Troublemaker
30 Duas Danças, Um Beijo
Notas iniciais
Como fomos os primeiros á sairmos da igreja após o fim da cerimônia, fomos os primeiros a chegar no local onde aconteceria a festa. Logo na entrada, o marido da organizadora Bisca nos esperava, e nos recebeu com um enorme sorriso, tão animado quanto se aquela fosse sua própria festa.
Eu ainda não tinha visitado o local da festa, e me surpreendi com o tamanho do lugar assim que entrei no salão. Além do piso normal, com poucas mesas e um grande espaço para a pista de dança, havia um mezanino que se estendia por todo o local, onde ficava o resto das mesas. A iluminação estava baixa, e luzes coloridas dançavam por todos os lugares.
O marido da Bisca nos direcionou até o lugar reservado para a família dos noivos e pediu que ficássemos á vontade, enquanto ele recepcionaria os outros convidados.
— Lucy, vamos ao banheiro comigo? – Erza lhe chamou antes de se sentarem, e aquilo soou mais como um comando do que um pedido. E pra complementar, minha irmã sorriu maliciosamente.
Pelo o que eu conhecia da Erza e daquele sorriso, não seria apenas uma simples ida ao banheiro.
Observei as duas andando juntas e de braços dados como se fossem grandes amigas de longa data, e me sentei em uma das cadeiras disponíveis em nossa mesa.
— Você sabe que elas vão fofocar de você, não é?! – Michelle comentou, sentando-se ao meu lado.
— É, cara. Você está em maus lençóis agora que a Erza sabe… – Zeref também falou, rindo.
— Quem será o próximo a saber? Mamãe? Ou papai? – Michelle ria junto ao meu irmão, se divertindo com meu estado.
— Eu não descartaria a possibilidade dos dois já saberem… – Comentei, dando de ombros. – Layla só não deve ter dito nada ainda porque a semana foi cheia… Mas se Lucy falou pra ela que íamos sair juntos, claramente ela deve ter dito que eu a beijei.
— Você beijou Lucy??! – Meu irmão soou surpreso, batendo a mão na mesa e quase se levantando da cadeira. – Finalmente tomou uma atitude, pirralho!
— Tenho certeza que mamãe não sabe, ou ela não estaria tão tranquila pra ir pra uma lua de mel ficar longe de nós por duas semanas. – Michelle constatou.
— Faz sentido. – Zeref concordou, me dando um aperto no ombro. – Acha que consegue fazer bom proveito dessas duas semanas pra fazer Lucy se apaixonar por você também?
— O quê? – Perguntei, realmente não acreditando no que estava escutando. Meu irmão estava mesmo dizendo algo como aquilo?
— Se Layla e papai voltarem e Lucy estiver perdidamente apaixonada, não vai ter nada que eles possam fazer pra evitar que vocês dois terminem juntos. – Ele explicou, me olhando cúmplice. – Eu posso te dar uma ajudinha, se quiser.
— Por que está querendo me ajudar? – Perguntei desconfiado. – O que você quer?
— É o mínimo que posso fazer, idiota. – Ele revirou os olhos, me dando um fraco soco em meu braço. – Na verdade, Mavis é melhor que eu nessas coisas, então ela pode te ajudar mais.
— Isso eu já pude notar… – Comentei, feliz em notar que Erza e Lucy já estavam voltando.
Lucy sentou-se ao lado dela, longe o suficiente de mim, e quando seus olhos encontraram com os meus por uma fração de segundos, eu lhe mandei um sorriso e uma piscadela com toda minha cara de pau do universo.
Eu estava usando meu charme infalível que já havia me feito ter noites mais divertidas antes, então era impossível não funcionar com Lucy. E eu nem estava querendo algo mais do que um beijo naquela noite.
Ao contrário da resposta de todas as outras que eu usei essa técnica, Lucy apenas ficou ruborizada e virou o rosto, negando-se a me olhar por mais qualquer milésimo de segundo. Mas eu não a culpava, não era como se eu esperasse que ela fosse sair pulando em meu colo e me agarrando ali, na frente dos meus irmãos.
— ...Não é, Natsu? – Michelle me chamou a atenção, no que eu percebi que estava tendo uma conversa ali que eu sequer estava escutando.
— Ahaan… – Respondi mecanicamente, reparando que os convidados estavam finalmente chegando.
Me levantei rapidamente, afim de me encontrar com Lis, Gray e Jellal, e passar um tempo da minha noite com eles. Quero dizer, pelo menos com a Lisanna e o Gray, porque provavelmente minha irmã sequestraria o Jellal pra ela.
Eles não demoraram a chegar, e logo que Lis me avistou, veio correndo me abraçar. Ela usava um vestido simples e lilás que era sua cara, e estava linda.
— Você fica tão bem de roupa social! Tem ideia de quantos corações roubaria se aparecesse assim lá na escola? – Ela perguntou, entrelaçando os braços em meu pescoço, sorrindo grande.
— Achei que já tivesse roubado todos. – Devolvi, fazendo-a rir alto.
— Ás vezes eu acho que você é a reencarnação do Narciso. – Ela comentou, me puxando para sentar em uma mesa por ali, e Gray e Jellal nos seguiram.
— E então? Como está se sentindo agora que seu pai está oficialmente casado? – Jellal perguntou, e então meus amigos passaram a me encarar, esperando por uma resposta.
— Eu tive tempo pra me acostumar, elas já moram na minha casa há algum tempo. – Dei de ombros, suspirando fundo. – Não que seja algo totalmente normal pra mim o casamento, que eu goste da ideia completamente, mas o que eu posso fazer?!
— Ah, qual é?! Até parece que você não gosta da ideia! – Lis revirou os olhos.
— Cara, nem adianta mais tentar disfarçar, você gosta da Layla. – Gray me deu um soco no ombro, me mandando um olhar de quem sabia de tudo.
— Tá, e o que estava acontecendo lá entre você e a Lucy na hora da cerimônia? – Jellal voltou a perguntar, franzindo o cenho de um modo malicioso.
É, eu já imaginava que um deles faria essa pergunta mais cedo ou mais tarde.
— Eu pedi pra que fugíssemos pra longe juntos enquanto ainda dava tempo… Mas meu pedido não foi muito bem sucedido, como vocês podem ver. – Respondi, indicando que ainda estava ali na festa, para a minha tristeza.
— Você fez o quê? – Lis perguntou alto, se engasgando com nada.
— Você tem ideia de como isso soa errado? – Jellal riu alto. – É sério mesmo que você pediu isso?
— Não exatamente nessas palavras, eu só quis dizer que se fossemos pra um lugar onde Layla não pudesse nos ver, as coisas seriam mais fáceis. – Suspirei, debruçando-me sobre a mesa.
— E por que não chama ela pra sentar com a gente? – Gray perguntou.
— Sei lá… Acho que se eu a chamar, ela não vai aceitar. Vocês seriam mais bem sucedidos, a Lucy é estranha, ela gosta de ser amiga de vocês. – Expliquei, rindo da careta que todos fizeram simultaneamente.
— Ótima maneira de conquistar a crush, vou dizer á Lucy que você chamou ela de estranha. – Gray se levantou sem pensar duas vezes, andando até onde eu estava sentado antes.
O observei indo rapidamente ao lado de Lucy, chamando sua atenção e conversando algo que, de onde eu estava, ficava impossível escutar.
— Gray e sua mania de colocar lenha na fogueira… – Lis comentou, fazendo-nos rir.
Ficamos a observá-los, enquanto pareciam estar em uma conversa calorosa, e poucos minutos depois Lucy se levantou, entrelaçando seu braço ao do Gray, e ambos começaram a andar pelo salão, até a direção da mesa onde Levy e Gajeel estavam sentados.
Não foi preciso mais do que uma troca de poucas palavras para convencê-los a virem se sentar conosco também, e logo o casal seguia Gray e Lucy até onde estávamos. Chegando em nossa mesa, Lucy apresentou seus amigos á Lis e o Jellal, e mais rápido do que meu pai dizendo “sim” no altar, iniciou-se uma conversa, onde Levy começou a constatar todas as coisas diferentes que havia visto no Japão até agora.
Poucos minutos depois, Michelle se juntou conosco, e então foi realmente complicado conseguir fazer alguém me escutar naquela tagarelice sem fim.
A conversa continuou calorosa até o momento que alguém chamou pelo microfone os filhos dos noivos pra fazer a dança especial, e tivemos que deixar nossos amigos sozinhos por um tempo.
Praticamente todos os convidados se levantaram pra ver o que iríamos fazer. Grande parte estava se esgueirando nas grades do mezanino para nos ver, mas os que estavam no andar debaixo deixaram um enorme espaço circular livre para que pudéssemos dançar, e todas as luzes se apagaram, focando apenas alguns refletores em cima de nós.
Michelle demorou um pouco a conseguir seu violino em mãos, e durante esse tempo ela quase saiu correndo para fugir, porque o nervosismo lhe tomou a cabeça novamente. Quem a acalmou por um tempo foi Zeref, e ela pareceu escutá-lo muito bem.
Colocamo-nos em nossas posições, o silêncio se instaurou, Layla e Igneel ficaram ao nosso lado esquerdo para assistir, e então finalmente Michelle começou a tocar.
Lucy parecia um pouco nervosa, e seus olhos recusavam-se a focar nos meus. Seu corpo parecia um pouco mais rígido que o normal debaixo de minhas mãos e ela parecia estar dançando mecanicamente.
— Você está nervosa por que está dançando na frente de todas essas pessoas, ou está nervosa por que está dançando comigo? – Perguntei, observando bem suas feições.
Lucy fez uma careta, imperceptível para os que estavam olhando a dança um tanto afastados, e então passou a encarar os nossos pés.
— Nenhum dançarino deve encarar os pés enquanto dança, Luce. Você sabe disso. – A certifiquei, me divertindo um pouco com aquela situação.
Seus olhos achocolatados me olharam enervados, e sua expressão não estava muito simpática.
— Pelo jeito você vai se recusar a conversar comigo e eu vou ter que tagarelar sozinho.
— Estamos dançando, só fique quieto. – Ela revirou os olhos.
— Que tal sair comigo, então?
— Você vai negociar seu silêncio me chamando pra sair? – Lucy soou indignada. – Vai fazer o quê? Usar a história de nos conhecermos melhor como irmãos de novo? Isso não vai colar, Dragneel.
— Eu não falei nada disso, só pedi pra gente sair. Foda-se essa coisa de irmãos, olha pra minha cara de quem quer continuar fingindo que isso é verdade, Luce.
Lucy me encarou atônita, não parecendo acreditar naquelas palavras que eu dissera. E isso só fez com que eu quisesse rir. Mas não uma risada de zombaria, e sim uma risada de nervosismo mesmo, porque eu realmente não sabia onde estava com a cabeça pra juntar tanta coragem e dizer coisas como aquelas.
A verdade era que eu já estava cansado de me sentir atraído por ela sem tomar alguma atitude até ali.
— Uma chance! É tudo o que eu estou te pedindo. – Falei, tentando soar o mais sincero possível. – Só esqueça tudo o que te impede de sair comigo e me dê uma chance. Se depois disso você ainda não quiser tentar nada, eu juro que não te perturbo mais.
Lucy franziu o cenho e ficou pensativa por um momento. Nada em sua expressão me indicava qual seria sua resposta á minha proposta, e isso só servia pra piorar meu nervosismo.
Se meu eu de horas atrás estivesse me vendo ali, quase tremendo e sem confiança alguma que receberia uma resposta positiva, provavelmente eu já teria me dado uns belos tapas na cara.
Mas, claro, como as coisas ali claramente não estavam dando muito certo, nosso tempo acabou e precisei trocar de parceira com Zeref, ficando frustrado e sem uma resposta.
Eu e Erza ficamos mais alguns minutos dançando, até o fim da música, e então quando terminamos, nos curvamos em educação para os convidados, que aplaudiam e faziam um grande alvoroço, e depois para Igneel e Layla, essa que quase chorava de alegria em seu lugar.
O homem do microfone anunciou que teria uma dança especial dos recém casados, e Michelle continuou ali, tocando para eles, enquanto eu, Erza, Zeref e Lucy nos infiltramos no meio dos convidados para assistir.
Claro, eu estava assistindo á contra gosto, já que estava agitado e ansioso. Eu queria uma resposta, não assistir uma dança chata. E não era só questão da Lucy me responder, a verdade era que eu tinha certeza que ela estava tendo uma luta interna pra conseguir me dizer sim. E eu faria de tudo pra fazê-la entender que não havia problema nenhum em nós dois tentarmos algo.
Depois que a dança terminou, Igneel e Layla agradeceram os convidados por terem comparecido, e disse que as comidas seriam servidas. O ideal seria que nós nos sentássemos na mesa da nossa família, mas eu fui sentar-me com meus amigos, e vi Lucy e Michelle me acompanhando.
— Vocês foram incríveis! Caramba, que dança linda! – Lisanna se empolgou, dando pulinhos e batendo palmas como uma criança. – E você, Michelle! Como você toca bem! Por Kami, eu deveria ter gravado!
— Nada disso! Você me prometeu que não gravaria nada! – A lembrei.
— E eu não sei porque te dei ouvidos. – Ela se emburrou, fazendo bico.
— Você pode ter prometido pra ele, mas eu não. Tenho tudo gravado aqui! – Levy constatou, balançando seu celular no ar e sorrindo vitoriosa. – Inclusive vi muito bem que os dois aí não paravam de tagarelar. – Ela acusou, apontando para mim e para Lucy.
Lucy ficou ruborizada, e eu dei de ombros.
— Quem imaginaria que esse merdinha seria um pé de valsa… – Gray comentou, me dando tapinhas nas costas.
— Eu tenho muitas habilidades, se você quer saber. – Falei, mandando um olhar malicioso para o meu amigo.
— Esse clima entre vocês dois, não sei não, hein?! – Gajeel teve a infelicidade de abrir a boca, fazendo-me mostrar o dedo pra ele.
Por que mesmo que aquele cara estava sentado conosco?
— Isso acontece o tempo todo. Eu tenho minhas suspeitas que esses dois se pegam quando vão dormir na casa um do outro. – Jellal comentou, dando trela pro metaleiro de merda.
— Ah, então os dois dormem juntos? – Gajeel começou a dar sua risada estranha, e mais algumas pessoas começaram a rir junto, deixando mais o Gray irritado do que eu.
— Desculpa, mas quem é você mesmo? – Gray se enervou, por pouco não se levantando e avançando no Gajeel.
— Gray, por favor… – Lucy o chamou a atenção. – Fique calmo, é só uma brincadeira.
Acabou criando um clima na mesa, e ficamos quietos por algum momento, até os garçons chegarem com nossa comida. Foram vários pratos de entradas até o prato principal. Comi tanto quanto sempre, e agradeci mentalmente por Layla ter escolhido um buffet tão bom.
Depois disso, a pista de dança foi aberta oficialmente, e vários convidados foram dançar, mas ninguém que era de nossa mesa. A não ser pelo Jellal, que saiu para ir ficar com minha irmã.
Logo vi Juvia andando em nossa direção, e educadamente ela pediu para se sentar conosco. Foi rápido para ela enturmar com Levy, e então as garotas ficaram tagarelando sobre coisas que eu realmente não estava me importando nada em escutar.
— Ei, por que você não chama a Lucy pra dançar? – Gray perguntou.
— Ei, por que você não chama a Juvia pra dançar? – Perguntei de volta.
— Estamos falando de você, Dragneel. Não começa. – Ele revirou os olhos. – Seu problema não é a Layla? Ela nem tá aqui, olha. – E então ele apontou para todo o salão, e constatei que ele estava certo.
Enquanto estavam todos na pista de dança, usando vários acessórios, curtindo a música alta e se remexendo entre a fumaça, Igneel e Layla não estavam á vista.
— Se eu fosse você, eu aproveitaria a chance… – Ele comentou maliciosamente.
— Ah é?! E o que falta pra você aproveitar a sua? – Perguntei, apontando para Juvia, que estava conversando animadamente com a Lis. – Tenho certeza que Juvia não pensaria duas vezes em aceitar seu pedido.
— Cara… Foca em você e na Lucy, não tem nada pra eu resolver com a Juvia. – Ele revirou os olhos de novo.
— Você tem certeza? Não me obrigue a dizer que eu te conheço, Fullbuster. Porque eu te conheço, e sei que tem muita coisa entre vocês pra resolver! – O provoquei. – Mas cara, você quem sabe… Depois não fala que eu não avisei. – Falei, dando um murro fraco em seu ombro. – E pare de beber, seu merdinha. Temos jogo amanhã e eu vou te arrebentar se te ver de ressaca.
Arranquei o copo de cerveja de sua mão sem muita cerimônia e coloquei na bandeja do primeiro garçom que passou, o pedindo que não trouxesse mais bebidas alcoólicas naquela mesa.
Levantei-me da forma mais galante possível e me dirigi atrás da cadeira da Lucy, chamando a atenção de todas as garotas.
Como se o destino estivesse querendo me ajudar, pela primeira vez naquela noite, começou a tocar uma música lenta, e aquela era a melhor oportunidade de todas para chamá-la pra dançar.
— Luce… Vamos dançar? – Perguntei sério, colocando minha mão com a palma pra cima perto dela.
Lucy olhou receosa pra mim, para as meninas, e depois para a minha mão.
— Por que diabos você ainda está pensando na resposta? Só vai, Lu! – Levy deu uma empurradinha nela, fazendo-a levantar.
— Eu estou sem salto… – Ela constatou, olhando relutante para a amiga.
— Por Deus, Lucy, o Natsu te carregaria em cima dos próprios pés se precisasse, só vai logo!
Quis rir com aquela frase, porque até mesmo Levy, com apenas um dia, percebeu que eu seria trouxa o suficiente pra fazer qualquer coisa que precisasse por Lucy.
Hesitantemente, ela colocou sua mão sobre a minha, e a segurei de forma delicada, puxando-a para me acompanhar até a pista de dança. Ao me colocar de frente para ela, Lucy quis assumir a posição formal da dança lenta, colocando uma mão em meu ombro e a outra em minha mão no alto, mas eu me recusei. Levei suas mãos para entrelaçar meu pescoço e a segurei pela cintura.
Nos primeiros segundos ficamos em total silêncio, apenas balançando de um lado para o outro lentamente, acompanhando o ritmo da música. Ainda que eu não quisesse admitir, eu sentia uma tensão da Lucy que me incomodava um pouco, e me doía pensar que era porque ela estava se sentindo pressionada em dançar comigo.
— Eu vou ficar me sentindo um idiota se tiver que iniciar uma conversa toda vez. – Admiti.
Lucy abriu um discreto sorriso, e então passou a olhar para o chão.
— Eu nunca sei muito bem o que começar a falar com você…
— Posso te sugerir alguns assuntos. – Comecei, sorrindo nervosamente. – Tem a viagem para o jogo de amanhã, nossos pais casados, sua resposta para o meu pedido…
Ela não reagiu a nada do que eu disse, me deixando ainda mais apreensivo. Voltamos ao silêncio inicial e ficamos dançando assim mais um pouco.
— Seu pedido… – Lucy finalmente começou a falar, um pouco mais baixo que o normal. – Foi sério?
— Claro que sim. Eu tenho cara de quem brinca com essas coisas, Luce? – Respondi rápido, quase parecendo desesperado.
— Eu não sei… Ainda não te conheço o suficiente. – Ela disse, sincera. – Mas acho que agora seria uma oportunidade pra isso… Te conhecer mais, sabe… – Lucy foi falando timidamente, ficando cada vez mais corada.
Ouvir ela dizer aquilo só me fez crescer um sorriso, me sentindo a pessoa mais realizada daquele lugar. Talvez mais realizado que os próprios recém casados.
— Fico feliz por isso, – confessei, sequer disfarçando. Como poderia, afinal? – mas estou curioso também… O que te fez mudar de ideia? – Ousei perguntar.
Lucy ficou pensativa, e então deu uma risadinha fraca.
— Levy.
— Ah, vou ficar devendo pra sua amiga, então. – Ri, vendo-a se envergonhar mais. – O que aconteceu? Ela te fez enxergar o quanto você me acha atraente?
Ela arregalou levemente os olhos, ficando com o rosto quase na mesma tonalidade que os cabelos da minha irmã.
— Você é tão… Convencido!
Precisei de muito auto controle para não gargalhar, porque Lucy nunca havia me descrito tão bem antes.
— Talvez… Mas não muda o fato de quê você me acha atraente.
— Eu nunca disse isso. – Ela foi rápida em contestar.
— Não se preocupe, eu também te acho muito atraente. – Assumi, deixando-a ainda mais sem graça. – Na verdade, você é a garota mais linda dessa noite.
— Natsu… – Lucy resmungou, totalmente embaraçada.
— Não só dessa noite, nem daqui… Você também é a mais linda da Fairy Tail, e acredito que até de Magnólia. Quem sabe do Japão também? – Continuei, me divertindo em vê-la sem saber como reagir. – Uma princesa sem coroa. – Sussurrei em seu ouvido, vendo-a se arrepiar.
— O-obrigada…
— Não ache que estou falando isso só pra conseguir o que quero. É tudo verdade, Luce… – Falei, colocando uma mecha de seus cabelos atrás de sua orelha, prendendo-a completamente com um contato olho no olho. – E por mim tudo bem se você recusar meu beijo agora, mas eu não vou conseguir dormir hoje se ao menos não tentar… – Confessei, aproximando-me devagar de seu rosto.
Lucy ficou surpresa com o que ouviu, mas não me afastou. Fechou os olhos sem muita certeza, e manteve-se no mesmo lugar. Não quis fugir, mas também não quis se aproximar. Aquilo era o suficiente pra eu entender que tinha a liberdade de beijá-la, mas que não deveria cruzar aquela linha tão frágil. E eu também não seria um babaca a esse ponto, óbvio.
Foi só quando nossas bocas finalmente se tocaram que eu me atentei que aquilo estava mesmo acontecendo.
Eu estava beijando Lucy!
***
Lucy
— Se você acha que eu não vi o que aconteceu, está muitíssimo enganada! – Levy não demorou a comentar, mal esperando que eu me sentasse novamente.
— Nós vimos tu-di-nho… – Lis comentou, sorrindo sapeca, e percebi que até mesmo minha irmã estava me olhando da mesma forma que elas, juntamente com Juvia.
— Gente… – Soltei, sem um pingo de coragem de comentar sobre o atual acontecimento. – Parem de me olhar dessa forma.
— Não mesmo. – Michelle sorriu travessa, começando a cantarolar “você gosta do Natsu” repetidas vezes, enquanto aquelas pessoas que deveriam ser minhas amigas iam no embalo.
Acabei ignorando elas e fiquei a pensar no momento antes de voltar para minha mesa, da qual eu ainda sentia a sensação do beijo em meus lábios.
Eu ainda sentia sua mão cuidadosa segurando meu rosto, a outra firme em minha cintura, nossas respirações quentes se misturando, sua boca movimentando-se vagarosamente sobre a minha...
Não vou mentir, ainda poderia estar beijando ele agora. Mesmo que na minha cabeça eu estivesse me culpando por isso, mesmo que eu estivesse correndo perigo de ter problemas mais tarde, mesmo que eu não devesse. Mas eu queria, e de uma forma que nada mais importava. E provavelmente ainda estaríamos nos beijando se não fosse pelo Gray, que veio correndo nos dizer que minha mãe estava voltando para onde estávamos.
Assustada com a possibilidade dela ver aquilo, me afastei do Natsu no mesmo instante, e por um momento vi que ele ficou chateado por essa minha atitude. Acabei acidentalmente criando um clima estranho entre nós, e como Gray acabou percebendo, chamou Natsu para andar por aí, enquanto voltei para a mesa com as meninas.
Era estranho pensar que eu estava mesmo passando a gostar dele de uma forma totalmente diferente da que deveria ser. Deveríamos ser irmãos, implicar um com o outro, nos odiarmos, brigarmos por espaço, pelo controle da tv, pela comida que ele devorou e não deixou pra mim… Coisas que geralmente irmãos faziam – ao menos nos programas da tv.
Mas lá estava eu… Provavelmente me apaixonando.
Era tão irônico, porque eu me lembrava perfeitamente das últimas palavras da Levy antes de ir pro aeroporto e vir morar definitivamente no Japão. “Eu espero que você não seja boba pra cair na lábia do primeiro garoto que falar contigo”, e incrivelmente, o primeiro garoto que havia falado comigo no primeiro dia na escola, foi o idiota do Natsu. Que foi um total babaca comentando sobre os meus seios.
E claramente Levy nunca precisaria saber sobre isso.
— Alá a carinha de quem está pensando no Natsu… – Ouvi Levy comentando, e se eu ainda não estivesse extasiada com o beijo, provavelmente teria a xingado.
— Tudo o que é proibido é mais gostoso, não é amiga? – Lis comentou maliciosamente, rindo alto.
— Vocês são doidas. – Suspirei, revirando os olhos.
— E então Lu, pra quando é o casamento de vocês mesmo? Pra eu já separar as passagens aqui…
— Não diga bobagens, Levy! Foi só um beijo!
— Só um beijo pra gente, né… Pra você com certeza foi mais que um beijo. – Michelle comentou, sorrindo cúmplice.
— Eu ouvi dizer que o Natsu beija muito bem, o que você tem a dizer sobre isso Lucy? – Juvia se manifestou pela primeira vez.
E assim como ela, as outras também ficaram me olhando cheias de expectativas, esperando pela minha resposta.
— E-eu… Eu não sei… – Mas eu sabia. Ele beijava muito, muito bem.
— Olha só, ela está ficando toda vermelhinha… – Levy caçoou, rindo junto com as outras. Como era bom ter uma amiga assim, não é?! Pra quê inimigos? – Mas agora vamos falar sério, Lu. Eu fico muito feliz que você finalmente tá abrindo os olhos! – Então ela veio me abraçar. – Esqueça sua mãe um pouco, ela já tá feliz, casada, já tem filhos, uma casa, um emprego… Ela já tem a vida dela, sabe?! E você só está começando a sua. Se fizer as coisas só se sua mãe aprovar, você tá bem ferrada, viu?! Se eu fizesse só o que minha mãe quisesse, por exemplo, eu nunca estaria com o Gajeel hoje…
— Mas vamos combinar que ela está certa até hoje sobre isso. – Sussurrei.
— Pare de implicar com meu namorado, Lu. – Ela me deu um leve soco em meu braço. – Você sabe que vai ser madrinha do meu casamento um dia, não é?! E se continuar assim, eu te coloco pra ser madrinha dele.
— Ah, qual é? O que foi que eu fiz de errado? – Reclamei, fingindo estar super decepcionada, fazendo minha amiga rir.
— Mas e então… Agora fica aquela pergunta no ar, o Natsu deve chamar a Layla de madrasta ou de sogra? – Lis perguntou, e então as outras começaram a falar por cima, todas de uma vez, fazendo com que eu não entendesse absolutamente nada.
E aquela pergunta me fez lembrar de algo importante.
— Gente, sério… Por favor, não digam nada a minha mãe. – Pedi, conseguindo fazê-las ficar em silêncio por poucos minutos. – Principalmente você, peste! – Apontei para minha irmã, que fez uma careta desdenhosa, como se estivesse me desafiando. – É sério, o que aconteceu na pista de dança, fica na pista de dança e nessa mesa. Tá?!
— Lucy… Você sabe que isso é uma festa de casamento com vários convidados, certo?! Óbvio que não fomos só nós que vimos. – Juvia comentou, apontando para as outras mesas dali.
— Inclusive até passou um câmera ali no meio, e eu tenho certeza que ele filmou o beijo. – Michelle comentou, sorrindo travessa.
— O quê? – Me desesperei, levantando-me da cadeira rapidamente e olhando para os dois homens que passavam de um lado para o outro filmando a festa.
— Calma, Lu. Você sabe como essas coisas de casamento demoram á ficarem prontas, não é?! Capaz de quando sair, você e o Natsu já estarem casados. – Levy falou, sorrindo grande.
— Pare de falar em casamento, foi só um beijo, Levy! – Revirei os olhos, querendo chacoalhá-la várias e várias vezes.
— O que importa é que mamãe e papai não descubram nada enquanto ainda não entrarem naquele avião pra lua de mel, ou mamãe não vai ir de jeito nenhum. Depois disso, Lucy, você vai ter que contar. – Michelle soltou, falando sério pela primeira vez naquela noite.
Apesar de não querer admitir, minha irmã estava certa. Esconder da minha mãe não levaria em nada, e se ela descobrisse por terceiros, iria ser algo muito desagradável.
Distraindo-nos dessa pequena discussão, a música foi cortada totalmente, o silêncio prevaleceu por alguns segundos no salão, e uma forte luz se focou no pequeno palco onde ficava o dj, e notamos que lá ao seu lado havia um doido com um buquê em mãos e um microfone na outra.
É, o doido era Jellal.
— Erza… Erza Dragneel. – Ele começou a falar, parecendo extremamente nervoso, com as mãos tremendo de um jeito que de onde eu estava, conseguia notar com facilidade. – Eu provavelmente vou fazer papel de ridículo, mas… Na verdade, eu acho que já sou um ridículo. – E então todos os convidados riram, fazendo-o ficar mais sem graça ainda. – De qualquer forma, eu queria fazer isso porque… Bom, porque eu amo você, claro. E se você me ama também, então vai ficar tudo bem eu ser bobão na frente de todas essas pessoas, né?! – E então ouviu-se um "awn" generalizado, grande parte vindo de garotas. – Mas enfim, o que eu queria dizer mesmo, é que… Erza, eu sei que sou mais novo que você, que seus amigos, até que seu irmão mais novo, mas eu não me importo. É tão ruim assim alguém novo como eu falar de amor? Parece tão irreal eu poder te amar tanto assim? Porque eu realmente não me vejo tendo futuro com outra pessoa que não seja você, e gostaria de te perguntar uma coisa…
Então Jellal desceu rapidamente do palco, correu até onde Erza estava, sentada na mesa que tecnicamente era pra eu e minha irmã estarmos também, e se ajoelhou de frente para ela, oferecendo-lhe o buquê.
Erza estava claramente perplexa com o que estava ouvindo, e ficou ainda mais surpresa quando o viu se ajoelhando. Sua boca se abriu em um ‘o’, e suas mãos logo tamparam sua boca, enquanto ela arregalava os olhos levemente.
— Erza, quer namorar comigo? – Ele finalmente perguntou, não falando diretamente pelo microfone, mas como ainda estava próximo de si, todo mundo acabou ouvindo o pedido também.
O que não era lá grande coisa depois de todos termos ouvido aquela declaração atrapalhada e fofa.
Não consegui ouvir a resposta da Erza, mas não foi um grande mistério já que os dois se abraçaram e começaram a se beijar, fazendo todos os convidados vibrarem em animação e comemorar como se fosse a vitória do time preferido na copa do mundo.
Depois disso a música voltou normalmente, os convidados voltaram ás suas conversas, as meninas continuaram a me provocar.
— Luce. – Escutei aquela voz me chamando, e eu não precisava nem sequer virar para descobrir quem era. Só ele era bobo o suficiente para errar meu nome propositalmente. – Layla está te chamando. – Ele falou, e por um momento meu corpo congelou, minha respiração se prendeu e meu coração acelerou.
Minha mãe estava me chamando?
Por quê?
Não me diga que ela já estava sabendo!
Deus, o que eu faria?
O que eu diria?
— Você também, Michelle. Parece que ela quer tirar algumas fotos. – Ele completou, e então me vi soltando a respiração de forma aliviada, e um peso enorme saindo dos ombros. Não completamente, mas o suficiente para que eu conseguisse encarar minha mãe por enquanto.
Que droga! Por que aquilo estava me corroendo tanto?
Levantei-me calmamente, calçando meus saltos novamente, e o segui até onde mamãe, Igneel, Erza e Zeref estavam, sendo seguida por minha irmã.
Como Natsu disse, tiramos várias fotos, em várias posições, com várias caretas, e de várias formas. Depois disso, Igneel e mamãe cortaram o primeiro pedaço do bolo juntos, como um ritual, e então os garçons vieram terminar o restante do trabalho, enquanto nós nos despedíamos dos dois, já que eles estavam á minutos de partir para o aeroporto.
— Aproveite bastante, mamãe. – Disse sincera, dando um forte abraço nela.
— Obrigada, querida. Eu vou. E você comporte-se, viu?! Não esqueça que ainda precisa se recuperar do seu pé. – Ela falou, como uma bronca.
Como se eu fosse querer ferrar meu pé mais ainda. Eu já tinha aprendido, não ia fazer burrice novamente.
Ia fugir com o Natsu, claro…
Não! Não, claro que não!
Que tipo de pensamentos eram esses?
Deus, onde eu estava com a cabeça?
— Não se preocupe, eu sei me cuidar. – Respondi, tentando disfarçar que eu estava ficando vermelha pelos pensamentos errados.
Mas ela era minha mãe, ela já deveria ter percebido que eu estava corada antes de corar.
— Se comporte com seus irmãos também, por favor. Não quero saber de brigas entre vocês.
— Claro, mãe. – Revirei os olhos.
— Eu amo você, Lucy.
Ela me deu um beijo na testa, com seu jeito todo carinhoso de mãe.
— Também te amo, mamãe. Boa viagem.
— Que fique muito, muito claro! Nada de bebês! Nada! De! Bebês! – Escutei Natsu falando exageradamente alto com Igneel, que começou a gargalhar. E então Natsu virou-se para minha mãe. – Sério! Chega de filhos, já tem muita gente nessa casa.
Não só eu, mas todos nos juntamos ao Igneel e começamos a rir, devido ao exagero de drama do Natsu.
Mas bem, ele só estava dizendo o que todos ali pensavam.
— Está anotado, filho. – Igneel comentou, abraçando Natsu de surpresa.
Terminamos de nos despedir, acompanhamos os dois até fora do salão, e junto com grande parte dos convidados, fizemos uma chuva de arroz em cima deles, até que entrassem no carro e finalmente partissem.
Estava oficialmente começando nossas duas semanas sem Igneel e Layla.
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