Troublemaker
3 Ela, Problemas e o Corcel
Notas iniciais
– E então, foguinho de merda, como foi o jantar? – Gray me cumprimentou na porta da escola, no dia seguinte.
– Cara… Você não vai acreditar no que eu vou te dizer. Aliás, onde está o Jellal?
– Aquele idiota só vai chegar na segunda aula, foi dormir tarde tentando fazer… – E então ele pareceu se lembrar de que aquilo não era algo para comentar comigo, e congelou no meio da frase. – Nada, esquece.
– Ah, qual é Fullbuster! Desde quando mantém segredo de mim? – Fingi ficar irritado, puxando-o para um cascudo.
Por conta da proximidade exagerada, estávamos recebendo olhares estranhos no meio da escola, com grande razão, já que achavam que Gray era gay e tinha uma queda por mim. Do jeito que ele era amostrado e vivia se despindo na minha frente, eu não duvidaria nada. Mas de qualquer forma, estávamos andando até os nossos armários enquanto conversávamos.
– Bom, não é um segredo meu, tecnicamente. Não importa o que seja, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde, de qualquer forma. – Ele revirou os olhos, pegando alguns livros de seu armário completamente bagunçado. Gray era uma causa perdida mesmo, nem naquele espaço minúsculo ele conseguia manter o mínimo de organização. – Agora me diga, o que houve no jantar? Conheceu suas novas irmãzinhas? – Ele falou zombeteiro, sabendo que chamá-las de "minhas irmãs" me irritava bastante.
– Aí é que tá! Sabe a loirinha de ontem, a novata da nossa sala? Lucy é uma das filhas da noiva do Igneel.
Gray deixou um dos livros cair em seu pé, soltando um palavrão alto no corredor, fazendo com que todos o olhassem e prestassem atenção em suas ações. E pra variar, ele estava sem a camisa. Como se já não bastasse toda a atenção que ele recebia naturalmente.
– Como é que é? – Ele gritou de novo. Ao perceber que chamava atenção de todos, sussurrou novamente: – Como é que é? Lucy, sua irmã? – E então riu debochado. – Essa eu quero ver… Você não seria capaz de cuidar dela como se fosse uma irmã, eu te vi ontem Dragneel, você está louquinho para colocá-la em sua cama.
– Exatamente! Você entendeu o ponto agora? Como que eu posso aceitá-la de boa debaixo do meu teto como meia irmã se eu quero comê-la até cansar? – E ao dizer aquilo, meus olhos automaticamente se dirigiram para o final do corredor atrás do Gray, onde Lucy apareceu segundos depois. Mas que merda era aquela, eu estava com um sensor de loirinha na cabeça agora? – E por falar no diabo… – Sinalizei ela disfarçadamente para Gray, que a olhou de relance.
– Diabo gostoso, hein?! Por ela eu iria no inferno sem reclamar!
E foi assim que Gray recebeu um tapão na cabeça de graça.
Antes que pudéssemos dizer mais alguma coisa, Lucy se colocou em nosso meio, mandando um “olá” caloroso para Gray, e um olhar odioso em minha direção. E como se não fosse o suficiente, ela me surpreendeu novamente abrindo o armário ao meio do meu e de Gray.
– Não acredito… Que esse é o seu armário. – Comentei baixinho, tentando parecer o mais surpreso e medroso o possível.
Gray me olhou interrogativamente e apenas mandei um sinal para ele, esperando que ele entendesse e seguisse o meu plano.
– É, por que? – Ela respondeu seca. Pegou seus livros com pressa, checando o horário das aulas em um papelzinho que estava colado na porta do armário, e então trocou um dos livros que pegou por engano. E ao me encarar, viu que eu estava quase pálido, de olhos arregalados e sem fala. – Natsu, pare de idiotice, não quero lidar com suas brincadeiras sem graças.
– Não é isso, é só que… Bem, esse armário era da…
– Não, Natsu! Não diga o nome dela! – Gray parecia apavorado também.
Ele havia entrado na brincadeira, e por Kami, eu precisava me segurar muito para não começar a rir ali mesmo.
– O nome de quem? Do que diabos vocês estão falando? – Lucy batia o pé, realmente irritada por estarmos deixando-a curiosa.
– Faz anos que esse armário não era usado… – Gray continuou.
– A última pessoa que tentou usar teve que mudar de escola. – Continuei.
Gray me mandou um olhar reprovador e fez que não com a cabeça.
– A… Garota… Que usava esse armário… Ela… Morreu de um jeito terrível… – Gray fazia pausas dramáticas, e eu percebi que estava mesmo causando efeito em Lucy, já que ela parecia tremer levemente sobre as roupas que usava. – E desde então, ela vem aterrorizando quem ousa usar esse armário. – Ele sussurrou, de forma que só Lucy escutasse.
– P-para de f-falar b-bobagem, é claro que isso não é verdade!
– Ah não?! – Retruquei. – Pois não vá correndo para o meu quarto pedindo ajuda pela madrugada quando você for aterrorizada.
E então, discretamente, Gray fechou com força a porta do armário dela, e a mesma pulou apavorada e pálida, correndo entre gritinhos para a sala de aula. Assim que ela virou o corredor, eu e Gray caímos na gargalhada, quase nos jogando ao chão.
– Que falta de cavalheirismo. – Alguém comentou ao nosso lado, chamando nossa atenção.
– Ué, seu merda, não ia aparecer só na segunda aula? – Gray perguntou, dando um soco no ombro de Jellal.
– Correr para o seu quarto, hein Natsu… O que houve entre vocês? – Jellal ria, divertindo-se ao ver Lucy sair correndo.
– Ah, cara, nem te conto…
E então fomos conversando até nossa sala, enquanto fui contando resumidamente como havia sido a ida das Heartfilia para casa.
~*~*~*~*~
– E quando elas vão se mudar para a sua casa? – Jellal perguntava, encostado em uma das árvores do jardim da Fairy Tail.
Já era hora do intervalo, e estávamos reunidos ali com alguns amigos, comendo nossos lanches.
– Cara, até quando você vai falar sobre isso? Eu queria poder esquecer disso na escola pelo menos um pouco, mas tenho que lidar com os seus questionamentos intermináveis e a Lucy na nossa sala.
E novamente, assim que levantei a cabeça e olhei pra frente, lá estava Lucy vindo em nossa direção. Parecia que era só eu falar o nome dela em voz alta, e pronto. Porém, dessa vez ela estava acompanhada de Lisanna.
Lisanna era da nossa roda de amigos, então era normal ela aparecer ali. E parecia que eu teria que me acostumar com Lucy também, já que as duas pareciam estar bem amigas.
– Bom dia meninos. Podemos ficar aqui com vocês? – Lisanna perguntou, como se fosse educada.
Normalmente, quando ela aparecia aqui, já ia logo roubando a comida de todo mundo, e isso era todo santo dia, então aquela atitude educada era realmente assustadora e nova.
Todos concordaram sem pensar duas vezes, e nem tinham o que pensar, era de Lisanna que estávamos falando, e uma amiga acompanhante gostosa. Apenas Gray pareceu hesitar, me olhando de lado e verificando minha reação perante aquilo. Fingi que não havia escutado e que não tinha visto Lucy, continuando comendo tranquilamente meu lanche.
– Apimentado, de novo? – Lis perguntou, sentando-se ao meu lado.
– Sempre! – Sorri, dando outra mordida grande.
Todos me conheciam por comer coisas exageradamente apimentadas. Outra vez, no ano passado, até fizeram uma competição de quem aguentava mais pimenta, das mais fortes, sem cuspir ou vomitar, e eu ganhei. Não sabia explicar do porquê aquele meu gosto, eu só gostava muito de coisas apimentadas. Enquanto Gray odiava, ele sempre preferia sorvetes e coisas geladas.
– Você faz isso de propósito, né, só pra não dividir o lanche comigo. – Lis brincou, apertando minha bochecha.
– Acertou em cheio. Não acha que é gulosa demais? – Falei de boca cheia, fazendo-a rir. – Amanhã te trago umas guloseimas do Igneel… Esses dias ele está inspirado. A não ser que você vá pra casa depois do treino.
Lisanna também treinava depois das aulas, mas ela jogava tênis. Era ótima, aliás. Se tudo desse certo, eu tinha certeza que ela ganharia a medalha de ouro do campeonato daquele ano.
– Ótimo! Combinado então! O que acha, Lucy? Irmos até a casa do Natsu comer algumas guloseimas do pai dele?
E ao escutar isso, Lucy, que estava sentada ao lado de Gray timidamente, acabou congelando. Pelo jeito ela não havia contado as novas para a amiguinha.
– Ela já comeu comigo ontem… Depois de conhecer o meu quarto, meu pai a alimentou. Não é mesmo, Lucy?! – Soltei de forma sacana, olhando-a fixamente, fazendo questão de não deixá-la desviar os olhos dos meus.
– Como é?! – Lisanna praticamente engasgou, olhando para mim e depois para Lucy, e depois para mim de novo, e depois para Lucy, e fez isso uma dezena de vezes com os olhos arregalados. – Vocês… Vocês já…?! – Ela deixou a questão no ar, fazendo eu gargalhar e observar em como todos a nossa volta agora prestavam atenção naquela conversa.
– Não é nada disso que você esta pensando! – Lucy se levantou bruscamente, agitando as mãos em negativo, extremamente vermelha. – Eu odeio esse aí! Eu jamais faria algo assim, que nojo! – Ela ficava cada vez mais histérica.
Eu precisaria de paciência para aguentar essa histeria dentro da minha casa, é.
– Ela até vai lá pra casa hoje de novo, de tanto que gostou. – Ousei dizer, deixando-a ainda mais irritada, se é que era possível.
– Cala a boca, seu imbecil! Cala a boca! – E saiu irritada, quase batendo em quem aparecesse em sua frente.
– Natsu! – Lisanna me repreendeu, levantando-se para ir atrás da loirinha. – Depois você me explica isso direito. Mas, por favor, deixa de ser cretino com a Lucy.
E após sair, recebi olhares reprovadores de quase todos ali.
Qual é? Agora iam todos defender a novata, que mal conheciam?
– Natsu… Você não acha que está exagerando com essa sua implicância? – Jellal sentou-se ao meu lado para conversar.
– Odeio ter que dizer isso, mas concordo com o Jellal. – Gray falou, sem olhar diretamente para mim, apenas distraindo-se com sua latinha de refrigerante e o canudo. – Lucy está tendo que se adaptar a um país novo, com uma família nova, uma escola nova, tudo novo. Você deveria tentar ajudá-la ao invés de piorar.
Era só o que me faltava. Meus amigos sendo como Erza e Zeref. Eu já estava farto de ter que escutar abobrinhas dos meus irmãos, não seria na escola que eu iria lidar com aquilo também. Então, sem pensar duas vezes, apenas me levantei e sai dali.
Antes que eu pudesse perceber para onde estava me dirigindo, eu já estava perto do ginásio que ficavam as baias dos cavalos, e por sorte não estava sendo seguido por nenhum dos meninos.
Em nossa escola também haviam aulas de equitação, e as vezes, quando eu tinha dias livres do basquete, eu acompanhava os treinamentos. Aliás, eu adorava montar cavalos, apesar de ninguém saber sobre aquilo.
Andei até a última baia, onde ficava um corcel negro, um dos mais lindos que eu já houvera visto na vida. Eu o amava, e sempre que podia vinha cuidar dele. Seu nome era Fukutsu, e ele era magnífico.
– Hey, amigão! – Acariciei seu rosto, recebendo um relinchado e um abanar de rabo. – Sentiu minha falta? Faz um tempo que não apareço, não é mesmo? – Abri cuidadosamente a portinhola que nos separava, e entrei em seu estábulo. Fui acariciando toda a extensão de seu pescoço, agraciando-me com sua crina, e então massageei seu dorso. – Quer dar um passeio? – Foi quase uma palavra mágica, já que Fukutsu começou a se agitar. – Calma, amigão. Já vamos sair.
Peguei as rédeas e o levei para fora do estábulo, pegando uma das selas penduradas ali na parede. Selei Fukutsu com cuidado, e o levei para a arena de treinamento, enquanto conversava com o equino como se algum momento da vida ele fosse conseguir proferir minha língua e me responder.
Eu realmente não me importava se estaria cabulando aula naquele momento, o que eu precisava mesmo era esfriar a cabeça, e nada melhor do que galopar em cima daquele corcel que parecia entender minhas chateações.
Não percebi quanto tempo se passou enquanto eu tentava alguns truques com o Fukutsu e galopava contra o vento, mas uma pessoa me fez desacelerar. Na verdade, uma pessoa e um cavalo. Ela galopava delicadamente até onde eu estava, e apesar de eu querer implorar para o corcel correr o mais rápido possível para longe – e eu tinha certeza que não seria impossível, ele era o cavalo mais rápido dali, afinal – a curiosidade foi ainda maior. Aliás, como ela houvera me descoberto ali?
Puxei a rédea de Fukutsu, fazendo-o inclinar e relinchar, e ele foi trotando até a presença da égua que já estava próxima. Até onde eu sabia, aquela era a paixãozinha secreta “não-tão-secreta-assim” do corcel, e ele faria qualquer coisa que a égua o submetesse, inclusive me desobedecer, que era o que o exibido decidira fazer naquela hora. Assim que se aproximou, começou a rodear a égua com um galopar engraçadinho demais pro meu gosto, relinchando e balançando a crina, certificando-se que a égua o estava admirando.
– Oeee, Fukutsu! Pare de se exibir, seu corcel traíra! – Gritei, dando tapinhas em seu pescoço. Mas ele realmente não estava se importando com minha presença, tampouco com Lucy, que gargalhava de minha situação.
– Enquanto eu te olhava de longe, você realmente parecia saber o que fazia, mas parece que é o corcel que comanda tudo. – Ela caçoou.
Fiz uma careta, virando a cara. Era infantil, mas não era como se eu fosse dos mais adultos.
Forcei Fukutsu a parar e desci dele, que adorou ter ficado livre para fazer graças ao redor da arena. Lucy aproveitou para fazer o mesmo, e então a égua dela foi correr atrás do corcel.
– Você sabe que depois para pegá-los vai ser um inferno, não é?! – A avisei, e ela deu uma risadinha. Ficamos por um tempo em silêncio, até eu perceber a brecha de sua última frase. – Estava me observando, então? – Foi difícil evitar o olhar malicioso, e mais difícil ainda foi segurar a risada perante sua reação. Agora foi a vez de Lucy virar o rosto enquanto fazia uma careta, além de estar ruborizada.
– Não se ache muito. É que você não é o tipo de pessoa que eu achei que soubesse andar a cavalo. Aliás, cavalos em uma escola! Isso é novo até mesmo pra mim.
Começamos a caminhar calmamente até uma das grades da arena, enquanto ora ou outra os dois equinos passavam correndo ao nosso lado, quase nos derrubando propositalmente.
– Que tipo de pessoa eu pareço ser? E qual é, logo você falando isso? Uma nova iorquina?
– Eu não sou nova iorquina, nasci aqui em Magnólia. Não tire conclusões precipitadas sobre mim, Dragneel.
Não parecia a intenção da loira, mas aquela informação realmente me surpreendeu. Nasceu em Magnólia? O que fora fazer morando tão longe dali então? Pra que se mudar para o outro lado do mundo?
– Pois eu digo o mesmo, Heartfilia.
– Bom, não é como se você estivesse me dando muitas chances de pensar o contrário. Você está sendo bem babaca, se não percebeu.
Nossa. Que direta.
– Certo, certo. Admito, estou sendo um babaca. – Ergui as mãos para cima, como se me rendesse. – Perdoe-me Lucy Heartfilia, conceda-me seu perdão divino para que eu possa viver em paz.
Ela suspirou alto e revirou os olhos.
– Viu só?! Babaca. Será que dá pra levar a sério o que eu digo? Levar a sério essa situação toda? Ainda quer mesmo que eu implore para minha mãe ir embora? Eu não serei a responsável a estragar a felicidade dela, muito menos a de Igneel. Aceite, Natsu, ele está feliz com Layla!
E então ela saiu andando, deixando-me sozinho.
– Aonde você vai?
– Embora. Não dá pra te tolerar por mais de cinco minutos.
Já distante, me vi obrigado a correr atrás dela. Eu não queria, mas ao mesmo tempo precisava.
– Espera, Luce. Me responda algo. – A segurei pelo braço assim que a alcancei, fazendo-a virar para me encarar. – Por que subiu naquele cavalo e veio até aqui? Tenho certeza que não foi pra se exibir.
– Não, não foi. – Ela suspirou fundo, parecendo pensar e analisar bem as palavras que diria. – Queria que soubesse que não vou fazer parte do seu complô contra Layla e Igneel, Natsu. Pelo contrário. Se você tentar algo para separá-los, eu juro que vou fazer um inferno na sua vida.
E então Lucy saiu andando ainda mais firme que antes, e eu fiquei lá, piscando igual idiota.
Eu tinha certeza que ela diria outra coisa. Qualquer outra coisa.
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