Troublemaker
44 Seu Amadurecimento
Notas iniciais
Nem sempre eu tinha a oportunidade de desfrutar um dia de folga, mas aquela ocasião era diferente. Não seria como se eu fosse tirar o dia para mim, de qualquer forma. Essa minha folga, em específico, só tinha um propósito: Ficar totalmente disponível ao meu irmão mais novo.
Nós tínhamos alguns anos de diferença, quase sete para ser mais exato, mas tínhamos uma relação bastante saudável, na medida do possível. Claro, as coisas tinham mudado bastante desde que meu pai se casara, mas ainda éramos irmãos que podiam contar um com o outro. E apesar de eu não demonstrar sempre, eu estava ali por ele pra qualquer coisa, em qualquer situação, em qualquer hora do dia.
No entanto, sempre tinha uma data em especial que eu não ia trabalhar, ele não ia pra escola, e nós nos comunicávamos em absoluto silêncio, entendendo um ao outro apenas com simples olhares.
O dia que nossa mãe morreu.
Erza não tinha muito o que considerar, nesses dias. Ela havia se esquecido de todo o terror psicológico que passamos ao saber que Miyuki estava terrivelmente doente, e até mesmo chegava a acreditar que passamos nossa infância apenas com Igneel. Depois de uns meses em discussões, decidimos que era melhor deixá-la pensar dessa forma mesmo. Não era justo pra Erza receber notícias desagradáveis quase sempre, além de ter que lidar com o fato de que ela nunca se lembraria de nada, todas as vezes.
Assim, esse era um dia que apenas eu e Natsu desfrutávamos da melancolia e tristeza que nos cercava.
Igneel costumava lidar com aquilo de forma diferente, antes de encontrar Layla. Se debruçava sobre a mesa do escritório com uma papelada que parecia não ter fim, e tentava não se concentrar em nada além do trabalho. Era seu jeito de lidar com a dor, e eu podia entendê-lo de certa forma. Meu pai amava nossa mãe de forma tão profunda, que às vezes eu temia ele ter um colapso com as lembranças que tinha com as coisas dela em seu quarto.
Mesmo que tivéssemos pedido, inúmeras vezes, Igneel não se livrou das coisas da Miyuki. Nunca entendi a razão de querer se martirizar com aquilo, sendo que ele podia doar para algum lugar com gente necessitada, mas ele se recusava. Na verdade, chegou até uma vez a fazer o cálculo de quanto valeria todas aquelas coisas, e fez um cheque com um preço cinco vezes maior para doar a um orfanato perto de casa. Provavelmente era sua forma de tirar o peso da consciência por não doar tudo aquilo.
Agora que havia Layla, ela sempre o mantinha são em boa parte do tempo. Ela era incrivelmente boa com palavras, e sabia exatamente o que precisava falar para o meu pai. Prova disso era que ele havia, finalmente, aberto mão de oitenta por cento das coisas de Miyuki.
Já o Natsu… Bom, ele era um pouco mais complicado.
Antes ele não lidava muito bem. Lembro-me perfeitamente de um desses anos que ele desapareceu o dia inteiro, e foi uma ocasião que estava absurdamente frio e chovendo. Igneel se desesperou, Erza ficou louca e eu nunca fiquei com tanto medo como naquele dia. Pelo fato do Natsu ser muito apegado à nossa mãe, muito mais do que eu ou Erza, sempre me amedrontei que ele não aguentasse a falta dela e fizesse algo muito sério. Então me lembro bem daquele dia, que saímos pela rua gritando angustiados por ele, e eu até esqueci de me agasalhar, ocasionando em um forte resfriado no dia seguinte. Mas encontramos Natsu no fim da tarde, chorando ao túmulo de Miyuki.
Eu fui o primeiro a encontrá-lo, e o abracei forte como se fosse meu próprio filho. Meu irmão era importante pra mim, e eu não conseguiria lidar com outra perda. Igneel e Erza chegaram em seguida, ambos chorando em igual desespero, e ficamos juntos ali por alguns longos minutos.
Depois daquela ocasião, Natsu nos prometeu que nunca faria algo assim de novo, mas isso não significava que ele não iria sofrer da sua própria maneira. De fato ele não chegou a desaparecer, mas sempre nos avisava que iria até o cemitério e passava o dia todo por lá. Eu não sei o que o levava a fazer isso, ou o que ele chegava a fazer além de encarar a placa que marcava o nascimento e falecimento de Miyuki, mas ninguém questionava. Afinal, cada um de nós tínhamos nossa maneira de lidar com a perda.
Nesse dia, em questão, acabei acordando um pouco mais cedo do que o necessário, já que estava acostumado com isso. Levantei-me para fazer o café da manhã, ciente que só havia eu e Natsu em casa. Abri cuidadosamente a porta de seu quarto para checar como ele estava, e o sono profundo ainda o puxava para mais algumas horas naquele estado.
Desci meio sonolento até a cozinha, e me deparei com um bilhete na geladeira com a letra caprichada de meu pai, que dizia: “Iremos 16h30. Layla e as meninas também. Avise o Natsu, amo vocês! Igneel”.
Eu já sabia que ele se referia ao cemitério, e fiquei particularmente surpreso que as meninas iriam. Isso era por vontade delas, ou por que Layla queria que elas fossem? Bom, de qualquer forma, talvez fosse um pouco menos doloroso para o Natsu se Lucy estivesse por perto, era o que eu imaginava.
Com a certeza que Natsu não acordaria antes do almoço, comi qualquer porcaria que encontrei na geladeira e fui dar uma olhada nas coisas dos nossos pets. Apesar de não ser exatamente minha preferência, eu estava começando a gostar daquele cachorro-quase-cavalo que agora vivia conosco.
Me joguei ao sofá, um pouco frustrado que a televisão não mais estivesse ali, e fui checar os emails e mensagens pelo celular. Não sei quanto tempo fiquei concentrado naquilo, já que fui surpreendido por alguém sentando de forma bruta ao meu lado.
Não o escutei descendo as escadas, muito menos passando ao meu lado, então quase precisei de um desfibrilador pra me recuperar do susto. Mas ali estava Natsu, apenas de cueca box, cabelos bagunçados, olheiras enormes e uma expressão de total melancolia.
Não ousou dizer qualquer palavra nos primeiros minutos, e muito menos me encarar. A razão disso, talvez era porque Natsu mencionava algumas vezes que eu parecia muito com nossa mãe. Talvez me encarar esses dias fosse um pouco mais doloroso que o normal. E isso também era doloroso pra mim, porque eu não gostava de vê-lo dessa forma. Mas enquanto ele permaneceu ali, em seu total silêncio, eu continuei checando meus emails e o deixando ter o seu tempo.
— Mais outro ano… – Foi o que o ouvi murmurar bem baixo, enquanto olhava para o chão com nenhuma vontade.
— Sim. Mais outro. – Foi o que respondi, apenas pra que ele pudesse saber que eu não o tinha ignorado.
— Zeref-nii… Você lembra… Da vez que fui pra escola a primeira vez? – Ele perguntou, dessa vez olhando bem pra mim, e um sorriso de lado bem tímido ameaçando aparecer. Mas não me esperou pra responder. – Você disse que ia dar tudo certo, e prometeu me dar chocolate mais tarde se eu não chorasse. Mas você lembra o que a mãe disse?
— Eu… Acho que ela não disse nada… – O encarei um pouco curioso, querendo saber onde ele queria chegar com aquilo.
— Sim, ela me disse algo. Ela se ajoelhou pra ficar do meu tamanho e me abraçou forte. E depois sussurrou que me bateria se eu a envergonhasse como as outras crianças que estavam chorando. – Completou rindo, me fazendo rir também. – Nossa mãe tinha um jeito bem assustador pra fazer ameaças, ela disse isso enquanto sorria! Era como um anjo encantador, mas ameaçando que iria te deixar roxo de tanta chinelada!
— Ainda bem que você não a desafiou, porque ela realmente teria te batido. Na frente de todo mundo! – Falei, lembrando do jeitinho peculiar que Miyuki tinha.
Jeitinho esse que Erza havia herdado de maneira muito mais assustadora.
— Eu acho que ela ainda estaria ameaçando me bater esses dias, mesmo que eu já sou maior do que ela já foi. – Ele falou pensativo, e em questão de segundos o clima descontraído se tornou novamente triste e melancólico. – Será que a mãe aprovaria as coisas que estamos fazendo? – Ele perguntou, e por um momento achei que fosse algo retórico, até ele me encarar firmemente com aqueles olhos verdes tão hipnotizantes.
— Que coisas?
— Lucy, Mavis, Jellal, os empregos de vocês… – Falou, se referindo a mim e à Erza. – Será que estamos fazendo coisas que a deixaria orgulhosa?
Parei pra pensar sobre aquilo por um momento, e pela primeira vez tentei imaginar o que minha mãe diria ao ver que eu já estava formado e trabalhando em um ótimo hospital, mas não tanto por opção minha, e namorando uma garota tão nova… Como ela reagiria?
Era difícil pensar, uma vez que até mesmo eu tinha conflito com essas coisas. Mas Natsu precisava de uma resposta, e eu não poderia dizer algo assim.
— Olha… Acho que ela ficaria orgulhosa com qualquer coisa que nos deixe feliz. Se você estiver feliz, Miyuki também estará. – O respondi, e pareci tê-lo surpreendido, já que ele ficou me olhando atônito por alguns segundos, antes de se pronunciar novamente.
— Você tem razão. – Ele voltou aos seus pensamentos de novo, encarando seus dedos com mais interesse que o normal. – Eu acho… Que nossa mãe ia adorar a Mavis! – E me deu um sorriso sincero, um que eu nunca havia visto ele dar em dias como esse.
E de certa forma, um sorriso que me confortou de maneira que eu nem imaginava que precisava ser confortado.
Dava pra perceber que Natsu estava aprendendo a lidar melhor com a perda desde a época em que tudo aconteceu. Eu não sabia o quê ou quem havia sido responsável por isso, – apesar de ter minhas desconfianças –, mas apreciava muito a nova forma com que Natsu olhava as coisas. Sim, uma perda daquelas era difícil de superar, era doloroso e sofrido, mas a forma que ele levava tudo antes, ao extremo demais, me deixava bastante preocupado.
Era bom saber que agora eu não precisava sentir o medo de antes de cogitar que meu irmão fizesse algo louco o suficiente que eu pudesse perdê-lo também.
— Sim… Provavelmente ela mostraria todas as minhas fotos vergonhosas de criança, em uma tarde de domingo depois do almoço, e ficaria rindo com a Mavis até que eu ficasse irritado. – E então o puxei para bem perto, em um abraço um tanto desajeitado, e lhe dei um beijo na testa do meu jeito estranho de tentar parecer carinhoso. – Quer que eu faça seu café da manhã? Eu achei que iria acordar só na hora do almoço, então comi qualquer coisa. Se você quiser o café, eu aproveito pra comer junto também.
— Você não vai trabalhar, Zeref-nii? – O escutei perguntando de um jeito bastante manhoso e infantil até mesmo para o Natsu, e acabei não segurando a breve risada que surgiu.
— Não hoje. Vou ficar com você. Vem, vamos tomar o café da manhã.
***
Natsu só ficou em casa comigo até pouco depois do almoço, e então foi ao cemitério sozinho. Tomou essa decisão quando o avisei que iríamos todos juntos no horário combinado por Igneel, porque queria ficar um tempo sozinho. Até me ofereci para que pudesse acompanhá-lo, mas ele recusou sem pensar duas vezes. E se isso o deixaria um pouco melhor, então decidi deixá-lo ir sozinho.
Foi um pouco solitário ficar naquela casa, porque provavelmente aquilo nunca me aconteceu. Ainda mais agora que eu tinha mais duas meias irmãs, e isso resultava que nossa casa nunca estava vazia. Mas aquele dia estava, e não era bem um dia favorável pra isso.
Subi calmamente até o meu quarto, e abri minha gaveta onde havia uma caixa com algumas coisas importantes para mim. Embora ela não publicasse, Miyuki escrevia poemas, e vários deles foram escritos para mim. Talvez o meu preferido fosse “o garoto dos cabelos negros”, mas era difícil dizer isso com tanta certeza, porque todos eram ótimos, especiais, e somente meus.
Peguei alguns nas mãos para ler, e não pude evitar me emocionar ao observar aquela letra tão típica de minha mãe. Eu conseguia me lembrar claramente das vezes que ela se debruçava sobre a mesa para escrever, com uma concentração que eu demorava um bom tempo para conseguir. Miyuki se inspirava com facilidade, e tinha sempre alguns cadernos espalhados pela casa. Depois me mostrava para que eu pudesse dizer o que achava, e seus olhos sempre brilhavam quando eu ficava admirado com seu talento. Não tinha uma vez que eu não me lembrasse do modo como ela me surpreendia sempre.
E eu me lembrava perfeitamente da ocasião que ela queria me ajudar com uma garota na escola.
“— É seu último ano, filho! Vai ser legal ir ao baile. Vai me dizer que não tem nenhuma garota em mente pra convidar? – Ela me entregou um pedaço do bolo que tinha terminado de confeitar, e ficou esperando que eu comesse pra lhe responder.
— Ela provavelmente já deve ter um parceiro, mãe. E eu não sou lá o cara mais popular, todo mundo me acha estranho. – Resmunguei, colocando outro pedaço de bolo na boca, mas dessa vez um exagerado. – Hmmm! Isso tá ótimo! – Falei de boca cheia, e a vi rindo.
— Um estranho que ficou em primeiro lugar em medicina, em duas faculdades! – Ela falou com um entusiasmo exagerado. – Você deveria se orgulhar disso, e quem sabe não usar como isca?! – Deu uma piscadinha, fazendo-me rir também. – Mas não vai conseguir nada se continuar comendo desse jeito.
— Olha, mãe, obrigada pela força, mas até você acabou de concordar que eu sou mesmo estranho. – Resmunguei com uma careta, mas ela não mais prestava atenção em mim, e sim no caderninho que tirou de uma das gavetas.
— Vou escrever um poema, então. Garotas amam poemas! Qual a cor dos olhos dela?
— Mãe…
— Qual a cor? – Ela insistiu, um pouco dura dessa vez, e me vi obrigado a respondê-la.
Observei-a concentrada durante alguns minutos, enquanto parecia se divertir ao escrever. Cantarolava durante o ato, e algumas vezes colocou a ponta da caneta na boca para morder enquanto parecia pensar. Seu cabelo estava metade preso, então algumas mechas caíam na frente de seu rosto quando voltava a escrever, e eu só podia pensar o quão bonita era minha mãe.
— Pronto. Vê o que acha! – Ela me entregou minutos mais tarde, deixando-me cheio de expectativa para saber o que ela havia escrito.
Claro, eu me surpreendi outra vez em como ela conseguia fazer algo tão incrível em pouco tempo. Minha mãe era realmente talentosa!”
Infelizmente, a garota a quem eu queria convidar tinha mesmo um parceiro. Por sorte, não lhe entreguei o poema, e ainda o guardava comigo até o momento presente, agraciando-me com aquela lembrança de quase dez anos atrás.
Será que Miyuki me ajudaria com poemas para que eu pudesse dar à Mavis?
Muito provavelmente. E tenho certeza que ela convenceria Igneel que meu relacionamento era absolutamente normal, e não tinha o porquê surtar.
Não que meu pai tivesse surtado, até porque ele ainda não sabia, mas… Bom, em noventa e nove por cento das situações que eu me imaginava contando da Mavis pra ele, Igneel me ameaçava de alguma forma diferente.
Seria bom se minha mãe ainda estivesse aqui, eu tenho certeza que ela seguraria as pontas por mim.
Não que Natsu e Erza não pudessem fazer isso, mas Miyuki tinha um poder de persuasão em meu pai muito maior que qualquer um de nós, e era até um pouco óbvio.
Será que Layla tinha esse poder também? Ou ela reagiria como Igneel?
Minha linha de pensamento foi cortada quando ouvi batidas tímidas em minha porta, que estava aberta, e notei uma cabeleira loira escura se inclinar sobre o batente para me observar. Estava com o uniforme da escola, então deduzi que tinha acabado de chegar e já subira direto para o meu quarto.
— Nii-san… Eu imaginei que estaria em casa, então trouxe alguém pra te animar um pouquinho… – Ela falou de um jeito tímido, e ao seu lado apareceu Mavis, que aparentava um pouco cautelosa ao se aproximar, mas tal característica desapareceu quando ela veio me abraçar.
Só assim notei que eu derramava lágrimas, as quais ela fez questão de enxugá-las cuidadosamente.
Permanecemos abraçados por alguns minutos, e isso foi tempo suficiente para que eu me acalmasse um pouco, e ficasse agradecido pela presença dela.
Michelle já não estava mais ali à essa hora, e eu a agradecia mentalmente por ter nos dado esse tempo a sós.
— Você já almoçou? – Mavis perguntou baixinho, acariciando meus cabelos com um carinho característico dela. Sempre bastante cuidadosa, muito delicada.
— Sim, almocei com o Natsu. E você? Ainda tem comida, eu preparei o suficiente pras meninas quando voltassem da escola.
— Comi na escola, não se preocupe. Hoje é meu dia de cuidar de você, então só fique quietinho e nada de perguntas desse tipo. Vem, vamos lá pra baixo, não quero que fique sozinho.
E ouvindo seu jeitinho autoritário e particularmente engraçado, deixei-a me puxar pela mão e a segui escada abaixo, ficando no sofá com ela enquanto observava Lucy e Michelle almoçarem na cozinha.
— Nii-san… Onde o Natsu tá? – Ouvi Michelle perguntar do seu modo curioso, e mesmo que não quisesse demonstrar, notei que Lucy também estava bem atenta à resposta que eu daria.
— Foi ao cemitério mais cedo, ele queria um tempo sozinho antes de todos irmos. – Expliquei.
— Isso não é… Ruim? Deixar o Natsu sozinho logo hoje? – Foi Lucy quem perguntou, bastante alerta dessa vez, sequer disfarçando a inquietação na voz.
— É só a forma dele lidar com isso, não se preocupe, Lucy. Ele ainda estará lá quando formos, e então vou precisar da sua ajuda pra animá-lo um pouco.
— C-certo… – Ela murmurou um bocado envergonhada, e voltou a comer.
Aproveitei da presença de Mavis por mais algum tempo, e ela saiu antes que meu pai voltasse, deixando-me aos cuidados exageradamente atenciosos da Michelle, e um tanto tímidos de Lucy.
Fiquei com elas até meu pai chegar junto da minha irmã e Layla, e só de olhá-lo eu já podia perceber que Igneel não estava muito bem também.
Talvez fosse porque ele não visitava o túmulo da Miyuki havia alguns anos.
— Onde… Seu irmão tá? – Ele perguntou meio abatido, se jogando ao sofá com um suspiro longo, coçando os olhos em cansaço. Parecia que sequer tinha dormido aquela noite.
— Ele já foi. – Respondi, lhe entregando um copo de suco de maracujá que eu havia feito propositalmente na hora do almoço. – Pai, você não precisa ir se não estiver se sentindo bem.
— Eu prometi a ele que iria. Não vou quebrar uma promessa logo hoje. – Igneel virou o copo de uma vez, fazendo uma careta logo em seguida. – Vão se arrumar, vamos sair em dez minutos.
***
Nos dividimos em dois carros, ficando eu como motorista do carro da minha irmã, e Lucy e Michelle me acompanhando, Igneel, Layla e Erza no carro do meu pai. Paramos para comprar algumas flores, embora fosse difícil achar uma grande variedade no inverno, e escolhemos alguns buquês delicados de crisântemos.
No cemitério de Magnólia, uns quinze minutos longe de casa, havia uma grande escada para o acesso do portão principal. Senti minhas pernas enfraquecerem um pouco antes de eu subir aqueles degraus, e recebi uma pequena ajuda de Layla, que tentava de toda forma ser um suporte para mim e meu pai.
Quanto mais eu subia aquela escada, mais parecia que ela era infinita. E ao olhar pro lado, notei que meu pai também não estava em suas melhores condições, porque já derramava algumas lágrimas discretas antes de adentrarmos aquele lugar.
O túmulo de Miyuki não ficava muito longe, provavelmente estava quase no meio de todo aquele terreno, ao lado esquerdo do caminho de ladrilhos ao qual seguíamos. Eu sequer me lembrava a fileira ou o número, mas não foi difícil encontrar ao observar Natsu ao longe.
O dia estava particularmente frio, e ele não parecia vestir um casaco apropriado. Isso se refletia na forma que ele tentava esconder as mãos nos bolsos da blusa, e todo o pescoço e a boca na gola alta. Seus olhos estavam um pouco inchados e vermelhos, e aos seus pés havia um buquê também. Não se surpreendeu com nossa chegada, tampouco se moveu de onde estava. Apenas esperou que nos aproximássemos, e murmurou um “obrigado” baixo para o meu pai.
Calmamente, todos colocamos nossos buquês junto ao dele, e ficamos em silêncio por um tempo. Não sabíamos exatamente o que fazer ao ir ao cemitério, porque o único que o fazia era Natsu. Era um pouco estranho e doloroso olhar para aquele lugar e imaginar que o corpo de minha mãe estava bem embaixo de nós.
Após alguns minutos, nosso total silêncio foi quebrado pelo choro de meu pai, que já não conseguia se controlar mais. Ele não chorava alto ou algo do tipo, mas escutávamos seus soluços e dava pra notar que a dor ainda era muito presente e palpável para ele, e talvez essa fosse sua razão de nunca ir ao cemitério.
Mas de todas as coisas que poderiam me surpreender naquele dia, uma foi especificamente marcante, que foi a reação do meu irmão com o modo que nosso pai estava lidando com as lembranças dolorosas.
Ele se dirigiu até Igneel, com passos firmes, e o abraçou forte enquanto cochichava palavras de conforto a ele.
De todos, o Natsu era o último que eu imaginava confortando alguém logo naquele dia. Mas ele parecia transbordar uma paz de espírito que nunca acontecera antes, e eu tive a plena certeza que ele tinha, enfim, se livrado de toda a culpa que tentava inutilmente esconder que sentia pela morte da Miyuki.
E dessa vez, quem começou a chorar foi eu. Uma onda de emoções e acontecimentos me pegaram desprevenido, vindo tudo de uma vez, e me vi ajoelhado e chorando como uma criança ao túmulo de minha falecida mãe.
Eu não sabia definir qual era o sentimento que predominava agora, porque era literalmente uma mistura de tudo. Saudades da Miyuki, tristeza pela sua morte, alívio pelo Natsu, porque eu sentia que não precisaria nunca mais temer que ele fizesse alguma besteira, felicidade por ainda ter grande parte da minha família comigo me apoiando… E o único modo que eu via de demonstrar todos eles, era chorando.
Senti meus irmãos se ajoelhando para me consolar, todos os quatro, e senti meu pai colocando a mão em minha cabeça em um ato carinhoso. Recebi um abraço caloroso do Natsu, e me senti aquecido pelo amor que todos compartilhavam. Era muito difícil eu demonstrar meus sentimentos dessa forma, mas já que estava acontecendo, eu ficava feliz que era na presença das pessoas que eu amava.
Não lembro ao certo quanto tempo ficamos daquele jeito, mas demoramos bastante no cemitério. Voltamos todos juntos para casa, e fizemos um jantar especial, onde todo mundo ajudou com alguma coisa, e ao nos sentarmos na mesa juntos, dedicamos aquele jantar às lembranças de Miyuki. Não teve muita conversa como geralmente, nem bagunça ou algo do tipo. O clima estava um pouco melancólico para aquele tipo de brincadeira que tínhamos, mas estava claro como água o quanto éramos gratos por ter a presença de cada um ali.
E estava claro para mim o quanto meu irmão estava crescido, e Miyuki teria muito orgulho dele se estivesse conosco agora.
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