Troublemaker
46 Mais Que Irmã
Notas iniciais
Último capítulo: — Tantos anos, e pensar que nesse ano vamos finalmente nos formar. – Gray resmungou.
— Nem me fale. Mas vocês dois ainda vão continuar estudando juntos, e eu vou ficar pra trás. – Lis fez bico, soando um pouco magoada.
[...]
— Ei! O tal Natsu tá aqui e tá ouvindo tudo, só pra deixar registrado. – Me pronunciei, deixando claro que eu não estava gostando muito do decorrer da conversa. – Eu gosto da Lucy, e sim, eu sou idiota e faria qualquer coisa pra deixar ela feliz. E isso inclui assumir o compromisso de não “beijar outras bocas” – fiz aspas no ar, olhando sério pra Lis – enquanto eu estiver estudando em outra cidade.
— Isso se chama “namoro”, – ela também fez as aspas no ar, me olhando desafiadoramente – que é um compromisso que eu achei que você já teria com ela nessa hora do campeonato.
— Lis…
— Eu não queria me intrometer, mas eu também achei… – Gray comentou, me observando atentamente para ouvir a resposta que eu teria.
[...]
E no fim, acabamos transformando tudo em uma briga de travesseiros. Era bastante infantil, mas eu não estava muito a fim de agir como adulto naquela noite. Éramos só nós, afinal. Aproveitando uma noite que não sabíamos se ia acontecer novamente muito cedo. Até porque, estávamos perto de nossa formatura e de tomarmos um rumo diferente para as nossas vidas.
O melhor que podíamos fazer era aproveitar sem nos preocuparmos.
Porque o futuro já reservava preocupações suficientes.
Não demorei a perceber que aquela semana estava estranha, mas demorei a perceber o motivo disso.
Assim como eu disse ao meu pai, eu voltei do sítio do Gildarts horas antes da aula de segunda. Não chegou a ser exatamente de propósito. Aconteceu que eu, Lis e Gray fomos descuidados com o horário, quase perdemos o último ônibus da noite, e chegamos em casa tarde o suficiente pra eu quase receber um castigo longo, se não fosse minha ótima desculpa de que tivemos problema com a neve repentina que caiu na manhã de domingo.
E aquilo era verdade por partes, mas meu pai não precisava saber de todos os detalhes.
De qualquer forma, fui obrigado a ir pra escola se não quisesse ficar de castigo, e só consegui tirar um pequeno cochilo de duas horas antes de me levantar e acompanhar Lucy e Michelle.
Não era mais surpresa que eu e Lucy estávamos juntos, do tipo que andávamos de mãos dadas pela escola e tudo o mais. Mas naquela segunda-feira pareceu particularmente perturbador fazer isso, devido aos olhares cheios de julgamento que recebi.
No começo eu achei que era bobagem e coisa da minha cabeça, alucinação causada pela falta de uma noite bem dormida. Começou com duas ou três pessoas aqui e ali, e até o fim da semana era uma quantidade considerável dos alunos da Fairy Tail. Lucy também estava ficando bem incomodada com o jeito que a olhavam. Como se tivessem descoberto algum crime nosso, ou algo do tipo.
Por um segundo, Lucy até cogitou que eles sabiam que nós havíamos dormido juntos, mas logo tirei essa ideia de sua cabeça. Ninguém sabia disso, e eu nunca tinha dito aquilo com todas as letras pra ninguém, então era impossível.
E por um segundo eu cogitei que estavam todos com síndrome de Layla, até a Lucy me olhar feio ao soltar esse tipo de comentário.
— Ela é minha mãe, sabe?! Pare de implicar com ela, por favor. – Ela se emburrou, cruzando os braços e fazendo bico, enquanto estávamos sentados à sombra de uma árvore na hora do intervalo. Mesmo que estivesse no inverno e no começo da semana havia nevado, aquele lugar ainda era estranhamente confortável para ficar. – Tenho certeza que você não gostaria se eu implicasse com a Miyuki!
— Mas uma coisa é totalmente diferente da outra, Luce. – Ri alto, puxando-a pela cintura pra ficar mais próxima de mim e ficarmos aquecidos, a abraçando e lhe dando um breve beijo na bochecha. – Primeiro de tudo, minha mãe ia te amar, e vocês iam fazer um complô pra ficar falando mal de mim. E segundo, eu não tô implicando com a Layla, só tô dizendo a verdade. Ela que fica olhando feio pra nós quando estamos ao lado do outro, e é o que o pessoal da escola tá fazendo.
— Você sabe que é a crença dela. As pessoas aqui com certeza não pensam da mesma forma, então eu só queria saber o que tá acontecendo pra todos me olharem desse jeito. É o meu fardo por gostar um pouquinho do capitão do time principal da Fairy Tail? – Ela zombou, enfatizando o “pouquinho” mais do que todas as outras palavras.
— Diz que é pouquinho, mas não larga de mim… – Lhe dei uma mordida de leve na bochecha, escutando-a rir e protestar.
— Quem está me abraçando é você, idiota.
— Admita, esse fim de semana que fiquei longe de casa, você ficou morrendo de saudades de mim. – E vendo Lucy me olhar contrariada, pronta pra negar, a cortei antes. – Vamos Luce, deixa de ser orgulhosa. Eu senti sua falta, sabia?! Foi ótimo ficar uns dias com os meus melhores amigos, mas eu queria ter ficado com você também. Viu?! Nenhuma das minhas mãos caiu ao admitir, agora é a sua vez! – Brinquei, mostrando-lhe ambas as mãos pra ela.
— E você acabou de estragar todo o clima… – Ela resmungou, revirando os olhos, e desviando-se do beijo que eu iria lhe dar. – Ah, olha só a Mavis vindo… – Lucy foi rápida em mudar de assunto, deixando-me lidar com sua rejeição pela centésima sétima vez desde que nos conhecemos.
Ao menos eu já estava calejado.
— Natsu-san, Lucy-san! – Mavis realmente vinha em nossa direção, e parecia um pouco aflita. – Desculpa atrapalhar…
— Imagina, Mavis. Aconteceu algo? – Lucy perguntou.
— Bom, sim… Eu escutei algumas coisas por aí, e ao julgar pela sua calma, imagino que você ainda não saiba. – Respondeu, olhando diretamente para mim e me deixando extremamente desconfiado.
— Que coisas? – Sequer disfarcei a curiosidade em minha voz, ficando tenso em meu lugar.
— Posso me sentar? – Ela perguntou antes, ao qual eu indiquei pra ficar à nossa frente e fechar nossa pequena “roda”. – Não seria eu que contaria isso, mas eu precisei intervir porque a Michelle estava um pouco… Irritada. – Mavis falava com uma calma absurda e irritante.
— Minha irmã se irrita com facilidade, então acho que você vai precisar ser um pouco mais específica, Mavis… – Lucy riu ao meu lado, mas nem isso serviu para tirar a expressão estranha no rosto da minha cunhada.
— Bom, é que dessa vez é um tanto delicado. – Mavis fez uma breve careta, e então passou a encarar suas mãos, ao qual ela entrelaçava uma na outra, deixando-me ainda mais ansioso pra saber do que se tratava. – Foi a Michelle quem me disse, eu não cheguei a escutar diretamente de outras pessoas. Alguém começou a espalhar algo sobre a família de vocês, é por isso que estão olhando estranho para os dois esses dias. – Ela disse, mas parou assim que percebeu que eu me agitei ao seu lado.
Não era à toa. O assunto envolvia a minha família, e isso por si só era o suficiente pra me irritar, não precisava nem sequer contar o resto da história.
— Natsu, espere ela falar tudo. – Lucy me segurou pelos braços, talvez evitando que eu tentasse me levantar ou algo assim.
— Alguém disse que vocês são irmãos biológicos, por parte de pai, para um pessoal da escola. – Ela falou, e antes mesmo que eu pudesse reclamar de tamanho absurdo, ela continuou falando. – E disseram que a mãe da Lucy é uma amante do Igneel, e só apareceu há pouco tempo porque já faz alguns anos que sua mãe…
E antes mesmo que ela terminasse de dizer tais asneiras, eu já estava em pé espumando em raiva, querendo ir atrás do filho da puta que disse essas barbaridades sem pensar nas consequências. Porque se eu descobrisse quem era o responsável, com certeza eu o mataria. Ou no mínimo o faria parar no hospital.
— Natsu! – Lucy me abraçou pelas costas, tentando me manter ali, e eu sentia a força em seus braços pra que eu não saísse. – Eu sei que isso é desagradável, mas, por favor, não faça besteira.
— Desagradável? Caralho Lucy, eles disseram que meu pai traiu minha mãe! Que pedaço de merda eles acham que são pra falar isso? Eu vou descobrir quem espalhou essa mentira e vou...
— Natsu-san, por favor, mantenha a calma. Eu sei que é horrível descobrir as coisas assim, mas você precisa se acalmar.
E antes que eu pudesse sequer responder, avistei Juvia se dirigindo até nós com uma feição preocupada, e notei que ela já sabia também da palhaçada que estava rondando nossa escola.
— Desculpa Natsu-san, eu acabei de saber…
— Por favor, Juvia, me diz que você sabe quem foi o desgraçado que começou a espalhar isso, porque eu vou matar ele! – Rosnei entre dentes, deixando o bom senso totalmente de lado naquele momento.
— Não, eu não sei. E isso não vai ajudar em nada, Natsu-san.
— Claro que vai! Assim que eu arrastar a cara dele no asfalto, esse filho da puta vai pensar duas vezes antes de envolver minha família nesses boatos de merda! Droga Lucy, me solta!!!
E de lugar algum, senti um tapa forte atingindo o meu rosto, o que me deixou desnorteado por alguns segundos, e fez Lucy me soltar no mesmo instante, tão surpresa quanto todos.
— Que porra…
— Controle-se, imbecil. – Ouvi Lis grunhir ao meu lado, brava de um jeito que eu não a via fazia muito tempo. – Pare de dar trabalho pra Lucy, coloca a cabeça no lugar, pensa direito.
— Lisanna.
— Não me venha com Lisanna, eu tô fazendo isso pro seu bem! Você nem sabe quem foi o responsável, vai fazer o quê? Sair batendo no primeiro que ver? E se não foi alguém da Fairy Tail que começou? Vai fazer o quê? Me diz, sabichão! – Ela olhava-me desafiante, esperando qualquer coisa que eu dissesse pra responder com mil farpas na língua, pra mostrar que eu estava errado e ela certa.
E isso foi o suficiente pra que eu tentasse parar de fugir pra bater em alguém, não me alegrando muito que Lis tinha razão. Eu não sabia quem era o responsável, e eu ia acabar fazendo merda.
— Agora me escuta, nós vamos fazer o seguinte. De algum jeito, eu, Gray e o Jellal vamos descobrir quem começou os boatos, e se for mesmo alguém da nossa escola, vamos conversar civilizadamente e pedir pra ele desmentir, ok?! – Lis disse calmamente, como se segundos atrás não estivesse me fuzilando com o olhar e me batendo.
— Não. Quando vocês descobrirem o responsável, eu vou até a casa dele arrebentar o filho da puta na frente dos pais dele, pra eles aprenderem a educar e fazer o desgraçado ser gente! – Revidei, provocando Lis a querer me bater de novo.
— Por favor, Natsu. Para de agir como um animal e pensa um pouquinho antes de fazer merda! Você quer que eu te bata de novo? Vamos resolver as coisas com conversa.
— Conversa o cacete, você só diz isso porque não é sua família que tá envolvida nessa merda de boato!
— Não é a minha família, mas é a do meu melhor amigo, e eu me importo igualmente, estúpido! – Lis gritou de volta, fazendo Gray e Jellal ficarem no meio de nós dois pra evitar uma briga séria.
— Gente, por favor… – Jellal olhou sério para nós, pedindo silenciosamente por uma trégua.
— Eu sei que a situação toda é séria e tudo mais, mas sem brigas entre nós. E quem tá falando sou eu, o cara mais briguento da escola, então né… – Gray tentou quebrar o clima, e acabou funcionando de certa forma, porque a tensão entre eu e Lis acabou indo por água abaixo.
— Certo… O que faremos agora? – Escutei Lucy perguntando.
— Acho que o Natsu-san deveria ir pra casa… – Mavis sugeriu, olhando pra mim como se pedisse desculpas pela sugestão.
— Você tem razão, ele vai afundar um soco em alguém se fizerem cara feia pra ele outra vez, do jeito que tá. – Jellal concordou, fazendo-me revirar os olhos.
— A gente cuida das coisas aqui, cara. Vai pra secretaria e inventa uma desculpa pra ir pra casa, você é ótimo com isso. – Gray deu tapinhas em meu ombro.
— E deixar a Lucy aqui sozinha lidando com tudo? Nem fodendo. Eu vou ficar. – Cruzei os braços e fiz que não sairia do lugar, causando um revirar de olhos em quase todos.
— Natsu, eu vou ficar bem. – Lucy insistiu ao meu lado, olhando-me do jeito que ela fazia quando queria me convencer de algo.
Mas não estava adiantando daquela vez.
— Você também tava incomodada com os olhares, Lucy. Seria covardia eu sair agora e deixar você aqui o resto da tarde lidando com essa palhaçada. Se alguém deveria ir pra casa, esse alguém é você. – Fui firme, deixando claro que ninguém conseguiria me convencer do contrário.
E pelos suspiros que ouvi, parecia que tinha funcionado.
— Tá. Mas se você não vai pra casa, tem que me prometer que não vai bater em ninguém até o fim do último período. – Lis estendeu a mão para mim, para que pudéssemos “fechar” nosso trato.
— Não posso prometer isso se vierem provocar eu ou a Lucy. – Dei de ombros, irritando Lis um bocado.
— Natsu. – Ela praticamente rosnou, me olhando feio.
— Ele promete. – Lucy pegou minha mão e colocou junto a mão da Lis, fazendo-nos balançá-las pra que a promessa fosse “oficial”. – Sem brigas por hoje. Vamos resolver isso de outro jeito, e eu vou te ajudar, tá?! – Ela disse firme, mas gentil, olhando-me fundo nos olhos e em seguida segurando minha mão e entrelaçando nossos dedos.
Se o lance do olhar tinha falhado antes, esse da mão tinha me pego completamente desprevenido, e acabei me vendo nas teias de Lucy, fazendo o que ela queria.
Minha sorte era que Lucy usava esse poder para o bem, ou eu estava encrencado.
— Vamos pra sala, o intervalo já vai terminar. E esqueça as pessoas ao redor, Natsu. Só preste atenção na gente. – Lis liderou nossa retirada.
Eu podia não ver o seu rosto, já que estava de costas para mim, mas do caminho do nosso ponto de encontro na árvore até a nossa sala, eu tinha certeza que ela estava fazendo um olhar ameaçador para todos que nos encaravam, já que eu podia vê-los praticamente se encolhendo nos cantos e sem ousar cochichar com os colegas, do modo que vinham fazendo a semana toda.
A cada dia que passava, eu tinha certeza que Lis estava se tornando tão assustadora quanto sua irmã mais velha – ou até mais, se duvidasse.
***
Foi um fim de semana difícil o que se passou, porque eu não consegui permanecer em paz.
Era desagradável os alunos acharem que eu e Lucy éramos irmãos e tínhamos uma relação incestuosa, porém não me incomodava tanto quanto eles acharem que meu pai sempre teve uma amante escondida da Miyuki. Aquilo era tão ofensivo que me machucava só de lembrar.
Meus amigos tentaram me ajudar, e acabamos indo para a minha pizzaria preferida no sábado a noite, mas nem isso me distraiu ou me deixou feliz. Era perturbador saber que tinha alguém responsável por boatos tão estúpidos e eu não sabia quem era.
Michelle, por sua vez, parecia avoada como nunca. Até mesmo Layla chegou a desconfiar que tinha algo de errado, e veio perguntar a mim e a Lucy se sabíamos de algo. Claro que eu não disse nada, e pedi pra Lucy que ficasse por isso, porque Layla e Igneel não precisavam ficar a par de nada daquilo. Não seria justo fazê-los se magoarem por causa de um babaca que eu definitivamente faria se arrepender do que fez.
No domingo, o dia que meu pai gostava que passássemos todos juntos em família, ele resolveu nos levar logo cedo para um resort de esqui na cidade vizinha. Jellal foi conosco, por que Erza insistiu, mas não sei se era porque aquilo também o chateava, ou porque eu e Michelle estávamos tão pra baixo que acabou o afetando, mas nenhum de nós três estávamos no clima pra esquiar. Aliás, até me surpreendia que ele não tivesse dito nada pra Erza até então.
E Lucy me deixava abobado, porque mesmo sendo uma das principais vítimas dos boatos, estava sempre sorridente e tentando ser positiva o dia inteiro. Chegava a ser encorajador e irritante ao mesmo tempo. Como ela podia não se incomodar com tudo aquilo?
— Eu me incomodo sim, Natsu. – Ela me disse horas mais tarde, quando acabei lhe perguntando aquilo. – Mas ficar pra baixo não vai resolver a situação. E se a intenção é fazer com que nossos pais não descubram, você e a Michelle estão se saindo péssimos.
E então era segunda-feira novamente.
Não foi animado e ansioso que me levantei da cama, porque meu desejo era não ter que voltar mais pra Fairy Tail. Mas Lucy não aceitaria o meu pedido pra nós dois ficarmos em casa, e eu não deixaria ela sozinha lidando com pessoas inconvenientes, então era necessário que eu me levantasse e arranjasse coragem.
Talvez porque eu estivesse querendo logo ir embora, o tempo passou como se equivalesse às aulas da semana inteira. Foi tão irritantemente lerdo, que eu quis cometer um assassinato diversas vezes. Se meus amigos não estivessem por perto pra me distrair, nessas horas eu estaria na delegacia sendo mandado pra forca.
— Você fazendo essas caretas a cada segundo só me faz pensar que tá planejando uma chacina. – Jellal comentou ao meu lado, quando enfim estávamos na última aula, e lhe dirigi um olhar que provavelmente não era nada simpático, já que ele acabou se afastando um pouco.
— Talvez você não esteja errado, e se não calar a boca, talvez você seja incluído… – Comentei mais pra mim do que pra ele, mas escutei Gray atrás de mim rindo um pouco escandaloso demais pra uma sala que o professor ainda estava presente.
— Eu ouvi dizer que a pirralha descobriu o responsável. – Gray sussurrou próximo ao meu ouvido, me chamando totalmente a atenção.
— Como é? – Me virei tão abruptamente, que quase derrubei minha mesa, e recebi uma chamada de atenção do professor, que eu ignorei sem nem pensar duas vezes. – A Michelle? Ela descobriu? – Tentei ser o mais discreto possível, evitando mais olhares desnecessários em mim, mas acredito que aquilo já era impossível àquela hora do campeonato.
— Não sei ainda, ela não me disse nada, foi a Lucy… Ela tava um pouco preocupada por causa da irmã, achando que a pirralha ia acabar se magoando ou algo do tipo…
— Mas o que diabos você tá falando? A Michelle se magoar? Quem é o imbecil? E o que ela pretende fazer? Por que ela não me disse nada? Eu vou…
— Natsu! – Gray me cortou, olhando-me com uma careta descontente. – Se acalma pô, que caralho. Escuta… O que eu sei é que a Lucy sabe que a Michelle sabe quem é. E ela disse que a Michelle comentou que ia dar um jeito nas coisas, é isso. Não tenho nenhum outro tipo de informação, e duvido que a Lucy tenha também. Se você quiser saber mais, é com a pirralha que tem que conversar.
— Por Kami! Por que ela não veio falar comigo antes?
— Cara… Se você não sabe, quanto mais eu. De qualquer forma, a aula já tá acabando, e você podia fazer o favor pra Lucy de ir falar com a Michelle.
— É claro que vou fazer isso, onde aquela peste acha que tá se metendo?
Mas antes mesmo de eu tomar controle do meu corpo, eu já estava em pé me dirigindo para fora da sala, antes de ser interrompido pelo professor.
— Onde pensa que vai, Dragneel? – Ele exigiu, com uma cara de exaustão que eu compreendia muito bem.
— Banheiro. – Falei a primeira coisa que me surgiu na cabeça, esperando que ele não me impedisse.
— E vai deixar a autorização aqui? – Perguntou divertido, o que me fez dar meia volta.
Para andar pelos corredores da escola no horário de aula, precisava da autorização do professor, um cartãozinho plastificado que todos tinham e liberavam para nós apenas quando eles queriam. E sim, eu fiquei um tanto surpreso que ele simplesmente me deu a autorização sem quaisquer perguntas.
Bom, também não era mais como se eu tivesse aprontado muito ultimamente, então os professores deveriam ter notado que eu merecia.
E óbvio, eu não iria ao banheiro, mas o professor não precisava saber disso. Como é que eu explicaria a situação? “Então sensei, tem uns boatos falsos rolando por aí que meu pai traiu minha mãe com a mãe da Lucy, e por acaso eles são casados hoje, e dizem que a Lucy é minha irmã de sangue, mas acontece que eu tô dando uns amassos nela e o pessoal acha estranho, porque eles pensam que é incesto, e a irmã mais nova dela descobriu quem espalhou os boatos, então preciso ir lá na sala dela perguntar quem é, pra eu arrebentar a cara do maldito. Aliás, obrigado pela autorização.”.
Sem necessidades.
Como ele não conseguiria verificar se fui mesmo ao banheiro ou não, não tive quaisquer problemas em me infiltrar direto no corredor dos primeiros anos, e fui para a sala da Michelle, pensando rápido em uma desculpa pra que o professor dela a liberasse por alguns minutos.
Ainda bem que eu tinha uma lábia muito boa, e mesmo que eu soltasse uma bobagem, no fim eu conseguiria enrolar o suficiente pra soar convincente para qualquer pessoa.
Por sorte, quando cheguei em sua sala, a professora que estava dando aula era uma conhecida da família que adorava minha mãe, e vivia dizendo ao meu pai que cuidaria dos filhos dele dentro da Fairy Tail até que todos se formassem.
No caso era só até eu me formar mesmo, mas àquela hora do campeonato ela já devia saber que a Michelle era enteada do Igneel também, e provavelmente ficava de olho nela vez ou outra, como costumava fazer comigo até um tempo atrás.
— Senhora Nishizawa!
— Natsu, querido. O que faz aqui? – Ela pareceu contente em me ver, me dando um abraço consideravelmente forte pra quem parecia tão pequena e frágil.
— Ahn… A Michelle… Eu… Preciso falar com ela… – Me enrolei um pouco ao falar, esquecendo totalmente a desculpa que eu pretendia dizer.
Talvez porque a senhora Nishizawa fosse adorável demais pra eu mentir bem na sua face, e ela com certeza perceberia, apesar de eu duvidar que diria algo.
De qualquer forma, falar a verdade pra ela não era de todo ruim. E não era bem tão revelador assim, eu só disse que precisava conversar com a pirralha.
— Claro, claro. Questões familiares? – Ela perguntou antes de chamar por Michelle, e eu quase me engasguei com a própria saliva.
Era impressão minha ou ela tinha deixado no ar que sabia das coisas?
É claro que talvez ela nem estivesse se referindo aos boatos… Mas a pergunta me pegou desprevenido, e o tom que ela usou deu a entender que ela não tinha exatamente parado de ficar de olho nos “filhos do Igneel”.
— Isso, sim… – Concordei sozinho, já que ela estava dentro da sala novamente, retomando a aula, enquanto Michelle andava até a porta para me atender.
Pela cara que ela fazia, talvez ela já imaginasse o que eu estava fazendo ali. Bom, ninguém tinha mandado guardar segredo de mim.
— O que foi, Natsu-nii? – Ela tentou se fazer de inocente, mas aquilo já não colava mais.
Provavelmente não colava desde o primeiro dia que ela entrou na minha casa.
— Não me venha com Natsu-nii, pirralha. Por que você não me disse que sabe quem é o responsável? Qual é o plano maluco que você arranjou? O que pretende fazer? Vamos, desembucha.
— Calma, poxa. Não é nada demais. – Ela se fez de ofendida, cruzando os braços e fazendo bico. Exatamente do jeitinho que a Lucy fazia. Por Kami, as Heartfilias eram um problema pra mim. – Eu só tô livrando a sua pele de confusões, só isso. Você deveria é me agradecer, não me tirar da aula e ficar bravo comigo.
— Que tipo de coisa que você vai fazer que vai me livrar de “confusões”, Michelle? – Perguntei, sem economizar no sarcasmo.
— Olha, primeiro de tudo, você lembra que me deve um favor, não é?! – Ela perguntou, sorrindo presunçosa demais. E riu mais ainda quando eu neguei. – Pois então. Sabe aquele feriado que você e a Lucy foram para o zoológico, e ela me convidou também, mas eu me recusei pra deixar os dois sozinhos? Então… – E só aí eu me lembrei do que ela estava falando.
Aquele dia em que levei Lucy ao zoológico, foi a primeira vez que a beijei, e ainda tomei um fora. E depois Michelle disse que não nos acompanhou pra me ajudar, e que eu estava devendo uma. Desde então ela não tinha mais tocado no assunto, e eu tinha esquecido completamente, mas parecia que a pirralha tinha boa memória pra barganhas.
— Eu posso fazer qualquer outro favor pra você, Michelle, menos isso. – Revidei, não me entregando facilmente.
— Pelo contrário. Eu tô te ajudando mais uma vez, e usando o meu favor para o seu benefício.
— Não vejo aonde você quer chegar com isso. – Dessa vez fui eu quem me emburrei, fazendo cara feia pra pirralha, que parecia se divertir a cada segundo.
— Natsu, pensa bem. Você tá em avaliação pra entrar na faculdade, certo?! A sua bolsa ainda não foi garantida, então você tem que se comportar na escola. Isso quer dizer que se você receber alguma advertência ou suspensão, isso vai ir direto pro seu histórico e vai pegar mal, entende?! Isso é, pelo menos foi o que eu escutei a mamãe e o papai conversarem um dia desses. E eu tenho certeza que você vai se meter em confusão quando souber quem foi o responsável pelos boatos. Então eu tô te protegendo, enquanto cuido de tudo sozinha. É isso.
E por alguns segundos, eu fiquei completamente sem saber o que falar.
De todas as coisas que eu sabia que a pirralha pudesse fazer, aquela talvez nunca entrasse em minha lista.
Não que eu não acreditasse que ela poderia me proteger, mas… Bom, estávamos falando de um assunto um pouco mais complexo. Ela estava fazendo isso só pra que eu não corresse o risco de perder minha bolsa na faculdade.
O quanto essa pirralha estava planejando todo esse fim de semana enquanto parecia avoada? Aquilo era inesperado demais.
— Michelle…
— Eu já te falei tudo o que tinha que falar, mais do que isso vai arruinar os meus planos. Agora se me der licença, eu vou voltar pra minha aula. Até logo, Natsu-nii.
E sem me deixar qualquer chance de falar algo, ela simplesmente se virou e voltou pra classe, fechando a porta sem mais nem menos.
Eu com certeza estava fazendo a cara mais patética de todas tentando associar tudo o que ela disse, antes de voltar pra minha sala também.
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