Tronos de Fúria
8 Capítulo 8
Notas iniciais
O Primeiro-Ministro de Portugal, Jorge Simões, andava de um lado para o outro contemplando as obras da nova base aérea que o governo português estava construindo na região do Algarve, ao sul de Lisboa. Trabalhadores passavam apressados por ele, contudo alguns se curvavam respeitosamente ao vê-lo e diziam: “Bom-dia, ministro.”.
Ele era um homem de estatura mediana, com olhos negros, cabelos castanhos escuros e lisos, levemente repicados, e uma pele bronzeada, típica de um nativo da região de Setúbal. Simões era neto de brasileiros, e sua família havia migrado para Portugal ainda na época do reinado do avô do atual imperador; por conta disso, seu sotaque era diferente da variante utilizada pela maioria dos portugueses. Vestia um terno preto oficial, e usava óculos redondos. Lançava olhares constantes ao céu, pois o tempo estava fechado, com muitas nuvens escuras. Lamentava ter que deixar a qualquer momento o local das obras, que já iam avançadas, e previstas para serem entregues em alguns dias. Eram tempos difíceis, e a reunião das Nações Unidas que ocorrera em Paris três dias antes não melhorara nem um pouco a situação.
O imperador queria que o país estivesse preparado para uma guerra mais do que provável. Simões sabia que Thiago era um homem de visão, talvez o governante mais sábio que Portugal já havia tido. E gostava de edificações. Sempre sabia os melhores locais para construir qualquer prédio. Thiago era formado em Engenharia Civil e tinha sido o melhor aluno de todos os tempos desse curso na Universidade de Coimbra. O imperador não desejava a guerra, mas confidenciara ao Primeiro-Ministro que gostaria de garantir que seu país não fosse estraçalhado pelo conflito que se aproximava.
A região sul de Portugal necessitava de uma nova base. Era próxima da fronteira espanhola, do mar Mediterrâneo e de Gibraltar, que pertencia aos britânicos. Também estava razoavelmente próxima das Américas e do norte da África. Seria a base mais moderna do país, o que, nas condições atuais do mundo, não era grande coisa. A Terceira Guerra havia deixado pouca coisa da qual Portugal pudesse se orgulhar. Os Impérios da Espada, oficialmente, não falavam nisso, mas na imprensa dos cinco países, o império lusitano era visto como o mais fragilizado das potências europeias.
Jorge procurava não pensar nisso enquanto caminhava até o escritório do engenheiro responsável pelas obras. Não o encontrando, foi instruído a ir até a área onde estava sendo construído o hangar principal.
O engenheiro Eustáquio Santos segurava uma prancheta enquanto passava instruções aos trabalhadores. Um de seus assistentes avisou-o de que o Primeiro-Ministro estava ali, e ele ordenou que os funcionários se dirigissem aos seus afazeres.
Eustáquio era branco, alto, magricela e parecia um tanto desconfortável utilizando sua camiseta social cinza.
— Bem-vindo, Sr. Ministro! – ele saudou Jorge efusivamente. – É uma honra tê-lo conosco.
— As obras parecem bem avançadas – comentou Jorge descontraído.
— Sem dúvida! Estão para ser entregues antes do prazo, senhor. A Coroa vai adorar.
— Concordo – disse Jorge. – Estava caminhando por aqui à sua procura e fiquei me perguntando se o boato que todos estão comentando é verdadeiro.
Eustáquio suspirou e fitou penosamente o Primeiro-Ministro.
— O senhor se refere ao que dizem que ocorreu na reunião das Nações Unidas?
— A menos que haja outro boato mais estarrecedor do que esse e de que eu ainda não esteja ciente, sim – disse o Primeiro-Ministro. – Achei intrigante o fato de que até os serventes de pedreiro aqui presentes parecem tensos com esse falatório, enquanto que eu só fiquei sabendo pouco antes de vir para cá.
O engenheiro olhou para o chão e depois encarou Jorge.
— Ministro, se for verdade, perdoe-me, mas não deveria culpar os trabalhadores por estarem tão ansiosos. Ninguém aqui vivenciou uma grande guerra, nem mesmo o senhor, e, no entanto, parece que estamos às vésperas de um conflito deveras grandioso. E se todos tiveram as devidas aulas de história no ensino médio, conhecem os relatos da última guerra. Ninguém deseja que Portugal seja arrasado mais uma vez por um conflito mundial. Todos esses homens são pais de família e...
— Eu admiro sua preocupação, Eustáquio – interrompeu-o o ministro, diminuindo o tom de voz e olhando para os lados. – Mas a menos que essa mirabolante história de que a Suécia mandou um espião para se infiltrar no gabinete do Primeiro-Ministro francês para fazer sabe Deus o que seja verdade, não estamos às portas de um conflito. Não é desejo do nosso gabinete, nem do imperador, que uma guerra comece. Além disso, o encontro ocorreu a portas fechadas, e os jornalistas que estavam presentes eram vinculados às Coroas de cada império, e não foram autorizados a publicar nenhuma nota sobre o que ocorreu na reunião. Mesmo os Primeiros-Ministros ficaram em uma sala separada, discutindo outros assuntos que pouco ou nada tinham a ver com a pauta do encontro dos imperadores. Como, então, posso chegar neste local de obra e ver que todos os seus funcionários parecem saber mais sobre a reunião dos imperadores do que o próprio Primeiro-Ministro?
Eustáquio engoliu em seco, mas, quando respondeu ao ministro, sua voz estava firme.
— Mesmo os veículos de mídia vinculados ao governo estão sujeitos a vazamentos, e Vossa Excelência sabe disso. Ninguém é perfeito...
— É ótimo que pense assim, Eustáquio – afirmou Jorge. – Mas enquanto o imperador não fizer um pronunciamento a respeito dessa situação, não devemos nos preocupar com uma guerra iminente. Não é de hoje que Suécia e França se desentendem por motivos fúteis, mas se tenho certeza de algo, é de que o imperador Gustavo deve se pronunciar o mais cedo possível. Já se passaram três dias desde a reunião. A França estipulou um prazo de sete dias para que a Suécia dê uma resposta amigável a o que quer que tenha ocorrido naquele encontro. Se a resposta for pacífica, estamos bem. Se não... Veja bem, não quer dizer que estariam declarando guerra um ao outro, mas que estariam bem próximos de fazer isso.
— Então Vossa Excelência sabe que há um desentendimento entre França e Suécia devido àquela reunião! – exclamou Eustáquio. – Que outra razão para isso o senhor...
— Só podemos presumir – cortou-o Simões. – Como disse, vou esperar o nosso imperador se posicionar oficialmente a respeito.
— Senhor – começou Eustáquio, nervoso, porém decidido a convencer o ministro. – Peço que perdoe minha ousadia, mas...
O que quer que fosse que o engenheiro estivesse tentando dizer, não conseguiu. Naquele momento, um dos auxiliares o chamou.
— Senhor, temos um problema.
Parecia que Eustáquio ia gritar com o auxiliar por ter interrompido sua conversa com o ministro, mas Jorge fitou-o duramente, indicando com a cabeça o auxiliar, e o engenheiro compreendeu a mensagem.
— O que houve? – indagou ele ao auxiliar.
— Encontramos um rapaz se esgueirando pelas construções. Conseguimos encurralá-lo nos fundos do hangar, mas nenhum de nossos soldados consegue detê-lo. Ele deixou meia dúzia de nossos homens desacordados. Acreditamos que possa ser um espião. Ele não parece entender português.
— E ninguém pensou em atirar nesse intruso? – esbravejou Eustáquio.
— Tentamos, senhor. Mas ele simplesmente desviou das balas.
— Isso é impossível! – Eustáquio perdeu a paciência. – Como pode um rapazote entrar num local de obra fortemente vigiado, desviar de nossas armas de fogo e deixar nossos soldados inconscientes?
— Não faço ideia, senhor, mas é o que está a ocorrer. O moço está no limite da área da construção, tentando escalar o monte de terra que pusemos lá nas primeiras semanas de trabalho.
— Ele está armado?
— Aparentemente não, senhor, ou presumo que já teria atirado contra nossos soldados.
Nenhum dos dois reparou que o Primeiro-Ministro escutava cada palavra atentamente às suas costas.
— Leve-me até lá – ordenou Eustáquio. – Vamos acabar logo com esse circo.
— Eu também vou – anunciou Simões.
— Primeiro-Ministro, não seria melhor se Vossa Excelência permanecesse seguro em meu escritório, aguardando o meu retorno...
— O Primeiro-Ministro decide aonde quer ir e quando quer ir como bem entender, Eustáquio. Ademais, estou cercado de seguranças que provavelmente não sucumbiriam perante um rapaz desarmado.
Eustáquio suspirou, sem ter como responder, e se encaminhou para os fundos do hangar em construção acompanhado do auxiliar e do Primeiro-Ministro.
Havia um monte de terra ao final do limite da área de obras, como dissera o auxiliar, e duas dúzias de soldados cercavam-na, com suas armas apontadas para o homem que escalava com dificuldade a terra.
O rapaz tinha a pele caucasiana e parecia ter pouco mais de vinte anos. Usava uma camiseta social preta e uma calça cáqui, que ficavam cada vez mais sujas de terra à medida que ele tentava subir mais. Tinha cabelos repicados e negros, olhos castanhos claros, e tinha um rosto bonito e angelical. Seus braços eram puro músculo. De vez em quando lançava olhares inexpressivos para o grupo de soldados que o observava. Por vezes uma das mãos escorregava, e ele ficava sustentado por uma única mão na escalada. Parecia prestes a cair a qualquer momento.
— Por que ninguém está atirando? – quis saber Eustáquio, contrariado, ao ver o grupo de soldados observar, impotente, o jovem.
— Porque sempre que atiramos, ele desvia das balas, ou as balas simplesmente voam para longe, como se ele as repelisse – respondeu o auxiliar.
— E espera que eu acredite nisso??? – indagou o engenheiro, furioso. – Será que não há ninguém no Exército Português capaz de abater aquele rapaz? Ei, você aí! – ele se dirigiu ao moço. – Esta área está sob a jurisdição da Coroa portuguesa. Desça daí imediatamente!
O rapaz não deu sinais de que tinha escutado Eustáquio. O Primeiro-Ministro assistia a tudo sem se distrair. Ao tentar subir um pouco mais, o garoto segurou em dois pedaços soltos de terra, que se desprenderam do monte logo em seguida, e ele escorregou até cair no chão, onde ficou gemendo encolhido, devido aos ferimentos nos braços.
Os soldados avançaram para ele, mas ele ergueu a perna direita e atingiu, com um rápido chute, três deles, que caíram em cima dos companheiros. Os demais apontaram as armas para o rapaz, que havia se levantado e estendido os braços para frente, como se quisesse avisar aos soldados para não se aproximarem dele.
— Parem! – gritou Jorge Simões para os soldados. Ele fez sinal para que dois de seus seguranças o acompanhassem, e passou pelo meio da pequena tropa até ficar a poucos passos do moço desconhecido.
— Ministro! – ofegou Eustáquio, boquiaberto e com o olhar esbugalhado. – O senhor não deveria...
Um dos seguranças fez sinal para que ele se calasse.
— Sou o Primeiro-Ministro do Reino de Portugal, Jorge Simões – disse ele ao jovem que o observava apreensivo, e apontou para o brasão de armas do Império Português que estava bordado em seu terno.
O rapaz baixou levemente os braços, e contemplou Jorge, admirado.
— I am Scott, Scott King — disse o moço em inglês, apontando para si mesmo.
— Fala inglês? – perguntou Simões naquele idioma.
— Sim – respondeu Scott King na mesma língua. – É a língua oficial em meu país.
— De onde vens?
— Sou de Dublin, na Irlanda – afirmou o estrangeiro.
— E o que está fazendo em Algarve? – indagou o Primeiro-Ministro.
Scott hesitou, olhando diretamente nos olhos de Simões.
— Tenho uma missão importante.
— Missão? Que tipo de missão?
— Não posso falar – disse Scott, pesaroso. – Preciso ter uma audiência com o seu imperador.
— Isso é impossível – retrucou Jorge. – O imperador só recebe visitantes previamente anunciados e só fala com plebeus em pronunciamentos. Não pode ter uma audiência com Sua Majestade. Entretanto, sou o Primeiro-Ministro. Qualquer assunto tão importante que precise ser reportado ao imperador, pode dirigi-lo a mim, que o julgarei digno ou não da atenção do nosso monarca.
Scott fitou o Primeiro-Ministro demoradamente, sem dizer nada, como se buscasse algo naquele olhar firme e decidido.
— O senhor tem bom coração – concluiu Scott, como se realmente tivesse analisado todo o conteúdo do âmago da alma de Simões. – Reportarei minha missão ao senhor, mas, antes, preciso que me leve até Lisboa.
— E por que eu o levaria até Lisboa? – questionou Simões, cauteloso.
Scott olhou em volta, para todos os presentes que observavam a conversa, sem perder um único detalhe. A maioria dos soldados tinha noções básicas de inglês, mas tanto Eustáquio Santos quanto seus auxiliares diretos, aqueles com grau de escolaridade maior e que podiam ficar mais perto do Primeiro-Ministro e de seu staff durante a visita, entendiam perfeitamente cada palavra do homem irlandês.
— Porque o que tenho para dizer pode fazer com que vocês possam evitar a guerra.
Ao som da palavra “guerra”, Eustáquio ofegou e empalideceu, ficando com dificuldade para respirar e segurando a manga da camisa de um auxiliar para não cair. Os soldados baixaram as armas e olharam uns para os outros, murmurando nervosamente entre si.
— Silêncio! – ordenou o Primeiro-Ministro para os presentes, sem, contudo, desviar o olhar de Scott. – É seu dia de sorte, rapaz. Você será escoltado até Lisboa no carro do Primeiro-Ministro. – E depois de dispensar os soldados e ordenar que seus seguranças preparassem seu veículo, ele acrescentou baixinho, para que apenas Scott o escutasse: — Se conseguir me convencer do que falou há pouco, posso abrir uma exceção e conseguir uma audiência com Sua Majestade. No entanto, meu jovem... Meu ceticismo é tão grande que me sinto no dever de avisá-lo de que sua tarefa será árdua. E se porventura eu concluir que seu relato não possui sustentação alguma... É provável que você venha a desejar que os soldados tenham lhe matado antes de você começar a tentar escalar o monte de terra.
Fale com o autor