Troublemaker
25 Conselhos
Notas iniciais
Depois do acidente da Lucy, ela me evitou de todas as formas possíveis durante o resto da semana, e eu nem sabia o porquê. Digo, eu fiz algo de errado? Quem estava sonhando com ela era eu, logo quem deveria agir estranho era eu.
De qualquer forma, não tentei forçar a barra, e fingi que eu não estava querendo beijá-la toda vez que a via. Era uma tarefa difícil, mas eu já estava ficando craque.
Quando Layla chegou em casa naquele dia, ela ficou brava, mas não tanto quanto eu imaginava, porque ela acabou caindo no charme da Lucy e achando que foi apenas um acidente de coreografia.
Por sorte, ainda faltavam duas semanas até o casamento, então Lucy estaria um pouco melhor do pé até lá. Mas pelo pouco tempo que faltava, uma correria já se instaurava na minha casa, me deixando com dor de cabeça toda vez que nos reuníamos na sala de jantar pra fazer alguma refeição.
Se não bastasse a pressão que Layla derrubava em nós, eu também recebia a pressão do próximo jogo do campeonato, que sequer seria na nossa escola.
Mas para não focar só no que estava me deixando nervoso, que definitivamente não era só aquilo, também recebi notícias boas. Por conta do acidente da Lucy, cancelaram os dois últimos ensaios daquela maldita dança, e ensaiaríamos apenas um dia antes do casamento. E para minha felicidade e alívio, meu castigo acabava hoje, sábado, e o jogo seria amanhã, em outra cidade. Ou seja, se ganhássemos, claramente haveria comemoração e ninguém poderia me impedir de ir.
Agora, depois de um longo e relaxante banho, eu estava deitado em minha cama e encarando o teto, vestido apenas de uma calça e descansando daquele longo sábado após o treino de manhã, que ocorreu mais cedo justamente para que nós pudéssemos voltar para casa e dormir logo, para viajarmos pela manhã do domingo sem ter problemas de cansaço.
Escutei meu celular tocando e na tela se destacava o número do Gray, salvo como “geladinho stripper”.
— Cara, já arranjaram uma casa amanhã pra festa. – Ele começou a falar, animadamente. – Você acha que seu pai vai deixar você ir? Ele não vai arranjar problemas?
Nosso time tinha a péssima mania – ou ótima, dependendo do ponto de vista – de achar que todas as partidas já estavam ganhas. Logo, o pessoal sempre planejava as festas antecipadamente. E caso a gente perdesse, a festa ainda aconteceria de qualquer forma, porque Loke era assim, quando ele planejava uma festa era até uma ofensa não comparecer.
— Meu pai sequer vai pro jogo. Ele não vai precisar ficar sabendo de nada. – Dei de ombros, mesmo que ele não estivesse vendo.
— Ah não?! Mas ele sempre nos acompanha. – Ele pareceu surpreso ao dizer aquilo, e eu bufei, deixando claro que eu também não estava muito feliz com tal coisa.
Toda vez que os jogos de basquete não aconteciam na Fairy Tail, meu pai nos acompanhava no ônibus, junto com o time todo, porque ele era amigo do treinador e dizia que gostava de dar apoio moral pro time. Ou ele apenas usava essa desculpa para me vigiar enquanto estávamos em outra cidade, porque, vamos ser sinceros, isso era até meio óbvio.
— Coisas do casamento, cara. Enquanto essa merda não passar, Layla não vai deixar o Igneel lembrar que tem filhos ou ficar em paz, pelo jeito.
Ainda encarando o teto, senti Happy subindo em minhas coxas, se ajeitando para deitar ali. Eu até estava sentindo falta de passar um tempo com ele por perto.
— Iiih, vai começar sua implicância com ela de novo?— Gray perguntou, e eu podia vê-lo perfeitamente revirando os olhos em minha cabeça.
— Não estou implicando. Mas eu acho realmente curioso que ela tenha marcado algo pra domingo a noite. Digo, quem faz essas coisas domingo a noite? Não faz o menor sentido! – Desdenhei, e o ouvi suspirando.
— Natsu, tenho quase certeza que ela não fez de propósito. Não tire conclusões precipitadas, cara. — Sugeriu, esperando pacientemente que eu reagisse a isso. – Por que você não fala com ela?
— Por que de repente você está defendendo tanto a Layla, Fullbuster? – Perguntei desconfiado. Eu não gostava muito quando discordavam de mim, principalmente quando era Gray que o fazia. – Qual é cara, as coisas estão bem óbvias aqui. De repente a filhinha dela se machuca e não vai mais torcer, daí o jogo perde toda a importância e ela não precisa mais ir.
— Você está caçando pelo em ovo, Dragneel. – Ele reclamou do outro lado. – Olha, a Layla não faria isso, tá?! Pensa só um pouquinho e pare de olhar para o próprio umbigo, seu merdinha. Qual a vantagem que ela teria proibindo seu pai de não ir ao jogo amanhã?
— Eu não disse que ela proibiu… Layla só foi esperta o suficiente pra fazer a cabeça do meu pai e convencer ele bem fácil de que não precisa me acompanhar.
— Tá, então vamos supor que ela tenha feito isso. Por que de repente você está se importando tanto? Até dias atrás você reclamava quando seu pai nos acompanhava. O que é agora? Está querendo arranjar uma desculpa qualquer pra culpar a Layla das suas frustrações?— Ele falava rápido, uma de suas características quando ficava irritado com alguém. Agora o por quê ele estava irritado comigo, isso era uma boa pergunta. – Eu achei que você já estivesse grandinho, Natsu. E pra eu estar falando algo como isso, é pra você ter uma ideia de quão infantil está soando com esses argumentos furados.
— Pois é, eu realmente não sei como você está conseguindo dar pitaco na minha vida quando mal consegue se resolver com sua prima, seu bicha covarde. – Devolvi no mesmo tom, e pude escutá-lo me xingando.
Eu não estava irritado antes, mas Gray conseguiu me fazer mudar de humor bem rápido.
— Não envolva Juvia nisso, ela não tem nada a ver. Resolva sua vida e pare de descontar na Layla, otário. – E então o celular ficou mudo.
Provavelmente se fosse telefone fixo, eu escutaria o baque dele no gancho, mas apenas escutei o absoluto silêncio, enquanto bufava insatisfeito.
Não era a primeira vez que eu e Gray brigávamos, então não me preocupei com isso. No dia seguinte nós nos falaríamos como se absolutamente nada tivesse acontecido. Mas o curioso era que ele estava defendendo até demais a Layla…
Por acaso Gray estava mais envolvido com a Lucy do que eu imaginava?
Era só o que me faltava. Não bastava eu estar preocupado com uma infinidade de coisas, agora também tinha a possibilidade do meu melhor amigo estar ficando com a Lucy…
Parei um pouco para pensar na última frase do Gray, sobre eu estar descontando na Layla meus problemas, e bem… De certa forma ele poderia ter razão, talvez?! Não que eu fosse admitir pra ele, claro. Mas parando pra pensar bem, eu estava passando por um estresse generalizado com todas as questões de fim de ano que estavam prontas pra me perturbar. As provas do segundo trimestre estavam pra acontecer, assim como o casamento, os jogos finais do campeonato, mais um ano sem minha mãe, as cartas de admissão da faculdade, e a confusão mental que Lucy estava me causando.
Eu não estava mais conseguindo lidar com tudo de uma vez, e eu sentia como se minha cabeça fosse explodir a qualquer momento.
É… Gray podia ter razão, conclui novamente. Eu estava descontando minhas frustrações em cima da Layla, quando tudo o que ela tinha feito não fora com real intenção de privar meu pai de ir ao jogo.
— Ai, Happy… O que eu faço? – Perguntei à toa para o gato em meu colo, acariciando o topo de sua cabeça e o escutando começar a ronronar. Ele parecia estar me entendendo, já que aquele barulhinho engraçadinho me acalmava bastante, e eu estava precisando me acalmar antes de qualquer coisa.
Foi então que lembrei de algo que Zeref me disse, e tomei uma rápida decisão, antes que eu acabasse mudando de ideia.
Levantei-me, colocando Happy cuidadosamente em minha cama, e preguiçoso como era, continuou ali como se nada tivesse acontecido. Vesti uma camiseta e me dirigi até o quarto de Zeref, onde imaginei que ele estaria, porque era um sábado a noite e possivelmente ele poderia ter saído com a Mavis. Abri a porta cuidadosamente, e choque foi pouco pra descrever como eu me senti ao ver uma cena peculiarmente improvável.
Mavis estava sentada com as pernas cruzadas em cima da cama do Zeref, usando um óculos, com um lápis na mão e um caderno na cama, e se inclinava ligeiramente pra escrever algo ali. Zeref, por sua vez, estava no chão arrumando uma grande bagunça de papéis, igualmente atento.
— Mavis? – Perguntei incrédulo, jurando que aquilo só poderia ser algo da minha cabeça.
Ambos levantaram a cabeça em minha direção, já que ainda não tinham percebido minha presença. Mavis sorriu docemente para mim, enquanto Zeref parecia um pouco desesperado.
— Entre logo e feche a porta, idiota. – Zeref sussurrou, um pouco irritado.
Fiz o que ele mandou e continuei incrédulo olhando para os dois. Desde quando Zeref trazia Mavis pra casa?
— O que você está fazendo aqui? – Perguntei pra Mavis, tentando não soar tão grosseiro, porque eu estava mesmo era curioso. – O que ela está fazendo aqui? – Perguntei em um sussurro pro Zeref, que revirou os olhos.
— Teve um vazamento de gás no prédio da Mavis, e ela teve que sair por algumas horas até que resolvessem tudo. Eu a trouxe aqui porque ia ajudá-la com algumas lições, mas o papai não sabe disso.
“É claro que não sabe”, não deixei de pensar. Se Igneel soubesse que tinha uma criança sozinha junto com meu irmão no quarto dele, claramente meu pai já estaria fazendo um escarcéu.
— E você acha que vai mantê-la escondida em segredo por mais quanto tempo se sequer tranca sua porta? – Revirei os olhos, e ele pareceu ficar irritado com tal observação.
— Geralmente as pessoas batem antes de entrar. – Ele falou, me olhando convencido.
— Zeref, não seja tão grosseiro com seu irmão… – Mavis interviu, tirando os óculos e colocando o lápis em cima do caderno, fechando-o. – Você está precisando de algo, Natsu-san? – Perguntou gentilmente, o total oposto do mal humorado do meu irmão.
Só então Zeref passou a me olhar curioso, esperando pela minha resposta.
— Ahn… Eu… Não, eu não quero atrapalhar vocês, eu posso voltar outra hora. – Dei de ombros, já me retirando do quarto.
— Não, por favor. Não está atrapalhando, Natsu-san. Se você quer falar com o Zeref, eu posso me retirar e deixar vocês dois a sós. – Ela se levantou da cama rapidamente, fazendo menção de sair do quarto.
Foi inevitável não rir, porque ela era muito mais fofa do que eu poderia deduzir. Como mesmo que Mavis conseguia suportar meu irmão?
— Se você sair nós vamos ter transtornos com o Igneel, não tem problema se você escutar também. – Falei, olhando cuidadosamente para Zeref. – Você está muito ocupado, irmãozinho?
— Não me chame assim… – Ele grunhiu, e logo em seguida apontou para a poltrona ao lado de sua cama. – Fique á vontade.
Andei calmamente até a poltrona, e me joguei nela, enquanto os dois se sentaram na ponta da cama e ficaram me observando atentamente, fazendo eu me sentir como se fosse fazer uma consulta psicológica ou algo do tipo. Mavis era a voz da razão e Zeref era a voz contrária, que me faria tomar as decisões erradas. Como naqueles desenhos da tv em que tem um anjo e um demônio no seu ombro sugerindo ideias totalmente opostas uma da outra e brigando entre si.
Mas essa comparação era só pela aparência deles mesmo, porque Zeref vez ou outra dizia coisas decentes até.
— Você disse que eu podia contar com você, e eu acho que estou precisando conversar… – Disse baixo, encarando minhas mãos caídas em meu colo.
— Já estava na hora. – Ele resmungou, claramente insatisfeito com minha mania de não me abrir com ele. – Faz um tempo que você e eu não conversamos, não?! Acho que… Desde que Layla apareceu, talvez. – Falou, me culpando indiretamente.
E a culpa era minha mesmo, porque na época eu me senti traído por ele e Erza começarem a aprovar o relacionamento do Igneel com a Layla, enquanto eu não gostava nada.
Pensando nisso depois de algum tempo, eu percebi que era meio idiota antes.
— Não sou bom com essas coisas… – Simplesmente disse, dando de ombros.
Ele concordou com a cabeça, me fazendo rir.
— Então, o que te aflige? – Perguntou, puxando discretamente a mão da Mavis para que pudesse entrelaçá-la, sem passar despercebido por mim. – É provável que tenha relação com uma das Heartfilia? – Sequer disfarçou, me olhando maliciosamente.
Suspirei pesado, já sabendo que Zeref tinha percebido algo desde o dia que a Lucy machucou o pé.
— Talvez… – Respondi. O que fez Zeref dar um sorriso discreto. – Mas não só isso.
— Ah… Tem mais coisa… – Ele concluiu divertido.
— Acho que não tem muito a ver com o que você está pensando, maninho. – Eu sabia que ele era bem pervertido quando queria, e pela expressão que tinha, ele provavelmente estava pensando que eu tinha passado de certo ponto com a Lucy. Bom, só em sonho mesmo, infelizmente. – Eu não me lembro muito bem qual era sua relação com a mamãe, mas… Como você consegue lidar com esses dias… Sem ela?
Ele pareceu extremamente surpreso quando me ouviu falando aquilo, já que ele esperava que eu dissesse algo sobre a Lucy, e não que eu tivesse vindo ao seu quarto para falar sobre nossa mãe.
— Digo, tanta coisa vai acontecer em breve… O casamento do papai, as provas, o fim do campeonato, mais um ano sem mamãe, as coisas da faculdade… Eu estava pensando em tudo isso ultimamente e eu acho que não consigo lidar com tudo sozinho. – Fui sincero, me sentindo um pouco melhor por ter revelado todas as minhas aflições. Ou quase todas.
Notei Mavis e Zeref se entreolharem, um pouco surpresos talvez, e como se tivessem se comunicado mentalmente, ambos abriram um espaço entre si, e Zeref bateu a palma naquele espaço em sua cama duas vezes, me chamando pra sentar lá. Prontamente me sentei ao meio dos dois, e surpreendendo-me, eles me abraçaram, me deixando mais confuso que o normal.
— Ai, Natsu… Quando é que você vai aprender que a gente está aqui justamente pra isso? – Zeref murmurou em meio ao abraço. – Família serve pra essas coisas, sabe?! Não só pra te criticar ou jogar pedras em você quando apronta alguma. Mamãe se foi, mas nós não.
— Inclusive, não faz bem guardar tanto estresse assim. – Mavis completou, olhando-me atentamente. – E… Eu tenho uma solução pra cada um dos seus problemas!!! – Cantarolou animada, olhando-me cheia de expectativas, esperando que eu lhe deixasse falar.
— Uma solução é tudo o que eu quero… – Respondi rindo, mais pela reação dela do que por qualquer coisa.
— Bom, na verdade nem tudo… Mas pras provas, por exemplo, você pode contar com a nossa ajuda. – Falou, apontando para ela e Zeref. – Eu sou do segundo ano, mas posso te ajudar com algumas coisas.
— Ah, não acho que o problema dele são as provas, não é Natsu?! – Zeref perguntou, me olhando atentamente. Ele já tinha entendido o que eu queria dizer, pelo jeito. – Quando serão? Pouco antes do natal? – E então acenei com a cabeça positivamente, e ele suspirou. – Eu sei como é ruim pensar em provas nessa época… Mas bem, eu estarei aqui o tempo todo. Papai e Erza também. E agora temos mais gente na família, eu tenho certeza absoluta que Layla vai te mimar sempre que você estiver pra baixo.
— É, acho que sim… – Sorri meio fraco, recebendo outro abraço apertado da Mavis.
— E o que exatamente te aflige quanto ao casamento? – Ela perguntou, bagunçando minha franja já bagunçada, como se ela fosse mais velha que eu.
— Layla está fazendo uma pressão terrível pra que saía tudo perfeito, e eu realmente não vejo a hora disso passar. E ainda tem essa coisa do meu pai casando de novo… Eu sei que a Layla é alguém legal, mas eu ainda não consigo me acostumar com a ideia… É um casamento, é pra sempre! – Falei estupefato, jogando-me para trás na cama e escondendo meu rosto entre minhas mãos.
— Se você está surtando com o casamento do papai, não quero nem imaginar o que vai acontecer quando o casamento for seu. – Zeref riu ao falar isso, e pude ver Mavis revirando os olhos.
— Bom, quando mulheres se casam, elas sempre querem que saía tudo perfeito, porque é um dia extremamente especial. Por isso entendo um pouco a Layla. – Mavis explicou.
— Layla já casou antes, ela já realizou esse sonho. Por que ela e meu pai não decidiram simplesmente casar no cartório e pronto? As coisas seriam infinitamente mais fáceis.
— Se fosse fácil não chamaria casamento, é só pra quem tem muita coragem. Agora imagina o papai, que decidiu se casar duas vezes, o tanto de coragem que ele não deve ter. Aliás, isso serve pra você pensar mil vezes antes de decidir que realmente vai casar com alguém, é furada cara. – Zeref comentou, e eu precisei rir ao ver a carranca que Mavis fez diante aquela confissão.
— Se eu fosse você, eu pararia de falar sobre isso, maninho. – O alertei, e ele demorou um pouco pra entender o que eu dizia, até olhar para uma Mavis zangada e perceber a burrada que tinha feito. – Eu realmente não quero ficar no meio de uma discussão, então vamos logo mudar de assunto.
— Mas nós ainda não resolvemos…
— Vamos mudar de assunto! – O cortei rapidamente, olhando discreto pra Mavis.
— Certo… – Zeref concordou meio incerto, me pedindo socorro com os olhos.
Se ele, que namorava Mavis há um ano, não sabia lidar com os momentos que ela ficava assim, imagine só eu. Dei de ombros e tentei fazer minha melhor cara de “eu não entendo desses problemas”, enquanto ele fazia diversas caretas, provavelmente pensando em uma solução para aquilo.
Bom, a culpa foi toda dele.
— E quanto ao meu estresse com os jogos do campeonato? – Perguntei, fingindo que nada estava acontecendo e que o clima não estava ruim pro lado do meu irmão.
— Bem… Você é o capitão, então, claro, grande parte da responsabilidade vai pra você e como você rege o time dentro da quadra. Mas você não devia se cobrar tanto por conta disso, apesar de tudo. – Mavis falou, mudando totalmente sua postura de carranca pra uma mais calma. – Aposto que antes você via o basquete como algo divertido, agora deve ser algo como uma obrigação, que você tem que vencer e dar o seu melhor sempre. Não é errado fazer isso, mas é errado esquecer que basquete também pode ser divertido, mesmo em um campeonato.
Olhei fascinado para ela, realmente surpreso com aquele tipo de resposta e o tanto de verdade que ela carregava. Mavis estava certa, afinal. Eu entrei no basquete por diversão, mas continuei por obrigação. Ainda amava jogar, mas agora tinha muito mais responsabilidades em cima de mim.
— E se você continuar jogando sempre com a mentalidade da obrigação de vencer e ser o melhor, você vai cansar e perder o prazer de jogar em breve, e de nada vai valer aquela bolsa na faculdade que você tanto quer. – Zeref também comentou, dando tapinhas em minha coxa.
— Esse foi mais fácil de resolver… – Murmurei, e os dois riram.
— Viu só?! Não adianta remoer as coisas sozinhos. Você acha que eu e a Erza só servimos pra te xingar? – Ele fez uma careta, e eu ri, concordando com aquilo. – Mamãe me pediu pra cuidar de você, e ultimamente eu estou me sentindo culpado por não estar fazendo isso devidamente. Você ter vindo aqui falar comigo foi como tirar um peso dos meus ombros.
Ouvir que mamãe pediu para que ele cuidasse de mim foi uma novidade que me pegou desprevenido. Claro que ela diria algo assim, mas eu não tinha cogitado. E eu fiquei feliz ao saber que meu irmão realmente se importava em como eu estava, e acabei me sentando novamente para que pudesse abraçá-lo, totalmente envolvido pela felicidade que me preencheu ao ouvir sobre minha mãe de novo.
Zeref foi totalmente pego de surpresa com esse meu ato, assim como eu fui minutos antes. O abracei forte, como eu costumava fazer com minha mãe quando mais novo, todos os dias antes dela sair pra trabalhar. Eu a abraçava forte pra nunca me esquecer de quão quentinha ela era, e ela sempre me devolvia com a mesma intensidade. Zeref estava fazendo da mesma forma, e pude notar que ele também era tão quente quanto minha mãe. Ele não havia herdado só a cor dos cabelos, então.
— Eu amo você, idiota teimoso. – Ele murmurou, afagando meus cabelos.
— Eu também te amo, velhote chato.
— Agora só precisamos resolver uma última coisinha… – Ele falou após nos soltarmos, e olhou cúmplice para Mavis.
— Que coisa? – Fiquei curioso, olhando para os dois com um pouco de desconfiança.
Mavis mandou um olhar sapeca para Zeref, e ele se sentou na poltrona, para ficar de frente comigo.
E óbvio, eu comecei a ficar receoso com o que estava por vir.
— Tem a ver com uma tal Heartfilia… – Mavis cantarolou, agitada como uma criança ao meu lado, e Zeref abriu um meio sorriso malicioso.
— Aaah… Não, eu não acho que isso seja um problema pra resolver… – Respondi, me levantando para me retirar, mas Mavis foi mais rápida e me segurou firme pelos ombros.
— Nada disso, você não vai fugir! – Ela me deu uma bronca, imitando um tom de mãe muito parecido com o que Layla usava para advertir a Michelle.
— Qual é, não tem nada o que falar disso… – Me fiz de desentendido, por mais que eu já tivesse uma noção que os dois estavam atentos a tudo.
— Natsu… Olha pra mim. – Zeref soou sério, olhando fixamente em meus olhos. – Você realmente acha que eu não sei como é o olhar de um garoto apaixonado? Ou melhor, do meu próprio irmão?
Fiquei em total silêncio, não sabendo se aquilo foi uma pergunta retórica ou era pra responder.
Mas se fosse pra responder, o que diabos eu diria? Eu não tinha como argumentar quando Zeref falava algo assim, porque ele era um ótimo observador, e quando ele tirava conclusão de alguma coisa, ele sempre estava certo. Era um dos motivos dele ser um médico tão bom e reconhecido.
Entretanto, eu não podia simplesmente concordar, porque eu estava confuso demais com tudo o que estava acontecendo. Eu não queria dar chances àquele tipo de sentimento, porque era errado. Layla deixara bem claro como era errado, e eu não poderia simplesmente passar por cima de uma decisão dela, minha futura madrasta e mãe da Lucy. Então eu não criava expectativas, não tentava pensar ou cogitar sobre tais coisas.
Só que ultimamente minha mente não estava ajudando muito com isso.
— Não há o que falar. – Dei de ombros, tentando me levantar de novo, e sendo impedido de novo.
— Como assim? – Mavis perguntou surpresa, provavelmente pelo tom de melancolia que usei. – Você gosta da Lucy e vai simplesmente deixar assim? Eu não entendo!
— Não tem o que entender, Mavis. Lucy é minha meia irmã, enteada do meu pai. É isso.
— Ah! Por favor! – Zeref exclamou irritado e alto, batendo em suas pernas em um ato inconformado. – Como se isso fosse algum impedimento. – Desdenhou. – Você já olhou pra mim? Eu namoro uma colegial dez anos mais nova, e isso não é impedimento nenhum, porque eu a amo. Erza namora com teu amigo mais novo que ela, e isso não é impedimento nenhum, porque ela gosta dele! E só porque a Lucy é filha da nossa madrasta, isso quer dizer que vocês não podem ficar juntos? – Perguntou sério, esperando pela minha resposta, que não saiu. – Você é um covarde, Natsu.
Ouvir ele falando daquela forma não só me deixou surpreso, como chocado.
Zeref sempre era muito calmo, quieto, e ás vezes carinhoso, do seu jeito mal humorado. E agora estava irritado, agitado e um tanto truculento, cobrando por atitudes. Era como se fosse Erza em seu lugar, e eu me tremi pensando nessa possibilidade, não gostando nada.
Talvez ele estivesse certo? Talvez. Mas isso não queria dizer nada.
— Você vai fazer o que enquanto ainda mora aqui conosco? Você mal se aguenta do lado dela, fica fazendo aquela cara de babaca apaixonado toda hora, acha que a Layla não vai notar? Ela é mulher, mãe naturalmente, e mães sempre sabem tudo. Você está encrencado assumindo seus sentimentos ou não, Natsu, mas só cabe a você decidir se vai lutar pra fazer acontecer ou vai ficar sentado esperando o tempo passar e Lucy arranjar outro cara. – Continuou falando de forma urgente e um tanto raivosa.
Apenas continuei quieto e digerindo tudo o que ele falou, não me alegrando muito por ele estar certo, novamente.
— Sinceramente… De nós três, eu achava que você fosse o menos bundão… – Ele suspirou, de forma provocativa.
— Tá, e você quer que eu faça o quê? Passe por cima da Layla só porque estou supostamente gostando da filha dela? – Explodi, mas sem a real intenção de soar tão grosseiro como fui.
— É pra isso que serve a comunicação, Natsu-san… – Mavis disse calma, acariciando gentilmente meus ombros, tentando me fazer ficar calmo. – Diga á Layla o que você sente, seja honesto. Eu duvido que ela vá intervir se você disser como se sente. E além do mais, a decisão também não é somente dela. Se a Lucy se sentir da mesma forma, tudo o que a Layla vai ter que fazer é aceitar e torcer pra que dê certo.
— Lucy não gosta de mim… – Revirei os olhos, porque aquilo era algo muito, muito óbvio.
— E o que te impede de fazê-la mudar de ideia?
— Eu acho que ele já tem um plano pra isso… – Zeref sorriu maliciosamente, enquanto eu fiquei sem entender sobre o que ele estava dizendo.
— É mesmo?! – Mavis começou a ir na onda dele, olhando-me curiosa. – E o que seria?
— Parece que meu irmãozinho chamou a Lucy para um encontro… – Zeref fingiu estar contando um segredo para Mavis, sussurrando alto o suficiente pra que eu também escutasse, afim de me provocar.
— E ela sequer aceitou. – Falei, revirando os olhos. – E como diabos você ficou sabendo disso?
— A peraltinha que disse. – Explicou. – Achou que ela só gostasse de você, oras?! – E riu alto, zombando da minha provável cara de insatisfeito. – E até onde eu sei, Lucy não aceitou, mas também não recusou.
— Por que você simplesmente não diz como se sente, Natsu-san? – Mavis sugeriu inocente.
— Pra Lucy? – Perguntei ironicamente, rindo alto. – Não, não é bem assim que funciona.
— E funciona como? Você acha que ela vai adivinhar o que você sente assim, do nada? – Zeref revidou, me empurrando pelo ombro sem muita força. – Você acha que eu e a Mavis estaríamos juntos se eu tivesse ficado quieto e esperando um milagre acontecer? Se fosse fácil assim, o mundo seria muito menos complicado.
— Natsu-san, eu sei que pode ser um pouco confusa a situação em si, mas não ignore esses sentimos, tampouco os esconda da Lucy!
— Só vai fundo, cara! – Zeref continuou incentivando, e foi inevitável a careta que se formou em meu rosto ao ouvir ele falando algo como aquilo. Qual é, desde quando meu irmão usava essas gírias? Ele era um velhote!
— Não posso fazer isso… Você não viu a cara que a Layla fez ao falar comigo… – Dei por encerrado, levantando-me e saindo rápido antes que eu tivesse que escutar mais alguma coisa.
***
Pela manhã do domingo, após tomar um rápido café só na presença do Igneel, fui para a escola e fiquei junto ao Gray e Jellal, aguardando até que todos os competidores da Fairy Tail estivessem presentes, pra então irmos de ônibus até uma cidade que ficava quase três horas de viagem da nossa.
Lisanna e o outro tenista acompanhou nossa equipe de basquete no ônibus, junto com as torcedoras, enquanto os outros competidores foram no outro ônibus. Ficamos conversando o caminho inteiro, enquanto o clima estava até que animado. Nossas expectativas era de cem por cento de vitória, em todos os esportes, não deixando chance alguma para a escola deles.
Quando chegamos no pequeno hotel que ficaríamos hospedados aquela noite, Gray ignorou a política do sorteio e escolheu dormir no meu quarto. Comemos um pouco, nos alongamos, e então fomos todos para a escola Blue Pegasus, já que o horário do jogo se aproximava.
Foi surpreendente entrar naquela quadra e encontrar engomadinhos de cabelo arrumado e boa educação, com roupas certinhas como se fossem desfilar em Paris num evento importante. Eles sabiam que aquilo era basquete, não é?!
Decidi levar em consideração um dos conselhos do meu irmão e da Mavis, e pedi ao meu time que se divertissem antes de tudo.
E bom, realmente seguiram meu conselho, assim como eu também o fiz.
Embora eu tenha caçoado dos engomadinhos, eles jogaram muito bem. Mas nada que fosse bom o suficiente pra bater o time da Fairy Tail, claro. Ganhamos de cinquenta e sete á quarenta e nove, e mesmo sendo um placar humilhante, eles nos trataram educadamente e com muita animação, e até conseguiram ser convidados pra festa do Loke pelo próprio Loke.
Ficamos na escola até que todos os campeonatos tivessem terminado, e pude até assistir a Lisanna jogando. Combinamos de tomar breves banhos e nos encontrarmos na frente do nosso hotel para irmos juntos á festa, eu, ela, Gray e Jellal, embora esse estivesse sendo absurdamente ameaçado pela Erza e iria até mesmo ter que voltar mais cedo.
E claro que ele estava sendo nosso motivo de chacota nesse momento.
— Hey Jellal, vê se não bebê também, ou a Erza vai arrancar o teu pinto! – Um dos nossos jogadores gritava, e Jellal devolveu uma careta insatisfeita, revirando os olhos.
— Eu vou ter que escutar essas piadas até quando? – Murmurou ao nosso lado, sentando-se junto a nós no balcão do pequeno bar da casa da festa, onde um bartender já preparava algumas bebidas.
— Até o fim da sua vida, Fernandes. – Falei, pegando uma das bebidas e levantando para o alto. – Vamos fazer um brinde! Pela vitória de hoje, e pela vitória do campeonato!
Todos do time pegaram uma dose de bebida e fizeram o brinde comigo animadamente, e então foi como se a festa tivesse oficialmente começado. Uma baderna se instaurou ao nosso redor, e logo o pessoal da escola da Blue Pegasus também chegava, junto com os muitos alunos que sequer competiram.
Aproveitei aquela festa para me divertir de um jeito que eu já não me divertia fazia algum tempo. Esqueci tudo o que estava me dando estresse e tudo o que envolvia os Dragneel e as Heartfilia. Aquela noite era minha e só minha, e nada iria atrapalhar.
Não foi muito difícil perder todo mundo de vista no meio da bagunça, até mesmo me perdi do Gray que estava ao meu lado o tempo inteiro. Deveria estar beijando alguma garota por aí, eu tinha absoluta certeza.
Quando percebi que eu já tinha bebido muito mais do que eu deveria e aguentava, aos tropeços procurei pelo primeiro lugar que eu poderia sentar. Infelizmente me coloquei novamente ao lado do bar, e assim que o bartender me viu, fez o favor de me ignorar. Mas pela confusão mental por conta do álcool, ao invés de eu me sentir agradecido, eu me senti ofendido. E provavelmente eu teria arranjado uma confusão, se eu não tivesse avistado Lucy bem ao meu lado, dando um sorriso malicioso para mim.
— O que você está fazendo aqui? – A perguntei, e então ela se aproximou, passando a mão suavemente pelo colarinho da minha camiseta.
— Eu também fui convidada para a festa, oras. – Ela falou rindo.
Observei como Lucy estava vestida, com um vestido curto que mostrava boa parte de suas coxas, usando um salto alto, e por um momento quase a puxei para mais perto, para sentir seu perfume.
— O que aconteceu com o seu pé? Já está melhor? – Me lembrei, e observei ela ficando confusa, me olhando estranho.
— Meu pé? Ele está bem, não aconteceu nada, querido. – Ela continuou sorrindo, passando um dos seus braços em meu ombro e aproximando-se perigosamente de mim, mordendo o lóbulo da minha orelha. E sua outra mão começou a percorrer minha coxa, me deixando doido. – A bebida já te subiu a cabeça assim, é?! – E riu de novo, uma risada melodiosa e perversa que não me lembrava em nada a risada da Lucy.
— Lucy, o q-que… O que você está fazendo? – Falei em meio á um soluço, segurando-a pela cintura, com medo que ela fosse embora.
— Lucy? É esse o meu nome hoje? – Ela se divertia falando, deixando-me ainda mais confuso. – Tudo bem. Essa noite eu vou ter o nome que você quiser, capitão.
E então sua boca veio faminta ao encontro da minha, suas mãos vieram firmes em meus cabelos, seu corpo encaixou perfeitamente em meio as minhas pernas. Seu perfume encheu meus pulmões, e foi o suficiente pra me embriagar mais ainda e me afundar naquele ato tão cheio de luxúria.
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