Troublemaker
3 Perdidos
Notas iniciais
9 Anos — Perdidos
Naty estava sentada comigo na aula de literatura, na nossa frente estavam Camila e Ludmila e na primeira carteira na frente da professora estava Diego.
Passou um ano desde que ele chegou a minha vida e as coisas se complicaram bastante durante esse tempo. Diego se mostrou um ótimo estudante e se dava super bem com Gabriela estudando e fazendo tarefas e trabalhos. Com Clara era praticamente igual, o empurrão ficou no passado e Diego o irmão mais velho para minha irmãzinha. Mas, nem se atrevia a me olhar nos olhos, a ultima e única vez que o fez foi quando se desculpou com Clara, depois desse dia me evitava, me dirigia a palavra apenas quando era necessário e fazia o possível para não estar no mesmo cômodo que eu.
Eu não cheirava bem? Era feia? Ou não o agradava?
Era como viver com um fantasma, sabia que estava aqui, mas não podia o ver. Era um garoto desprezível. Nada parecido com sua mãe, a melhor babá de todas, o único problema era que ainda não me deixava comer biscoitos depois das oito.
A verdade era que, depois da misteriosa aparição do prato de biscoitos na frente do meu quarto, todas as vezes que Olga cozinhava uma nova travessa, a meia-noite um prato com biscoitos aparecia em minha porta. Eu passei a acreditar seriamente que existe uma fada dos biscoitos de chocolate.
A professora estava lendo um chato poema. Fingi estar concentrada, mas na verdade estava pensando em como convencer minha mãe a me deixar ir brincar na casa da Lud e levar o Estrela comigo. Provavelmente me diria “leve o Diego com você”. Antes eu odiava que queria que levasse a Clara a todos os lugares, só que misteriosamente meteu na cabeça que o garoto de cabelo escuro deveria ser meu amigo. Estava enganada, ele jamais seria um amigo.
Odiava a ideia de que ele fosse à mesma escola que eu, por alguma razão que eu não conhecia meus pais pagavam os estudos a Diego e a sua irmã Emma. No Natal os davam presentes, podiam comer na mesma mesa que nós e eram livres de regras, listas de alergias e coisas que deviam fazer.
– Francesca, você pode dizer sobre o que se trata o poema. – Dei um salto na cadeira e tirei uma mecha de cabelo que caia no meu rosto. Quarenta pares de olhos giraram para me ver, lembrei que minha avó dizia que se não sabia algo deveria sorri e colocar o cabelo atrás da orelha com delicadeza.
Fiz como me havia ensinado, mas pareceu não ter efeito. O sorriso parecia bem mais uma careta sarcástica e quando fui colocar o cabelo para trás, meus dedos se enroscaram no mesmo.
Escutei algumas risadas, a mais alta era de Karina William, que estava sentada junto a Diego. Ela sussurrou algo no ouvido dele e riu ainda mais alto, mas Diego pareceu não achar graça.
– Estamos esperando, Francesca — me disse a professora , caminhando até mim com o olhar de quando fala com uma pessoa que não entende o que você fala. Isso me incomodou.
Olhei para o lado e Natalia levantou os ombros, ela não havia prestado atenção. Camila e Ludmila também não sabiam, negavam com a cabeça, para que não perguntasse a elas.
Tive vontade de chorar, a professora me estava envergonhando.
– Fran descerebrada! – Gritou Karina desde a primeira carteira. Toda classe começou a gargalhar, com exceção de minhas amigas e Diego, que continuava serio como se estivesse em um funeral.
Em um olhar rápido que fiz para ele, vi como gesticulava algo com os lábios. Estava me olhando diretamente e dizia algo. Aproveitei que todos riam e que a professora tentava os fazer ficarem quietos para entender a mensagem. “Amor” foi o que entendi.
– Amor – Disse em voz alta no momento em que a sala ficou em silencio.
– Como, Francesca? – me perguntou a professora.
– Disse que o poema é de amor – repeti.
Ela deu a volta para olhar toda a sala e caminhou de volta para frente – Diego, por que o poema é de amor?- perguntou a professora.
– Porque ele a compara com o verão, sendo que ela é bem mais que isso– A classe seguia em silêncio e vi como todos meus companheiros assentiam. A Diego sempre davam a razão, o poema poderia se tratar de zumbis e apocalipse , mas se ele falasse que era um poema de amor e outras coisas mais . Todos acreditavam.
Mas aconteceu que estava correto, porque a professora sorriu e escreveu no quadro o titulo do poema.
– Ótima interpretação, Diego. É um poema complicado, já que é de um dos maiores escritores da historia.
Li o que estava escrito no quadro e dizia: “Comparar-te a um dia de verão”
– Natalia, responda quem é o autor desse poema? – igual fizeram comigo, todos olharam para Naty. Ela ficou nervosa, começou a mexer o lápis que estava em suas mãos e mordeu o lábio. Não tinha a menor ideia.
Voltei a olhar para Diego, com a esperança de que falasse a resposta a Naty. Mas não o fez, ficou olhando minha prima igual à Karina, com um sorriso sarcástico.
Estava fazendo outra vez, acreditava ser melhor que todos apenas por ser mais maduro. Perguntei-me o que pensaria Karina quando descobrisse que Diego era filho de minha babá e não de um grande empresário que vivia em Londres, como todos acreditavam.
Podia ter me ajudado há pouco tempo, mas isso não alterava em nada minha opinião formada sobre ele, se logo após ria de minha prima.
– Não sei professora. – respondeu Naty. Suspirei decepcionada e voltei a encarar Diego com um olhar mortal. Ele ia me pagar.
– Alguém sabe? – Perguntou de forma geral a professora.
– William Shakespeare – Gritou Karina. Provavelmente Diego havia falado a resposta, ela era tão burra quanto à mochila da Barbie que estava atrás de sua cadeira.
A professora a parabenizou e colocou uma estrela em sua carteira. Quando acabava o bimestre, havia reunião de pais e se sentavam nas carteiras de seus filhos e viam quantas estrelas tinham na mesa, era uma estratégia para verem nosso desempenho escolar. Naty tinha cinco, Ludmila sete, Camila seis e eu uma, nem me lembrava de como havia ganhado.
– Karina é uma tonta só quer chamar a atenção de Diego. – Disse Ludmila no recreio. Estávamos sentadas nos fundos da escola (num gramado), era um enorme castelo, antigamente muita gente ia ate lá fazer festas ou reuniões da alta sociedade. Com os anos perdeu o uso e alguém comprou para transformar em uma escola para filhos de empresários importantes. Eu preferia ir a uma escola publica pelo que me contavam as crianças de lá eram burras como animais, e isso parecia perfeito para mim, odiava a exigência dessa escola. Quem ensina poemas de Shakespeare a crianças de nove anos?
Que Karina gostava de Diego não era um segredo, ano passado no seu primeiro dia de aula, ela foi a primeira a falar com ele e sugeriu a professora que ele fosse sua dupla. Não me incomodou essa decisão, eu tive que sentar com ele antes da troca de lugares, então de maneira anônima agradecia a ela.
– E esta conseguindo, do jeito que o chama durante uma prova — Disse Cami. Nós rimos, mas não percebemos que Karina estava passando e havia escutado. Correu tão rápido que em menos de segundos, estava fora de nosso campo de visão.
– Estamos em problemas – eu disse.
– Por quê? Ela merecia – Respondeu Lud. Eu neguei com a cabeça, elas não entendiam. Karina iria até a professora , contaria o que escutou , sairia como vitima e iam nos castigar.
– Vou me desculpar, antes que isso piore. – Falei, me levantando e ficando de pé.
Elas ficaram de boca aberta e tentaram entender porque eu iria fazer isso. Fui pelo mesmo caminho que Karina fez e a procurei. Não estava no banheiro, nem no corredor, nem no banco que sempre sentava com suas amigas, nem em nenhum lugar.
– Quem você esta procurando, Fran descerebrada? – Me perguntou Marco, um dos melhores amigos da Karina. Era um garoto alto para a nossa idade, de cabelo preto como o meu e um rosto meigo. O problema era que andava sempre com ela e parecia seu guarda costas.
– A Karina – Respondi e segurei “A tonta da sua amiga” para evitar outros problemas, ele também poderia me denunciar à professora.
– Eu procuraria no bosque, ela foi muito triste com o Diego naquela direção – apontou na direção do bosque, que eu nunca entendi o porquê estar em uma escola.
Dirigi-me naquela direção, escutando a risada de Marco em minhas costas. Algo tramava, mas não contavam que eu sou mais astuta. Os galhos batiam em meu rosto e minha saia se enroscava nos arbustos, meu cabelo estava todo bagunçado.
Onde eles poderiam estar, havia dado voltas durante 5 minutos.
Escutei longe o sinal que indicava o final do recreio tocar, desisti de procura-los. Só havia um problema, não sabia como sair daqui.
Tentei lembrar por quais árvores havia passado, mas tudo era igual. Nem conseguia decifrar as marcas que deixei nas folhas secas que estavam no chão.
Estava tão assustada que comecei a chorar. Sentei-me ao lado de uma árvore e abracei meus joelhos. Papai me havia contado algumas historias de crianças que se perdiam e nunca mais voltavam para casa, me contava isso para ter medo e não sair de casa sozinha, já que uma vez escapei para ir ao cinema ver um filme. Meus pais diziam que não era seguro que eu ou minhas irmãs ficassem andando sozinhas pela cidade sem supervisão, eles acreditavam que poderiam nos sequestrar e pedir uma recompensa. Nunca acreditei nessa historia, só acreditava na dos garotos perdidos porque as crianças de Peter Pan realmente haviam fugido de casa e nunca mais voltado.
Eu estava perdida dentro de um bosque que não deveria estar dentro da escola, sozinha, chorando e receberia um castigo assim que saísse daqui. Se conseguisse sair.
– Francesca, é você? – Limpei as lagrimas quando escutei meu nome e levantei do chão. Na minha frente estava Diego, com o cabelo bagunçado e a jaqueta do uniforme toda rasgada. Em uma situação normal haveria o ignorado, mas o susto de acreditar ficar sozinha para sempre dentro de um bosque me fez o abraçar e não soltar até cairmos no chão.
– O que você ta fazendo aqui? – Me perguntou. Limpei as lagrimas e me afastei dele, era a primeira vez que o via tão preocupado e que me dirigia mais que duas palavras.
– Procurava Karina.
– Por quê?
– Eu e minhas amigas a chamamos de tonta, queria me desculpar para que não me acusasse , mas não saiu como eu planejava . – Ele levantou e me ajudou a levantar. Ele não tinha mais o cabelo meio comprido, Amanda havia cortado há algumas semanas, já que na escola não permitiam que os garotos tivessem cabelo comprido. Não queria admitir, mas o único que gostava de Diego eram seus olhos, cor de chocolate e agora seu cabelo não me impedia de vê-los.
– E o que você faz aqui? – Foi minha vez de perguntar. Começamos a caminhar lentamente, eu apenas seguia Diego, esperava que estivesse menos perdido que eu.
– Vim com Karina, mas era tudo brincadeira. – paramos e o olhei – Estava com dois garotos mais velhos e me bateram para que fizesse as tarefas de Karina. Acho que eram seus irmãos – sabia de quem estava falando, os horríveis Will e Mark, os irmãos gêmeos mais velhos de Karina e os encrenqueiros oficiais da escola. Eram burros e estúpidos como sua irmã.
– O que você disse? – sua historia era bem mais interessante que a minha, e a pesar do ódio que sentia por ele, certa parte de mim se preocupava por ele.
– Que não, por isso estou assim. – indicou o mesmo e reparei que seu olho estava roxo e que seu lábio estava sangrando.
– Então nós dois nos perdemos por culpa dela. Eu adoraria que você deixasse de falar as respostas de literatura para ela, depois do que te fez.
– Olha quem fala. – me disse em tom sarcástico. Estava voltando a ser o garoto antipático de sempre.
– Em minha defesa... – Não tinha nada para dizer. Fiquei em silencio, esperando que ele esquecesse o que eu havia dito. – Você sabe para onde devemos ir? — mudei o assunto.
– Sim, apenas me siga. — para mim isso era suficiente. Diego não podia me fazer nada, ou poderiam despedir sua mãe, então de certa maneira estava segura ao seu lado.
Caminhamos um pouco mais e vi como os arbustos iam diminuindo, conseguia ver a torre do castelo e o sino na janela mais alta.
Nossa próxima aula é de matemática , quando entramos na sala sujos , descabelados e com a roupa rasgada, a professora quase desmaiou. Mandou-nos para a diretoria e tivemos que explicar tudo ao diretor. Falamos a verdade.
Depois desse dia, Karina odiou mais a Diego do a mim, o ajudei por ter me salvado e convenci a professora a trocar eles de lugar. Diego se sentou com Ludmila e Karina com Maximiliano, um menino que comia borracha e cuspia quando falava. Karina não ficou de braços cruzados.
No dia seguinte, descobriu que Diego era filho de minha babá e minha duvida foi resolvida. O humilhou na frente da classe toda, não descansou nenhum dia, fez da vida dele um inferno junto com seus irmãos. Até que um dia, Diego não entrou no carro para ir conosco para a escola, foi de mãos dadas com Emma na direção contraria. Nesse dia , quando perguntei a Amanda porque ele não havia ido à escola , ela me disse que ele havia implorado para que o mudasse para uma escola pública. E assim começou minha rivalidade eterna com Karina William.
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