Troublemaker
13 Vamos Dançar, Lucy?
Notas iniciais
Como se ser pajem não fosse o bastante, acabei descobrindo que eu também teria que dançar no casamento do meu pai. Isso só podia significar uma coisa: era o fim do mundo.
— Pare de reclamar, Natsu. – Erza bufou, no banco da frente do carro.
— Mas não consigo entender a lógica disso. Quem foi que inventou esse negócio de dança? – Eu já estava pronto para xingar Erza, porque era a cara dela fazer essas coisas pra me chatear.
— Layla. – Zeref respondeu de prontidão.
Lucy ficou esperando atenciosamente para ver a merda que eu ia dizer, mas tive que engolir aquela.
Estávamos indo para um salão de dança, após um longo e intenso dia de aula e treinos, e Zeref estava dirigindo, com Erza ao seu lado, e eu e Lucy no banco de trás.
— A Layla me odeia, por acaso? Eu achei que já estávamos bem… – Falei baixo, arrancando uma risada de Zeref.
— Acredite, eu também não estou animado, maninho, mas é pelo papai e Layla.
— E Michelle? Onde ela entra nessa?
— Minha irmã vai tocar a música. – Lucy revirou os olhos.
— Tocar? Que tipo de música vamos dançar?
— Tango.
— Tango? O que diabos é isso?
— Por Kami, Natsu. Você ao menos sabe dançar algum estilo musical? – Lucy questionou, me olhando séria.
Erza e Zeref riram alto, e eu não pude evitar a carranca.
— Natsu dançar? Já é inacreditável ele conseguir jogar basquete… – Erza respondeu.
Por que nossa família era sempre tão empenhada em estragar nossa imagem para as pessoas?
— Ótimo. Meu parceiro de dança é um pateta. – A loirinha bufou, cruzando os braços e se concentrando em olhar apenas pela janela.
— Ei! Não é como se eu soubesse que iria dançar e tivesse pedido por isso. Layla não avisou nada sobre danças.
Seguimos o resto do caminho em silêncio, com um clima um tanto tenso no banco de trás.
Ao chegarmos no salão, que a essa hora já estava praticamente vazio, um casal de professores esperavam por nós, felizes demais.
— Filhos do Igneel! Que bom que vieram! – Cada um nos abraçou como se fossemos velhos amigos.
Eu já os achava estranhos antes de ouvi-los falando, depois dessa frase eu tive certeza. Eles definitivamente eram estranhos!
E então começaram a perguntar o que cada um sabia sobre a dança que faríamos, e a expressão de decepção nos rostos deles ao escutarem que eu nem ao menos sabia o que era tango foi enorme. Mas o que eu podia fazer? Se me perguntassem sobre basquete, a conversa fluiria muito melhor.
Após as perguntas, começaram a explicar as coisas básicas e colocaram a música que dançaríamos pra tocar, tudo ás ordens de Layla. Aquela música eu conhecia, já havia escutado em alguns filmes, mas imaginar uma dança para aquilo era impossível.
Os dois professores então começaram a dançar. O que era muito fácil inicialmente, foi se complicando ao passar dos movimentos, e então, em certo momento, eles disseram que haveria troca de pares. Já não bastasse eu ter que dançar com Lucy, teria que dançar com Erza também. O que diabos passava pela cabeça da Layla?
Quando eles disseram que era nossa vez de dançar, ainda guiando-nos durante a coreografia, Lucy precisou me ajudar em praticamente tudo. Desde a forma de segurar os braços até os passinhos com os pés dos mais simples. Ela foi até paciente, preciso confessar.
— Natsu, você está parecendo um robô. Se solte mais, deixe de ser bobo.
— Eu não consigo, Lucy. Isso é complicado.
Ela revirou os olhos e segurou firme em meus ombros, me olhando de forma divertida.
— Vamos fazer assim, pense que está em um jogo. Eu te vi em campo, Dragneel, você age com tanta naturalidade fazendo seus dribles, que até parece que nasceu fazendo isso.
Não sei porquê, mas fiquei ruborizado ao ouvir aquilo. Era um elogio tão significativo, e eu jamais cogitaria que uma frase daquelas sairia da boca dela. Ainda mais pra mim.
— Certo. – Murmurei baixo, ainda corado. – E como eu posso enxergar o basquete nisso?
— Quando você vai driblar alguém, você tem um gingado natural. Como faz isso? Tente se lembrar desses momentos e se solte agora do mesmo jeito que você se solta na quadra.
— Você quer que eu te drible? – Perguntei rindo, fingindo ter uma bola em mãos e ameaçando passar por ela. Lucy me olhou séria, pronta pra soltar uma bronca, mas não deixei que falasse. – Estou só brincando, loirinha. Você anda precisando de uma dose de bom humor. Sorria mais. Vamos lá, juro que faço tudo do seu jeito se der um sorriso.
Lucy me olhou desacreditada, e eu devolvi um olhar decidido. E como se já soubesse que eu seria teimoso, ela fez uma falha tentativa de sorriso.
— Não, não, não. Pare com isso, essa foi a pior tentativa do universo. Anda, Luce, seu sorriso é tão bonito quanto o da Layla.
Lucy encarou-me espantada e ruborizou um pouco, mas acabou valendo a pena.
— Nunca achei que viveria pra ouvir você elogiando minha mãe. – E então abriu o sorriso mais lindo, que eu sequer poderia chegar perto de imaginar.
— Sabe como é… – Dei de ombros. E então a puxei para perto novamente, voltando em nossa posição inicial da dança. – Vamos tentar outra vez.
Ficamos no salão por quase três horas ensaiando a primeira parte. Apesar de termos aprendido, ainda tive um pouco de dificuldade em parar de imitar um robô. Mas eu daria um jeito naquilo.
Fomos pra casa completamente exaustos, e ainda jantamos, tomei um banho e só depois fui dormir.
Durante o jantar, Layla ficou fazendo milhões de perguntas, e apesar de minha vontade ser xingá-la por estar dificultando tudo ainda mais, apenas fiquei observando ela falando animadamente sobre o dia do casamento, com Igneel concordando e palpitando vez ou outra.
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Como se não fosse o bastante colocar os enteados e a filha pra dançar, Layla convenceu Igneel também. Então, dois dias da semana foram separados pra eles terem aula de dança com o mesmo casal que nos dava aula.
Em uma dessas ocasiões, Erza e Zeref também tiveram compromisso e saíram, deixando apenas eu, Lucy e Michelle em casa.
Eu não fazia ideia do que as duas decidiram fazer naquela noite, mas sabia que estava cada uma em seu quarto. Já eu, aproveitei pra me exercitar e ficar fazendo uma série de flexões. Fazia algum tempo que eu não tirava um tempo pra isso, e já estava sentindo falta. Coloquei uma música alta pra tocar e fiquei apenas de shorts.
Não muito tempo depois, uma chuva forte começou, acompanhada por raios e trovões. Um verdadeiro temporal repentino. Corri para baixo para verificar se Happy estava dentro de casa, e aquela bola de pelo folgada dormia em cima do cachorro das Heartfilia, que estava deitado no sofá.
— Mas quem foi que te permitiu deitar em cima do sofá, baforento fedido? – E a resposta que obtive do cão foi apenas uma cara de piedade.
Foi questão de segundos, ambos os animais foram assustados por um forte trovão, e Happy correu para se esconder. Em seguida, todas as luzes se apagaram.
— Era só o que me faltava…
Escutei um gritinho histérico do segundo andar, e tentei ir pra cima sem esbarrar em nada, em missão de ajudar as meninas.
— Natsu! Natsu, cadê você? – Michelle me chamava, e eu sentia o pavor em sua voz.
— Quase chegando. – Respondi da escada.
— Suba logo, eu preciso da sua ajuda. Lucy desmaiou.
Como se tivesse proferido palavras mágicas, subi ainda mais rápido àqueles degraus.
— O que aconteceu? Onde ela está? – Perguntei apressado para a mais nova, que eu esbarrei no topo da escada.
— No quarto dela. – E me puxando pelo braço, me levou até sua irmã, que estava ao chão. – Me ajude a colocá-la na cama, eu não tenho força pra isso.
Tomando cuidado para não tocar nela onde não deveria, devido a escuridão, peguei e a coloquei em sua cama, ajoelhando-me para colocar o ouvido perto de sua boca, para verificar se ela respirava.
— Lucy tem fobia a dias tempestuosos. Ela não devia estar preparada pra uma chuva dessas, por isso desmaiou.
— Não devo levá-la ao hospital?
— Não tem necessidade, isso já aconteceu antes. Ela vai voltar logo. Mas precisamos ficar aqui para acalmá-la.
Se tinha uma coisa que me incomodava, era estar em um momento tenso e as circunstâncias só piorarem tudo. Tinha que ter acabado a luz logo agora?
— Michelle, fique aqui ao lado da sua irmã. Vou até a cozinha buscar algumas lanternas para nos ajudar a enxergar, prometo que volto rápido.
Tentando cumprir minha promessa, fui rapidamente até a cozinha, procurando pelas lanternas em todas as gavetas. Incrível que quanto mais você precisa, mais tempo demora pra encontrar. E como se não fosse o suficiente, ainda estava na última gaveta que abri.
Além de pegar as lanternas e verificar se estavam funcionando e com pilha, também peguei um copo d’água, imaginando que Lucy precisaria daquilo ao acordar.
O caminho até o segundo andar foi ainda mais fácil com uma das lanternas acessas, e quando entrei no quarto de Lucy, a encontrei acordada e abraçando forte a irmã, que fazia um carinho em sua cabeça e dizia palavras reconfortantes.
— Toma. – Lhe entreguei o copo d’água, e sem questionamentos, tomou de minha mão e bebeu tudo em uma só golada. Pude observar que tremia.
Entreguei uma lanterna para Michelle e mantive a outra acessa e em pé em cima de um dos criados mudo, que iluminou o teto e clareou um pouco o quarto.
Não sabia muito bem o que fazer em um momento como aquele, então apenas sentei na ponta da cama, perto dos pés da loira.
Outro trovão cortou nosso silêncio, e Lucy apertou ainda mais o abraço em Michelle, que reclamou de dor.
— Me da uma ajudinha. – Ela pediu em um sussurro.
Sentei ao lado de Lucy, do lado contrário ao que sua irmã estava, e antes que eu dissesse qualquer coisa, seus braços me envolveram com certo desespero, e seu rosto se apoiou em minha barriga. Senti suas lágrimas descendo até o cós do meu shorts e fiquei triste por não saber como ajudá-la.
— Você está nu? – Ela perguntou baixinho.
— Claro, Lucy. Adoro me despir quando acaba a luz, é tipo um fetiche.
Ela riu fraco e parou rápido.
— Você deve estar achando que sou uma idiota medrosa, não é?! – Sussurrou novamente, sem ter coragem para me encarar.
— Claro que não. Todo mundo tem seus medos, isso é ser humano.
Ela pareceu cogitar o que eu disse por alguns minutos.
— Por que está sendo tão legal?
— E por que não deveria? Você prefere que eu caçoe dessa situação? Eu também tenho alguns medos, Lucy, seria hipocrisia eu te zoar.
Era pouca a luz presente no quarto, mas Lucy me olhava concentradamente, e já não chorava mais.
— Você tem medos? Você não parece esse tipo de pessoa.
— Não é a primeira vez que escuto isso. Você tem uma ideia muito errada de mim como pessoa, Lucy.
— Me desculpe. – Falou de forma sincera. A abracei de volta, acariciando seus cabelos. Ficamos algum tempo daquela forma, até Lucy quebrar o silêncio. – Quais seus medos, Natsu? – Perguntou baixinho, incerta se eu aceitaria aquela pergunta normalmente.
Suspirei fundo, olhando para sua janela e observando a rua escura. Aquela era uma pergunta muito ampla, eu tinha muitos medos. Mas Lucy não queria saber de qualquer medo.
— Eu tenho medo de esquecer da minha mãe, como a Erza. – Admiti em voz baixa.
Lucy sentou-se e me encarou séria.
— Erza esqueceu sua mãe?
— Ela sofreu um acidente, e algumas memórias específicas foram perdidas pra sempre. Grande parte dessas memórias eram sobre minha mãe. Já faz três anos, e eu perdi as esperanças que ela se lembre de algo além do pouco que já conseguiu. Para Erza, minha mãe já se foi há muito tempo, quando ela era uma criança ainda.
Aquela história era algo que meu pai quase nunca tocava no assunto, porque Erza não gostava. Ela sabia que tinha esquecido muitas coisas, e odiava ser lembrada que nunca mais recuperaria nenhuma lembrança.
— Você sente muita falta dela, não é?! Da sua mãe, eu digo.
Não a respondi. Não havia porquê. Lucy me entenderia apenas pela minha expressão, eu tinha certeza.
O clima ficou tenso e pesado, e o silêncio permaneceu por minutos. E como forma de amenizar tudo, a luz da casa voltou.
Só assim percebi que ainda abraçava Lucy, e Michelle também permanecia ali. Pigarreei, sem graça, e a soltei rápido, me levantando para sair.
— Ahn… A chuva já parou, então… Espero que fique bem. Qualquer coisa, estou no meu quarto.
E me dirigi pra lá antes que uma das duas dissesse algo.
Próximo capítulo:
— Bom, quando voltar pra casa eu posso fazer um bolo pra você que não seja de morango, se quiser. Ou Lucy, ela tem ótima mão para doces também… – E Layla riu, vendo a careta que Lucy fazia.
— Jura?! Faria doces pra mim, Luce? – Fingi animação, sentado na cama e balançando as pernas.
— Pra você não. – Disse de forma emburrada. Era nítido como Lucy se enciumou com o jeito que sua mãe estava me tratando. Bem, o que eu poderia fazer se eu era muito mais divertido?
— Isso é maldade, eu estou doente, deveria me ajudar a me recuperar. – Sorri maliciosamente.
— Você deveria é parar de cantar minha filha na minha frente, Dragneel. – Layla me deu um tapa fraco na coxa, e eu ri.
— Então quer dizer que eu posso cantar a Lucy quando você não estiver por perto? – Sugeri, e Lucy ruborizou completamente, me olhando de forma indignada.
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