Toyo estava bem em baixo de minha janela e eu estava aterrorizada, não pelo fato dele ter aparecido aquela hora da noite e me dar um tremendo de um susto, mas sim como o vi. Ele estava todo ensanguentado e com uma das pernas amarradas por uma camisa para estacar o sangue que provavelmente escorria. Fiz sinal de esperar e fui verificar como minha mãe estava.

Depois de verificar e ver que tudo estava bem, desci as escadas e me deparei com ele mais machucado ainda. Não entendi nada ou muito menos o que tinha acontecido. Um assalto? Tentativa de assassinato com ele também? Fiquei apenas em choque com aquela cena e não conseguia me mover.

– Emi, me ajude. — ele implorou e chorou de dor.

– Eu..., eu..., eu não sei o que fazer. — gaguejei.

– Eu sei. Pegue álcool, uma toalha, gases, algodão e antibióticos. — ele falava calmamente e morrendo de dor.

– Eu vou..., vou pegar. Espere aqui. — eu chorava e quase não enxergava o que ia pegando pela frente.

Eu corria de um lado para o outro procurando as coisas que ele havia me pedido e felizmente eu tinha tudo. Saí pela porta do quintal onde ele agora deitava no piso da varanda sangrando cada vez mais. Eu desesperada e sem o que fazer, tentava em vão ficar calma.

Ajudei Toyo ir até a pia para lavar e limpar o sangue que estava correndo pelo corpo, mas com o passar do tempo o ele parou de sair e eu notei que aquela seiva não pertencia totalmente a ele e sim a outro alguém. Fiquei ainda mais em choque e nervosa com medo que ele percebesse que descobri de onde vinha aquilo.

Depois de arrumar alguns cortes reais mas não profundos a ponto de ter uma hemorragia, levei-o para dentro da cozinha e ajudei a sentá-lo na cadeira de madeira ainda nova. Fiquei em pé de frente para ele e o encarei por alguns minutos. Surtei e comecei a implorar por respostas.

– Emi, eu sei o que eu fiz e o que acabei de te causar. — ele me olhou com um olhar de assustado.

– Toyo, o que é isso? O que aconteceu? O que era aquilo? — eu chorava incontrolavelmente e quase gritava de tão assustada.

– Emi, me ouça. — ele me olhou fundo em meus olhos em lágrimas. — Eu preciso te contar uma coisa mas você vai me jurar não contar a ninguém, porque eu teria de ir embora.

– Está bem, está bem eu só quero saber o que está acontecendo aqui. — eu falava ainda histérica.

– Eu não sou quem você pensa que eu sou.

– O quê?

– É. Eu não sou o que você está vendo. — eu parei de chorar e comecei a ficar mais assustada porém calma. — Aquele cara que você conheceu não era eu.

– Era quem então? Um irmão gêmeo? — perguntei incrédula.

– Não é isso, é que eu preciso que me ajude.

– Ajudar? Como assim ajudar?

– Preciso que guarde isso em um lugar seguro e o proteja de tudo. — ele me deu um relicário em forma de coração. Estava trancado.

– Mas..., o que quer que eu faça com isso?

– Apenas guarde.

– Ok, mas vai me explicar o que aconteceu?

– Vou, mas não hoje.

– Como assim não hoje?

– Não posso. Por favor me entenda.

– Está bem, mas é algo muito ruim?

– Mais ou menos.

– Está bem. Você vai voltar pra casa agora?

– Não, estava tarde. Posso ficar aqui e amanhã cedo eu vou?

– É..., pode. Mas vá bem cedo.

– Está bem, obrigado.

Ele me puxou pela cintura e me deu um abraço forte daqueles que sufocam e tira todo seu fôlego. Tinha sido pega desprevenida e rapidamente perdi o ar. Dei um tapa em seu braço e outro em sua cabeça e ele me soltou. Dei um sorriso de lado torto e pedi para que ele ficasse quieto a noite toda e prometeu-me se comportar.

Mais uma vez ele me agradeceu, saiu pela porta e foi se ajeitar do lado de fora da cozinha, no piso que ficava na varanda. Quando ele passou ainda mancando coloquei a mão na boca e a mordi com dó dele, porque apesar deu conhecê-lo pouquíssimo aquilo que o fizeram não tinha justificativa. Pelo menos pra mim.

Ainda o observei por um tempo até subir, pegar um cobertor e um travesseiro, e arrumar para ele. Ele se ajeitou conforme eu arrumava as coisas e dormiu feito um gatinho rapidamente. Dei-lhe um cafuné na cabeça e mandei um beijo de longe. Fechei a porta, subi as escadas e fui dormir. As horas davam mais de três da manhã. Como eu iria acordar no dia seguinte? Só por Deus mesmo.

Acordei no horário de sempre. As seis da manhã. Minha mãe ainda dormia e eu desci rapidamente para pegar as coisas que estavam com ele e incrivelmente as coisas que ficaram com ele haviam sumido juntamente com ele. Subi as escadas e ao bater os olhos em minha cadeira da penteadeira lá estavam o travesseiro e o cobertor.

Peguei os dois no colo e os cheirei. Eles não tinham cheiro algum apesar de estarem guardados no armário e nem sangue em qualquer lugar que fosse. Fiquei ainda mais surpresa por ele não ter deixado um bilhete ou algo assim. Mas lembrei do relicário que me dera. O peguei das mãos e vi que deveria ter mais de cem anos, por não fabricarem mais aquele tipo.

Quando deu seis e meia ouvi minha mãe gritar da cozinha pedindo para me apressar ou ia perder o ônibus até o colégio. Tomei banho e me troquei rapidamente, peguei o relicário o encaixei em um colar meu sem pingente, coloquei-o no pescoço e desci as escadas.

Minha mãe notou minha cara de mal dormida, mas não falou nada. Apenas deu-me um beijo na testa, me desejou um bom dia e saiu para trabalhar. Fiquei na cozinha queimando neurônios sobre noite passada e acabei perdendo o ônibus do colégio. Não quis esperar outro e decidi ficar em casa.

Liguei para minha mãe e disse que estava passando mal, com muita dor de cabeça e que iria ficar em casa deitada naquela manhã. Mas ao contrário daquilo tudo, era apenas para tentar descobrir respostas de Toyo ou pelo menos imaginar o que poderia ser.

Tirei a roupa do colégio e joguei a mochila do lado da cama, em seguida me joguei nela. Fiquei apenas com roupas íntimas de barriga para cima, olhando o teto e pensando muito. Peguei uma bola de exercícios, para a mão de fortalecer a musculatura, e comecei a jogá-la e pegá-la no ar. Me distrai com um tempo mas nunca parei de pensar em Toyo e na noite passada.

Tudo que fiz naquela tarde me lembrava sobre ele e tudo que acontecera. Não conseguia tirar as imagens da cabeça que vinham em flashback e nem esquecer cada detalhe que passei com ele.

Comecei a imaginar que ele poderia ser um assassino ou uma vítima. Em ambos os casos eu poderia ter razão. Por um lado tinha sangue dele caindo pela pela macia e branca, mas por outro tinha sangue que não era dele por não ter saído de lugar nenhum. Simplesmente estava na camisa e na calça, mas não saía de lugar algum.

Acabei dormindo por um tempo e só acordei com a campainha tocando no andar de baixo. Me vesti com uma camisola e com um roupão por cima, prendi o cabelo com o coque e arrumei a franja. Desci dizendo "já vai, já vai". Ao chegar na porta da frente olhei pelo olho mágico para ver quem era e quase caio para trás.