Notas iniciais
Perdoem minha ignorância em algum ponto, são tantos detalhes do mundo mágico e a minha memória é péssima

— Diga logo para que veio e acabe com esse suspense dramático que eu não tenho o dia todo.

Seu tom foi direto e seco, o que fez o Malfoy arquear as sobrancelhas impressionado. Hermione mudou o peso do corpo para o pé esquerdo e continuou de braços cruzados encarando o homem alto que se encontrava sentado em seu sofá. O loiro inspirou profundamente e por mais que tentasse aparentar calma não conseguia, seu olhar inquieto, as mãos que se apertavam por alguns segundos, o pé que batia descompassado no chão e o vinco que se formou em sua testa deram a certeza que Hermione precisava para dar uma abertura para ele.

— O que está acontecendo? — desta vez seu tom foi mais calmo e um pouco preocupado.

Surtiu efeito imediato em Malfoy.

— Sei que você está de férias, mas andam acontecendo algumas coisas estranhas que eu tenho certeza de que não são obras de armas bruxas.

— Como assim?

Agora ela realmente estava curiosa, se aproximou um pouco para sentar na poltrona ao lado dele e esperou paciente enquanto o via debater sua escolha de ter ido ali. Hermione sabia que deveria ser algo realmente sério para ter feito o Malfoy quebrar seu próprio acordo de nunca mais vê-la.

— Acho melhor lhe mostrar.

O loiro retirou o sobretudo grosso e provavelmente expansivamente caro, afastou a camisa branca que usava para mostrar somente o curativo em seu ombro esquerdo.

— O que foi isso? — se aproximou um pouco para tentar ver melhor a extensão do curativo que percebeu tomar o ombro quase todo.

— Tentaram me matar com uma faca. — respondeu com uma simplicidade que a fez encara-lo nos olhos espantada. — Estava saindo de um bar bruxo quando veio um cara por trás e tentou acertar meu pescoço, mas consegui escapar da primeira tentativa, nós lutamos e ele ainda conseguiu me acertar no ombro. Não foi um corte profundo, mas causou um pequeno dano mesmo assim.

— E você não falou com os aurores? — indagou preocupada enquanto ele arrumava suas roupas.

— Claro que falei, mas disseram que talvez fosse alguém ressentido com minha família, então não deram importância.

Hermione notava o quanto ele estava irritado, mas conseguia disfarçar bem sob uma máscara de desdém. Quem não quisesse perceber iria pensar que Malfoy não ligava por ter sido quase morto, mas ela o conhecia, não queria, mas conhecia o suficiente para saber quando ele mentia.

— Você foi quase morto e entendo que está irritado, mas como eu entro nessa história?

— Não foi a primeira vez que me atacaram de modo tão trouxa.

— E por que você não usou sua varinha em todas as vezes?

— Na primeira vez não tive como, na segunda ela foi tirada de mim e jogada longe e na terceira vez eu a usei, mas por pouco consegui escapar.

— Três vezes?! Você foi atacado três vezes e não fizeram nada para te proteger?!

Sua explosão o assustou e se ela fosse bem sincera também não esperava por aquilo. Hermione se levantou indignada por não terem protegido Malfoy, era totalmente anormal aquele comportamento, e ela colocaria toda a culpa por sua preocupação no serzinho que estava carregando. Inspirou profundamente e deu as costas para ele, apoiou suas mãos na bancada fria e tentou controlar seus sentimentos que estavam em um enorme conflito, parecia que estava sentindo tudo mil vezes mais e isso era péssimo se pretendia fugir. Ao conseguir se controlar, virou-se para ele que ainda a encarava surpreso.

— Você falou com os Aurores?

— Claro que sim, disseram que vão entrar com uma investigação, mas ela está nas mãos de algumas pessoas que com toda a certeza me querem morto. — informou, com um sorriso sarcástico no rosto que a fez suspirar frustrada.

— Vou falar com o Harry, ele e o Ron podem fazer algo por você. — avisou, o vendo fazer uma careta desgostosa. — E nem adianta fazer essa cara, porque ou você aceita a ajuda deles ou morre. Qual a sua escolha?

Perguntou séria o fazendo rir.

— Pode apostar que eu prefiro não morrer. — declarou sem entusiasmo, levantou-se e caminhou em direção à ela. — Mas eles vão precisar da sua ajuda e por isso que estou aqui.

— As armas trouxas. — lembrou do que ele havia dito no início. — Te atacaram com o quê?

— Uma faca, uma arma e deixa eu ver. — fez um suspense que a irritou profundamente. — Uma bomba.

— O quê? Quando? Como assim uma bomba? — sentiu seu coração acelerar de nervosismo novamente.

— Quando lhe falei que quase não saio vivo da última tentativa, era que colocaram uma bomba na minha sala. Não sei como entraram ou quem deixou entrar, mas estão fazendo do modo trouxa para que seja mais difícil rastrear.

— E assim terem mais chances de conseguir lhe matar. — concluiu o raciocínio sentindo um frio percorrer seu corpo. Mordendo o lábio inferior e focando em um ponto vazio na parede começou a pensar. — Teve alguns atentados com bombas em alguns estabelecimentos trouxas que são ao lado de estabelecimento bruxos, ninguém viu relações, mas acredito que deveriam estar testando a magia.

— Não estou entendendo. — confessou, se aproximando e se apoiando na bancada ao lado dela.

— Estabelecimentos bruxos são protegidos, mas contra feitiços e não contra tiros ou ameaças não mágicas. São protegidos contra roubos, invasões, trouxas, mas não contra bombas. Os que estavam ao lado dos locais atacados foram totalmente atingidos, a magia não protegeu do impacto porque nunca foi esperado que uma bomba trouxa fosse jogada em uma floricultura de espécimes raras, uma livraria encantada ou um pub de lobisomens.

— Será que estavam testando por mim?

E pela primeira vez Malfoy deixou transparecer seu medo. Hermione apoiou-se de lado para observa-lo melhor e deu de ombros perdida. Sentia tanta vontade de chorar, tinha acabado de confirmar algo que a tirou do eixo, não sabia como contar para ninguém o que iria acontecer e o que aconteceu, e mais importante, o pai da criança que carregava estava com um enorme alvo em suas costas.

— Ei, você está bem? — Malfoy perguntou preocupado e Hermione notou que chorava.

Balançou a cabeça e se afastou um pouco dele, iria falar algo, mas não conseguia e por fim mais lágrimas caiam por seu rosto. Malfoy ficou sem jeito e ela não poderia culpa-lo, mas ele fez algo que aumentou suas lágrimas, mas que também inesperadamente a acalmou, ele a abraçou. Hermione apertou a camisa dele com força e apoiou a testa em seu ombro não machucado, Malfoy a apertou em seus braços e apoiou o queixo na testa dela. Ficaram em silêncio, o que os permitiu escutar os primeiros tiros.

Hermione se afastou rápida e olhou para sua janela quebrada, se abaixou e puxou Malfoy para o chão com ela, deram a volta no balcão e tentaram ficar abaixados enquanto tiros e mais tiros entravam tanto pela janela da sala como da cozinha.

— Que merda! Eu não sabia que iriam me seguir.

— O que você fez?! — Hermione gritou indignada enquanto se arrastava com ele atrás para o seu quarto.

— Eu não fiz nada!

— Com toda a certeza você fez, porque eu não acho que iam te matar a toa! — apontou, mas percebeu que os tiros haviam parado. Olhou assustada para Malfoy que retribuiu seu olhar. — Temos que sair daqui.

Ele concordou com um aceno e Hermione não se atreveu a se levantar. Com um feitiço de levitação ela colocou a vista da janela de seu quarto um chapéu escuro, que logo foi recebido com tiros.

— Temos que sair daqui agora!

— Jura?! — indagou sarcástica o fazendo bufar impaciente.

— Sério mesmo que você quer começar uma discussão aqui?

— Não vou começar nada, mas ajudaria muito se você me contasse que merda você fez para quererem te matar e agora me matar!

— Eu. Não. Fiz. Nada!

Hermione claramente não acreditou e tentou ignorar a todo custo as reclamações dele enquanto tentava pensar em um plano, e não entendia o que raios estava se passando pela sua cabeça para ter esquecido que era uma bruxa!

Lançou um feitiço de desilusão nos dois e com outro abriu a porta do apartamento e fez com que passos fossem ouvidos correr no corredor, certamente tinha alguma escuta em algum lugar. Os tiros pararam e ela aproveitou para puxar Malfoy pela mão e o levar à cozinha onde existia uma saída escondida para as escadas. Ainda o puxando ela começou a descer os degraus rapidamente e assim que chegaram no beco estreito e cheio de lixo, ela soltou a mão dele, mas não desfez o feitiço.

— Precisamos ir para algum lugar seguro.

— E longe de nossos amigos, não vou colocar ninguém em perigo como você fez. — afirmou irritada e mesmo não o vendo sabia que ele deveria estar revirando os olhos impaciente.

— Eu não sabia que iam me seguir!

— Claro que não, as pessoas que querem te matar não iam pensar duas vezes em segui-lo. — comentou sarcástica, ignorando o palavrão que ele soltou baixo seguido de um bufo raivoso.

— Tinha esquecido o quanto você é insuportável.

— Como se você fosse a pessoa mais maravilhosa do mundo.

— Olha, vamos pensar em um lugar para ir antes que percebam que foram enganados e nos matem. — pediu, e pelo seu tom ela notou que ele tentava reunir toda a calma para falar com ela.

— Já sei para onde ir, mas não vamos aparatar.

— Como assim?! É a maneira mais rápida!

— Não vamos. — decretou em tom firme, que foi ignorado.

— Agora você está se mostrando mais estúpida ainda, porque eu não vou caminhar.

— Não vamos!

— Essas pessoas podem me atacar com armas trouxas, mas com toda a certeza são bruxos!

— Eu não posso e não vou!

— Eles podem reconhecer um feitiço por mais boa que você seja, eu não vou andar e você também não deveria, a não ser que queira ser morta!

— Cala a boca! — dessa vez seu grito foi mais alto e ela se arrependeu prontamente. Não deveria ter feito aquilo e o som de passos correndo até a entrada do beco foi a confirmação.

Malfoy pegou sua mão novamente e a puxou em direção à ele de forma calma, eles se encostaram na parede atrás de uma lixeira. Dois homens vestidos com roupas escuras e trouxas, portando armas em uma mão e varinhas na outra pararam na entrada do beco, eles olhavam para todos os cantos procurando indícios deles. Começaram a caminhar lentamente e Hermione sentiu sua respiração ficar descompassada, ela iria morrer, eles iriam morrer se ela não pensasse logo em algo.

Malfoy a apertou ainda mais para si e não tiraram os olhos dos dois homens que não estavam tão longes deles, poderiam usar suas varinhas, mas eles pareciam experientes, e os dois estavam aterrorizados para tentar algo. Malfoy se encontrava traumatizado, mesmo que não admitisse, e Hermione sentia medo de fazer algo e desencadear em uma batalha que lhe custaria mais do que alguns arranhões, não estava mais sozinha no mundo.

— Já sei.

Ela quase beijou Malfoy por essas palavras, quase. Ele a abraçou mais forte e em seguida ela sentiu o familiar puxão da aparatação, seu estômago embrulhou e o vômito subiu por sua garganta. Afastou o loiro assim que sentiu seus pés firmes no chão e vomitou tudo ao seus pés.

— Que merda, Granger! Eram italianos.

O resmungo dele a fez levantar a cabeça, o que fez a tontura aumentar, se inclinou para frente sendo amparada por ele e fechou os olhos ainda sem saber onde estavam. Hermione se encontrava cansada, irritada, perdida e precisava urgente de uma bala de menta!

— Vamos, você realmente não está bem. Não que em algum momento você estivesse, mas agora parece um trasgo. Nem eu que passei por isso três vezes não estou-

— Eu estou grávida, seu grande imbecil! — mesmo sendo carregada por ele e completamente exausta, ela conseguiu o que tanto queria, calar a boca grande de Draco Malfoy.

— Bom.

Era o que ela pensava.

— Bom o quê?

— Sinto muito se você está assim logo no início, quando tiver nos nove meses não quero nem pensar. E o cabeça de fogo vai me matar por quase levar você a morte, agora que não vão me ajudar mesmo e por sua culpa. Por que não me disse que está esperando mais um coelho Weasley e salvou a minha proteção? Agora que não vão querer me ajudar porque-

— Que merda! Que grande merda! — ela gritou em seu ouvido e abriu os olhos o encarando com raiva assim que ele a colocou sentada em uma namoradeira.

Hermione não olhou ao redor, não notou as três pessoas que estavam paradas à porta os encarando confusos. Toda a sua frustação se encontrou acima do cansaço e do medo, apontou o dedo para Malfoy e falou com toda a raiva que sentia.

— Esse filho é seu, seu grande babaca egocêntrico e estúpido!

O loiro a encarou paralisado, Hermione não sabia como era possível, mas ele ficou mais branco do que já era. Assistiu com satisfação o começo do surto dele, pelo menos não enlouqueceria sozinha.

— Como assim Hermione?!

Se virou assustada para as três figuras que a olhavam com um misto de expressões e sentiu que aquele dia estava longe de melhorar.

— Que droga. — praguejou antes de se jogar na namoradeira e cair exausta.