— Será que dá para você falar algo, Hermione?

A bruxa somente escondeu ainda mais seu rosto em suas mãos e ignorou a voz de seu velho amigo. Ela não queria explicar, não queria esclarecer o que havia acontecido, tinha acabado se escapar de uma tentativa de assassinato e o que menos queria naquela hora era falar sobre seu passado recente. Reunindo toda a coragem que possuía, levantou seu rosto e encarou seu amigo que se encontrava apreensivo.

— Eu não quero falar agora.

— Como assim?! — ele indagou descrente enquanto ela se levantava e ficava ao lado de Malfoy, que optou por permanecer calado, o que provavelmente o livrou de uma azaração. — Você está grávida dele! Isso por si só já pede uma explicação!

— Querido, talvez seja melhor você se acalmar um pouco. — a voz doce da mulher ao lado dele não surtiu o efeito que ela queria.

— Me acalmar como, Anna? Eu acabo de descobrir que uma das minhas melhores amigas está gravida do cara que mais me infernizou durante toda a minha infância e adolescência, e você quer que me acalme?!

— Eu já pedi desculpas por tudo, não custa nada lembrar. — Malfoy disse em tom alto recebendo uma careta por parte dele.

— Como se desculpas apagassem tudo o que você fez.

— Neville!

O grito de Anna calou o marido, mas não desfez o clima tenso que se formou. Hermione sentiu Malfoy se transformar em pedra ao seu lado, Neville estava claramente lutando contra sua raiva e sua esposa olhava para todos sem saber o que fazer. O elfo doméstico conhecido como Phillis, não se atreveu a sair de dentro da casa e observava o que acontecia na varanda com receio.

— Vá para dentro, por favor. — Anna pediu, tocando levemente o braço do marido, o Longbottom não se moveu. — Por favor.

Seu pedido foi mais enfatizado, o que o fez desviar o olhar de Malfoy e encarar a esposa que claramente insistia para resolver tudo, em uma discussão silenciosa ele por fim suspirou derrotado.

— Só porque ele é seu amigo não significa que eu seja obrigado a aturar a presença dele. — Neville deixou claro antes de se retirar para dentro.

Anna claramente relaxou assim que o marido entrou e se virou para os outros dois os analisando de maneira crítica.

— O que você fez agora, Draco?

Hermione ficou surpresa com a forma séria e natural com que ela se dirigiu à ele, e mais ainda com o comportamento sem jeito que o Malfoy apresentou.

— Eu juro que não sei, Anna. Eu juro.

— Vou lhe dar um voto de confiança, mas o que quer que tenha acontecido eu preciso que você me explique. — pediu, cruzando os braços e o fazendo assentir.

— Mas tem como ser depois? Hermione precisa descansar e eu preciso me recuperar de tudo.

— Claro, mas não espere dormir sem me contar o que houve. — exigiu séria, mas logo abriu um sorriso caloroso para ele, o fazendo relaxar um pouco.

Hermione desviava o olhar de um para o outro e perguntou surpresa:

— Você vai nos deixar ficar aqui?

— Sim. — respondeu simples, rindo da forma ainda perplexa que ela a encarava. — Por mais que Neville possa surtar, eu não vou deixar meus amigos desamparados e sei que ele não a abandonaria. — a lembrou fazendo Hermione sentir o coração esquentar, ele definitivamente nunca a deixaria na rua.

— Já a mim. — Malfoy se intrometeu soltando uma risada baixa e sarcástica.

— Com razão, Malfoy. — ela não conseguiu segurar seu comentário.

— Que eu não posso tirar, Granger.- já sua resposta a surpreendeu, e antes que Hermione pudesse falar algo, Anna a superou.

— Entrem logo e parem com essa birra infantil porque claramente temos muito o que resolver. — a dona da casa abriu a porta para eles, sussurrou algo para seu elfo que sumiu rapidamente e acenou com a cabeça para se apressarem.

Hermione caminhou à frente de Malfoy seguindo Anna para a sala, mas antes de entrar no cômodo se virou para ele e sussurrou irritada.

— Eu falei que não queria ir para a casa de um amigo!

— E não fomos para a casa do seu amigo e sim da minha amiga. — ela ignorou o sorriso convencido do loiro e se virou para frente novamente, ainda não conseguia entender de onde aquela amizade havia surgido e o porque de Neville nunca ter mencionado o fato.

■ ■ ■ ■ ■

Algumas horas depois já era madrugada. Após ajudar Anna a lançar feitiços de proteção por toda a casa, Hermione havia dormido um pouco no quarto de hóspedes e agora se encontrava sentada à mesa da cozinha, tomando chá com biscoitos e escutando Malfoy contar tudo o que havia acontecido para a dona da casa.

— Você definitivamente deve ter feito algo. — ela falou de novo após ele ter terminado.

— Já lhe falei, Hermione. Eu não lembro de ter feito nada! — gritou frustrado afastando os biscoitos que Anna o oferecia.

— Fala baixo, porque uma das condições para que você ficasse aqui é que Neville nem escute a sua voz. — Anna exigiu impaciente o fazendo se calar emburrado.

— Uma ótima condição por sinal.

— Granger. — o tom de aviso foi claro, se ela falasse mais alguma coisa eles iriam discutir.

— Por favor, Malfoy, pareça menos afetado por algo que você mesmo procurou. — mas ela não resistiu.

— Adoraria não ter que colocar essa condição pela minha parte. — Anna resnungou, massageando sua cabeça, o que fez Hermione se sentir mal e ao olhar para o loiro percebeu que ele compartilhava da mesma sensação, mesmo que tentasse fingir indiferença, tanto que falou:

— E não vai, o que precisamos agora é de um lugar para nos esconder onde nenhum deles nos procure.

— Por mais que eu deteste concordar com ele. — Hermione disse, apontando para o homen ao seu lado. — Nós não podemos ficar aqui, precisamos desaparecer por uns dias enquanto investigam tudo.

— Só espero que seus amigos façam algo dessa vez.

— Eles irão, Draco. — foi Anna quem respondeu por Hermione, de uma forma dura que não restou dúvidas de sua confiança. — Agora, para onde vocês vão? Porque não vejo um lugar que seja neutro para vocês dois.

— Isso é o que está me matando, onde eu posso ir ele não pode e vice versa. — a bruxa confessou, soltando um longo suspiro. Se virou para Malfoy e deu de ombros ao falar. — Então o óbvio é que nós temos que nos separar.

— De jeito nenhum! — ele protestou a fazendo estreitar os olhos para ele e perguntar já impaciente.

— O que foi agora?

— Se estivermos juntos eles não irão conseguir nos encontrar logo, é lógica, Hermione.- respondeu com um ar superior não a convencendo. — Não esperam que nos escondemos juntos porque seus amigos com toda a certeza nunca iriam deixar.

— Então se ficarmos juntos vai ser menos provável que nos encontrem? — ela estava tentando, jurou que estava.

— Não tanto, mas vai ser mais fácil para o ministério nos proteger.

— Ele tem razão, Hermione, ainda mais na sua situação. — Anna foi ao socorro do amigo, e a lembrou do porém de tudo.

— Que eu não quero que seja descoberta por mais ninguém. Não me olhe assim, Anna, eu detesto mentir para a minha família, mas se souberem que eu estou grávida dele todos nós vamos ficar ainda mais em perigo.

— Eu sei, você também tem razão, mas onde vocês podem ficar que seja seguro? — Anna concordou após alguns segundos de relutância.

Draco pigarreou atraindo a atenção para si e evitou o olhar de Hermione quando começou a falar.

— Seguro eu não sei, mas quando a guerra acabou eu desfiz muitas amizades, só que de uns tempos para cá eu andei me correspondendo novamente com uma antiga.

Hermione estreitou novamente os olhos para ele e falou de forma ríspida.

— Eu não vou ficar na casa de um comensal.

— Pare de drama, eu não sou mais um e você vai ter um filho comigo. — a lembrou abrindo um sorriso cínico que a fez querer quebrar a xícara de chá em sua cabeça loira de fios estupidamente brilhantes.

— Mas com toda a certeza esses seus antigos amigos ainda acreditam nas merdas preconceituosas que quase me mataram. — rebateu ao invés de mata-lo.

— Ela nunca foi comensal e cortou laços com a maior parte da família. Aliás, não são só os sonserinos que são preconceituosos. — apontou sério e Hermione sentiu seu coração apertar.

— Não se atreva, Draco Malfoy, não se atreva.

Anna bateu na xícara com uma colher fazendo os dois pararem de se encarar como se a qualquer momento fossem voar no pescoço do outro, e tentou voltar ao assunto.

— E eu acho que temos que decidir para onde vocês vão, e logo. Neville já deve estar querendo entrar em contato com Harry a essa hora.

— Só peça para ele não contar agora, por favor. — pediu novamente em quase desespero. — Eu preciso contar pessoalmente para todos eles e este definitivamente não é o melhor momento.

— Com certeza não é, mas Draco, para onde vocês vão?

Anna retomou a pergunta e Malfoy trocou um olhar significativo com Hermione, ela compreendeu na hora para onde ele queria ir assim que viu um pedido mudo de desculpas em seus olhos.

— Receio que não temos escolha. — ele afirmou.

— Ah não, ela me odeia!

— Ela também me odiava, mas parece que agora nem tanto. — tentou descontrair, sem sucesso.

— É arriscado ela me entregar de bandeja e a você também!

— Vamos ter que arriscar, não temos outro lugar para ir e sei que ela não vai nos deixar morrer depois que contarmos. — as entrelinhas a fizeram quase gritar de raiva. — Ou você tem uma ideia melhor?

Depois de segundos exaustivos e frustrantes, ela deu o braço a torcer.

— Argh! Não, não tenho.

— Então, para onde vocês vão? — Anna interrompeu o comentário sarcástico que Malfoy iria soltar, provavelmente se vangloriando e teve como resposta um resmungo quase choroso de Hermione.

— Para a casa da Pansy Parkinson.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.