– Fugir? Com você? — o afastei e olhei pra chão.

– Sim, fugir comigo. — ele levantou minha cabeça, mas o olhei meia tristonha.

– Não sei não. Como vou abandonar minha mãe, meus estudos, minha vida?

– Tem razão, desculpe.

– Tudo bem. Mas podemos ser amigos ainda não?

– Claro, mas se quiser sabe que sempre estarei lhe esperando. — ele me deu um beijo no canto da boca.

– Sim eu sei. — sorri. — Tenho que ir agora, beijos.

– Beijos.

Andei até em casa confusa e meia mexida pelo que Toyo me disse. Queria poder fugir com ele e me segurei muito para não soltar um sim do tamanho do mundo, mas não poderia abandonar minha mãe desse jeito, meus estudos e nem o julgamento de Kanji, coisa que eu estava esperando muito, e nem minha vida do jeito que estava. No próximo ano entraria em uma faculdade e queria que tudo desse certo pra mim. Nesse que acabara de entrar, já estava gostando então o outro deveria ser perfeito.

Chegando em casa minha mãe ainda não tinha voltado do trabalho e subi para meu quarto. Liguei a televisão no canal de música enquanto fui tomar banho, e quando voltei assisti a um filme qualquer que passava naquela hora. Mexi um pouco no meu computador e fui jogar um de meus jogos preferidos enquanto esperava mamãe chegar para comermos nosso lanche da tarde juntas como gostávamos de fazer sempre.

– Emi, cheguei. — mamãe gritou do andar de baixo.

– Tá bem, já vou descer.

– Ok.

– Trouxe bolo e sucos.

– Huuuuum adoro. — parei o jogo e desci as escadas. — Como foi o trabalho hoje?

– Foi bom e você o que fez hoje?

– Fui a praia e voltei.

– Só?

– Sim, encontrei Toyo lá.

– Toyo? E como ele está?

– Bem, ele mandou beijos a você.

– Ele é um fofo não? — ela suspirou.

– Demais mãe, demais. — ironizei.

– E como se encontraram?

– Me afoguei no mar e ele me salvou. — falei baixo.

– Olha, ainda é salva vida. — ela riu.

– Mãe.

– Que foi?

– Eu quase me afogo e você não fala nada.

– Desculpe, mas você está bem não está.

– Sim estou.

– Graças a Toyo. — ela deu um sorriso grande.

– Sim. — devolvi o sorriso, porém irônico.

Coloquei a mesa e sentamos para comer. Comemos bolos e tomamos os sucos que minha mãe trouxe para nós. Conversamos sobre nossos dias e rimos de algumas coisas que ela me contara do hospital, depois ficamos sérias sobre quando contei do afogamento mas logo descontraímos sobre o assunto do salvamento. Estava indo bem e ela me parecei que estava de bem sobre eu voltar a conversar e ver Toyo.

Tirei a mesa enquanto minha mãe lavava a louça, então abri a porta para Aki entrar e ficar conosco porque estava começando a fazer frio. Deixamos ele dormir na cozinha, mas se quisesse subir poderia também. Ele decidiu dormir no tapete da sala e não nos preocupamos. Ficamos lá junto dele vendo televisão até escurecer e sentirmos vontade de subir, tomar banho e dormir. Não acabamos nem jantando.

Mamãe foi primeiro e eu fiquei com Aki até a meia noite mais ou menos quando comecei a sentir sono. Subi a escadaria e ele veio atrás de mim até meu quarto onde se deitou sobre meu tapete e dormiu ali mesmo comigo. Liguei minha televisão e continuei vendo até cair na cama, então minha mãe veio e desligou-a. Dormir como um anjinho e não acordei por nada naquela noite, só no dia seguinte. Acabei não sonhando então por isso devia ter ficado tão tranquila.

Acordei com o barulho de chuva e com o cheiro de café fresco que minha mãe fazia no andar de baixo. Fazia frio e acordei tremendo por estar sem coberta. Coloquei meu roupão de manga comprida e que batia até minhas canelas e desci as escadas. Chamei Aki para vir comigo, mas percebi que ele já tinha descido antes. Então dei de ombros e continuei descendo até lá embaixo e me encantei com o aroma deliciosa que vinha da cozinha.

– Bom dia mãe.

– Bom dia filha. Tudo bem?

– Tudo e você?

– Tudo também, dormiu bem?

– Sim e você mãe? — me espreguicei.

– Também. — ela sorriu. — Quer comer panquecas ou waffles?

– Waffles. — falei rápido.

– Com o que?

– Nutella e morangos tem?

– Sim tem. — ela pegou na geladeira e me deu.

– E você?

– Vou imitar você. — rimos as duas.

– Que feio mãe.

– Feio nada. — riu.

– Bom vamos comer.

– Sim.

Minha mãe fez quatro waffles, duas pra mim e duas pra ela. Comi uma com nutella e morangos e a outra com manteiga, já minha mãe comeu uma imitando a primeira minha e a segunda com mel. Tomamos café que ela fez pra gente e depois ela subiu para tomar e ir trabalhar. Fiquei lá embaixo com Aki enquanto lavava a louça e conversava com ele, fingindo que me entendia.

– Vamos Aki? — o chamei para ir para a sala.

Ele veio atrás de mim e se deitou a meus pés. Minha mãe tomou banho, se trocou e desceu. Pegou as chaves do carro, me deu um beijo na cabeça, fez carinho na de Aki e saiu para trabalhar mesmo com aquela chuva. Não estava tanta mas ventava bastante e fazia frio. Fiquei preocupada por ela e perguntei se ela não queria ficar conosco em casa, mas garantiu que ficaria bem então mandei um beijo com a mão e dei tchau. Mamãe devolveu.

Passei a tarde no andar de baixo com Aki até a campainha tocar as três em ponto. Estava quase cochilando então tomei um baita susto. Gritei já vai, já vai e olhei para Aki que se espreguiçava no tapete e logo saiu correndo até a porta. Latiu bastante e pedi que parasse. Olhei no olho mágico quem era e vi que eram policiais de novo.

– Sim? — olhei com desdém.

– Boa tarde, podemos falar com a senhorita? — um policial me estendeu a mão.

– Sim, entrem. — eles entraram e Aki cheirou um a um. Enquanto fechei a porta eles me observavam.

– Estamos aqui para falar sobre seu amigo Toyo. — virei rapidamente.

– O que tem ele?

– Nos o encontramos.

– O que?

– Nos encontramos o esconderijo dele, mas se confirmar para gente que estamos certos podemos proteger seu amiguinho.

– Proteger? A única coisa que querem é matá-lo.

– Não queremos matá-lo, queremos prendê-lo, fazer justiça.

– Por que eu entregaria ele?

– Porque estaria nos ajudando.

– Ajudando a levá-lo a morte. — cruzei os braços e cheguei mais perto dos policiais.

– Senhorita se não quiser tudo bem, mas não espere que ele saia absolvido.

– Sei que sairá, porque ele é inocente.

– Inocente?

– Ele matou pessoas.

– A única coisa que ele matou foi a minha vontade.

– Vontade?

– Sim. Então peço que vão embora, porque não tenho mais nada a falar.

– Tudo bem nós vamos, mas voltaremos. — um dos policias falou e olhou para outro.

– Tanto faz. Por aqui, por favor. — segui até a porta e a abri para que saíssem.

– Senhorita, saiba que está fazendo o errado. — um deles me falou antes de sair.

– Deve ser. — olhei pro chão e depois pra ele.

– Tenha uma boa tarde senhorita.

– Igualmente. — eles saíram, bati a porta e comecei a chorar quando sentei no chão atrás dela.