No carro oficial do Primeiro-Ministro lusitano, Jorge continuava a fitar o jovem Scott com expectativa. Os seguranças estavam todos posicionados em seus assentos, com as mãos em suas armas, para o caso de o irlandês tentar algum movimento brusco contra a integridade do Ministro, apesar de os dois estarem sentados nos assentos mais distantes um do outro dentro da limusine. No entanto, desde que haviam deixado Algarve poucas horas atrás, o recém-chegado não havia falado nem mesmo se mexido no assento. Continuava olhando pela janela do veículo, com o queixo apoiado em uma das mãos e com o rosto quase colado à janela, e parecia até mesmo estar entediado. Nem as algemas que os seguranças haviam colocado nas mãos dele pareciam incomodá-lo.
Um observador externo provavelmente não entenderia o que havia levado Jorge a tomar uma atitude inesperada daquelas, de levar um desconhecido no veículo oficial até Lisboa para o palácio imperial. No entanto, em sua mente, Jorge, com sua experiência política e diplomática, estava trabalhando com todas as variáveis possíveis para aquele cenário. Havia aprendido há muito tempo: “tempos de desespero pedem por medidas de desespero”. Com a iminência de uma guerra, certas regras tinham que ser modificadas, ou mesmo ignoradas. E Jorge, com seu conhecimento histórico, sabia que o mundo não estava pronto para uma guerra naquele momento. Todo e qualquer esforço direcionado para evitar a guerra, assim, deveria ser incentivado e apoiado.
Apesar de se declarar cético, o Ministro tinha uma mente mais aberta do que deixava transparecer. Ele havia visto Scott em ação contra os soldados. E havia ouvido o relato de que as balas simplesmente desviavam dele. Não havia razão para que ele acreditasse que aquilo havia sido fruto de uma alucinação coletiva dos militares. Se houvesse alguma força maior em curso tentando enviar algum sinal para a humanidade de que a guerra não deveria ocorrer, Scott devia fazer parte dela. E Jorge estava disposto a interceptar qualquer sinal ou qualquer possibilidade, por mais remota que fosse, de que a guerra pudesse ser evitada ou, pelo menos, retardada. Ele não gostava de deixar de perceber sinais importantes; sempre notava tudo à sua volta, seja como advogado, seja como político, seja como governante, seja como braço-direito do imperador.

Aliás, seu status de braço-direito do soberano de Portugal era o que lhe dava liberdade para tomar atitudes pouco “ortodoxas”, como a de levar Scott, algemado, em seu próprio veículo oficial até o palácio de governo. Isso garantia que aquele assunto fosse tratado com o máximo de sigilo, e mesmo que ocorresse um vazamento, a informação acabaria sendo rapidamente contida e abafada devido à reputação do ministro e à influência de Dom Thiago. Claro que Jorge, mesmo com esse status, não abusava da sorte. Poucas vezes havia usado de sua posição para pedir favores pouco usuais ao imperador Thiago (podia mesmo contar nos dedos em quantas ocasiões isso havia ocorrido), até para não dar a sensação ao monarca de que o ministro Simões estava abusando da posição que ocupava para esfregar na cara da sociedade de que gozava da confiança do soberano para fazer tudo o que quisesse.

Jorge tentava deixar de lado todas essas questões em sua rotina de governante, gestor e pessoa pública. O fato de ser amigo pessoal de longa data de Dom Thiago não lhe subia à cabeça nem o motivava a agir de acordo com seu bel-prazer. Sua vida pessoal tinha que ficar em segundo plano, para que ele pudesse se dedicar devidamente ao serviço à Coroa e a seu país. Além de tudo, ele tinha uma reputação a manter como o Primeiro-Ministro mais renomado e respeitado da Europa, o único que conseguia dialogar de forma igual com os governos dos países componentes da aliança dos Impérios da Espada e com os governos dos demais países. Todos os governantes e mesmo os imperadores consideravam Simões como um visionário e um mestre da diplomacia. E naquele momento, em sua visão, seu serviço incluía averiguar as intenções do recém-chegado irlandês e interrogá-lo a respeito das informações que ele alegava ter a respeito da guerra iminente. Qualquer chance de evitar derramamento de sangue e de poupar o povo português de angústia e sofrimento desnecessários que um conflito armado poderia trazer seria bem-vinda – isso, é claro, se o irlandês não estivesse blefando.

Pelo canto do olho, o ministro percebeu que estavam adentrando a região metropolitana de Lisboa. Resolveu quebrar o silêncio.

— Então. Você está quieto desde que deixamos Algarve. Não seria melhor aproveitar o tempo até chegarmos ao meu gabinete e iniciar suas explicações, meu jovem? Quem sabe, começando pela informação que você alega ter que pode fazer com que a guerra seja evitada.

Alguns seguranças se remexeram, desconfortáveis, ao som da palavra “guerra”, mas Jorge não deu atenção. Scott, por sua vez, continuou observando pela janela.

— O que tenho para dizer, Ministro, pode não te agradar. Isso, é claro, se é que você vai mesmo acreditar em algo do que direi. E o senhor mesmo disse que é muito cético. Ou seja, assim que eu começar a falar, poderei estar apenas apressando o processo para que me dirija ao encontro da morte.

— Realmente sou bastante cético – mentiu Jorge -, mas estou te dando o benefício da dúvida. De onde consigo ver, você ainda não expôs seus argumentos, então ainda possui uma chance, ainda que ínfima, de me convencer de que está bem-intencionado e de que está realmente disposto a nos ajudar a evitar o conflito. Caso contrário... Bom, já estamos próximos de Lisboa, e será fácil expedir uma ordem de prisão para você sob acusação de espionagem e de ultrapassar nossas fronteiras sem visto nem documentação de seu país de origem. Em suma, será tratado como um prisioneiro de guerra, um espião inimigo ou mesmo um terrorista.

Scott riu de leve. Isso deixou Jorge surpreso. Ele se esforçara para que, com sua ameaça, o jovem se sentisse pressionado e intimado a falar o que alegava saber. No entanto, o irlandês parecia totalmente despreocupado com a sentença do ministro. Não demonstrava estar nem um pouco intimidado.

— Pois bem, Primeiro-Ministro – disse Scott, ainda com ar de riso. – Vou começar provando que estou do seu lado, e que venho em paz. E que as informações que trago serão, sim, de fundamental importância para que a guerra seja evitada.

De forma anormalmente rápida, o jovem estalou os dedos. Na mesma hora, várias coisas aconteceram: todos os seguranças guardaram suas armas em seus coldres, e instantaneamente caíram no sono, alguns inclusive começando a roncar; e as algemas de Scott se soltaram como que por mágica, e ele as exibiu, com um sorriso triunfante estampado no rosto, para o Primeiro-Ministro, que assistia a tudo aquilo, pasmo e boquiaberto.

Com um sobressalto, Jorge preocupou-se com a integridade do motorista, que poderia também ter sido afetado pelo estranho fenômeno; no entanto, o carro continuava a avançar normalmente pela rodovia, e o motorista, separado do restante dos ocupantes do veículo por uma divisória, que o isolava sonoramente dos demais (o Primeiro-Ministro só podia se comunicar com ele através de um aparelho de pager instalado na lateral do compartimento posterior), não parecia estar sendo afetado pelo estalar singular de dedos do irlandês.

— Ah, que juízo de valor faz de mim, Ministro? – interpelou Scott, como se lesse os pensamentos do político. – É claro que eu não colocaria seu chofer para dormir. A última coisa que queremos, especialmente nas circunstâncias atuais, é causar um acidente rodoviário que custe a vida do Primeiro-Ministro e de seu staff de segurança. Não se preocupe, ele continuará totalmente desperto até chegarmos a Lisboa, onde terei meu briefing com o seu imperador, eu espero. E a julgar pela paisagem, eu diria que estamos chegando, presumindo que eu tenha estudado corretamente os mapas da reg...

— Você é um ilusionista. É isso? – cortou-o Jorge. – Só assim poderia ter feito esse... esse truque...

Scott fez uma careta e começou a girar as algemas com um dos dedos.

— Já fui chamado de coisas piores.

— E como soube do que eu estava pensando há pouco?

— Ah! Pff... Linguagem corporal, eu acho... – respondeu o irlandês, fazendo um gesto de desdém como se a pergunta fosse irrelevante. A essa altura, Jorge já o fuzilava com o olhar. – Ora, senhor Ministro, você não faz ideia de quanto os pequenos movimentos que nossos corpos fazem entregam muito do que estamos pensando no momen...

— Você deve achar que sou algum idiota – interrompeu o ministro Simões. – Estou pedindo, exigindo, que fale de forma direta e franca comigo, sem me tratar como se eu fosse algum ignóbil ou uma criança.

Scott ergueu as mãos, fazendo uma careta pouco convincente, como se simulasse que havia tido algum segredo importante descoberto por Simões.

— Ora, senhor Ministro... Não tive a intenção de ofendê-lo... hehehehe. Porém, você tem de me entender. Tenho certa dificuldade em acreditar que qualquer mortal conseguiria acreditar, ou mesmo entender, no que estou para te dizer.

— Mortal? – retrucou Jorge, agora fechando os próprios punhos com força. – Fale de uma vez. O que você é? Sei que é claramente alguém que conta com habilidades. Foi assim que fez meus seguranças adormecerem, não é? E fez as balas dos soldados em Algarve se desviarem? Você é alguma espécie de feiticeiro, afinal de contas?? QUEM é você, desgraçado? Fale abertamente. Estou farto de seus jogos. Você disse que poderia dizer a nós algo que faria com que a guerra fosse prevenida. Pois bem, FALE. Não tenho o dia todo, e não vou levar alguma informação vaga ou supérflua até o gabinete do imperador. Isso SE eu decidir levar tal informação.
Scott fez outra careta, dessa vez parecendo estar impressionado com o discurso do ministro Simões.
— Nada mal. Para um mortal, o senhor é bem lúcido... Está reagindo melhor do que eu esperava. Quer dizer, eu fiz seus subordinados desabarem aqui bem diante dos seus olhos e você não parece achar que está enlouquecendo... Bom, certamente parece estar um tanto aborrecido ou contrariado, mas, fora isso...
— Vá direto ao ponto, forasteiro. E espero que sua fala seja convincente.
— Você é um homem estudado, não é, senhor Ministro? – questionou Scott.
— E qual é a relevância desta perg...
— Ora, estudei profundamente o seu perfil antes de vir até aqui. Sei que é advogado e um homem culto, intelectual. Talvez por isso esteja reagindo tão bem a tudo isso, e nem cheguei à parte realmente interessante do que tenho para dizer. Mas, estou curioso... Você não tem nem sequer um palpite, sobre a minha real natureza? Algo que pudesse servir de “explicação” aos fenômenos que você acaba de testemunhar? Vamos, dê sua opinião. Só uma tentativa. Se você não acertar, eu mesmo revelarei quem sou.
A forma como ele disse “quem sou” não agradou a Jorge. Só falta ele dizer "Eu sou"... Jorge cogitou esse pensamento com base nas escrituras, mas sacudiu a cabeça e logo afastou essa possibilidade de seu raciocínio. O sujeito, apesar de seu semblante jovial e irreverente, parecia cada vez menos “humanizado” aos olhares do Primeiro-Ministro. Várias ideias pipocaram na mente do político, porém, nenhuma delas parecia servir como uma resposta satisfatória... não para Jorge, pelo menos.
— Não faço a menor ideia.
Scott deu um leve sorriso, como se tivesse ouvido exatamente o que queria ouvir.
— Meu caro Ministro... Torci para que tivesse percebido logo de cara. Eu sou um deus.