Troublemaker
2 Biscoitos de Chocolate
Notas iniciais
8 Anos — Biscoitos de Chocolate
Minha mãe estava se arrumando para ir ao teatro com meu pai, ela usava um vestido rosa e um chalé que eu usava para brincar quando Naty,Cami e Ludmi vinham brincar aqui. Se mamãe soubesse disso, eu estaria ferrada.
Eles iriam assim que chegasse a nova babá. A anterior foi uma velha de cabelo branco que só apertava nossas bochechas quando quebrávamos algo ou não obedecíamos a regras. Sempre me comportei mal e sou muito intrometida, ela não aceitava minha maneira de ser.
Como morava aqui, ela tinha um quarto ao lado dos nossos quartos, para nos vigiar durante a noite. Controlava toda nossa vida, era insuportável. Até que morreu.
Papai inventou que ela havia feito uma viajem para visitar fadas da Escócia. Clara acreditou nisso e ainda escreveu uma carta para a mamãe enviar. Gabriela e eu sabíamos a verdade. Ela havia falecido, e pelo que escutei das cozinheiras, foi um ataque cardíaco. Como era muito pequena para entender a gravidade de uma morte, apenas me preocupei em não ter de aguentar mais ela. Parecia mais uma bruxa do que uma amiga das fadas.
Começou a chover levemente e um doce cheiro de terra e flores se juntou e entrou pela janela. As serventes fecharam as janelas para não molhar dentro da casa e porque mamãe ficou louca ao pensar na umidade e em como ficaria seu lindo cabelo loiro.
Quando ela subiu as escadas para dar um ultimo retoque na maquiagem, a campainha tocou chamando a atenção de todos na casa . Lucas, o “ Mordomo” , correu até a porta em seu traje de pinguim para abri-la . Um vento entrou na casa e deu um friozinho, nos haviam vestido para a ocasião com chiques vestidos rodados cor de rosa iguais para as três, fizemos uma fila reta por ordem de tamanho e ficamos quietas esperando a nova babá entrar.
Era jovem , me relaxei quando vi seu rosto . Ao seu lado havia uma garota de cabelo castanho e parecia ser mais velha que Gabriela , usava uma calça jeans e uma blusa verde molhada , provavelmente pela chuva . Pensei que era sua filha , e não me agradou a ideia de outras crianças vindo morar em minha casa.
Clara não se segurou e correu para abraçar a nova mulher da casa , era uma garota adorável e encantava a todos . A babá a segurou em seus braços como se fosse sua própria filha , talvez ela fosse melhor que a antiga babá.
– Você deve ser a Clara , me falaram muito sobre você – disse ela . Clara abriu os olhos não se contendo de tanta felicidade , elas virariam grandes amigas .
– Quem é esse garoto? – Perguntou minha irmã do nada . Apontando para trás da babá e a impaciência fez com que se mexesse nos braços da mesma. A mulher a colocou no chão e andou alguns centímetros para deixar descoberto um garoto de altura media com o cabelo preto e um pouco encaracolado , com o nariz vermelho e os olhos inchados . Havia chorado e isso se notava a quilômetros .
– Esse é meu filho , Diego. Ele quer muito ser seu amigo. – Respondeu ela , Clara chegou perto dele e o abraçou , mas ele a empurrou e fez com que caísse no chão.
– Diego , não faça isso – Reclamou sua mãe.
Gabriela nem se moveu , nos estavam educando para ser mocinhas e guardar a compostura em todos os momentos. Eu sabia a muito tempo que isso não funcionaria comigo , então caminhei até o lado de Clara e a ajudei a se levantar. Depois a obriguei a ir para o lado de Gabriela e eu sozinha , com meus oito anos bem feitos , encarei o tal Diego.
– Volte a empurrar minha irmã e eu corto esse seu cabelo escuro – isso não pareceu o deixar assustado , ficou me olhando como meu cachorro Estrela olha para um grande osso , isso me assustou porque pensei na possibilidade dele ser deficiente.
– Diego se desculpe com Clara – disse a mãe do garoto de olhos escuros.
Diego foi até minha irmã , sem deixar de me olhar todo o tempo e se desculpou . Ela havia esquecido o ocorrido assim que se levantou do chão . Mas isso não era desculpa , para exigir respeito.
– Seu cabelo escuro , te delata , você é Francesca – me girei para olhar a nova babá e assenti com a cabeça. Das três , eu era a única parecida com meu pai , minhas irmãs eram a cara de minha mãe , com seus cabelos loiros e seu olhos azuis. Eu era uma versão maior da Sininho , só que com o cabelo preto , dizia minha avó .
– Então essa senhorita deve ser a Gabriela – Continuou a mulher de cabelos castanhos.
– Sim , sou eu – Disse Gabriela , com a voz firme e o nariz empinado.
Eu costumava rir dela e da perfeição com a qual fazia tudo , parecia uma boneca. O jeito como era perfeita não me agradava , quando era menor adorava brincar comigo e cantar pela casa como se fosse um palco. Quando fez 10 anos começou a se importar muito com a escola e ficava horas estudando trancada em seu quarto. Era muito madura para ter 11 anos.
– Ela é minha filha mais velha , Emma – a garota fez uma bolha com seu chiclete e o explodiu , nos olhou sem expressão alguma e seguiu mascando seu chiclete de morango.
Desde o segundo andar se escutou o barulhos dos saltos de minha mãe , que já estava pronta para ir. Meu pai saiu da cozinha , com um pedaço de pão na mão e algumas migalhas sobre sua roupa.
Mamãe o viu e o xingou mentalmente e pelo olhar , eu e papai éramos parecidos em muitas coisas.
– Amanda , que bom que chegou – exclamou minha mãe , seu vestido voava como nos contos de fadas de Clara – Nós já vamos , na cozinha esta a lista das garotas.
A babá , Amanda , sorriu e assentiu. Meu pai terminou de comer e se despediu com um beijo na testa , mamãe nos abraçou e saíram.
Levaram Amanda e seus filhos até o quarto , seria um problema porque só havia um e ela vinha com duas crianças. Não tinham malas , nem mochilas e nem bolsas , me perguntei sobre suas coisas.
Gabriela foi ate a biblioteca ler algum livro de nosso pai , eu os odiava , não tinham figuras e eram chatos , a maioria fala de números e de coisas sobre o mundo. Eu prefiro de aventuras ou pirata , como Peter Pan. Era realmente apaixonada pela Terra do Nunca e pelos garotos perdidos.
Eu e Clara fomos a cozinha , estavam fazendo biscoitos e torta de maça e queríamos decorar com cremes coloridos.
Alguns minutos depois , enquanto esperávamos pela comida , Amanda entrou. Tinha o mesmo sorriso , mas eu percebia que estava triste.
– Vamos ver a lista – sua voz era doce e calma. Na parede havia uma folha onde dizia o que podíamos fazer , do que éramos alérgica , que horas ir dormir e varias outras coisas.
– Clara não pode comer doces depois das oito e meia – olhamos o relógio e mostrava claramente , nove horas – E seu horário de dormir é as nove , então pode ir escovar os dentes.
Clara ficou realmente triste . Vou guardar biscoitos e tortas para ela.
–E você , Francesca.... – leu a lista e depois me olhou – Seu horário de dormir é as nove e meia , e também não pode comer – já sabia disso , mas daria um jeito – E sua mãe disse que você é alérgica a um bom comportamento.
Bufei e brinquei com algumas colheres. Mamãe sempre tão exagerada.
Olga , a cozinheira e minha confidente , tirou do forno a travessa com biscoitos . Tentei pegar um , mas Amanda bateu em minha mão.
– Você não pode , Fran.
Olhei para Olga e ela piscou para mim.
E nisso entrou Diego.
Sentia o inimigo perto. Ele apenas por ter empurrado Clara, já havia entrado em minha lista negra , onde estavam professores , garotas que odeio , a antiga babá e meu tio Carlos – que sempre fazia piadas sem graça e irritantes – e que era pai de minha prima Naty.
– Que garoto lindo, quer um biscoito? – perguntou Olga. Ele estava roubando meus biscoitos.
– Obrigada – disse ele. Sua voz era tão falsa. Só queria roubar meus biscoitos.
Sai correndo , mas acabei escutando ;
– O que ela tem ? – Diego perguntou a sua mãe
– Não pode comer doces – Ela respondeu , em certa parte , sim.
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Fiquei um bom tempo sem fazer nada, apenas deitada. Como estrela estava no quintal , ele não podia entrar na casa durante a noite. Eu tinha que confessar que depois de Peter Pan, a coisa que eu mais amava era meu cachorro.
Quando percebi que o relógio marcava exatamente nove e meia , deixei de bagunçar e subi para meu quarto.No meio da escada me encontrei com Emma , ela tinha coisas nos ouvidos e isso fazia que mexesse a cabeça e cantasse baixinho.A ignorei e continuei subindo.
Ia ser difícil me acostumar com a nova babá, mesmo que não me deixe comer Meus biscoitos, ainda era melhor que a antiga.
Antes de fechar a porta do meu quarto, vi atrás de um vaso de flores que tínhamos no corredor, o cabelo escuro de Diego. Ele havia me seguido.
Estava escondido igual quando chegou atrás de sua mãe. Não me agradou que ele soubesse onde eu dormia. E se durante a noite viesse roubar meus brinquedos?
Tranquei-me e com uma duvida infantil na cabeça, peguei minhas coisas mais preciosas – Minha coleção do Peter Pan – e escondi embaixo da cama.
Em seguida, a porta abriu e Amanda colocou a cabeça para dentro.
– Escove os dentes e coloque o pijama, se precisar de mim, vou estar no quarto de Clara lendo uma historia – Ela não me viu escondendo minhas coisas. Ela fechou a porta e eu liguei a TV.
Dormir? Com certeza.
Assisti a um filme que não entendi por completo, mas para mostrar minha rebeldia, a vi de qualquer maneira. Não entendi muito bem sobre o que se referia, porque os protagonistas ficavam se beijando. Eu podia ser bem independente para ter 8 anos , mas ainda existiam coisas que não entendia , como , porque as pessoas se beijam? É nojento, ficavam cheios de baba e de germes.
Outro dia , durante o recreio , quando estava comendo bolachas com Ludmila , vimos como Karina William beijava um garoto mais velho que ela. Ele tinha nove anos e era loiro de grandes olhos azuis. Ludmila me disse que ela era uma “transportadora de germes”, eu estava de acordo com ela.
Quando os protagonistas ficaram muito melosos e me deram nojo, desliguei a TV. Ainda estava sem sono e não sabia o que fazer.
Então, alguém bateu na porta.
Estava tarde, duvidei que fosse Amanda para ver se já estava dormindo. Clara, impossível. Gabriela, só falava comigo o essencial, não viria me ver.
Para deixar de imaginar coisas, abri a porta para saber quem era, mas não havia ninguém. Quando fui fechar a porta, percebi que havia algo no chão.
Havia um prato, cheio de biscoitos de chocolate.
Olga havia me levado o prato, era o mais provável.
Peguei o prato e olhei para todos os lados para verificar que não havia ninguém e o escondi em meu vestido. Quando fui fechar a porta novamente, atrás daquele mesmo vaso de flores era possível ver os cabelos negros de Diego.
Estava escondido mal, se eu fosse um pouco mais para a direita, via a metade de seu corpo.
O olhei e logo depois olhei os biscoitos... Havia sido ele?
– Nãooooo – disse em voz alta, e finalmente, entrei em meu quarto para comer esses deliciosos biscoitos.
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