Acordei com a minha mãe chegando em casa. Ela tinha conseguido chegar do trabalho mais cedo e estava preocupada comigo se eu tinha melhorado ou se ainda estava com dor de cabeça e passando mal. Garanti a ela que tudo passou e despreocupei-a.

Ela contara que naquela tarde mais uma pessoa tinha sido vítima de algum assassino mas conseguiu fugir e se escondeu atrás de uma casa. Disse que pediu ajuda para um morador e levou-o para o hospital.

Nesse momento eu estava aterrorizada com tudo que ela me falava, porque eu tinha suspeita de quem seria mas não queria contar para não preocupá-la e nem acabar com a vida dele, mesmo sabendo que isso poderia acontecer de novo e as vezes muito pior.

Tentei manter a calma enquanto minha mãe conversava comigo, mas acho que ela percebeu o meu nervosismo. Eu comecei a suar frio e senti minha pressão baixar. Era como saber o que supostamente acontecia e não fazer nada para ajudar minha vila. O lugar onde eu nasci e cresci estava se tornando um inferno e eu poderia ajudar só que eu tinha medo do que aconteceria com uma certa pessoa.

Pedi a minha mãe um chá de flores forte enquanto eu ia ao banheiro. Eu mal conseguia andar direito e pensar racionalmente. Meus neurônios fritavam cada vez mais e eu comecei a entrar em desespero. Eu não sabia onde ele morava mas sabia que ele viria me encontrar a noite. E eu só tinha uma change.

Voltei do banheiro com a cara lavada e mais calma, tomei o chá com ela e mudamos de assunto para o que faríamos a noite. Lhe disse que Toyo viria me visitar para conversarmos e que estava gostando de tê-lo por perto. Logo entendeu que eu estava me apaixonando por aquele suposto amigo. E eu acho que por algum lado eu estava.

Minha mãe me deu um beijo de boa noite, subiu, tomou banho e foi dormir, mas antes sorriu pra mim e disse para eu ter cuidado com a noite. Ela estava preocupada comigo assim como todos se preocupavam com seus filhos, e ainda mais agora com essa onda de assassinatos.

Quando deu meia noite em ponto, ela já dormia como um bebê depois de ter mamado até se entupir e eu estava despreocupada caso ouvisse alguma coisa ou suspeitasse acontecer algo comigo com aquele rapaz, cujo eu estava morrendo de medo dele tentar algo comigo mesmo sabendo que eu estaria a poucos passos de entrar em casa.

Esperei olhando pela janela Toyo se aproximar de minha casa enquanto eu tentava controlar meu nervosismo. Tomei um banho rápido, coloquei uma blusa preta de alça fina e uma calça jeans azul escura, calcei um chileno de dedo e fui descendo as escadas lentamente até a porta da varando onde o encontrei de costas sentando no piso de madeira dela.

– Oi Toyo. — disse nervosa.

– Olá Emi. — ele disse em tom tristonho, se levantou e se virou.

– Como está? — o abracei e sentamos um ao lado do outro.

– Com medo e você? — ele cada vez mais ficava medroso.

– Estou também. -concordei com ele.

– Sinto muito Emi.

– Pelo que?

– Você sabe.

– Não Toyo, eu não sei. — ele se virou e me olhou fundo.

– Eu sei que queria aquele beijo, mas senti que não.

– Eu queria Toyo, mas eu estava assustada com o que aqueles policiais me disseram.

– O que disseram?

– Que estavam procurando você, por ser suspeito de assassinato. — ele se levantou rapidamente, colocou as mãos na cabeça e começou a chorar.

– De novo não.

– De novo? Isso já aconteceu antes? — ele veio até mim, ajoelhou, pegou minhas mãos e implorou.

– Se eu contar o que passa comigo e o que aconteceu me prometa guardar segredo?

– Prometo. — peguei o rosto dele nas mãos e beijei sua testa.

– Está bem. — ele se sentou a minha frente e começou a falar.

– Comece.

– Há muito tempo atrás quando eu tinha menos de cinco anos meus pais brigavam muito por não terem dinheiro, mas não por não conseguir nos sustentar ou pagar nossas dívidas, mas sim meu tratamento.

– Tratamento? De que? — interrompi.

– Quando nasci tive paradas respiratórias e desenvolvi problemas de coração ao passar dos anos. Os tratamentos e a cirurgia que eu precisava passada de milhares de ienes e não tínhamos dinheiro para isso. Meus pais decidiram me colocar para a adoção para que alguém com mais condição pudesse me tratar e tentar reverter meu caso que poderia piorar a cada momento. Um tempo depois fui adotado por uma família de bruxos. Eu não sabia o que era e nem o que faziam, mas nos demos bem. Com o passar do tempo já me sentia da família e aprendi a chamá-los de pai e mãe, mas um dia entrei na quarto onde eles realizavam suas bruxarias e me expulsaram de lá dizendo ser proibido e que eu nunca voltasse lá outra vez. Teimoso como eu era, tornei a entrar lá outras duas vezes e mexer em algumas coisas. Meu pai me pegou uma vez e disse que eu iria sofrer uma punição por isso. Ele tirou meus problemas de coração e me fez uma maldição que não poderia ser quebrada. Nos meus dezoito anos sai de casa e fui morar sozinho, por ter minhas necessidades e querer ser independente, mas foi aí que a maldição ganhou força e se tornou instável. Hoje com vinte e dois anos sofro com ela, mas consigo controlá-la quando tenho força de vontade e querer poder vencê-la. Aquele relicário que eu te dei quando está com alguém desenvolve um certo tipo de proteção mas em sua vila ela foi quebrada não sei porque e nem como. Mas tenho que descobrir, você pode me ajudar?

– Toyo, eu estou sem palavras. Mas que tipo de maldição é essa? — perguntei ainda chocada com aquela história.

– Vou lhe mostrar mas não se assuste ou corra, porque ainda serei eu.

Ele se afastou e transformou-se em um lindo lobo negro. Aquele que eu vira pela tarde e que achava que estava ficando louca. Chegou perto de mim e me cheirou. Fiquei paralisada, mas sabia que eu era a única pessoa em quem confiava que poderia ajudá-lo. Acariciei atrás de sua orelha e ele se deitou as minhas pernas. Logo ele voltou a forma normal, mas ainda sim estava do jeito quando ainda era um lobo.

– Eu tenho que ir agora. — ele me falou olhando nos meus olhos.

– Agora?

– Sim.

– Fica. Aqui. Comigo. — sorri pra ele.

– Não posso.

– Pode sim, fica.

– Tá bem, mas bem cedo eu vou embora.

– Está bem. — sorri de orelha a orelha. Peguei ele pela mão, entrei em casa e subi as escadas com ele até meu quarto.

Subimos as escadas devagar para que não acordássemos minha mãe e que não fizéssemos nenhum barulho. Ele pediu para ir ao banheiro e lhe mostrei o caminho. Enquanto isso fui até a cozinha, peguei uma garrafa d'água e voltei para o quarto. Cheguei lá e ele já estava sentando no pé da minha cama me esperando.

– Posso dormir aqui? — ele me olhou com uma cara de curioso.

Eu estava com medo daquele rapaz, mas eu sentia que poderia confiar nele. Entrei no quarto, fechei a porta atrás de mim e fui caminhando até ele. Coloquei a garrafa d'água em cima da penteadeira apaguei as luzes e deitei com ele. Me sentia bem mas estava nervosa para o que aconteceria, e só consegui dizer.

– Sim. — ele me beijou e me abraçou como eu nunca tinha sido beijada e abraçada antes.