Trust Me
22 Salvamento
– Adeus, Toyo. — disse uma última vez.
Minha mãe naquela semana ainda ficou brava comigo, mas não entendeu o meu porque de querê-lo longe dali. Ela apenas me aconselhou que deveria seguir meu coração e que se eu realmente amasse Toyo, poderia um dia acreditar, confiar e perdoá-lo acontecesse o que acontecesse mesmo não sabendo de nada que se passava.
Não vi Toyo pelo resto da semana e nem do último mês. Eu sabia que estava próximo e que sempre estaria perto de mim, mas depois do meu belo papel com medo de perdê-lo nunca mais nos vimos ou falamos um com o outro de novo. Sentia vontade de ir vê-lo, pedir desculpas, poder tê-lo de volta comigo, poder tocá-lo, beijá-lo e abraçá-lo, mas meu medo era maior que tudo.
Passei o resto do ano sem Toyo inclusive meu final de ano e o início do próximo também. Nunca fui atrás dele novamente, mas ainda tinha o relicário que ele me dera e que não o quis de volta para me lembrar dele. Era como um amuleto ou um consolo pra mim por saber que enquanto eu possuísse aquele pequeno objeto ele estaria bem e a salvo.
Um dia de minhas férias fui até a praia dar uma volta e sentei em um banco para olhar o mar, mas não sei o que me deu que quis entrar nele. Estava tipo deserto, não tinha uma viva alma lá a minha visão, então me senti a vontade para tirar minha calça e minha blusa, eu já estava de bikini então não me preocupei. Deixei minhas roupas a poucos metros de onde eu iria entrar e comecei a andar.
Vários pensamentos começaram a rondar minha cabeça, mas a maioria me lembrava Toyo. Era nossos beijos, nossos abraços, nossas risadas sem graça, nossas piadas toscas, nossas brincadeiras bestas, nossas vezes na cama, nossas vezes que dormimos juntos e até as brigas passaram pela minha mente, mas não me preocupei muito. Pulei do mar e mergulhei.
Eu gostava de nadar, já tinha feito natação quando criança e sabia como me portar no mar devidamente para que nada desse errado. Passei um tempo nadando de um lado para o outro queimando calorias, depois voltei para onde estava e passei a boiar de barriga pra cima olhando para o céu.
Imaginava que ainda poderia viver aquele amor que abandonei no passado, mas não sabia se ele estava esperando por mim. Pensava que sim para ficar feliz, mas que não para não me iludir. Toyo me vinha a memória a todo minuto e eu não estava disposta a esquecer, foi aí que levei um caldo e passei a me afogar no mar.
Eu estava mais ou menos com uns três metros de profundidade e voltar pra praia poderia demorar e me cansar muito. Como não tinha nada a perder, me mantive calma e com o tempo apaguei no meio do mar. Só voltei a consciência quando senti uma pressão no peito e a água que engoli sair da minha garganta. Não havia aberto os olhos ainda e não imaginava quem poderia ter me salvado. Pensava em um salva vidas ou algo do tipo, mas não era. Era Toyo.
– Toyo? Obrigada. — abracei-o com força.
– É...de nada. — ele se surpreendeu, mas me abraçou delicadamente.
– Como sabia? — soltei-o.
– Não sabia.
– Hum, mesmo assim obrigada.
– De nada. — levantei e fui até minhas roupas.
– Vou indo. Tchau.
– Tchau. — ele apenas respondeu, não virou e não foi atrás de mim.
No caminho pra casa apenas coloquei a blusa e fui andando pela rua. Como ela era grande batia em mais da metade da minha coxa então não me preocupei. Prendi o cabelo em forma de coque, mas parei antes de entrar. Coloquei a chave na porta, mas não a abri. Um peso na consciência me fez parar, guardar a chave e voltar até a praia. Voltando avistei Toyo ainda sentado no mesmo lugar, mas virado para o mar observando-o e sentindo a gostosa brisa fresca que passava em seus cabelos negros.
– Oi. — ainda estava de pé.
– Oi. — ele não se virou.
– Posso...sentar?
– Claro. — me sentei ao seu lado.
– Toyo, sei que fui uma completa idiota tempos atrás mas eu queria pedir desculpas. — olhei-o mas ele continuou olhando reto.
– Tudo bem.
– Tudo bem?
– Sim. Não me matou, apenas me destruiu por dentro.
– Sinto muito.
– Não sinta. — ele finalmente me olhou. — Emi, eu quero que sabia que por mais que sinto algo por você não forçarei nada. Me afastei como pediu e agora tanto faz.
– Desculpe, eu só... — perdi a fala e olhei pra frente.
– Você só o que?
– Só estava com medo de perder você.
– Não ia, só tinha que confiar em mim.
– Eu confio. — o olhei de novo.
– Não, não confia. Não mais.
– Toyo, eu não quero ter que te perder porque sei que quando os policiais te pegarem e prenderem será seu fim. Não pensou nisso?
– Sim pensei, mas sobrevivi todo esse tempo sozinho sem que ninguém me achasse, não é o suficiente pra você.
– Talvez deva ser, mas e pra você? Acha legal ser eternamente caçado por crimes que cometeu por conta da maldição?
– Claro que não, mas não tenho culpa do que sou ou me tornei.
– Eu sei. — passei a mão nos cabelos lisos dele e ele não recusou.
– Emi, sei que não posso ser o cara perfeito pra você e nem o que você realmente merece, mas eu te amo. Sempre amei.
– Não precisa ser o cara perfeito, só precisa ser perfeito pra mim.
– Mas sabe que não posso. Cada dia mais a polícia me caça, um dia chegaram bem perto de meu esconderijo e quase não tive escapatória. Meu dia está chegando e sei que mais cedo ou mais tarde irei ser pego e pagar por todos os crimes que cometi.
– Não Toyo, não vai.
– Emi, não precisa mentir pra mim e nem a si mesma. Nós dois sabemos que esse dia chegará.
– Sinto muito Toyo, queria poder ajudar.
– E pode.
– Como?
– Fique comigo de novo, esqueça o que aconteceu. Esqueça Kanji e tudo que passamos de ruim. — ele pegou uma de minhas mãos e me olhou fundo. Devolvi o olhar.
– Não posso passar uma borracha nessa história, Nara morreu por causa dele. — tirei a minha mão da dele.
– Mas ele já foi preso.
– Mas não foi condenado.
– Vai ser.
– Quando?
– Em breve.
– Espero.
– Esperamos. — ele sorriu.
– É, tenho que ir.
– Já?
– Sim, daqui a pouco minha mãe chega e tenho que estar lá. — levantei e bati para sair a areia.
– Ok, mas antes posso te fazer uma pergunta? — ele pegou minha mão de novo.
– Claro.
– Se tudo isso fosse esquecido, Kanji morresse, sua mãe fosse ficar bem sozinha...
– Ela tem um namorado agora. — fiz careta.
– Jura? Que bom. Felicidades a ela.
– Obrigada.
– Mas se sua mãe ficasse bem com esse novo namorado e ela me deixasse te levar embora. Fugiria comigo?
– O que?
– Fugiria comigo Emi? — ele se levantou, chegou bem perto e me beijou.
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