Troublemakers
5 Capítulo 5: Márcio
O som alto da música faz o chão tremer sob os meus pés. Não sei dizer se estou tonto por causa da bebida ou por causa da quantidade de gente nessa sala. Nunca gostei de festas, mas quando a Pamela me mandou mensagem chamando, aceitei sem pensar duas vezes. "Vai ser só o pessoal", ela disse, e eu acreditei.
Encosto na parede da sala, segurando um copo de plástico cheio de algo doce demais para ser considerado álcool e tento evitar a bagunça no meio do cômodo.
— Márcio ! O que tá fazendo aí sozinho? Vem dançar! — Chega Pamela tropeçando e rindo.
— Sabe que eu não sei dançar. — Tento recusar, mas ela me puxa de qualquer jeito.
A música é uma bagunça, e nós dois somos outra. Tento fingir que não sinto nada, que ela é só minha amiga. A namorada do meu melhor amigo. E então, acontece. Num instante, estamos perto demais, e no seguinte… seus lábios tocam os meus.
Olho para ela, mas Pamela apenas sorri distraída e vai atender uma ligação, sem perceber o que aconteceu. Aliviado e atordoado, saio da casa com a cabeça girando. Ainda sinto o gosto dela nos lábios e odeio isso. Vinícius confia em mim, e agora, mesmo sem querer, eu estraguei tudo.
~ Sonho off ~
Desde a noite da festa, tinha evitado Pamela e Vinícius. Não sabia como olhar para nenhum dos dois sem sentir que estava carregando um segredo do tamanho do mundo. Voltei a me esconder no meu quarto, nos meus animes, nos meus jogos.
— Márcio , você vai se atrasar para o colégio! — A voz da minha mãe me puxou de volta à realidade.
Desliguei o computador com força e terminei de me arrumar, sem vontade nenhuma.
Cheguei na classe e não queria falar com ninguém, então me sentei na cadeira mais distante, bem no fundo da sala, nem sequer tirei o meu capuz da cabeça e mantive meus olhos baixos. Se tudo desse certo, poderia evitar Vinícius até o treino de Muay Thai. E Pamela, talvez, para sempre.
Mas é claro que isso não aconteceu, no final da aula fui emboscado por André, Thatiane e claro, Pamela, dizendo que tínhamos de ir para o Clube de Muay Thai, suei frio, mas tentei me manter o mais calmo possível.
— Tô cansado, sério… Acho que vou faltar ao treino hoje — tentei argumentar, mas foi inútil.
Rayssa e eu acabamos indo junto com Pamela para o Clube.
Assim que chegamos, Vinícius estava lá. Ele e Pamela trocaram um beijo longo, rindo como se fossem feitos um para o outro. Meu peito apertou. Ele se virou para mim com aquele mesmo sorriso confiante de sempre e me puxou para um abraço.
— E aí, parceiro? Até que enfim apareceu! — disse ele, apertando meu ombro com força.
Eu só consegui murmurar algo indistinto. Queria responder como antes, ser o mesmo amigo de sempre, mas não consegui.
O peso do abraço me sufocou. Ele confiava em mim, e isso me fez sentir ainda pior.
Depois de o cumprimentar apenas pude ficar em silêncio, me sentindo culpado e sem coragem de lhe dizer a verdade. Não pude evitar, mas lancei um triste olhar na direção de Pamela, ela não se lembrava do que havia acontecido entre nós dois. Ela não lembrava, mas eu sim.
As meninas seguiram para o treino de Karatê, e Vinícius começou a falar sobre a próxima competição de Muay Thai. Seus olhos brilhavam de entusiasmo. Ele falava com tanta certeza, tanta confiança no futuro, e eu me sentindo um lixo. Tudo que consegui fazer foi assentir com a cabeça e fingir que estava ouvindo.
Por que não pude simplesmente ignorar o que aconteceu e seguir em frente? Talvez porque, no fundo, sempre senti algo pela Pamela. Sempre me culpei por isso. E agora que tudo desmoronou, percebi que não havia como voltar atrás.
Vinícius confiava em mim. Confiava.
E eu? Eu era apenas o cara que estragou tudo.
Enquanto Vinícius falava sobre a competição, minha mente viajava. Ele estava empolgado, falando sobre os treinos, os adversários e o que iria fazer com o prêmio. Tentei prestar atenção, mas cada palavra parecia ecoar em um vazio.
— Márcio , tá ouvindo? — A voz dele me trouxe de volta.
— Hã? Sim, claro. A competição… vai ser difícil, né? — murmurei, torcendo para que ele não tivesse percebido meu desconforto.
— Cara, você tá estranho. Aconteceu alguma coisa? — Vinícius me encarou, o sorriso havia desaparecido um pouco.
O olhar dele era direto, preocupado. Era o olhar de um amigo que sempre esteve ao meu lado.
— Não, nada. Só estou cansado. Colégio, treino… essas coisas, sabe? — Respirei fundo, tentando disfarçar.
Vinícius deu um meio sorriso e bateu no meu ombro.
— Você anda muito na bad. Vamos marcar de jogar alguma coisa qualquer dia desses? Só nós dois. Igual antigamente.
Antigamente. A palavra me atingiu em cheio. O pior de tudo é que eu queria isso. Voltar para o tempo em que tudo era simples, quando Vinícius era só o meu amigo que adorava videogame e Muay Thai, e Pamela era apenas a garota engraçada da turma. Agora, tudo parecia fora do lugar.
— Pode ser — murmurei, evitando o olhar dele.
— Ótimo! Agora vamos aquecer. Quero ver se você ainda aguenta no treino. — Vinícius sorriu outra vez, sem desconfiar de nada.
Ele se afastou, indo para o tatame, e eu fiquei ali, parado. Sentindo um nó no estômago, como se estivesse prestes a vomitar. Por que havia aceitado ir para o Clube hoje? Eu devia ter ficado em casa, escondido, como sempre fazia.
Pensei em Pamela, ela parecia tão tranquila e despreocupada. Eu queria ser como ela e esquecer. Mas cada vez que a via, tudo voltava: o beijo, o gosto, o segredo.
— Bora, Márcio ! Vem aquecer! — Vinícius gritou do tatame, me tirando do transe.
— Tô indo. — Minha voz saiu fraca.
Larguei a mochila no chão e me juntei a ele. Cada movimento, cada golpe que dava no ar, era uma tentativa de expulsar a culpa de dentro de mim. Não adiantava. A imagem daquele beijo estava lá, grudada na minha mente.
No meio do treino, Vinícius se aproximou outra vez.
— Ei, o que você acha? Se eu ganhar a competição, vou levar a Pamela naquela viagem que ela sempre fala. Ela merece, né? — Ele sorriu, ajustando as bandagens nas mãos.
Eu travei por um segundo.
— Ah… sim. Ela vai gostar muito. — Tentei concordar.
— Você acha? Tô planejando surpreender ela com um jantar depois. Tô feliz, sabe? Parece que as coisas estão dando certo.— Vinicius estava cada vez mais animado.
Senti como se o chão estivesse desabando debaixo dos meus pés. Tentei sorrir, mas tudo o que consegui foi uma careta forçada. Ele estava feliz. Eu não tinha o direito de estragar isso.
— É, cara. Vocês formam um casal da hora. — Minhas palavras saíram rasas, sem peso.
— Valeu, irmão. — Vinícius sorriu e me deu um soco leve no ombro. — Você é meu parceiro, nunca se esqueça disso.
Nunca me esqueci. Era esse o problema.
O treino terminou e fui para o vestiário, tentando evitar qualquer contato visual com Vinícius. Liguei o chuveiro e deixei a água fria cair sobre mim, como se pudesse lavar tudo: o beijo, a culpa, os sentimentos.
Mas não saíram. Ainda me sentia sujo. Ainda era o cara que beijou a namorada do melhor amigo.
Depois do treino, o grupo se despediu aos poucos. Vinícius pegou na mão de Pamela novamente e os dois atravessaram a rua, conversando e rindo. Fiquei ali parado, observando até desaparecerem da minha vista. O vento frio da noite me fez encolher os ombros, e senti um vazio enorme.
Quando cheguei em casa, abri a porta sem fazer barulho. Meus pais já estavam dormindo, e a casa inteira parecia mergulhada no silêncio. Fui direto para o meu quarto, fechei a porta e liguei o computador. A luz azul da tela iluminou o ambiente, trazendo uma sensação temporária de conforto.
Me joguei na cadeira, coloquei os fones de ouvido e abri o anime que estava assistindo pela terceira vez. As vozes japonesas e as cenas de luta me distraíram por um tempo. Pelo menos nesse mundo, os herois sabiam o que fazer. Eles tinham coragem, enfrentavam vilões e resolviam seus problemas no final.
Eu não.
Era só um covarde que beijou a garota errada.
Depois de algumas horas, os créditos subiam na tela e percebi que nem havia prestado atenção no episódio. Olhei para o relógio: quase uma da manhã. Me levantei para pegar algo na estante e passei os olhos pelas pilhas de mangás e jogos que acumulei nos últimos anos. Meu “refúgio”. Um lugar onde ninguém poderia me julgar, onde os problemas do mundo real não existiam.
Mas, dessa vez, nem isso foi suficiente.
Cai na cama com o fone ainda nos ouvidos e encarei o teto, esperando o sono me levar. Mas ele não vinha. Só o peso da culpa e o gosto do que eu mais queria esquecer.
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