Trust Me
21 Separação
– Pesadelos mãe. Desculpa te acordar. — ela me abraçou.
– Tudo bem, tudo bem. Calma. — ela foi me acalmando.
Na escuridão do meu quarto só havia o abajur aceso então via somente a sombra da minha mãe e o calor que ela transmitia em mim. Fui me acalmando aos poucos e descansando nos braços dela, era um amor que eu poderia dar minha vida e confiar de olhos fechados porque sabia que estaria ali quando eu precisasse. Logo adormeci e fui colocada de volta na cama. Mamãe me deu um beijo e saiu do quarto.
Acordei no outro dia e logo escutei barulhos na minha janela. Levantei e fui até ela. Era Toyo jogando pedrinhas. Fiquei ali olhando por alguns minutos e depois fui ao banheiro, mas não disse nada e nem o cumprimentei, somente o encarei.
Tomei um banho relaxante e lavei os cabelos longos delicadamente, me troquei em meu quarto e depois voltei ao banheiro para cobrir o roxo do rosto de maquiagem da cor da minha pele para que minha mãe não percebesse e nem Toyo voltasse a me olhar da mesma forma que ontem. Fiquei pronta e desci as escadas até o andar de baixo.
Encontrei minha mãe e Toyo na cozinha conversando e fazendo panquecas com frutas e mel. Me surpreendi com a cena e logo mandei ele ir embora. Minha mãe se virou e ficou surpresa pela cena que fiz. Pediu para que ficasse, mas ele recusou e foi embora. Passou por mim, mas sai de sua frente e desviei meu rosto para que não alcançasse. Segui até a cozinha e me sentei em uma cadeira. Encarei minha mãe enquanto se despedia dele.
– Saía e feche a porta. — ordenei.
– Emi, o que é isso? — minha mãe se surpreendeu.
– Tudo bem senhora Yumi, não se preocupe. — Toyo despreocupou minha mãe.
– Tem certeza que não quer ficar?
– Sim mãe, ele tem. Tchau Toyo. — me virei de costas.
– Tenho sim, volto outro dia.
– Está bem então, eu espero.
– Não. Não volta outro dia, não te quero mais aqui nem comigo e nem com ela. — olhei feio para ele.
– Emi? O que foi agora? — minha mãe cada vez mais ficava surpresa comigo.
– Nada.
– Como nada?
– Ah mãe quer saber, eu fui tá legal? Vou andar na praia, se quiser ficar Toyo fique, mas vá embora antes deu voltar pra casa. — sai andando e bati a porta atrás de mim.
– Emi, volta aqui. — minha mãe ainda tentou me impedir.
Sai porta afora de casa e fui até a praia andar, e quem sabe assim poder esfriar a cabeça tanto dos sonhos que tive quanto o que aconteceu comigo e Toyo antes. Queria poder esquecer tudo e começar do zero, mas não conseguia porque o que fiz pela Nara valeria tudo e mais um pouco. Éramos amigas desde pequenas e crescemos juntas, como eu não poderia fazer isso por ela?
– Emi? — escutei Toyo vindo atrás de mim.
– O que você ainda quer? — me virei e cruzei os braços.
– Você. — ele me beijou mas eu me debati e ele me soltou. — O que aconteceu com você? Mudou do dia para a noite?
– Deve ser. — saí andando e ele foi atrás.
– Emi? O que aconteceu?
– Nada, só quero você longe de mim e da minha mãe. — tirei o relicário do pescoço e dei a ele.
– Não. Fique.
– Não quero nada que venha de você.
– Emi? Essa não é você.
– Talvez não, mas não quero você perto de mim de novo.
– Por que não? O que eu te fiz?
– Nada, só faça tá legal?
– E se eu não fizer?
– Mato você. — peguei na blusa dele, a puxei e depois soltei. Saí andando de volta pra casa.
– Emi? Por que isso tudo? O que deu em você?
– Nada que lhe interesse.
– Interessa e sabe por que? Porque confiei em você, amei você e queria muito que ficasse pra sempre em minha vida.
– Hum, guarde isso para quem realmente mereça e queira.
– Pera aí. Está dizendo que não me quer?
– Quer que eu desenhe para ficar mas claro? — me estressei e passei a andar rápido.
– Não precisa, só me explique o por quê disso?
– Toyo, entende uma coisa. Eu sou uma pessoa normal, você é um amaldiçoado. Não quero ter pra sempre uma maldição me rondando e ariscando minha vida, porque sei onde isso vai parar.
– A é? E onde vai? — ela chegou bem perto e me encarou feio.
– Em morte.
– E como sabe? Virou profeta, vidente ou sei lá o que?
– Não Toyo, só sei que terminar bem não vai. Então para que eu e nem você saiamos perdendo, o que tivemos até hoje não existirá mais.
– Não estou entendendo você, mas quer saber que se dane. — ele de virou e foi andando até o final da praia e lá sumiu na mata.
Voltei andando calmamente até em casa, mas chegando lá vi que minha mãe já tinha saído para trabalhar. Tomei meu café sozinha e depois fui me jogar no sofá. Liguei a televisão em qualquer canal e depois mudei para o jornalístico, porque gostava daquilo e de saber o que se passava em todo mundo, não só no meu país. Apoiei a cabeça com um travesseiro e minhas pernas estiquei por cima da mesa pequena de madeira com vidro na minha frente onde ficavam as revistas, jornais e livros.
Comecei a ver a televisão mas Toyo e nossa discussão não saía da minha cabeça. Eu sabia que ele comigo poderia acabar na sua prisão e morte, mas também sabia que me amava e queria estar junto de mim. Era difícil aceitar que tinha acabado porque salvei a vida dele uma vez na realidade, mas não fui capaz de salvar na ficção, e fiquei arrasada com isso.
Me separar de Toyo era uma das piores coisas que eu já tinha enfrentado, porque por mais que me demonstrasse feliz, livre, leve e solta por fora, por dentro eu estava destruída. Não queria que ninguém me visse assim, mas também não queria mentir para mim mesma. Queria sim poder viver esse amor, mas exigia muito cuidado e amor para conseguir, e eu não sabia se tinha tudo isso para seguir em frente.
Desliguei a televisão, me levantei e subi para o andar de cima. Fique um tempo na janela observando o movimento, que quase não tinha, e depois me sentei na penteadeira. Me olhei no espelho e fui tirando a maquiagem que estava sobre o roxo no meu rosto e percebendo que cada vez mais que eu tirava, mas o machucado saia também. Fiquei surpresa mas pensei em ser coisa de momento então não me preocupei.
Voltei a olhar pela janela e vi que Toyo me observava. Voltei para o andar de baixo e abri a porta pra ele entrar. Me sentei no sofá enquanto ele fechava a porta e entrava para a sala. Olhei para o chão e evitei contato visual até que se sentasse do meu lado. Toyo me olhou e tentou me abraçar. Saí da linha em que pudesse me abraçar e levantei.
– Emi, não sei o que aconteceu mas não fica assim comigo.
– Não estou assim com você. — me virei.
– Está diferente. — ele levantou enquanto eu segurava o choro.
– Toyo, por que não fez o que lhe pedi mais cedo? — virei pra ele e o encarei.
– Porque não consigo ficar longe de você.
– Mas terá de ficar.
– Não posso e não quero.
– Mas deve.
– E por que devo?
– Porque eu estou pedindo.
– Essa não é você, a verdadeira Emi está em algum lugar aqui dentro. — ele apontou pro meu peito. — E eu quero ela de volta.
– Sinto dizer, mas não terá. — me virei de novo.
– Eu que sinto muito, mas se um dia quiser... voltar, me avise. — ele me abraçou a força por trás e me deu um beijo na nuca. Eu segurava com firmeza o choro e em nenhum momento deixei escapar uma lágrima que fosse.
Me soltei dele com mais força ainda e acabei acertando seu rosto de leve, pedi desculpas e o mandei embora. Fui até a porta e a abri para que saísse. Toyo ficou aparentemente muito triste com o que estava acontecendo e saiu devagar. Passou por mim e me olhou, desviei o olhar, cruzei os braços e mexi os ombros.
– Eu te amo Emi. — ele disse antes de ir embora.
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