Troublemaker
27 Um Feriado Memorável
Notas iniciais
Quando a gente já acorda e sabe que nosso humor não está dos melhores, a melhor e mais aceitável opção é permanecer deitado até que nos cansemos disso. Naquele dia, em especial, o que eu mais desejava era poder ficar na cama pela tarde toda, mas como o destino parecia conspirar contra mim, eu estava sendo acordado de maneira brutalmente horrível e indesejosa, com um filho da puta me balançando sem a menor sensibilidade. E eu estava sentindo que iria levantar apenas para socá-lo.
Já não bastasse toda a perturbação, uma luz forte batia em meus olhos, fazendo eu notar que estava tendo a pior dor de cabeça do universo.
— Pare de me perturbar e desliga a porra da luz, Fullbuster! – Grunhi, jogando a coberta por cima do rosto.
Era horrível aquela sensação, e eu me xingava internamente por ter exagerado na bebida, novamente. Parecia que eu nunca aprenderia, pra variar.
— A luz já está desligada, imbecil. Esse é o Sol, e ele quer te dar um oi. – Gray parecia se divertir ao me ver naquela situação, e provavelmente isso seria usado contra mim até o dia da minha morte.
— Meu punho é quem vai dar um oi na sua cara se você não fechar a droga da cortina, seu merdinha!
— Estou pagando pra ver você sair dessa cama, Natsu. – Ele zombou, rindo sacana.
O que me fez desconfiar um pouco.
Abri uma brecha entre o cobertor para poder olhá-lo, e ele estava com o celular á postos, pronto pra tirar uma foto.
— O que diabos você está fazendo, seu otário?
E então ele começou a rir mais ainda, e senti minha cabeça latejando ao ouvir aquele som mais alto do que o normal.
— Você está horrível com esse roxo no rosto!
Roxo no rosto?
Então, de pouco em pouco, fui me relembrando da noite passada e de como eu deveria evitar bebidas a todo custo.
Se eu me envolvi em uma briga? Oh, não…
Foi um mico pior que isso.
Eu gostaria que a bebida tivesse apagado minha memória como costumava fazer com grande parte das pessoas por aí, mas eu sempre tenho a infelicidade de me lembrar tudo.
Inclusive que eu confundi uma garota aleatória com a Lucy.
Por Kami, como eu consegui fazer isso? Com exceção do cabelo, elas não tinham absolutamente nada em comum. Lucy com certeza era muito mais bonita, além de gentil e inocente. E aquela garota era perversa, cínica e interesseira. Meu pior pecado.
Eu não teria percebido isso se o Jellal não tivesse aparecido avisando que iria embora e não precisava procurá-lo. Foi quando notei que eu estava imerso em uma ilusão, causado por mim mesmo, e iria cometer um erro que eu não iria gostar nada mais tarde.
Bom, ou foi o que eu tentei pensar.
A garota logo voltou a me beijar, me tirando todo o senso que ainda me restava, e eu continuei correspondendo, até ela sugerir de procurarmos um quarto vazio naquela casa.
E foi então que começou o verdadeiro problema.
Fomos juntos, nos agarrando, á procura do bendito quarto. E bem… Eu acabei tropeçando na metade da escadaria e saí rolando até o chão, onde virei o motivo de chacota de vários bêbados e colegas de escola.
Além disso, quase desmaiei, a garota me largou sem intenção alguma de ajudar, e eu fiquei sem conseguir me levantar por estar tonto demais.
Eu realmente deveria desistir de beber!
Se não bastasse a humilhação, foi Gray quem me ajudou, tão bêbado quanto eu.
Ele era um imbecil, mas ao menos eu poderia contar com meu amigo.
— Você está falando sério? – Perguntei, me referindo ao possível roxo.
— Não está acreditando em mim? Vá até o banheiro e veja… – Ele falou, guardando o celular no bolso e se deitando em sua cama. – Aliás, vai logo, o ônibus está de saída daqui a pouco.
Aproveitando o silêncio que permaneceu no quarto nesse pouco intervalo de tempo, fiquei deitado mais um pouco até me acostumar com a ideia de ter que levantar com ressaca, me arrumar e arrumar minhas coisas na mochila, que provavelmente voltariam todas amarrotadas para casa.
— Você está de ressaca, não é?! Eu arranjei alguns comprimidos pra nós, está na pia do banheiro, junto com um copo da água. – Ele falou, como quem não queria nada.
Eu poderia xingar o Gray do que fosse, mas ele sempre seria um excelente amigo, me ajudando em tudo o que eu precisasse.
***
A volta até Magnólia foram as três horas mais longas da minha vida, e embora eu tenha tomado o comprimido, demorou um pouco para fazer o efeito e eu tive que aturar o pessoal do time tagarelando no ônibus sem o menor respeito pela minha ressaca.
Se bem que quase todos estavam de ressaca, e eu realmente não entendia como ainda conseguiam tagarelar, mesmo que fosse num volume consideravelmente mais baixo que em qualquer outra ocasião.
A única coisa que eu conseguia pensar, porém, era que meu pai ia encrencar comigo se descobrisse que eu estava de ressaca. E como se não bastasse, eu realmente tinha um roxo em meu rosto, o que me deixava com quase cem por cento de certeza que Igneel iria achar que eu tinha entrado em uma briga. E tudo o que eu não precisava, era ele me colocando de castigo de novo.
Na verdade, eu também não queria precisar ir pra casa, mas não era como se eu pudesse escolher isso.
Felizmente, aquele dia nós estávamos todos dispensados das aulas e do treino, já que estávamos em viagem, então eu teria o dia inteiro para aproveitar a minha cama.
Gray ofereceu que eu ficasse na casa dele, e embora fosse uma proposta terrivelmente tentadora, fui direto para a minha casa. Além de querer dormir, coisa que provavelmente seria a última coisa que eu faria na sua casa, eu também queria tirar da cabeça aquela noite perturbadora.
Claro que Lisanna acabou sabendo o que acontecera, através dos patetas, e junto deles ficou me zombando o caminho todo. Minha melhor amiga!
— Você tem é sorte que estavam todos bêbados demais pra conseguir pegar o celular á tempo pra gravar. – Ela murmurou, fazendo todos rirem.
Quando cheguei em casa, para minha felicidade, não havia ninguém. E cansado como eu estava, me deitei no sofá mesmo, dormindo ali.
Não sei quanto tempo passou, se foram apenas alguns minutos ou várias horas, mas eu fui totalmente desperto quando escutei alguém entrando em casa, fechando a porta com um pouco de força. Mas ao invés de me levantar, continuei fingindo que estava dormindo.
Pela forma de andar, eu deduzi que não era nenhum dos meus irmãos ou Igneel. E pelo cuidado que ela teve ao colocar a manta do sofá em cima do meu corpo, eu deduzi que só poderia ser Layla. Então abri meus olhos pra checar.
Se eu não estivesse tão familiarizado, provavelmente diria que aquela era mesmo Layla. Mas eu estava de frente com sua versão mais jovem, e particularmente mais bonita.
— Lucy…
— Natsu!
Acabamos falando juntos, eu com uma felicidade contida, ela com uma surpresa impulsiva.
Ela ficou quieta por algum tempo, e eu fiquei a observando. Seus traços delicados do rosto eram algo que eu estava aprendendo a apreciar e gostava cada vez mais. Eles nunca perdiam o encanto, por mais que eu passasse o dia encarando. Seus olhos castanhos, seus cílios grandes, sua boca pequena e convidativa...
— O que aconteceu com o seu rosto? Você está bem? – Ela se afastou consideravelmente de perto, mas colocando sua mão de forma delicada em meu machucado, fazendo-me fechar os olhos por ainda estar um pouco sensível ao toque. E ela retirou a mão assim que percebeu. – Desculpa. Está doendo muito? Você se meteu em uma briga durante o jogo? – Lucy perguntava, parecendo mesmo preocupada, o que me deixou até um pouco feliz.
— Está tudo certo, Luce. Não foi nada, não teve briga, eu só… Foi um acidente… – Falei baixinho, de repente me envergonhado pelo o que aconteceu. Afinal, eu tinha confundido uma garota com a Lucy, sendo que ela sequer estava naquela cidade conosco.
— Tem certeza que está bem? Só seu rosto está assim? – Continuou perguntando, se dirigindo até a cozinha enquanto ainda me olhava. – Você quer algum remédio? Ou gelo?
Vê-la querendo me ajudar me deixou, apesar da felicidade, um pouco desconfiado. O que havia acontecido com a Lucy e desde quando ela se preocupava tanto assim comigo?
Me sentei, um pouco mais rápido do que eu gostaria, e acabei sentindo uma pontada na cabeça, mas nada que me fizesse denunciar minha ressaca.
— Não precisa de nada, obrigado. Quem deveria estar em repouso era você. – Falei, apontando para o pé dela, que ainda estava enfaixado, mas disfarçado pelo tênis que ela usava.
E ela sorriu sem graça, tentando disfarçar.
— Mas então... Como foi a aula hoje? Perdi muita coisa interessante? – Tentei começar uma conversa, já que eu imaginava que ficaríamos em um silêncio constrangedor.
E por algum motivo, eu também queria escutá-la conversando comigo.
— Foi um dia bem chato, pra falar a verdade. Todos vocês foram, até mesmo a Lis… Eu tive que passar o dia com a Juvia, mas acho que ela não gosta muito de mim. – Confessou baixo, fazendo uma careta.
E eu ri, uma risada bem exagerada até, quase uma gargalhada, porque eu realmente não esperava ouvir algo como aquilo.
— Bem, talvez seja porque você tenha dito a ela que prefere o Gray do que a mim, e ela é muito ciumenta. – Dei de ombros, revelando algo que nem mesmo a própria Juvia tinha ideia que eu sabia.
E Lucy ficou completamente ruborizada ao escutar aquilo, arregalando os olhos.
— O q-quê? E-ela te falou? – Perguntou, toda sem graça e tentando esconder o rosto entre as mãos.
— Claro que não, ela não me diria algo assim. Juvia não gosta de me magoar. – Falei sem pensar, sem notar que aquela frase causaria constrangimento na Heartfilia.
Bom, até vê-la me encarando como se eu tivesse a acusado de assassinato ou algo assim.
Mas eu era tão idiota! Por Kami, como eu podia ser tão otário á esse ponto?
— Me desculpe, não foi minha intenção te magoar… – Ela falou cabisbaixa, agora tentando uma aproximação sentando-se no sofá, mas ainda mantendo uma distância segura de mim. – Eu ainda não agradeci por você ter me ajudado com meu pé… S-será q-que posso compensar amanhã? – Perguntou timidamente, me deixando até mesmo confuso.
— Amanhã? O que tem amanhã? – Perguntei, extremamente curioso por vê-la tão vermelha daquela forma.
Mas assim que eu perguntei, sua expressão mudou completamente, e seus olhos começaram a brilhar.
— Bom, esse sábado que passou, abriu um novo zoológico aqui perto, e é um zoo um pouco diferente de todos, com algumas espécies marinhas que é permitido que os visitantes nadem com eles. – Explicou, sorrindo grande. – Você disse que me levaria pra qualquer lugar, não é?! – Perguntou animada, mas ainda corada. – Amanhã é feriado e eu gostaria muito de ir á esse zoo. E também de escutar mais histórias sobre a sua mãe. O que acha?
***
Se eu disser que não fiquei ansioso durante o resto do dia, certamente eu estaria mentindo. Minha cabeça ficou a mil, e hora ou outra eu me pegava distraído pensando em como seria sair para ir á um zoológico com a Lucy. Principalmente porque era a primeira vez que eu pisaria em um depois que minha mãe se foi.
Tentei me ocupar com meus exercícios físicos, e quando eles pararam de fazer efeito, me ofereci pra ajudar no jantar.
Eu me ofereci pra cozinhar!
Mas Kami já sabia o desastre que eu era, e não permitiu que Igneel aceitasse. Até porque meu pai também me conhecia. Mas ao invés de ajudar com coisas no fogo, Layla pediu para que eu lavasse a salada e a ajudasse a cortar os legumes. E prontamente eu aceitei ficar fazendo vela para os dois pombinhos na cozinha, porque eu simplesmente queria me ocupar de algo que não me fizesse pensar que no dia seguinte eu iria sair com a Lucy.
Mesmo que eu tivesse prometido que seria algo inocente entre irmãos, e não um encontro.
E como se não bastasse, quase que acabou tudo dando errado, porque Igneel achou mesmo que eu me metera em uma briga ao ver o roxo em meu rosto. Me deu uma bronca enorme e até ia me colocando de castigo, mas eu consegui convencê-lo depois de dizer que ele podia ligar para qualquer um do time que todos confirmariam aquele acidente estúpido. E ele realmente ligou, constatando que eu era um desastre bêbado.
Não que tivessem dito a ele que eu estava bêbado, mas Igneel não era idiota. De qualquer forma, ele não implicou com isso, porque provavelmente já imaginava que eu iria beber.
E quando eu achei que minha noite tinha acabado, e eu estava livre pra poder ir dormir – ou tentar, né – fui barrado pela Layla na cozinha.
— Natsu, você tem um momento? – Ela perguntou, mas eu senti que aquilo estava mais para uma pergunta em forma de ordem, já que ela se sentou ao balcão e indicou que eu me sentasse junto com ela. E eu só o fiz porque o tom de voz dela estava mais sério que o normal. – Lucy me disse algo agora a pouco, e particularmente eu fiquei curiosa…
Ah, droga. Eu sabia que estava bom demais pra ser verdade.
— Vocês vão sair amanhã… – Ela falou, confirmando comigo, e eu acenei positivamente. – Um… Encontro? – Perguntou, meio incerta.
— Não, não é um encontro… – “Pra Lucy”, não deixei de pensar. – A gente só vai ao zoológico, só isso. – Dei de ombros, fingindo que não era nada demais.
— Porque você propôs… – Ela quis confirmar novamente.
— Eu propus que nos conhecêssemos melhor, a ideia do zoológico foi dela. – Dei de ombros, tentando soar o mais inocente possível. – Olha, desde que vocês se mudaram, eu ainda não tive oportunidades pra conhecer a Lucy, e foi um pouco difícil ganhar a confiança dela. Agora que eu consegui, seria legal a gente se relacionar… Como irmãos, claro. – Logo tratei de explicar, e Layla ainda parecia meio apreensiva e pensativa. Parecia até que ela estava percebendo que nem tudo o que eu dissera era verdade.
Ficamos em silêncio por um tempo, enquanto meu coração parecia cada vez mais acelerar ao pensar na possibilidade da Layla pedir que eu cancelasse a ida ao zoológico. Ela poderia fazer isso, afinal.
— Eu não sei se consigo achar essa uma boa ideia. – Layla finalmente disse, surpreendendo-me um pouco. – Mas eu vou dar um desconto dessa vez. Eu sei que você gosta de implicar com ela, e ela com você, e meu receio é que vocês não acabem bem depois… E seria realmente desagradável se vocês ficarem de cara um com o outro no dia do casamento. Mas eu acredito que não vai acontecer nada demais amanhã, certo?! Posso confiar que vocês vão ficar comportados? – Ela perguntou, usando um tom de voz que deixava claro que ela estava falando algo mais ali, nas entrelinhas.
E eu sabia exatamente o que ela estava querendo dizer.
— Claro… Nada vai acontecer. – Falei sem pensar duas vezes.
Se era minha palavra que ela precisava pra permitir que eu saísse com a Lucy, então tudo bem. Eu diria qualquer coisa. Mesmo que, talvez, pudesse ser mentira.
Mas daí já seria conversa pra um outro dia e um outro momento.
— Tudo bem. – Ela falou, parecendo claramente um pouco mais aliviada. – Espero que vocês se divirtam amanhã. – E então ela sorriu gentilmente, levantando-se para sair.
***
Naquela noite, além de ter sido difícil pregar os olhos, também foi difícil abri-los pela manhã, já que Lucy queria ir cedo, pouco antes das nove, pra aproveitar tudo ao máximo.
Tomamos um rápido e reforçado café da manhã, e ela foi completamente preparada, levando em sua mochila comida o suficiente para dez pessoas, pra que nós pudéssemos comer a tarde em uma espécie de piquenique.
Ela claramente já me conhecia, e sabia que eu comia demais.
— Você tem certeza que seu pé não vai ser um problema? – Me certifiquei mais uma vez, já que eu tinha meus receios.
— Natsu, você tá parecendo minha mãe… – Ela avisou, rindo. – Você não esqueceu do dinheiro, né?!
E então foi minha vez de rir.
— Agora quem tá parecendo a Layla é você. O dinheiro está na minha carteira, no bolso do meu shorts.
— O suficiente? Você disse que compraria qualquer coisa que eu quisesse! – Lucy falou sapeca.
— Ei, não foi bem isso não. – E então nós dois rimos.
Fomos até o carro do meu pai, do qual ele liberou pra mim naquele dia, e logo já estávamos na estrada, enquanto Lucy tagarelava sobre a última vez em que fora em um zoológico, muito tempo atrás. Inclusive descobri que seu animal preferido eram os lobos.
Quando chegamos, a multidão de pessoas na entrada e a quantidade absurda de carros no estacionamento não me surpreenderam em nada, afinal era um zoológico novo e hoje era feriado. Mas pra Lucy fora uma surpresa, e ela quase entrou em desespero ainda dentro do carro.
— E se a gente não conseguir entrar? – Ela soou desesperançada.
— Eu não acho que em zoológicos tenha limite de pessoas, não é como se fosse um cinema ou algo do tipo… – Dei de ombros, procurando por um lugar vago naquela infinidade de lugares cheio de carros.
Ela pareceu levar em consideração o que eu disse, e ficou menos agitada.
Depois de pelo menos uns cinco minutos, finalmente eu encontrei um lugar onde estacionar o carro, e então a ajudei com a mochila.
— Por Kami, Lucy… O que foi que você colocou aqui dentro? Tijolos? – Reclamei, sentindo meu ombro entortar com o peso.
— Não reclame. Tem comida, água, guarda chuva, blusa, repelente, e eu também trouxe minha câmera pra tirarmos um monte de fotos.
— Quem foi que arrumou essa mochila? Sua mãe? Eu tenho quase certeza que a blusa e o guarda chuva só vão servir pra fazer peso, Luce.
— Não custa estar prevenida. – Ela fez bico, ficando emburrada. – Se começar a chover, eu não vou emprestar meu guarda chuva pra você. – E então me mostrou a língua, fazendo-me rir.
— Que mal criada. Você sabe que lá dentro do zoo tem quiosques que vendem guarda chuvas, capas e essas coisas, não é?! – Avisei, rindo ainda mais ao vê-la se dar conta que eu estava certo. – Tudo bem, eu divido o meu guarda chuva com você, se quiser. – Dei uma piscadinha pra Lucy, que ficou ainda mais emburrada.
Direcionamo-nos até a fila que estava formada, e até que ela andou mais rápida do que eu imaginava. Em questão de dez minutos, eu havia comprado nossos ingressos e já estávamos dentro, onde Lucy já começou a se maravilhar com o grande lago alguns metros á nossa frente, que estava cheio de flamingos.
— Aposto que Michelle iria querer sequestrar um desses flamingos. – Falei, referindo-me a cor rosa deles.
— Com certeza… – Lucy concordou, rindo. – Engraçado, ela que me comentou desse zoológico e disse que estava animada pra vir, e quando eu perguntei se ela queria vir hoje conosco, ela simplesmente negou sem pensar duas vezes. – E então me olhou de forma desconfiada. – Vocês brigaram ou algo assim? Eu tinha certeza que ela aceitaria.
— Não, não aconteceu nada conosco. – Dei de ombros, como se não soubesse de nada.
E eu realmente não sabia, até Lucy me dizer.
Eu precisaria me lembrar de agradecer a Michelle mais tarde por isso.
— Eu tenho que tirar uma foto deles! – Lucy constatou, pegando a câmera na mochila que estava em meus ombros. – Você sabia que os flamingos ficam com apenas uma perna no chão pra se manterem aquecidos? Como eles ficam sempre na beira da água, se eles ficassem com os dois pés ao chão no molhado, a temperatura corporal cairia muito rápido.
— Ah, não me diga que você estudou curiosidades de animais a noite toda? – Perguntei, revirando os olhos.
— Mas é claro, como eu poderia vir pra cá sem saber o mínimo desses animais incríveis? – Lucy desdenhou, como se aquela questão pra ela fosse importantíssima.
— E eu vou ser sua vítima pra ficar escutando tudo o que você aprendeu… – Sussurrei, por um momento me arrependendo de tê-la trazido ao zoológico.
— Fique bem aqui, eu preciso tirar uma foto de você junto com os flamingos pra mostrar pra Michelle. – E então ela me puxou para onde queria que eu ficasse, exigindo que eu sorrisse. Era só o que me faltava. – Você poderia ser um pouco mais simpático na foto. – Murmurou, fazendo caretas ao ver a foto que tirou.
O que me fez rir.
— Eu sorrio se você tirar a foto comigo. Eu não quero ficar aqui sozinho parecendo um ridículo.
Por um momento, Lucy pareceu surpresa ao ouvir o que eu disse, mas logo pediu gentilmente á uma senhora que estava passando se podia tirar uma foto de nós dois. Lucy veio um tanto incerta ao meu lado, e para descontrair a puxei pelo ombro para mais perto, sorrindo grande.
A senhora bateu a foto e depois nos mostrou, e quem não nos conhecesse acharia que éramos um casal.
Lucy a agradeceu e voltou a tagarelar.
— Pra mim, os animais mais incríveis, depois dos lobos, são os tigres com toda certeza, e precisamos muito achar onde eles estão. Aliás, as listras dos tigres se assemelham ás nossas impressões digitais. Nunca vai ter mais de um tigre com os mesmos padrões. – Ela continuou falando, e por um momento eu me lembrei de Miyuki, que nesse quesito até que Lucy era um pouco parecida com ela, já que minha mãe era veterinária e amava os animais com todas as forças. – Aaaah, olha que incríveis aqueles elefantes!!! – Lucy se agitou de repente, me puxando correndo para a nossa direita, em um local que estava o habitat deles, e um elefante filhote fazia graça para o público.
Passamos pelos habitats de muitos animais, entre eles as girafas, os pandas, gorilas, rinocerontes, zebras, tigres, macacos, onças, ursos, leões, muitas aves diferentes e também passamos pela ala das cobras. Todos os animais, sem a mínima exceção, Lucy sempre contava alguma curiosidade, ou perguntava á algum instrutor por perto, ou lia a plaqueta do lado de fora informando sobre todos os animais que estavam nos habitats, e depois tirava uma foto.
Por mais que parecesse um pouco irritante, eu acabei me divertindo, e vez ou outra eu entrava na onda e contava curiosidades que fiquei sabendo através da Miyuki, ou algumas das histórias de trabalho dela.
— Agora eu acho que está na hora de visitarmos a ala dos animais marinhos. – Lucy falou, olhando ansiosamente para mim, com os olhos brilhando. – Me diz que você vai querer nadar comigo junto com os leões marinhos! Por favor, por favor, por favor!
— Você realmente falou sério sobre isso ontem… – Constatei, um pouco surpreso.
— Mas é claro que sim! Eu até mesmo sonhei com isso! Eu quero muito ir… – E então ela tentou uma cara de dó, como se tivesse sido abandonada no zoológico pelos pais, e pra não abrir o berreiro, eu teria que dar um doce ou algo pra agradá-la. Que no caso, era nadar com os leões marinhos.
Eu não tinha muita escolha, desde que eu prometera que faria o que ela quisesse. E mesmo que não tivesse feito a promessa, se aquilo a deixasse feliz, eu não teria porquê pensar duas vezes.
— Certo. Vamos então.
Lucy começou a pular feliz, e então ficou á procura de placas que indicassem a direção até a ala marinha. Nos perdemos pelo menos umas três vezes, até finalmente perguntarmos á um guarda a direção certa.
Quando chegamos, foi como entrar em outro mundo. Aquela parte do zoológico estava consideravelmente mais vazia do que todo o resto, e estava até agradável. A baixa luz, os aquários enormes em todo o nosso redor, os animais sempre próximos aos vidros. Era algo incrível de ver. Tartarugas, cavalos marinhos, tubarões, arraias, golfinhos. Todos ali, bem na nossa frente, separados apenas por um grande e reforçado vidro.
Ficamos por alguns minutos apreciando tudo, até que finalmente encontramos o acesso para poder conversar com os instrutores e nos trocar para nadar com os leões marinhos. Pagamos uma pequena taxa, e eles nos direcionaram para um vestiário escondido por ali, entregando-nos a roupa de mergulho. Por um momento foi ótimo me livrar da mochila que estava pesando mais que o necessário, mas eu fiquei um tanto apreensivo, porque eu não era dos melhores pra nadar.
Quando terminei de me trocar, voltei para me encontrar com os instrutores e Lucy já estava lá, tagarelando pra variar. E caramba… Ela ficava linda demais até com aquela roupa.
— Natsu! Adivinha! Nós vamos poder nadar com os golfinhos também, se quisermos! Mas claro que nós vamos, não é?! – Lucy se agitava, parecendo realmente uma criança.
Acredito que aquela era a primeira vez que eu estava vendo Lucy tão feliz e saltitante em um único dia. Talvez nem na noite que fomos á catedral, ela não estava tão agitada assim.
— Certo, garotos. Vocês sabem nadar, não é? – Um dos instrutores perguntou, e enquanto ele ficou satisfeito ao ver que Lucy concordava alegremente, ficou um tanto surpreso ao ver a careta que eu fazia. – Bom, não vai ter muita dificuldade, pra falar a verdade. Essa roupa tem detalhes que vão lhe facilitar na hora das braçadas. E qualquer coisa, você pode se agarrar ao pescoço do leão marinho, e ele vai te ajudar com toda sua graça. – E então ele riu alto, achando graça em sabe-se lá o quê.
— Nós agora vamos colocar uma mochila em vocês, pra que possamos encaixar os cilindros de oxigênio. Vai pesar um pouco, mas na água vai melhorar. – A outra instrutora falou, nos entregando as mochilas, e nos ajudando a vesti-las corretamente.
Ótimo. Eu tinha me livrado de uma pesada para usar outra carregando cilindros de oxigênio.
Depois disso, eles nos entregaram os nadadores, a máscara e o regulador, que era o aparelho que usávamos pra respirar. E quando finalmente estávamos prontos, subimos até a superfície e ficamos ao ar livre, á deriva de muitos espectadores humanos indesejados, e pude ver que aquele era um tanque gigantesco.
Três leões marinhos logo ficaram aos nossos pés, apenas esperando que entrássemos na água, e Lucy já não podia mais conter a ansiedade para fazê-lo. Os instrutores nos explicaram algumas coisas que eu sequer consegui prestar atenção, e então permitiu que entrássemos.
Eu, claro, fui me sentar na plataforma que estávamos pra entrar, mas Lucy não pensou duas vezes e logo entrou mergulhando. Os leões marinhos ficaram animados com isso e começaram a segui-la para debaixo da água, enquanto eu fiquei com minha cara de bobão lá em cima, sem ter certeza se entrava mesmo ou continuava onde estava.
Então, segundos depois, senti duas mãos circundando meus tornozelos e me puxando para baixo. Foi tão rápido que eu sequer consegui me segurar, então acabei caindo dentro do tanque.
Dentro da água, Lucy parecia rir bastante, e eu revirei os olhos. Ela apontou para os animais ao seu lado, e passou a mão neles, provavelmente mostrando que eu poderia fazer o mesmo. Me aproximei deles, e um dos animais me empurrou com o focinho nas minhas costas, afastando-me da Lucy e de onde eu estava. E quando ele parou e eu pude olhar para trás, Lucy só faltava se engasgar de tanto rir.
Foi um pouco difícil fazer amizade com eles, já que todos claramente preferiam a Heartfilia. Quando tentei me agarrar ao pescoço de um para nadar com ele, como o instrutor dissera, ele simplesmente fez de tudo para se livrar de mim, como um touro irritado.
Quando os instrutores disseram que nosso tempo havia acabado, eu nunca ficara tão feliz em escutar essa frase. Fui o primeiro e único a sair do tanque, sendo ajudado, enquanto Lucy continuou se divertindo ao lado dos três animais.
— Sua namorada realmente tem jeito com eles. – A instrutora falou, sorrindo satisfeita.
Dei de ombros, concordando mentalmente. Eu não iria desmentir que Lucy não era minha namorada, porque, bem, não era tão necessário assim. E ela sequer tinha escutado.
O engraçado era que eu sempre convivera com animais desde pequeno, mas hoje eu estava simplesmente sendo colocado de escanteio por eles. Mas eu meio que entendia, até eu se fosse um animal também colocaria alguém de escanteio pra ter a atenção da Heartfilia.
Fui ajudado a tirar todos os acessórios antes de poder ir para o vestiário tirar minha roupa, e estava torcendo mentalmente para que a Lucy se esquecesse de querer nadar com os golfinhos.
Quando terminei de me arrumar e estava indo esperar Lucy, ela ainda estava se dirigindo ao vestiário feminino para se trocar, e o sorriso em seu rosto denunciava o quanto ela estava feliz por ter feito aquilo, o que mudou um pouco meu humor e me fez ficar feliz também.
Foram longos minutos esperando que ela se arrumasse, mas quando finalmente apareceu, estava me implorando para que fossemos comer.
Não era pra menos, já havia passado do horário do almoço e nós tínhamos andando pra caramba.
Voltamos a andar, agora á procura de um jardim para que pudéssemos montar um piquenique, e quando achamos um lugar privilegiado, com direito á uma sombra de árvore, não pensamos duas vezes em ir até lá.
Lucy arrumou a toalha no chão, e começamos a colocar as comidas em cima, enquanto meu estomago reclamava de que já queria atacar tudo aquilo, que estavam com caras ótimas.
Inicialmente um silêncio permaneceu, enquanto comíamos, mas depois Lucy voltou a tagarelar como sempre.
— Você já foi muitas vezes ao zoológico? – Ela perguntou.
— Quase toda semana quando eu era mais novo. Uma grande parte das vezes foi quando minha mãe ia trabalhar. Ela trabalhava na clínica de uma amiga cuidando de animais domésticos, mas a especialidade dela mesmo eram animais de grande porte. Ela ia aos zoológicos de segunda, o dia que eles fecham pra visitação, e como eu estudava pela manhã, eu chegava em casa, almoçava e ia direto com ela. – Falei, sorrindo ao me lembrar daquela época. – Essa é a primeira vez que eu entro em um zoológico desde que ela morreu.
Lucy ficou surpresa ao escutar aquilo, e por algum momento ficamos no absoluto silêncio de novo.
— Me desculpa… Eu fiz você vir até aqui e nem perguntei se estava tudo bem. – Lucy falou, realmente se sentindo culpada.
— Não, não tem problema, você não sabia. E pra falar a verdade, eu sentia a falta de visitar um zoológico de novo. Claro que é completamente diferente não poder me aproximar dos animais tanto quanto antes e não ter minha mãe ao meu lado, mas hoje foi… Divertido, até. – Admiti, olhando ao redor e me sentindo nostálgico com aqueles cheiros estranhos. – Mas e você? Não parece que já visitou muitos zoológicos.
— Ah, bem… Eu só fui uma vez mesmo, pra falar a verdade. Não me lembro de muita coisa. Só o que sei é que não tinha essa ala pros animais marinhos como aqui. Eu tenho certeza que me lembraria se tivesse visto tubarões e baleias como hoje. – E então ela riu, divertindo-se com os próprios pensamentos.
Ficamos conversando mais um pouco, Lucy perguntando coisas sobre minha mãe, e eu perguntando sobre sua vida nos Estados Unidos. Descobri que ela já sabia dirigir, que já havia arranjado trabalhos como babá nas férias de verão, que havia uma melhor amiga chamada Levy que ela conversava todos os dias e sentia muita falta, e que pretendia fazer faculdade de jornalismo.
— Eu acho que o ponto alto de hoje, com certeza foi ter te jogado dentro do tanque com os leões marinhos! – Lucy falou, rindo alto.
— Muito engraçadinha. – Murmurei, pegando sem que ela percebesse o pote de creme de chocolate. – Pra mim, o ponto alto foi… – E então peguei uma grande quantidade do creme em meus dedos e passei em seu rosto, no qual Lucy foi totalmente pega de surpresa. – ...Quando eu te sujei, com toda certeza. – E então eu comecei a rir, tanto pela cara que ela estava fazendo, quanto por como ela estava engraçada.
— Seu maldito! Eu não acredito que você fez isso! – Ela logo se levantou para me perseguir, já que eu havia saído correndo.
Fiquei rindo e correndo ao mesmo tempo, com a barriga doendo já, até me lembrar que a situação do tornozelo da Lucy ainda não estava das melhores.
— Você não deveria estar correndo, Luce. – A avisei, parando onde estava.
Mas ela apenas me ignorou, e percebendo tarde demais que eu havia parado, acabamos nos trombando, por pouco não me derrubando. Mas eu consegui ficar em pé e a segurei também.
— Se o médico visse o que você acabou de fazer, ele te mataria, eu tenho certeza. – Adverti, enquanto ela ainda não parecia muito satisfeita por ter o rosto sujo.
— É culpa sua, olha que você fez comigo. Me ajude a limpar isso, idiota.
— Sempre muito educada… – Revirei os olhos, enquanto a via indo emburrada até onde estávamos sentados.
Apesar dela ter pedido minha ajuda, se limpou toda sozinha, com alguns papéis toalhas que ela trouxera. Não estava muito difícil também, eu não tinha caprichado como deveria.
— Está tudo limpo? – Ela perguntou, apontando para o seu rosto.
— Não… Está sujo aqui, óh… – E outra vez, a sujei na bochecha, fazendo Lucy ficar ainda mais brava, enquanto eu continuava achando graça no seu jeito irritado.
— Eu não acredito que você fez de novo… – E então puxou o pote de minha mão, querendo me sujar também.
Óbvio que fui mais rápido e consegui pará-la, mas quando ela queria, Lucy era muito insistente. Ela tentou de todas as formas sujar o meu rosto, até que eu me cansei, segurei seu pulso e mordi o seu dedo, chupando todo o chocolate dali.
Foi automático o rubor que subiu em seu rosto, e o tanto que ela ficou sem graça e sem reação, e piorou quando ela notou o quão próximos estávamos.
E então, por um curto período de tempo, a razão me abandonou e decidi fazer algo que já estava me controlando há muito tempo para não fazer.
Eu a beijei.
Puxei Lucy para mais perto, ainda a segurando pelo pulso, me certificando de que não a machucaria. Seu corpo estava tenso, mas foi respondendo aos poucos enquanto eu ainda mantinha minha boca selada na sua. Sua mão livre veio ao meu ombro, e quando eu achei que ela envolveria meu pescoço, Lucy pareceu finalmente se dar conta do que estava acontecendo e me empurrou levemente, e depois com mais força.
— O que está fazendo? – Ela perguntou com a voz alterada, e os olhos arregalados, se afastando consideravelmente. – Por que fez isso?
Eu não sabia se era bem uma pergunta retórica ou era pra responder, então fiquei quieto, a observando se levantar e começar a guardar tudo dentro da mochila.
— É melhor nós irmos embora… – Ela falou, sequer me olhando.
Suspirei pesado, um pouco chateado pela reação dela, mas eu não poderia fazer nada quanto a isso. A única coisa que eu tinha certeza, é que eu queria fazer de novo. Eu queria beijá-la de novo, e de novo, e outra vez, e sempre que pudesse. E no fundo eu torcia pra que Lucy tivesse se sentido da mesma forma, mesmo que um pouco.
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