Troublemakers
1 Capítulo 1: Rayssa
Merda, não acredito que fiz isso! Acabei de chupar um cara sem trocar uma dúzia de palavras com ele! Quando vou aprender a dizer não para esses idiotas? Ah, que raiva! E o pior, o filho da puta ainda terminou na minha boca!
– Onde tem banheiro nessa casa!? Preciso vomitar! – grito no meio da multidão de pessoas para Pamela, minha amiga e anfitriã da festa. Mas, com a música altíssima, sou ignorada.
Empurro as pessoas no meu caminho e, enquanto ando tropeçando por entre sofás e garrafas vazias, vejo Thatiane sentada no chão da sala. Ela está chorando, o rosto vermelho e o celular na mão. Por um momento, esqueço meu estômago embrulhado.
– O que aconteceu, Thati? Por que você está chorando aqui? – pergunto, tentando gritar mais alto que a música para que ela me escute.
Aponto para o chão, mas ela para de chorar, pensa por um momento e murmura um nome, mas o som é abafado pela música e então, começa a chorar novamente. Aquele nó na garganta dela me deixa atônita.
Porra, por que eu sempre sinto que preciso carregar o mundo nas costas?
~ Sonho off ~
— Acorda, Rayssa! Acorda! Levanta logo porque estamos atrasados! – fui acordada aos berros por meu irmão mais novo, André.
– Ai, fala sério, tô morrendo de dor de cabeça e você me acorda desse jeito, com essa delicadeza de javali – reclamei sonolenta, mas já descendo da cama. – Nunca vou entender como ela consegue continuar dormindo com você gritando todas as manhãs – disse, apontando para minha irmã mais velha, Ravena, que dormia na parte de baixo da beliche.
Uma dor de cabeça monumental me atingiu, tinha certeza de que havia bebido mais do que devia na festa e André bufou, apontando para o relógio.
Estávamos realmente atrasados. Me arrumei às pressas, ouvindo as reclamações de André e quando finalmente chegamos ao temido Colégio Dinastia de Honra, com apenas catorze minutos de atraso, um crime quase imperdoável por ali, nos separamos.
Esse lugar tinha regras para tudo: horários rígidos, uniforme impecável, postura correta, desempenho exemplar. "Conhecimento, Honestidade e Ordem", diziam em cada parede, como se fosse um mantra sagrado. Mas, no fundo, todos sabiam que era apenas uma forma disfarçada de controle.
– Você é um caso tão perdido que os professores nem reclamam mais dos seus atrasos – brincou minha amiga Elena assim que me viu. Ela tem aquela cara séria de sempre, mas o olhar dela entrega o humor escondido.
– Hey, a culpa não foi minha! Hoje eu acordei com uma super dor de cabeça, não achava meu uniforme e o ônibus demorou – me defendi, fazendo cara de vítima.
– Pelo visto, você não é a única a acordar com dor de cabeça, não achar o uniforme e perder o ônibus... Olha quem está chegando – disse ela, apontando para a porta. Vi no rosto de Elena, por um momento, uma careta de desgosto, mas não dei atenção. Olhei para frente, vendo Arthur, Jeferson, Vivy e outros alunos atrasados entrando.
– Olha isso, que vergonha desse povo que não respeita os horários do nosso querido colégio e fica aí perdendo aula de Física – falei em tom de deboche, para Arthur, que se sentou ao meu lado e riu do meu sarcasmo descarado. Jeferson se sentou na minha frente com cara de sono, enquanto Vivy se acomodou atrás de Arthur e mandava uma mensagem de texto.
– Ressaca tá brava, realmente não queria vir para o colégio hoje, mas não posso mesmo perder conteúdo nenhum – reclamou Arthur.
– Também queria ter faltado e ficado em casa, ouvindo todas as minhas playlist do Slayer – disse Vivy, guardando o celular.
– O que vocês acharam da festa da Pamela? – perguntou Jeferson, corando. – Ou melhor, o que vocês lembram da festa?
– Nem lembro de muita coisa, mas o pouco que lembro prefiro não comentar – falei com um ar de seriedade.
– Idem – disse Elena, fazendo cara de nojo.
– Também não me lembro de muita coisa, bebi muito, sabe? – respondeu Arthur corando.
– Pois eu me lembro que não tocou muita música boa e eu fiquei conversando com a loirinha bonitinha do 2º B, qual o nome dela mesmo? – perguntou Vivy.
– Gabriella – respondi, e então perguntei: – E você, Jeferson, lembra de muita coisa?
Antes que Jeferson pudesse responder, a professora de História chegou e calou a todos. Mas percebi, antes de se virar para a frente, que ele lançou um olhar triste para Arthur.
O dia passou lentamente e parecia que as aulas não acabavam, minha mente estava distante, a festa havia me deixado com uma sensação estranha – como se tivesse uma responsabilidade ali, como se algo estivesse errado e precisasse ser resolvido. Sempre sou a pessoa que tenta consertar tudo, como uma irmã mais velha que ninguém pediu, mas todo mundo espera.
Eu precisava falar com a Thatiane com urgência, então quando o sinal tocou e o intervalo finalmente chegou, fui correndo procurá-la e a arrastei para os fundos da biblioteca.
– Okay, agora você vai ter que me explicar direitinho o porquê do choro na festa – sussurrei, autoritária e preocupada, para Thatiane, que se sentou em uma das cadeiras e apontou outra à sua frente.
– Nossa, calma, garota, eu te conto, mas você precisa me prometer que não vai contar nada para ninguém, porque esse é um segredo muito sério. Você promete? – perguntou Thati.
– Eu prometo – respondi.
– No meio da festa, eu recebi uma ligação do meu namorado. Nós brigamos porque ele disse que eu não avisei que ia para a festa e que eu devia ir embora. Eu estava meio bêbada, insisti que queria ficar, que ele não mandava em mim, e isso continuou até ele gritar comigo e desligar na minha cara. Conforme o efeito do álcool foi passando, percebi a burrada que tinha feito, mas ele parou de atender minhas ligações. Então, sentei no chão e comecei a chorar – desabafou Thati. – Foi nessa hora que você chegou e começou a perguntar o que estava acontecendo.
– Entendi, mas fora o fato de você estar namorando escondida, não tem nenhum segredo tão sério – disse, mais calma.
– Então, a parte séria e muito secreta é que esse meu “namorado” tem dez anos a mais que eu e é casado. Mas, por favor, não me julga – disse Thati, com um fio de voz e os olhos marejados de lágrimas.
Quando Thati termina de falar, uma onda de empatia me atinge. Ela está presa em um ciclo, assim como eu já estive.
– Não se preocupe, eu sou a última pessoa que te julgaria. Todos nós temos segredos e defeitos. Você sabe que eu já sofri muito na mão de um namorado por não conseguir dizer não e dar um fim sozinha nesse relacionamento. Você não precisa me dizer o nome dele, mas saiba que pode contar comigo para qualquer coisa – sussurrei. – Agora, seque o rosto, porque precisamos voltar para aula. Mas no Clube de Karatê, nós conversamos.
Thati sorriu aliviada e secou as lágrimas.
Logo, o sinal tocou e voltamos para nossas salas como se nada tivesse acontecido, porque é assim que o mundo funciona: as pessoas não percebem o que carregamos por dentro.
~ Flashback on ~
– Fábio, eu estou cansada das nossas brigas e não aguento mais ser tratada desse jeito... Acho melhor a gente terminar – digo, hesitante. De repente, levo um tapa no rosto.
– Você não acha nada. Quem manda nesse namoro sou eu, e eu digo quando terminamos. Entendeu!? – ele me diz friamente, e eu apenas aceno que sim com a cabeça, ainda em choque pelo tapa.
~ Flashback off ~
Eu nunca julgaria a Thati por estar com problemas em seu relacionamento. Eu, melhor do que ninguém, sabia o que era isso. Não importa quantas vezes tentassem me convencer de que eu era bonita ou inteligente, na minha cabeça isso nunca seria verdade. Meu pai sempre exigiu o máximo de mim, falar três idiomas não era um talento, era uma obrigação. Ser uma das melhores alunas não era um motivo de orgulho, era o mínimo e por mais que eu me esforçasse, nunca parecia suficiente. Meu ex-namoro só piorou as coisas, levando embora o pouco de amor próprio que eu ainda tinha.
— Alô?? Terra para Rayssa! O sinal já bateu, queremos sair e você tem atividades no Clube de Karatê, não tem? — fui tirada do meu devaneio por Vivy, que queria ir ao Clube de Arte.
— Desculpa, gente, estava viajando aqui — guardei meu material e saímos da sala, onde André, Márcio , Pamela e Thati nos esperavam.
— Nossa, hoje vocês demoraram, hein! Vamos rápido porque quero passar no Clube de Muay Thai para ver meu namorado — disse Pamela, empolgada.
Sorri para a Pamela. Ela sim era linda de verdade e sabia escolher um homem. Seu namorado era gentil e atencioso, além de ser o capitão do clube de Muay Thai.
Às vezes, me perguntava se um dia alguém iria olhar para mim de verdade. Para ser sincera, nem sabia se era capaz de ser amada. Minha autoestima sempre foi uma bagunça, e meu jeito "impulsivo" só afastava os garotos. Isso, claro, não me impedia de rir e disfarçar.
Por mais exausta que eu estivesse, nunca deixava o bom humor de lado. Era a minha armadura. Se eu fosse forte e divertida, ninguém perceberia as rachaduras.
Elena se despediu de nós e disse que estava com pressa para ir ao Clube de Teatro. Jeferson e Vivy foram para o Clube de Arte, André e Thatiane seguiram para o Clube de Karatê na frente, Arthur como sempre foi para a biblioteca estudar e Pamela, Márcio e eu seguimos conversando em direção ao Clube de Muay Thai.
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