Trust Me
10 Perdão
Me virei de costas com uma cara de brava e que queria explicações nem que fossem na mara. Olhei para um lado e para o outro e não vi que queria ter visto, pelo contrário. Não vi ninguém e meu telefone começou a tocar com a música que tocava quando recebia ligações. Era minha mãe. Realmente já passara um tempo e ela deve estar preocupada com o porquê da demora. Atendi o telefone e fui caminhando até onde o carro estava.
No caminho comecei a escutar mais vezes chamarem meu nome e a dizerem que estavam felizes por mim estar viva e bem. Achava que estava ficando louca ou era por causa do sedativo que me deram quando cheguei para me acalmar. De duas uma eu poderia estar enlouquecendo ou existia outra Emi naquele hospital, eu não sabia e achava que era comigo.
Entrei no carro e fiquei encostada na janela o tempo todo do trajeto até nossa casa a uns três quilômetros dali. Cheguei a cochilar de sono, mas quando chegamos logo acordei. Abri a porta de casa, entrei e deixei aberta para que minha mãe entrasse logo depois de mim.
Fui direto para o banheiro onde tomei um banho relaxante da cabeça aos pés. Fiquei lá por uns dez ou quinze minutos até sair e ir para meu quarto, trocar de roupas. Escolhi um pijama amarelo com branco e um par de meias antiderrapantes pretas para ficar em casa. Estava bem a vontade e trocada, então fui pentear o cabelo.
Minha mãe entrou bem na hora e fez questão de escovar meu cabelos castanhos, não hesitei e deixei. Movimentos suaves e calmos ela tinha para desembaraçar os fios. Eu gostava tanto daquilo que chegava a fechar e abrir os olhos lentamente por estar caindo de sono e estar cansada daquele dia um tanto como esquisito.
– Boa noite filha, durma com os anjos. — ela me deu um beijo na testa e saiu.
– Boa noite mãe, você também. — dei um beijo na bochecha dela.
Ela saiu do quarto enquanto eu ainda estava na cadeira da penteadeira me admirando no espelho. Um pouco de cansaço na cara, mas bem só cansada mesmo. Queria poder tirar um sono longo e demorado. Estava de férias mesmo, então poderia dormir até quando quisesse. E dormi.
No dia seguinte acordei as dez em ponto. Minha mãe já tinha saído para trabalha e me deixara um bilhete colado na geladeira avisando para eu me cuidar e qualquer coisa telefonar. Comi meu café da manhã e me joguei no sofá ainda de pijamas para ver um pouco de televisão.
Enquanto estava no comercial, subi as escadas e peguei meu celular para ver as horas e ligar para minha mãe. Liguei e garanti que estava bem e a salvo. Voltei a sala mas ainda não tinha voltado o filme que assistia. Fui até a cozinha e peguei uma garrafinha de água para beber, mas antes que eu me sentasse de novo no sofá a campainha toca.
– Justo agora? — falei baixo.
Caminhei até a porta, a abri e não vi ninguém. Olhei para um lado e para o outro e nada. Fechei a porta novamente e a tranquei. Quando me virei, o susto. Toyo estava atrás de mim. Com camisa xadrez e calça jeans, mas descalço. O olhei com cara de desdém e o mandei ir embora várias vezes, mas ele se negava toda vez.
– Toyo vá embora daqui, não quero falar com você. — gritei.
– Preciso que me escute. — ele falou calmamente.
– Escutar o que? O que aconteceu naquela noite? Como me curei de nada do hospital? — já estava neurótica.
– Emi, me ouça.
– Não, eu não quero. Quero que vá embora, e agora. — ordenei e abri a porta.
– Eu não vou até me ouvir. — ele fechou a porta e ficou em cima de mim.
– Toyo, você sabe que não vou acreditar, não sabe?
– Sei, mas vai entender.
– Duvido. — com raiva desviei do braço dele e fui em direção a sala me sentar no sofá.
– Emi, lembra da história da maldição que lhe falei?
– Sim, o que tem ela?
– Não lhe contei a parte do protegido.
– Protegido?
– Sim. A quem lhe entreguei o relicário.
– Então fala logo, antes que eu me arrependa de ter te dado essa change.
– O protegido, quem tem o relicário, não pode ser ferido pelo defensor. No caso eu.
– Tá, mas isso aconteceu.
– Eu sei e quero lhe pedir desculpas por isso.
– Desculpas? Você podia ter me matado.
– Mas não matei.
– Porque não gostou na minha carne.
– Não, é porque não posso matar o protegido.
– Sei, tá mas e daí?
– Quando o protegido é ferido pelo defensor, o defensor sofre diversas consequências por ter feito tal e deve fazer um sacrifício caso queira continuar vivo.
– Ah sim, mas e as curas inexplicáveis? Como me explica?
– Simples. Quando o defensor faz o sacrifício em nome do protegido, toda a dor, todo sofrimento da parte em que o defensor machucou some ou se regenera de novo.
– O que? Só pode ser brincadeira. — levantei depressa do sofá e andei de um lado para o outro.
– Não é Emi, venha aqui.
– Eu não.
– Ouça e faça. Ande. — fui até ele.
Ele me mostrou um machucado profundo perto do peito que já estava cicatrizando. Disse que aquele era o sacrifício. Deveria espetar algo bem forte perto do coração mas que fosse de prata para mostrar o arrependimento e saber o erro que havia cometido. Ele tirou a blusa e me fez olhar mais de perto. Notei como as feridas pouco a pouco se fechavam lindamente como se estivessem sendo costuradas para cima e para baixo.
– Viu? O protegido precisa ser protegido. — ele falou me fitando com os olhos.
– Vi, só não entendi como isso é feito.
– É bruxaria em cima de bruxaria. Quando meu pai jogou esse feitiço pra mim, me disse que se eu ferisse o protegido teria de pagar. E paguei. Mas só haveria uma change.
– E se errar comigo de novo?
– Morro.
– O que?
– Sim. O defensor deve matar-se porque a segunda vez não tem volta para o protegido.
– Toyo, vai embora você me assusta.
– Desculpa Emi, nunca quis te ferir. Só fiz aquilo porque estava fora do controle e de fora de mim.
– Tudo bem. Conhece aquele ditado "quem ama perdoa"?
– Sim.
– Então, é isso que vou fazer.
– Emi, posso confessar uma coisa.
– Sim.
– Fui eu em que te levei até a praia e chamei a emergência. Não queria perder você.
– Obrigada.
– De nada.
– Posso te fazer uma coisa?
– Depende.
Ele me pegou desprevenida no colo e eu me assustei com a tamanha facilidade com que me tirou do chão e me colocou nos braços. Dei um grito de leve, mas gostei daquilo e fiz um sim com a cabeça para continuar o que ele pretendia fazer.
Toyo me deu um beijo enquanto me segurava nos braços e começou a andar em direção a escadaria. Ele começou a subir degraus por degrau, mas parou de me beijar para prestar a atenção quando pisava e parecia não se importar com meu peso subindo aqueles degraus até o topo.
Quando chegamos lá em cima abri a porta do quarto e entramos os dois, mas eu estava de costas para o quarto e de frente para ele, ou seja, não via nada em que esbarrava dentro dele. Ele me pegou no colo de novo e delicadamente me colocou na cama de barriga para cima. Foi chegando mais perto e ficou em cima de mim.
Nos beijamos até sentirmos a vontade de tirar a roupa e transarmos. Os beijos dele eram tudo que eu precisava depois de ontem e ter tanta coisa rolando e vagando pela minha cabeça. Tiramos as roupas devagar e começamos a nos entregar igualmente, mas desta vez estava diferente. Estava mais carinhoso, calmo e romântico.
Toyo e eu nos gostávamos, e por mais que estivesse brava com o que acontecera ou com raiva dele ainda sim confiava e acreditava nele. Afinal ele era meu defensor e eu sua protegida. Gostava de estar com ele, beijá-lo, abraçá-lo e fazer sexo com ele mesmo que a qualquer momento eu pudesse ser atacada e morta por ele.
Depois de termos finalizado, ele tirou a proteção, deu um nó e a jogou fora como na primeira vez, me deu a camisa dele mas recusei e peguei uma camisola no armário. A mesma que ele me vestira da outra vez. Ele deu um sorriso malicioso e me puxou de novo para cama. Ficamos ali até eu apagar nos braços dele e ele sumir de novo quando eu acordasse.
Acordando vi que ele já se fora com o vento e que eu estava sozinha em casa. Mas não por muito tempo. Minha mãe estacionava o carro na parte da frente de casa e buzinava para que eu a visse chegar. Desci as escadas e fui recebê-la com um grande abraço. Ela entrou em casa e fomos as duas tomar um café da tarde juntas na cozinha.
Conversamos sobre nosso dia e mencionei que Toyo viera me visitar, ela se animou e perguntou como ainda éramos amigos, que nunca mais o vira por aqui e como ele estava. Respondi todas as perguntas dela e mais algumas, mas não falei o que tinha rolado em meu quarto e nem sobre a explicação que ele me deu sobre a minha cura inexplicável.
Conversa vai, conversam vem ela decidiu subir para tomar um banho e descansar. Acompanhei-a até lá em cima e entrei para meu quarto. Fiquei assistindo televisão até ela entrar em meu quarto me desejando boa noite, apesar de ainda ser de tarde, e ir deitar. Na tv passava minha novela preferida, mas em questão de segundos entrou o jornal do dia.
Mais um assassinato foi constatado. A vítima era uma moça jovem e bela. Parecida comigo só que era mais branca e dos cabelos e olhos mais escuros. O suspeito era o namorado dela, um fugitivo da polícia agora. Eu estava no banheiro então só ouvia, mas quando algumas informações batiam com conhecidos meus voltei ao quarto correndo.
Aquele rosto me parecia familiar, até começar a olhar direito e perceber quem era. Depois de olhar bem percebi de quem era aquela fotografia e comecei a chorar de desespero. Era Nara, minha melhor amiga de colégio e irmã para todos os momentos.
Fale com o autor