Trust Me

14 Riscos - part 2


Olhei para a frente de novo e vi policiais se aproximando. Toyo estava ficando com medo e vi ele se recolhendo para trás se distanciando de mim. Acompanhei o passo dele, mas entendi o que queriam. Andando sem olhar para trás era onde iriam nos atacar e nos pegar. Avisei-o sobre isso e ele parou de se mover igual a mim.

Parei de chorar, limpei as lágrimas e tirei os sapatos. Joguei para longe e pisei no mato aparado e batido com o andar das pessoas sobre ele. Olhei para minha mãe de novo e ela percebeu o que eu queria fazer. A vi fazer que não e que deveria ficar e desistir daquela loucura porque pouco provável daria certo.

– Toyo, vou subir em suas costas. Temos de sair daqui. — sussurrei olhando para frente. Ele ganiu e entendeu meu plano.

Rezei mais uma vez e comecei a andar para o lado dele, olhando diretamente para as pessoas e vendo a reação delas ao fazer aquilo. Muitas pediram que atirassem mas os policiais não se mexeram para me pegar ou atirar em nós dois. Continuei andando e parei ao lado direito de Toyo, movi os lábios diretamente para minha mãe e disse:

– Não se preocupa, eu volto. Eu te amo.

Subi nas costas de Toyo, agarrei em seu pelo e começamos a correr pela mata. Muitas pessoas seguiram a gente até o comecinho dela, mas logo desistiram. Os policias seguiram firme até mais da metade dela. Eu ia desviando de vários galhos e árvores enquanto ele corria comigo. Víamos alguns animais e plantas belíssimas mas continuamos seguindo até sair na praia.

– Toyo, pra onde vamos? Que tal sua casa no final da mata? — fiz uma sugestão. Ele balançou a cabeça com um sim e me preparei para mais uma corrida.

Corremos por mais ou menos meia hora da minha casa até a praia e depois mais uma hora até chegarmos ao final da praia. Levamos poucos minutos para chegar até o trailer abandonado de Toyo, mas graças a Deus os policiais nos perderam no final da mata e no começo da praia.

Chegamos ao trailer e desci das suas costas, abri a porta, entrei e fui pegar roupas pra Toyo. Uma cueca, um short e uma camisa. Entreguei a ele e fui até o banheiro lavar o rosto, tomar fôlego e pensar no que fazer. Liguei a televisão pequena e antiga que ele tinha ao lado da cama para ver o que estava se passando. Vi minha mãe chorando e desmaiando no colo do mesmo policial e várias pessoas incrédulas e indignadas com os policias de não terem ido atrás da gente e ter nos pegado em frente das câmeras dos repórteres.

Chorei novamente pela minha mãe e pela minha vida que quase se passou pelos meus olhos. Toyo passou por mim já trocado e foi direto ao banheiro. Eu estava de calça e blusa fina, mas estava com calor e resolvi pegar um short emprestado dele. Um que servisse, que não ficasse tão grande assim, afinal alguns de elásticos me serviram. Peguei o mais abatido e velhinho, dobrei minha calça e coloquei em uma cadeira.

– Você precisa voltar. — Toyo saiu do banheiro e me surpreendeu.

– Não posso. Não agora. — respondi.

– Emi, pelo amor de Deus olha o que quase aconteceu hoje.

– Eu vi.

– Então pra que se ariscar tanto? Não pude imaginar tanto perigo assim.

– Nem eu.

– Mas vou salvar você.

– Eu que vou. — fui até ele, peguei sua mão e o levei até o sofá cama.

– Emi, não posso. Não com você.

– Toyo, eu te amo e não irei desistir de você.

– Eu também te amo Emi, amo muito. Mas tenho medo de perder você.

– E não vai. — beijei-o.

Depois nos abraçamos e ele começou a chorar de desespero por me colocar em perigo. Deitei ele em meu colo e comecei a fazer carinho em sua cabeça, ele foi se acalmando e parou de chorar. Sorri para ele e ele pra mim. Se levantou e sentou ao meu lado. Tocou e acariciou meu rosto lentamente, se aproximou e me beijou. Nos beijamos delicadamente e com carinho e prazer. Depois daquele dia quase mortal deveríamos ter um momento para nós.

Fechamos todas as janelas e portas. Fui ao banheiro, tomei um banho, me enrolei em uma toalha e voltei até a sala. Comecei a andar e coloquei o cabelo em forma de coque. Vi Toyo se virar quando sai e me dirigi a sala. Ele veio até mim, me deu um selinho e foi para o banheiro tomar banho. Aproveitei para ligar para minha mãe.

– Alô? Mãe? — perguntei.

– Emi? Filha? Onde você está? Pelo amor de Deus, vola pra casa. Vai ficar tudo bem.

– Mãe me ouve.

– Filha por favor.

– Mãe, me ouve.

– Está bem fale. — ela chorava por trás do telefone.

– Eu estou bem, viva não aconteceu nada. Só vou pedir uma coisa pra você.

– Emi, pare com isso. Volte pra casa agora. — ela soluçava em meio as lágrimas.

– Mãe, na minha penteadeira tem um colar com um relicário. Pegue-o.

– O que?

– Mãe por favor, pegue-o.

– Ok, irei. — ela limpou as lágrimas e fungou. — Peguei.

– Agora leve-o até a praia, coloque em um banco que estará com uma faixa vermelha bem na direção de nossa casa.

– Emi, me fale o que está acontecendo?

– Mãe, você confia em mim?

– Por que isso agora, Emi?

– Confia ou não? — insisti.

– Claro Emi. — ela cedeu.

– Então faça o que pedi por favor.

– Está bem, estou saindo.

– Ninguém deve pegar ou se aproximar dele.

– Ok.

– Vou desligar e quando você tiver deixado ele no banco me ligue. Tchau. Mas mãe, antes uma coisa. Te amo, amo muito.

– Eu também minha filha, amo demais. Meu bem precioso. Tchau.

– Tchau.

Desliguei o telefone e fiquei alguns minutos olhando para meu celular. Me troquei, soltei o cabelo e vesti um chinelo. Sai porta afora e não olhei pra atrás. Esperei minha mãe me ligar, mas Toyo sentiu minha falta e foi atrás de mim. Escutei ele chegando perto de mim e senti quando me tocou.

– Emi? Aconteceu alguma coisa? — perguntou preocupado.

– Não, só um problema. — me virei.

– Qual?

– O relicário.

– O que tem ele? — Ele se aproximou ainda mais.

– Não estou com ele.

– E agora?

– Minha mãe vai levá-lo até um banco da praia. Pode me levar até lá?

– Ariscado demais.

– Ariscado é perder o relicário e não ter volta nem pra você ou pra mim.

– Eu sei, mas mesmo assim é ariscado.

– Não importa, precisamos dele.

– Eu sei.

– Vamos?

– Não sei, tenho medo.

– Vou sozinha então. — afirmei.

– Não. — ele entrou em minha frente.

– Então vamos juntos?

– Sim. — nos beijamos.

Nosso beijo foi parado com a ligação da minha mãe.

– Emi? Estou aqui. — ela falou com um tom de preocupação e medo.

– Estou indo buscar. Espere aí.

– Está bem. Beijos.

– Beijos.

Me virei para Toyo e dei um sinal de vamos. Ele se transformou em lobo, mas por enquanto fui andando ao lado dele em sinal de companhia e acariciando sua cabeça peluda, mas logo voltou a ser humano novamente. Andamos de mãos dadas até a praia. De lá voltou a ser lobo e eu subi em suas costas para chegarmos mais rápido. Em questão de minutos chegamos.

– Mãe? — desci das costas de Toyo e caminhei até ela.