Antes mesmo que minha mãe pudesse parar o carro no estacionamento na delegacia abri com força a porta e saí corrida até dentro dela. Não queria saber de nada e nem ninguém. Passei voando por vários policiais que tentaram me segurar e não me deixarem avançar, mas minha força naquele momento praticamente dobrou e nenhum deles conseguiu me segurar. Lembrei de Ren e fui até a sala dele, mas ele estava com outra pessoa.

Pedi que a mulher que estava dando depoimento que saísse imediatamente da sala porque queria falar em particular com o policial Ren sobre assuntos urgentes, então ela saiu e nos deixou a sós. Eu limpava as lágrimas e o suor que escorriam de meu rosto em frente a ele que me olhava estranho e surpreso por aparecer do nada e daquele jeito. Me sentei na cadeira e desabei de chorar na mesa dele. Ren veio até mim e se ajoelhou ao meu lado pedindo explicações, mas não respondi. Ele me abraçou e eu chorei ainda mais no ombro dele.

– Emi, o que foi? Me conte.

– Toyo, Ren.

– Toyo? — ele se distanciou.

– Sim.

– O que tem ele?

– Pegaram-no.

– Como e quando?

– Hoje, agora mesmo. O trouxeram para cá.

– Preciso falar com o delegado sobre isso, não sabia até então.

– Ren, me deixe falar com Toyo por favor. Eu te imploro.

– Não sei Emi. — ele se levantou. — Lembra no que deu quando deixei você falar com Kanji.

– Kanji era um canalha que me bateu e que me odeia, Toyo não. Ele me ama.

– Eu sei, mas não sei.

– Por favor Ren. — peguei na mão dele.

– Tudo bem, venha comigo.

Me levantei e dei um abraço apertado em Ren que sorriu e disse que faria o que fosse para me ajudar, mesmo sabendo de tudo sobre Toyo. O acompanhei até fora da sala e encontrei minha mãe desesperada atrás de mim. Ela correu até onde eu estava e perguntou o que aconteceu. Expliquei o que iria fazer com a ajuda do policial que se demonstrava meu amigo e que logo voltaria. Mamãe me desejou boa sorte, me beijou a cabeça e disse para mandar lembranças para Toyo.

– Ren? — falei parando de chorar.

– Sim. — ele se virou.

– Obrigada. Mesmo. — sorri.

– De nada Emi. — ele apertou de leve meus ombros.

Seguimos até a sala do delegado que estava com Toyo na cadeira algemado em frente a dele interrogando-o. Não resisti e fui até ele. O abracei e o beijei muito como se estivesse morrendo de saudades, mas fui interrompida por Ren me puxando pela cintura para que me afastasse.

– Policial Ren, o que o trás aqui? — perguntou o delegado Takeshi. — Ah, olá Emi.

– Olá delegado. — respondi ainda nos braços de Ren.

– Trouxe Emi para conversar com o senhor sobre Toyo, ela apareceu na minha sala desesperada e queria que eu fizesse algo por ter entregado tudo sobre Kanji.

– Ah sim. Bom, o que posso fazer por você?

– Solte Toyo. — ele ainda estava meio molengo pelos choques.

– Não posso.

– Pode sim, é só soltar.

– Não posso Emi, ele é suspeito de matar várias pessoas da vila. Não posso deixar ele sair.

– Por favor. — chorei e me virei de frente ao peito de Ren que me abraçou.

Ren fez algum movimento ou falou algo que eu não consegui entender para Takeshi que fez ele voltar atrás e me deixar ficar um tempo com Toyo. Me virei devagar e Ren me soltou. O delegado se levantou me disse que daria dez minutos para ficarmos juntos e que quando voltasse eu deveria ir embora da sala, senão eu seria detida.

– Tudo bem, tudo bem. Obrigada delegado. — sorri.

– Dez minutos então?

– Nem a mais e nem a menos. — afirmei.

– Ótimo.

Takeshi soltou Toyo da cadeira onde estava algemado e ele pulou para um abraço apertado e caloroso que só poderia ser dele. Ren chamou o delegado para fora da sala e ficaram um pouco afastados para conversarem e não ouvirem a nossa conversa.

– Toyo vamos temos que fugir. — me afastei e levantei com pressa.

– Não Emi, chega de fugir. — ele ficou no chão de frente para mim.

– Chega? Mas foi você mesmo que me perguntou isso outro dia.

– Eu sei, mas não dá mais. Chegamos ao final da linha.

– Não, não chegamos iremos sair daqui. — me ajoelhei de frente a ele.

– Não Emi, não iremos. Eu não vou.

– Vai sim. — ele olhou para o chão.

– Emi, por mais que tenhamos amor entre nós e quisermos ficar juntos não posso ariscar mais a sua vida.

– E se não ariscar quando nos mudarmos? — ele me olhou surpreso.

– Mudarmos?

– Sim, mudarmos. Vamos embora daqui, mas temos que ser rápidos.

– Mas como? — levantei e vi uma janela aberta em uma das paredes.

– Por ali. — apontei para a janela.

– E como iremos fazer isso?

– Se transforme em lobo, force a janela e saia. Vá ao carro da minha mãe e fique embaixo dele, quando eu sair e falar "agora", irei abrir a porta e você pula dentro dele, mas coloque a janela no lugar depois.

– Está bem.

– Que tudo dê certo.

– Que tudo dê certo.

– Eu te amo Toyo.

– Eu te amo Emi.

Nos beijamos, abraçamos e depois soltamos um do outro. A janela ficava a poucos metros do chão, então foi fácil tirá-la do lugar, mas sem fazer barulho para que nada desse errado. O tempo restava apenas dois minutos para que o delegado voltasse a sala e o Ren também, logo teríamos de ser rápidos e conseguimos que o plano desse certo. Toyo saiu e coloquei a janela no lugar com ajuda dele do lado de fora, voltei a cadeira dele me algemei e comecei a chorar desolada fingindo ter sido machucada por ele.

Quando ouvi passos perto de mim, sabia que Ren e Takeshi estavam perto então chorei mais alto e eles entraram feito loucos na pequena sala. Me viram de costas e algemada, e correram até mim. Me livraram delas e Ren me pegou no colo. Eu fingia tremer e pedi que me levassem até minha mãe que esperava ansiosa pela minha chegada. Ela correu até nós e me abraçou. Falei que tudo ficaria bem e que era tudo fingimento, então consentiu e ficou fingiu estar triste também.

– Toyo fugiu. — o delegado entregou.

– Como assim Toyo fugiu? — Ren perguntou.

– Como vou saber policial Ren, só sei que ele não está mais lá.

– Emi, quero que vá para casa agora, mas volte quando precisarmos de você. — Ren me olhou fundo nos olhos, mas entendeu e piscou para mim.

– Tudo bem. — sorri, ele me abraçou e me desejou boa sorte, correu até a sala do delegado e nunca mais o vi.

Sai com minha mãe para fora da delegacia e fomos até o carro. Quando cheguei notei que ele estava debaixo do carro e abri a porta de trás. Falei o "agora" que tínhamos combinado. Toyo entrou escondido e ficou abaixado no banco de trás do meu. Mamãe me olhou e disse que eu estava brincando com fogo e que isso poderia acabar mal, mas não liguei e seguimos para casa.

Chegando em casa, Toyo ainda estava em forma de lobo negro e foi o primeiro a entrar em casa. Aki correu até ele, o cheirou e rosnou mas depois saiu fora e nos deixou sozinhos. Minha mãe estacionava o carro enquanto subíamos a escada até meu quarto. Ficamos lá observando as janelas depois dele voltar ao normal e eu dar meu roupão para ele, até que ela subisse para conversar conosco sobre o que iríamos fazer e decidir o que podia ser feito.

– Então Emi, Toyo. O que irão fazer? — mamãe subiu até onde estávamos, fechou a porta e se sentou na cama ao lado de Toyo, enquanto eu estava em pé andando de um lado para o outro.

– Não sei, não tenho nada na cabeça. — respondi.

– E quanto a mudança? O que queria dizer na delegacia? — Toyo perguntou surpreso.

– Era só um motivo para você aceitar fugir.

– Nossa obrigada por mentir.

– Você saiu de lá, não saiu. Então, pronto. — disse irritada.

– Emi, já sei o que podem fazer.

– E o que é mãe? — virei ansiosa para ela.

– Fujam daqui.