Troublemakers
4 Capítulo 4: Elena
A festa estava caótica, e eu já sabia que isso aconteceria desde o momento em que resolvi vir. Eu deveria ter ficado em casa, sozinha, fazendo algo mais produtivo, mas não… E para piorar, tive de voltar mais uma vez à casa da Pamela para buscar minha jaqueta esquecida.
Avistei o Arthur e o Jeferson juntos, como sempre, e de alguma forma, eu sabia que algo ia acontecer. Não tinha como ser diferente. Jeferson sempre foi meio perdido, se jogando em sentimentos que não compreende direito. E Arthur... bem, Arthur era Arthur. Ele me conhecia demais para não perceber o quanto estávamos nos afastando, mas eu não conseguia fazer nada. Eu precisava me manter no controle, mesmo que isso significasse afastá-los de alguma forma.
Foi então que vi. Vi o beijo. Não foi planejado, mas foi como se o mundo tivesse parado para me mostrar que estava tudo desmoronando. Eu não podia deixar aquilo acontecer. Não poderia permitir que o Jeferson, meu amigo, se metesse nesse tipo de jogo com meu Arthur. Não podia.
~ Sonho off ~
O despertador me arrancou daquele pesadelo — ou memória, eu não sabia mais dizer. Minha cabeça latejava, e meu coração batia rápido como se estivesse me lembrando de que o que eu tinha visto ainda estava ali, pulsando em mim. A raiva não havia passado.
Durante a manhã, fingi que nada estava acontecendo, mas mal conseguia prestar atenção em qualquer coisa durante as aulas. Jeferson e eu sempre tivemos um acordo não falado, um código de amizade. Ele sabia que eu estava com Arthur. Mas, mesmo assim, ele tomou o que não era dele. Algo dentro de mim quebrou. E o pior? Eu não sabia o que fazer.
Os meninos chegaram para a segunda aula, atrasados como sempre, junto de Vivy e mais alguns alunos. Não consegui sequer olhar para Jeferson e nem falar para Arthur o que havia presenciado. Como eu poderia? Seria humilhante admitir que eu sabia e não fazia nada. Admitir que talvez eu estivesse perdendo controle.
As aulas passaram arrastadas, e tudo o que eu vi me perseguiu. Jeferson não parecia culpado. Parecia… confuso, como se realmente não entendesse o que havia feito. Isso me deixou ainda mais irritada. Ele achava que poderia brincar com o Arthur? Eu não podia permitir. Arthur e eu somos namorados desde crianças. Todos esperam que fiquemos juntos.
E eu também esperava. Afinal, se ele não fosse meu, o que restaria de mim?
Quando fomos liberados me decidi. Fui até o Clube de Artes, onde sabia que Jeferson estaria. Ele gostava de ficar lá, desenhando suas capas de bandas e fugindo da realidade. Não mais.
– Achei que você estaria no Clube de Teatro. Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele ao me ver entrar.
A voz dele estava despreocupada, como se nada tivesse acontecido. Como se ele ainda fosse meu amigo. Mas ele não era mais. Agora, ele era apenas alguém tentando me destruir, tentando destruir o que eu tinha com Arthur.
– Aconteceu sim. – Minha voz saiu firme, fria. – Aconteceu que você é um falso talarico!
Jeferson arregalou os olhos. Ele tentou responder, mas eu não deixei.
– Não se faça de desentendido. Você não vai me enganar mais. Quero você bem longe de mim e do Arthur, que É E SEMPRE SERÁ O MEU NAMORADO!
Não esperei pela resposta dele. Saí do Clube de Artes com o sangue fervendo, como se tudo me lembrasse que aquela amizade havia terminado. Jeferson sabia agora o lugar dele.
Voltei para o Clube de Teatro impaciente, mas pude me jogar de cabeça no meu papel. Lady Macbeth. Uma mulher julgada por suas ambições, odiada por suas escolhas, mas que, no fundo, só fez o que achava que era certo. Isso me lembrava a mim mesma.
Durante o ensaio, recebi elogios de todos. A professora disse que eu iria brilhar na apresentação. Eu sorri, agradeci, mas minha cabeça estava longe. Enquanto todos me viam como a atriz dedicada, por dentro eu continuava queimando.
Eu sabia o que precisava fazer. Eu não contaria para Arthur sobre o beijo, não diretamente. Mas ia falar que Jeferson não era uma boa influência para ele, que ele deveria se afastar. Em nome do nosso futuro, do que sempre fomos. Arthur e eu somos perfeitos juntos. Não podia deixar que ele se confundisse. Não podia perder ele.
Depois do ensaio, passei na biblioteca para buscar Arthur. Como sempre, ele estava imerso nos livros, alheio ao mundo. Isso me trouxe um conforto estranho. Ali estava o meu namorado. Dedicado, focado, o garoto que iria longe comigo ao lado dele. Eu me sentei perto e observei enquanto ele estudava.
– Você nem viu o tempo passar, né? – sorri de leve.
Arthur sorriu de volta, sem nem levantar a cabeça. Eu me inclinei na mesa e fiquei olhando para ele. Por um instante, tudo pareceu normal de novo. Como se nada pudesse nos separar.
“Juntos, conquistaremos tudo”, pensei.
Arthur guardou seus materiais e o cumprimentei com um beijo. Ele sorriu e retribuiu, como sempre fazia, e naquele momento soube que, de alguma forma, ficaríamos bem.
Ele não tinha ideia do que estava acontecendo entre nós — ou melhor, do que eu sabia. E era assim que precisava ser.
Como sempre, Arthur me acompanhou até o ponto de ônibus, de mãos dadas, enquanto conversávamos sobre coisas triviais. Ele comentou sobre uma prova difícil que estava por vir, e eu fingi estar interessada, mesmo com minha mente a mil.
Assim que chegamos à minha parada, respirei fundo, ajustei o tom da minha voz para algo delicado, quase preocupado, e aproveitei minha chance.
— Arthur, posso te pedir uma coisa? — comecei, fingindo nervosismo. Ele me olhou com atenção, franzindo ligeiramente a testa.
— Claro, o que foi? — ele me perguntou preocupado.
— É sobre o Jeferson. — Seu rosto não mudou, mas percebi que ele ficou mais atento. Continuei antes que ele pudesse responder: — Eu sei que vocês são próximos, mas... eu ando preocupada com você. Com a influência dele.
— Influência? — Arthur perguntou, confuso. — Do que você está falando, Elena?
Eu sorri levemente, como se estivesse tentando escolher as palavras certas, para parecer que aquilo estava me machucando.
— Você sabe como ele é, Arthur. Ele está sempre... distraído com a banda, fumando com aqueles caras estranhos. Não quero te ver envolvido nisso, entende? Você tem tantas coisas boas pela frente. Uma vida inteira para construir. Nós temos.
Arthur hesitou. Eu conhecia bem aquele olhar. Ele era racional, ponderado demais, e estava processando tudo o que eu havia dito.
— O Jef é meu melhor amigo, Elena — ele respondeu com calma, mas algo na voz dele parecia vacilar. Perfeito.
— Eu sei. — Fingi compreensão, dando um suspiro. — Mas você precisa admitir que ele anda estranho. Parece que ele está confuso, sei lá. Só acho que você devia dar um pouco de espaço, pelo menos até ele resolver as coisas dele.
Arthur não respondeu imediatamente. Ficou pensativo, olhando para os próprios pés. Ele sempre levava a sério o que eu dizia, e era exatamente disso que eu precisava.
— Vou pensar nisso — respondeu por fim, com um sorriso cansado.
— Obrigada — murmurei, sorrindo de volta. Toquei seu rosto levemente, deixando que ele visse a “preocupação” nos meus olhos. — Eu só quero o melhor para você.
Ele assentiu, e o ônibus chegou logo em seguida. Arthur me deu um beijo de despedida antes de eu embarcar. O observei enquanto me sentava e o ônibus se afastava, uma onda de satisfação tomou conta de mim. Ele já estava duvidando do Jeferson.
Cheguei em casa e fui recebida pelo som abafado da televisão ligada na sala. Minhas irmãs mais novas, Aurora e Ingrid, estavam esparramadas no sofá, brigando pelo controle remoto. Suspirei. Elas ainda eram crianças, e eu sabia que, para elas, minha presença significava mais do que eu podia perceber — mesmo quando eu estava exausta.
— Elena! Cadê a janta? — gritou Aurora, nem se dando ao trabalho de me olhar.
— Tá quase, Aurora, relaxa — respondi, sem paciência, indo direto para a cozinha.
Desde que o meu pai havia morrido, tudo ficou mais difícil. Minha mãe trabalhava muito e mesmo assim, quase não conseguíamos fechar o mês sem preocupações. Ela nunca reclamou diretamente de mim, mas as suas cobranças vinham de outras formas: um olhar crítico ao ver minhas notas e comentários sobre a importância de ser "alguém na vida".
Enquanto terminava de alimentar minhas irmãs, ouvi a porta da frente abrir. Era minha mãe — A janta já tá pronta, mãe — avisei, tentando suavizar o peso do ambiente. Ela apenas assentiu, serviu-se de um prato sem dizer nada. Eu me perguntei, pela milésima vez, o que seria preciso para que ela ficasse realmente orgulhosa de mim.
Subi para o meu quarto depois de limpar tudo, finalmente podendo respirar. Naquele espaço — com as paredes forradas por posters e livros empilhados — eu podia, ao menos, fingir que estava no controle. A verdade, porém, era que minha vida sempre foi uma batalha constante para não desmoronar.
Desde pequena, eu precisei amadurecer rápido. Enquanto as outras crianças brincavam, eu estava cuidando das minhas irmãs ou ajudando minha mãe. Por muito tempo, eu acreditei que isso era normal. Talvez, para mim, realmente fosse.
Sentei na cama e, instintivamente, peguei meu celular. Arthur tinha mandado uma mensagem de boa noite. Um sorriso surgiu no meu rosto quase automaticamente. Ele sempre dizia a coisa certa. Eu respondi rápido, com um emoji carinhoso e palavras doces.
Ele acreditava que eu era a namorada perfeita, mas, no fundo, Arthur era meu refúgio. Ele era a única coisa que me fazia sentir que minha vida não era apenas trabalho e cobranças. Eu precisava mantê-lo comigo, não só por amor, mas porque perder Arthur significaria perder o que eu lutei tanto para construir: uma imagem perfeita e uma vida ideal.
Fechei os olhos, deitando na cama com a luz apagada e, antes de dormir, prometi a mim mesma que ninguém — nem Jeferson, nem Arthur, nem ninguém — tiraria de mim o controle que eu lutei tanto para conquistar.
Fale com o autor