara que disse que apenas matou uma pessoa por vingança, já o resto não fazia ideia quem fosse.

Toyo ainda estava a salvo, mas eu temia que algo acontecesse e que ele fosse pego e determinassem pena de morte a ele por ter cometido tantas atrocidades. Mesmo assim ainda era apaixonada por ele e faria de tudo para protegê-lo mesmo que custasse minha vida. Até que em um flashback mais rápido que uma piscada comecei a lembrar do que aconteceu naquela noite depois de ter bebido água.

Lembrei de escutar um barulho de espécie de rosnado e gritos, me virei e dei de cara com Toyo terminando de matar o que parecia ser uma criança de menos de dez anos. Não conseguia olhar para aquilo e me deu uma espécie de tontura e desmaiei. Fiquei assustada com a cena e não queria lembrar daquilo depois. Talvez seja por isso que no começo tinha esquecido.

– Filha vou na lanchonete, quer alguma coisa? — minha mãe interrompeu meus pensamentos.

– Não mãe obrigada. — respondi.

– Tudo bem, eu já volto. — ela me deu um beija na testa e foi.

– Ok.

Talvez Toyo estivesse em um momento de fúria e me atacou também ou não quisesse que eu me lembrasse daquilo depois e me apagou. Não lembrava direito como desmaiei e como tive todos aqueles arranhões, mordidas e costelas quebradas. Tinha medo de lembrar e pensar sobre tudo aquilo, mas mesmo assim continuava a pedir que ele fosse protegido e que nada acontecesse a ele enquanto eu estivesse longe.

Minha mãe voltou e trouxe bolachas e sucos naturais para ela, mas pra mim um danone natural e sem adição de açúcar. Coisa que eu detestava, mas sabia que ela para meu bem. Conversamos mais um pouco sobre como tinha sido o nosso dia e como seria passar o Natal no hospital sendo operada. Até que o médico voltou até onde estávamos.

– Emi, tenho de levá-la até a sala de raio-x para fazermos os últimos exames antes de operá-la.

– Ok doutor. Agora?

– Sim, vamos?

– Sim. Minha mãe pode ir junto?

– Claro.

Ele saiu da sala e voltou minutos depois com uma cadeira de rodas, me surpreendi por ter de ser obrigada a andar naquilo ao invés de ir apé ou em alguma maca. Mas fui mesmo assim. O doutor pegou meus cinquenta kilos nos colo e me colocou nela. Eu estava gorda mas parecia que ele gostou de ter de fazer aquilo. Sorria a todo momento tentando me manter tranquila e realmente ficava.

No caminho da sala de raio-x houve uma emergência grave. Um acidente entre um carro e uma moto, meu médico pediu para que outro fosse atender porque ele já estava cuidado da minha. E assim foi. Me senti tranquila e peguei na mão de minha mãe. Continuamos andando até chegar na sala.

Como em todo exame de raio-x você tira suas roupas e coloca uma espécie de pano de tnt mais resistente, igual aos outros pacientes como grávidas ao dar a luz usam. Me sentia envergonhada mas estava calma para fazer o exame sem medo. Era um tanto constrangedor mas se tinha de fazer, eu faria.

Depois de terminarmos voltamos até o quarto e o médico me colocou de volta na cama. Ele avisou que iria me pegar os resultados e que logo voltava. Eu e minha mãe esperávamos enquanto assistíamos a televisão e tomávamos água com gás, minha preferida, mas notei olhando pela janela quando o médico estava do lado de fora falando com outro, incrédulo.

– Emi Ayako. — ele entrou com uma cara de quem não acreditava.

– Eu. — olhei com medo.

– Você está bem, não precisará de cirurgia.

– Como?

– Isso que acabara de ouvir.

– O que? Eu me curei assim do nada?

– Não entendi também. Me deixe olhar seus ferimentos.

– Está bem. — ele deu os exames a minha mãe que tinha a mesma cara que a minha. A de incrédula e assustada.

Ele chegou bem perto e levantou a blusa que eu usava naquela hora e levou um susto quando olhou os ferimentos. Por incrível e inacreditável que parecia minhas costelas estavam todas nos devidos lugares e consertadas como se nunca tivessem sido quebradas. Meus arranhões sumiram e as mordidas desapareceram como mágica.

Se eu e minha mãe estávamos assustadas imagine o médico que nunca poderia imaginar uma coisa daquelas, ainda mais quando cheguei lá toda quebrada e ferrada de todos os jeito possível e imagináveis. Me sentia uma bruxa ou sei lá o que. Ele me olhava de um jeito que eu não poderia decifrar e nem minha mãe. O doutor me deu alta e disse para ficar esperta caso algo acontecesse novamente.

Eu me troquei e coloquei as roupas me minha mãe trouxera para mim e quando saí do banheiro disse-me que esperaria no carro, caso eu quisesse ir a lanchonete ou querer saber mais alguma coisa com o médico, já que ela já sabia de tudo e tentaria me explicar depois, então me aconselhou perguntar a ele.

Não quis falar com o médico mas passei na lanchonete para comprar um chocolate. Fui andando pelos corredores até chegar ao elevador. Desci com um senhor mudo e depois entrou uma senhora que acabara de operar um olho e estava indo para casa descansar. Conversamos sobre nosso problemas, mas não contei-lhes sobre minha recuperação mágica, desde o décimo até o térreo.

Ao chegar na lanchonete, pedi meu chocolate, paguei a conta e comi ali no balcão mesmo vendo pessoas passarem para lá e para cá. Gente de todos os tipos, cores e raças, me sentia normal e alguns casos eram de dar pena. Ao terminar e jogar o pacote fora, ouvi:

– Emi, que bom que melhorou. — uma voz conhecida mas indesejada.