Troublemaker
24 Um Bom "Irmão"
Notas iniciais
Fiquei a manhã toda procurando por sinais de mordidas no pescoço da Lucy, mas não tive nenhum indício. Ela também não me parecia envergonhada por ter invadido meu quarto de madrugada e ter me beijado, enquanto eu estava semi nu, ou sequer parecia que estava feliz por ter me beijado. Porque, óbvio, não consigo imaginar alguém ficando triste ao fazer isso.
Mas na verdade, Lucy estava na mais absoluta normalidade de sempre.
E eu não estava acreditando que tudo aquilo não passou de um sonho.
— Sabia que você está parecendo um maníaco olhando pra Lucy assim o dia inteiro? – Lisanna se sentou ao meu lado no intervalo, fazendo-me rir.
— Eu estou tão óbvio?
— Você está brincando? Até o professor percebeu! – Ela riu divertida. – O que houve? Finalmente percebeu que ela vai ser a mãe dos seus filhos?
Suspirei enquanto revirava os olhos, fazendo Lis gargalhar alto. Se tinha algo que ela era ótima, essa coisa era me atazanar, com toda certeza!
Olhei sério pra ela, cogitando se deveria contar o que havia acontecido ou apenas deixar passar. Mas bem, ela também era amiga da Lucy, então provavelmente Lis já estaria sabendo de algo...?!
— Lucy invadiu meu quarto de madrugada e me beijou… – Confessei em um suspiro, observando minha amiga arregalar os olhos exageradamente e abrir a boca em um perfeito ‘o’, olhando para Lucy descaradamente. – Quero dizer, provavelmente aquilo foi um sonho e…
— Definitivamente foi um sonho! – Ela logo me cortou, ainda surpresa. – Digo, Lucy me contaria se houvesse beijado você. Ou ao menos agiria de forma suspeita hoje. – Falou como se fosse óbvio, porque realmente era e até eu sabia.
— Sim, eu também acho. Mas eu me lembro perfeitamente de como tudo aconteceu, não pode simplesmente ter sido um sonho. – Aleguei, vendo Lis levantar uma das sobrancelhas.
— Natsu, a Lucy não sabe lidar com garotos e eu presenciei isso algumas vezes. Os únicos que ela se dá são os dois patetas ali, – e apontou para Jellal e Gray, que conversavam animadamente com Lucy – e eu nem sei como isso foi acontecer. Se esse tal beijo tivesse rolado mesmo, ela teria no mínimo me pedido ajuda antes, ou pedido socorro depois.
— Tá. Então vamos supor que eu sonhei com isso…
— Nós não vamos supor, você sonhou com isso, Natsu. – Me cortou novamente, sendo bem enfática na palavra “sonho”.
Por que ela estava sendo tão dura em cortar o meu barato assim?
— Deixa eu terminar de falar. – Revirei os olhos, a fazendo rir. – Vamos supor que eu sonhei com o beijo. Por quê? Por que diabos eu sonhei que a Lucy veio me beijar?
— Ué, o motivo é simples. Você está apaixonado. – Concluiu rapidamente, sorrindo.
— Não estou apaixonado, Lis… Eu saberia se estivesse, eu já me apaixonei antes. Mais de uma vez!
— A minha irmã não conta, seu idiota. – Ela revirou os olhos, me dando um tapa fraco no braço.
— Ei! Eu realmente era apaixonado pela Mira, tá?! – Lhe mostrei a língua, e nós dois rimos.
— Você era um pirralho, e só Kami sabe como ela te suportava pedindo para levá-lo ao parque todos os dias… – Falou, relembrando da nossa época de mais novos, em que eu vivia fantasiando que iria me casar com Mirajane quando envelhecesse. Hoje em dia eu só ria daquilo. – Ai, Natsu… As coisas seriam muito mais fáceis se você apenas admitisse. – Ela resmungou sonhadoramente, deitando-se na grama e olhando para as folhas da árvore logo acima de nós.
— Lis…
— Só pensa um pouco, Natsu. Se esse sonho está te afetando tanto, é porque ele finalmente te despertou pros sentimentos que você já tem.
Me deitei ao seu lado e fiquei pensando no que ela acabara de falar. Embora eu jamais admitiria em voz alta, até que aquilo fazia algum sentido. Porque se eu não me importasse tanto assim, seria apenas mais um sonho como qualquer outro. E não era a primeira vez que eu sonhava com alguma garota. Na verdade, aquela deveria ter sido a primeira vez que eu sonhava com uma garota e não passou dos beijos.
E mesmo assim era um sonho que estava me enlouquecendo mais que qualquer outro.
***
Durante o treino de basquete, me mantive focado em não lembrar da Lucy.
Ou pelo menos tentei, falhando diversas vezes.
Eu conseguia sentir sua mão passando em meus cabelos e o gosto de seus lábios tocando o meu, e quando eu fechava meus olhos, era como se estivesse com a faixa de novo e ficava á deriva de todos os seus desejos.
Por Kami, como era difícil me lembrar que foi apenas um sonho!
Soube que eu estava terrivelmente distraído quando eu fiz o passe mais genial da minha vida, mas para o Jellal, que no momento estava no time adversário, e eu sabia muito bem disso. E com meu passe, Jellal teve a oportunidade de marcar a cesta mais sensacional de três pontos, virando o placar pro time dele.
E a culpa era minha, claro.
O treinador soou o apito e deu um tempo para que pudéssemos beber água e descansar um pouco. Em outras palavras, os outros descansariam e eu levaria uma provável bronca por não estar prestando atenção e levando o treino a sério.
— Natsu, o que está havendo? – Ele perguntou enquanto me puxava para um canto, falando um pouco mais baixo que o normal. – Seu corpo está aqui, mas é óbvio que sua mente não. Tem algo de errado?
— Não, treinador. – Respondi educadamente.
Qual é, eu não diria pra ele “então, treinador… Noite passada eu tive um sonho com minha meia irmã que está morando junto comigo, e sabe, ela é bem gostosa e me beijava enquanto eu estava só de cueca.” Claramente eu não abriria o jogo com ele. Então, minha única opção era fingir que estava tudo na mais perfeita ordem.
— Bom, eu não sei o que é, mas como eu nunca tive esse tipo de problema com você, eu vou te liberar pra casa mais cedo. Mas apenas hoje. Vá, descanse, espaireça, e amanhã eu quero te ver com a determinação de sempre, ok?!
— Obrigado, treinador. Eu vou tentar não te decepcionar amanhã. – Falei, e ele me deu leves tapinhas nas costas.
Fui andando até onde Gray e Jellal estavam, e Gray me jogou sua garrafa d’água, que eu quase sequei em instantes.
— O que o treinador falou? – Ele perguntou.
— Me liberou pra ir pra casa. – Dei de ombros, me jogando ao chão, cansado. – Disse que amanhã é pra eu voltar focado, e só não vou ter problemas por hoje porque nunca aconteceu antes.
— Pois é, cara, o que tá acontecendo hoje? Você simplesmente me entregou a vitória daquele jeito… – Jellal perguntou, rindo.
— Eu aposto minha bolsa da faculdade que tem relação com uma certa loira da nossa sala… – Gray murmurou maliciosamente, e os dois começaram a rir mais ainda.
— Com certeza. A Lucy até perdeu uns quilos depois das várias secadas que tomou hoje.
— Vocês são uns otários. – Murmurei de mal humor, e foi como se eu tivesse contado a piada mais genial, porque os dois continuaram a rir exageradamente. – Querem saber? Eu vou pra casa mesmo, porque ninguém merece vocês dois.
— Vai pra casa ou vai invadir o treino das torcedoras pra secar a Lucy? – Gray continuou provocando.
Se eu não conhecesse a tia Ur e soubesse que ela era uma pessoa incrível, certamente eu estaria xingando ela agora. Mas eu apenas fingi que não ouvi aquilo e as outras provocações que os dois estavam fazendo, e me dirigi até o vestiário para tomar um rápido banho e me trocar.
De certa forma eles estavam certos, eu realmente iria até onde as torcedoras estavam ensaiando. Mas somente porque eu e Lucy iríamos juntos até o salão de dança ter nossa penúltima aula da semana, e Igneel me fez prometer que eu não iria deixar Lucy pegar condução sozinha, porque provavelmente ela se perderia nas ruas de Magnólia. Bom, não precisava dessa promessa pra eu manter Lucy por perto, mas Igneel ainda achava que eu tinha alguma implicância com ela e me fazia prometer “ser legal”.
De qualquer forma, mesmo eu tendo sido liberado mais cedo do treino, eu ainda precisava esperar Lucy terminar o dela.
Após um rápido banho, dirigi-me até o pátio interno da escola, um pouco afastado da quadra onde nós treinávamos, que era onde as líderes de torcida ficavam. Antes de entrar lá eu já podia escutar uma música alta e sapatos chocando-se com o chão. Todas estavam empenhadas em uma difícil sequência de passes, e vez ou outra usavam os pompons jogados de qualquer forma nos cantos do pátio. Nenhuma delas notou minha presença, porque eu só era mais um no meio de outros garotos que secavam elas sem pudor algum.
Fiquei lá por longos minutos, ora tentando me distrair com meu celular, ora assistindo o ensaio, provavelmente parecendo um louco enquanto olhava para Lucy. Por Kami, porque aquele uniforme delas tinha que ser tão sexy?!
Depois de algum tempo, elas decidiram fazer algo que, por mais estúpido que eu fosse com relação a danças, notei facilmente que era muito arriscado.
Porém, para a minha surpresa, quem decidiu ficar no topo daquela pilha duvidosa de garotas, pra depois dar um mortal no ar e cair nos braços de outras duas, foi Lucy.
Embora eu quisesse implorar pra que ela não fizesse aquilo, eu já podia imaginar que reclamar ou alertá-la não resolveria de nada, porque Lucy não era do tipo que dava ouvidos ao que eu dizia. Então apenas me mantive quieto e sem coragem alguma de me mover ou falar. Até a respiração eu segurei.
Vê-la subindo daquela forma em cima das meninas, com grande risco de cair e bater as costas no chão com força, aquilo estava me deixando louco. Mas o que eu poderia fazer? Ficar ali esperando que ela caísse pra pegá-la no colo? Eu não era um super-herói.
E mesmo assim eu estava me sentindo como um cúmplice de um suicídio.
Sem coragem de me levantar e sair, para não ter que ver aquilo, assisti Lucy respirar fundo, se colocar em posição, e finalmente dar o mortal. As duas que estavam ali embaixo para segurá-la o fizeram com êxito, e só então eu pude respirar com facilidade e comemorar internamente o quão incrível Lucy foi. Afinal, no que ela não era incrível? Certamente jogar basquete deveria ser brincadeira de criança pra Heartfilia.
Todas comemoraram com gritinhos e pulinhos, e Lucy sorria grande, e de certa forma parecia aliviada que tinha dado certo.
Eu a compreendia.
Mas como se não fosse suficiente o frio na barriga que senti com o perigo daquele primeiro pulo, sugeriram que Lucy fizesse de novo, porque agora o coreógrafo tinha chegado e queria ver. Eu pude ver a expressão surpresa que ela fez e o quanto ela queria protestar e dizer que não, mas na cabeça das garotas ela já havia feito uma vez, por que não duas? A pressão das colegas estava deixando Lucy sem alternativa alguma, e em meu lugar eu fiquei mais apreensivo que antes.
Todas colocaram-se em suas posições novamente, e Lucy ficou ali, de olhos fechados e respirando fundo. Ela estava nervosa, eu podia sentir.
— Droga Lucy… Não esqueça que temos ensaio… – Murmurei igualmente nervoso em meu lugar, torcendo com todas as forças que ela simplesmente não pulasse de novo.
Só que como se tivesse me ignorado totalmente, ela já subia a pilha das garotas e se colocava apreensiva no topo, olhando para todos os lados, como se buscasse uma alternativa de escape.
Bom, acho que ela encontrou quando seus olhos pousaram em mim, em pé ao seu lado esquerdo, distante vários passos, com uma provável cara de pateta. Lucy continuou me encarando e estava surpresa, e fez um movimento com os ombros, como se quisesse me perguntar “o que diabos você está fazendo aqui?”.
Aproveitei aquela oportunidade para acenar pra que ela saísse dali. Ela estava querendo fugir, não?! Então nada melhor que seu meio irmão retardado interrompendo seu suicídio, agora com mais cara de assassinato.
Mas pra minha decepção, Lucy balançou a cabeça negativamente e voltou seus olhos para as duas que iriam pegá-la após o pulo.
E eu fui absolutamente ignorado.
Não era uma surpresa, afinal. Estávamos falando da Lucy escutar a mim, Natsu, o cara que ela não tem muitos pensamentos bacanas. Seria realmente chocante se ela decidisse descer dali e me seguir pra fora do pátio.
Cortando completamente minha linha de raciocínio, meu coração simplesmente parou quando vi Lucy caindo de cima da pilha, aparentemente sem sequer tentar um pulo. Observei que com o susto ela tentou cair em pé, e até funcionou, mas o baque no chão foi grande e logo ela estava estirada, de olhos fechados.
Corri rapidamente até onde Lucy estava, e sem ligar para quem estava indo socorrê-la, empurrei todos para longe e me ajoelhei ao seu lado, procurando por sangue em seu corpo.
Eu tinha a péssima mania de ser um pouco exagerado, vez ou outra.
— Ai! – Ela reclamou, fazendo uma careta.
É verdade que eu fiquei um pouco mais aliviado ao vê-la reagir tão rápido, mas mesmo assim, eu estava me sentindo péssimo, a sensação de ver Lucy caindo foi realmente terrível.
— Por Kami, Lucy! O que você queria fazer? Cometer um suicídio??? – Perguntei estupefato, ajudando-a a se sentar.
— Lucy! Lucy, você está bem?
— Lucy! Caramba, garota. Você quer nos matar de susto?
E junto a essas, muitas outras perguntas foram feitas pelas torcedoras que estavam a nossa volta, da qual Lucy apenas respondeu com um sorriso.
— Que exagerados vocês… – Ela falou em um sussurro, revirando os olhos e tentando se levantar, mas eu a impedi.
— O que acha que está fazendo? Fique sentada, você caiu feio, Luce. É provável que tenha quebrado o pé.
— Eu não quebrei o pé! – Ela teimou, mexendo os dois para que pudesse provar o seu ponto. – Me ajude a levantar, isso não foi nada.
Embora eu não quisesse ajudá-la, por raiva dela ter sido tão descuidada, o que eu poderia fazer? Ignorá-la completamente, dar as costas e ir embora? Eu não conseguiria fazer isso nem se precisasse. A prova disso foi eu não ter ido embora antes da Lucy quase se matar bem na minha frente.
Coloquei meu braço por baixo do seu, e ela se apoiou em meus ombros. Levantamo-nos juntos e a soltei, deixando que Lucy andasse sozinha para ver como estava.
Mas logo no primeiro passo, seu pé não firmou no chão e ela quase despencou, se não fosse por eu apoiá-la em meus ombros novamente.
— Não quebrou o pé, hein?! – Zombei, e ela fez outra careta, mostrando-me a língua.
— Cala a boca.
— Vamos, fique no chão, deixa eu ver o que aconteceu… – Pedi, pronto para argumentar milhares de vezes até que ela finalmente fizesse o que eu estava pedindo.
Mas para minha surpresa, Lucy atendeu meu pedido logo na primeira vez.
O choque disso me paralisou por alguns segundos, mas ao escutá-la reclamar comigo, logo recobrei os sentidos e me sentei ao chão também, e retirava seu tênis e sua meia comprida pra ver o que tinha acontecido.
— Desde quando você entende dessas coisas, sabichão? – Ela perguntou zombeteira.
— Eu jogo basquete faz anos, Luce. Me deparo com acidentes assim o tempo todo, e pode parecer que eu sou um ser incrível, mas ás vezes eu me machuco também. – Devolvi no mesmo tom, e ela deu uma risada irônica.
— Pois bem, senhor incrível. O que você acha que aconteceu? – Continuou irônica, e eu já teria arremessado seu tênis nela se não fosse a Lucy.
O pé dela estava extremamente inchado, e começava a ficar um pouco roxo no tornozelo. Comecei a tocar onde estava o roxo, e instantaneamente ela recolheu a perna para perto de si, reclamando de dor.
— Vou ter que te levar ao hospital, Lucy. Pode ser que você tenha trincado um osso, quebrado, ou na melhor das hipóteses, só torcido mesmo. E torça pra ser isso, ou sua mãe vai ficar realmente brava que você quebrou o pé pouco tempo antes do casamento.
— Ai, droga! O casamento! – Ela se lembrou, levando a mão na testa em sinal de descontentamento.
— Pois é, suicida. Temos um casamento pra ir, ainda… – Lhe dei um peteleco na testa, a irritando mais. – Eu vou ter que paralisar seu pé, pra você não ter muito problema ao colocá-lo no chão.
E sem que antes ela permitisse eu fazer aquilo, retirei minha camiseta e a ajeitei como se fosse uma faixa, ouvindo as líderes de torcida nada discretas soltando suspiros e gritinhos histéricos, que se não fosse a situação, provavelmente eu estaria me gabando e aproveitando.
— O que você está fazendo, idiota? – Lucy perguntou, completamente corada.
— Vou usar minha camiseta pra paralisar seu pé, oras. Um strip é que não vai ser. – Desdenhei, rindo.
Ela revirou os olhos e virou-se para encarar outro lugar, enquanto eu passava minha camiseta como uma faixa em volta de seu pé e do tornozelo, escutando algumas reclamações vez ou outra quando eu tocava na parte mais sensível.
— Você está reclamando demais pra quem fez isso de propósito.
— Não foi de propósito, eu acabei escorregando.
— Eu te chamei pra descer e você me ignorou, então foi de propósito. – Declarei, dando aquilo como encerrado, a vendo se enfezar mais.
Ela ficou quieta por alguns segundos, deixando que eu terminasse minha parte. Mas era da Lucy que estávamos falando, ela não fica em silêncio por muito tempo.
— Aliás, o que você estava fazendo aqui?
— Fui liberado do treino mais cedo, e estava esperando você pra irmos até o salão juntos. Igneel me fez prometer que eu te acompanharia. – Dei de ombros, enquanto a ajudava a se levantar de novo.
— Se não fosse por isso, provavelmente eu estaria indo sozinha e ficaria perdida em Magnólia, aposto… – Ela falou baixo, mas que não passou despercebido por mim.
— Eu nunca te deixaria sozinha em Magnólia, Luce. – A soltei, para ver se ela conseguia andar sozinha, enquanto pegava seu tênis e a meia jogados ao chão. – E além do mais, se eu não estivesse aqui, você estaria agoniando em dor e pronta pra morrer…
— Você é tão dramático, Natsu. Já pensou em fazer curso de dramaturgia? – Propôs, rindo.
Lucy tentou andar e até conseguia por o pé no chão, mas andava lentamente e sempre fazia caretas de dor quando pisava com o pé machucado.
— Meu negócio é esportes, sou péssimo atuando. Se você perguntar isso á Erza, certamente ela vai te mostrar uma fita de uma peça que fiz quando criança e praticamente estraguei metade do cenário e da história. Minha mãe nunca teve tanta vontade de se esconder de vergonha como naquele dia, mas na minha frente ela se esforçou pra me elogiar um monte. – Falei, rindo ao lembrar daquilo.
Lucy também sorria, mas não parecia que era de algo que eu falei. Ela andava calmamente e vez ou outra se apoiava em meu braço, evitando um tombo desnecessário.
— Eu gosto de ouvir você falando da sua mãe. Parece que é outro Natsu. – Ela admitiu, e eu fiquei surpreso com tal frase.
— Eu poderia passar um dia inteiro contando histórias sobre ela, minha mãe era incrível. – Confessei, sorrindo ainda mais.
— Acredito que sim, porque ela teve filhos incríveis também. – Lucy sorriu grande, fazendo-me parecer um bobo alegre ao ouvir aquilo. – Bom, exceto pelo caçula, mas tudo tem um concerto na vida.
— E eu achando que pela primeira vez, Lucy Heartfilia iria dizer algo bom sobre mim sem usar da ironia. – Murmurei, e ela gargalhou alto, quase caindo ao chão e se apoiando com força em meu braço. – Quer saber, Luce?! Cansei de esperar você andar, nesse ritmo a gente não chega no hospital antes do casamento. Vamos facilitar as coisas.
Sem um aviso prévio, a peguei no colo e ouvi um gritinho dela, que se segurou firme em meu pescoço para não cair.
— O que acha que está fazendo? – Ela perguntou em um quase sussurro, olhando-me desacreditada.
— Não reclame, eu estou te ajudando. – Desdenhei, sem encará-la.
Lucy não era tão pesada quanto eu imaginava, então não me atrapalhou ao carregá-la. Comecei a andar em um ritmo um pouco mais rápido e logo já estávamos no portão da escola. Coloquei-a no chão, apoiada na parede, e peguei meu celular no bolso da minha mochila para ligar para o Igneel e pedir uma carona até o hospital.
— Natsu… – Ela me chamou baixinho, como se quisesse me pedir algo, mas não tivesse certeza se deveria mesmo fazer isso. – Eu deixei minha mochila lá no pátio. Você poderia pegar pra mim, por favor?
— Claro. – Sorri satisfeito, por vê-la confiar em mim mesmo que pra fazer algo tão simples.
Coloquei minha mochila ao chão, próxima dela, e já ia me dirigindo até o pátio outra vez, até ela me chamar a atenção antes.
— Espera… Vista uma camiseta primeiro, aquelas torcedoras estavam te comendo com os olhos!
Foi inevitável não rir alto ao escutar aquilo, porque se eu não estivesse ficando louco, aquela era muito aparentemente uma Lucy tendo ciúmes.
— Ás suas ordens, madame. – Respondi ironicamente, procurando minha camiseta do treino na mochila. E antes de vesti-la, notei que era Lucy quem ficava me olhando, mas tentando de todas as formas disfarçar. Não muito bem, aliás. – Aquelas torcedoras são realmente umas pervertidas, principalmente uma tal de Heartfilia… – Comentei, saindo rapidamente de lá e a ouvindo me xingar, divertindo-me mais ainda.
Voltei ao pátio e perguntei para a primeira líder de torcida que apareceu em minha frente qual era a bolsa de Lucy, e ela prontamente foi buscar para mim, cheia de sorrisinhos e olhares com segundas intenções, da qual eu conhecia muito bem. Peguei a bolsa e usei uma das alças para segurá-la em minhas costas, andando sem pressa alguma até o portão da escola. E não foi bem uma surpresa quando encontrei Lucy conversando com outra pessoa, mas não uma pessoa qualquer.
— Mavis-san! – A chamei, e ela se virou em minha direção sorrindo gentilmente, um sorriso que combinava perfeitamente com ela.
— Natsu-san! – Ela me cumprimentou de volta.
— Quais as novidades, cunhadinha? Veio conhecer seu sogro? – Perguntei inocentemente, mas ela se surpreendeu e arregalou os olhos.
— O quê? Igneel? Ele está vindo pra cá? – Ela parecia agitada, e eu ri, tentando tranquilizá-la um pouco com tal ato.
— Ele vai nos dar uma carona pra levar a Lucy pro hospital, mas ele deve estar vindo do escritório pra estar demorando assim. – Reparei, dando uma olhada no horário em meu celular.
— Ah. Bem, eu estava indo pra casa e a Lucy me reconheceu, me chamou e começamos a conversar. Vocês falaram com o Zeref, então?! – Ela sorriu satisfeita, talvez até aliviada.
— Lucy já fofocou sobre isso com você?! – Perguntei, olhando para Lucy, que disfarçava atrás de nós. – Eu fico feliz de saber que você faz bem ao mal humorado do meu irmão, ele realmente tava precisando de uma Mavis na vida dele. – Comentei, e Mavis ruborizou instantaneamente. – Mas quanto a contar ao meu pai, eu preciso concordar com o Zeref sobre esperar mais um pouco… – Admiti, vendo-a fazer outro muxoxo, como no primeiro dia que nos vimos.
— Eu acharia adorável ter você lá em casa jantando conosco e nos agraciando com sua fofura, mas eu preciso concordar com o Natsu e o Zeref, Mavis-san. – Lucy começou a falar, ao nosso lado, apoiando-se em meu braço para não cair. – As coisas são um pouco mais complicadas do que realmente deveriam ser, e o Igneel pode ser incrível e amoroso demais, mas o Zeref ainda precisa prepará-lo mentalmente pra dar uma notícia dessas.
— Não sei porque as pessoas acham tão estranho ou impróprio a diferença de idade. – Mavis murmurou, fazendo biquinho. – Mas e vocês? Como conseguiram falar com o Igneel? Por que a Lucy é filha da noiva dele, não é?! – Ela me perguntou, deixando-me totalmente confuso e sem entender o que ela estava falando. – Como ele aceitou o namoro de vocês se tecnicamente vocês são irmãos agora? – Ela esclareceu.
Se eu fiquei chocado ao ouvir aquilo? Definitivamente. E Lucy também, já que ela acabou se desequilibrando ao meu lado, quase caindo, e precisei passar o braço em sua cintura para mantê-la ali.
— Me solta, idiota. – Ela se enervou, tentando se afastar de mim.
— Ei! É você quem está dando motivos pra ela achar que nós namoramos. – Rebati, revirando os olhos.
— Ah! Vocês não estão juntos? – Mavis perguntou embaraçada, tentando evitar o constrangimento que já estava instalado ao nosso redor. – Me desculpem confundir, é que parecia… Desculpa! Vocês só são bons irmãos… – Ela corrigiu sem graça, sorrindo.
E para melhorar um pouco nossa situação, ouvimos uma buzina nos chamando a atenção, e respirei aliviado.
— Oh, olha só, meu pai chegou… – Avisei, apontando para o carro. Mas para minha surpresa, quando a janela desceu, quem estava no banco do motorista era Zeref. – Ou meu irmão… – Me corrigi baixinho, já que Mavis não mais prestava atenção em mim e Lucy estava andando até o carro.
— Mavis? – Ele soou extremamente surpreso ao vê-la conosco, franzindo o cenho. – Aconteceu alguma coisa?
— Não… – Ela respondeu, se aproximando de sua janela. – Eu é que pergunto isso, achei que estivesse trabalhando.
— Eu já estou quase terminando meu turno, na verdade. – Ele respondeu, sorrindo grande, de uma forma que era muito, muito raro ver ele sorrir. Só Mavis mesmo pra conseguir tal coisa tão facilmente. – Só passei aqui para buscar Lucy, porque meu pai, Layla e Erza ficaram presos no trânsito. Você está bem, pequena? – Perguntou, puxando sua mão para depositar um beijo ali, deixando Mavis ruborizada.
E ignorando os dois em seu momento particular, decidi pegar minha mochila, que ainda estava jogada ao chão, e entrei no carro no banco traseiro, junto de Lucy.
Observei que ela encarava o casalzinho com olhos brilhando em excitação, e sorri com aquilo, porque ela realmente gostava de observar todos os casais á nossa volta, fosse o lugar que fosse. Lucy deveria ser só mais uma das garotas que sonhava em ter um príncipe encantado, e enquanto ainda não acontecia, ela apreciava o momento de felicidade dos outros.
Eu me perguntava se um dia Lucy poderia me ver como um possível candidato a ser seu príncipe encantado. Mas aquilo era muito improvável, já que de príncipe eu deveria ter só a aparência.
É, eu tinha um ego muito elevado quanto ao meu físico e meu rosto.
Ouvi Mavis e Zeref se despedirem e ele finalmente nos levou até o hospital.
Ficamos por pelo menos uma hora lá até que saísse os resultados e soubéssemos o que havia acontecido com o pé da Lucy.
Felizmente fora apenas uma torção, mas ela precisava colocar gelo no pé, três vezes ao dia, por meia hora, e tomar alguns remédios que o médico recitou, durante dez dias. E conforme ele dissera, em um mês Lucy não sentiria mais dor alguma.
— Um mês é muito tempo! Eu não posso nem sequer mais participar dos ensaios e apresentações das líderes de torcida! – Ela reclamava enquanto eu a levava na cadeira de rodas para a saída, onde Zeref nos esperava no carro, já que seu turno tinha terminado.
Embora minha vontade de falar “eu avisei! Você deveria ter descido de lá quando eu te chamei” fosse enorme, eu apenas fiquei quieto a escutando. Ela era teimosa, afinal. Eu deveria ter me acostumado com isso.
— Não reclame, você agora pelo menos vai poder ser mimada em casa… – Falei, lhe mostrando o lado bom de se machucar.
— Eu não quero ser mimada, eu quero ensaiar pras próximas apresentações. E para a dança do casamento.
— Você sabe que está muito encrencada com isso, não é?! Layla vai ficar uma fera! – A lembrei, e observei que Lucy fazia uma careta, tentando se esquecer daquele detalhe.
— Por favor, por favor, por favor, não conte a ela o que realmente aconteceu! – Ela me olhava urgente, com olhos clamando por piedade.
— Ah, veja só, Lucy Heartfilia implorando um favor a mim, quem diria… – Zombei daquela situação, rindo discretamente, já que ainda estávamos no hospital.
Ela revirou os olhos, se arrependendo instantaneamente.
— Eu não sei porque te pedi… – Ela reclamou, suspirando.
— Eu não sei do que está reclamando, eu estou te ajudando desde que você se machucou, por que acha que eu te entregaria á Layla? Que eu tenho muita vontade de fazer isso, pela sua estupidez, é completamente verdade, mas eu não vou fazer.
— Não vai? – Ela soou um pouco surpresa, olhando-me atentamente.
— Não. – Dei de ombros, e passei a ficar a sua frente, para ajudá-la a se levantar da cadeira.
Ela aceitou minha ajuda e se levantou, colocando grande parte do seu peso em meus ombros. Passei um braço em sua cintura e a ajudei a ir até o carro.
— O que você quer em troca? – Ela finalmente perguntou.
Claro que aquilo me irritou um bocado, e eu queria soltá-la ali e deixá-la se virar sozinha.
— Só quero que pare de pensar que tudo que eu faço por você é com uma segunda intenção. Eu não posso te ajudar simplesmente por que sou alguém legal? – Retruquei, e Lucy acabou ficando um pouco sem graça.
Sentamo-nos no banco traseiro de novo, e a volta até em casa foi totalmente silenciosa. E poucos minutos depois, Lucy adormeceu, e gradativamente sua cabeça foi pendendo para o lado, acabando por cair em meu ombro.
Foi inevitável meu choque inicialmente, mas logo lembrei que ela tomou um medicamento no hospital e o médico dissera que ele dava um pouco de sono. Bom, fizera resultado mais rápido do que eu imaginava.
Quando chegamos em casa, todas as minhas tentativas de acordá-la foram falhas. E a única opção que sobrou, foi a de carregá-la pra dentro.
Zeref fingiu que sequer existia e logo sumiu de vista, deixando-me totalmente responsável por ela.
Inicialmente eu pensei em deixá-la no sofá, mas quando entrei em casa, me deparei com Michelle e uma garota da mesma idade sentadas lá, e ambas me olhavam curiosas enquanto eu passava por perto.
Bom, a garota desconhecida estava curiosa, Michelle estava mais pra maliciosa com os olhares que me mandava.
— Sua irmã está com o pé machucado… – Expliquei, tentando fazê-la parar de me olhar daquela forma.
— Ahaan… – Ela respondeu ainda mais maliciosamente, me fazendo desejar poder lhe dar um peteleco.
Ignorei-a e me dirigi até o quarto de Lucy, com uma pequena dificuldade ao subir as escadas.
Afim de me surpreender, senti Lucy se aconchegar ainda mais em mim, aproximando-se confortavelmente, e soltou um pequeno sorriso, mas permanecia de olhos fechados.
— Você é tão quentinho, Natsu… – Ela murmurou baixo, que se eu não estivesse olhando-a atentamente, talvez nem teria escutado.
Senti meu coração disparando, e minha respiração parou por um instante.
Por Kami, eu estava ficando louco. Ela disse mesmo aquilo? Por favor, isso não poderia ser outro sonho, ia ser muita tolice da minha cabeça.
Levei-a com ainda mais dificuldade até o seu quarto, e ao colocá-la em sua cama, ela resmungou em reclamação. Busquei um cobertor para que pudesse cobri-la, e fiquei poucos minutos até verificar que ela estava mesmo dormindo.
Aquele resto de noite passou de forma terrivelmente lenta. E pra piorar, acabei sonhando que Lucy murmurava o quanto eu era quente enquanto estava nua em minha cama, debaixo de mim e arranhando minhas costas.
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