Trono De Sangue

7 Capítulo 7 AS FLORES DO MAL...


Tu que, como uma punhalada,
Entraste em meu coração triste;
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,


Para no espírito humilhado
Encontrar o leito e o ascendente;
– Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,


Implorei ao punhal veloz
Que me concedesse a alforria,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.


Ah! pobre! o veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeteiro:
"Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.


Charles Baudelaire – As Flores do Mal



“Conta a lenda que, Mørket, a deusa negra do sono e da morte fora fruto da traição do deus Caos com sua amante, a deusa Noite.


A deusa Ordem, a esposa ofendida, jurou ao Caos que jamais prejudicaria a criança, desde que ele não a reconhecesse e a mantivesse longe de seu reino.


Caos assim o fez.


Foi então que Obscuridade, irmã da Noite tornou-se madrinha da criança, ensinando-a todos os passos da dissimulação e de como seduzir sem mostrar sua verdadeira face.


Quando Mørket transformou-se em uma jovem e bela mulher, cansou-se do estigma de ser uma bastarda e usou o que aprendera com sua tia para seduzir seu pai fazendo-o quebrar a promessa que havia feito à esposa. Assim, Mørket foi reconhecida como filha de Caos e a Ordem sentiu-se, profundamente, humilhada.


Furiosa, a Ordem tentou vingar-se, porém o Caos foi tomado por uma grande fúria e a subjugou, prendendo-a nos abismos profundos de Darneheim.


Sem a presença equilibrante da Ordem, o reino mergulhou em guerras e desordens de todo o tipo, até que o Senhor das Almas interviu, prendendo o Caos no centro da terra, onde a ira do deus gerou abalos e criou a lava ardente que irrompia pelos vulcões.


Mørket descobriu um meio de libertar seu pai e mais uma vez usou de seu poder de sedução, indo até o mundo dos sonhos e seduzindo o deus Martraðir, senhor do medo e dos pesadelos. Lá florescia a Papoula Negra, uma flor mágica e poderosa que tornava os homens e deuses escravos de seu poder.



Martraðir ficou tão encantado com a beleza e falta de pudores de Mørket que apaixonou-se, perdidamente, e fez uma coroa de Papoulas dando-a a Mørket como prova de seu amor. Maravilhada com o poder que emanava das flores, a jovem deusa viu nele a chance de tornar-se ainda mais forte que Martraðir. Ardilosa, ela invocou a ajuda de sua mãe, a Noite, pedindo que ela lhe enviasse o manto negro e estrelado do Céu.


Quando Martraðir a viu, vestida de estrelas, ficou maravilhado e mandou preparar um grande banquete para tomá-la como esposa. Sorridente e sedutora, Mørket distraiu o amante e colocou uma das flores de sua coroa em sua bebida tornando-o seu escravo. Martraðir ficou tão alucinado e submisso aos desejos de Mørket que lhe deu o jardim de Papoulas Negras como presente de casamento.


Tornando-se rainha do mundo dos sonhos, Mørket ordenou que Martraðidescesse ao centro da terra e a ajudasse a libertar seu pai.


Assim que Caos foi libertado, exilou Martraði e tomou, novamente, Mørket como amante. Juntos, pai e filha usaram da Papoula Negra para submeter deuses e homens, aos seus caprichos.


Iniciou-se, então, uma eterna luta de vida e morte dos amantes incestuosos contra a deusa Ordem e o Senhor das Almas...”

Lendas de Darneheim – Tomo 42, página 4


Já era tarde e o grande salão estava quase às escuras. Sentado em seu trono, solitário e cansado, Regulus sentia um esvaziamento de si, como se toda a sua energia tivesse se esgotado. Nem mesmo o banho com ervas aromáticas preparado pelos criados para limpar-lhe o corpo trouxe-lhe de volta o ânimo.


A verdade era que, toda a carga emocional, de suas decisões, desabava sobre os seus ombros de um modo avassalador. Sua mente duelava, constantemente, como se ele fosse duas pessoas diferentes e essa constatação começava a dilacerá-lo.


Precisava de calor... sentia-se frio e vazio por dentro, como no dia em que Aioros fora assassinado e ele procurara sua filha ilegítima.


Então ela veio, trazendo conforto e calor...


Venha, senhor meu pai. Venha consolar-se nos braços da sua bastarda.”


Pandora... A filha que concebera fora de seu casamento em um momento de necessidade masculina, quando as forças de Dwiefer lutaram contra a horda de bárbaros vindos das desconhecidas terras do leste.


Como era o costume, Verônica, necromante das terras altas de Berkehell viera em peregrinação aos acampamentos de Dwiefer fechar o corpo dos guerreiros do clã Iljun. Quando chegara a sua vez de receber a proteção, ela pousara os olhos negros e cortantes sobre os seus e sussurrara uma palavra que ele não conseguira ouvir.


Mais tarde, antes de voltar ao seu lar, ela adentrara sua tenda e mais uma vez sussurrara: “Dê-me seu prazer...”. Desta vez ele ouviu e seu corpo a desejou.


Verônica sorriu com malícia e despiu a túnica carmesim. Seu corpo cheio e voluptuoso aproximou-se sinuoso e quente. As mãos grandes demais, para uma mulher, imiscuíram-se por entre seus cabelos e puxaram-no em direção aos lábios rasos e vermelhos como a roupa que jazia ao chão.


Regulus não resistiu, pois seu corpo há muitos meses não conhecia o prazer sexual e a excitação da batalha próxima exigia dele um escape. Verônica tocou-o e deu-lhe prazer como jamais uma mulher o fizera. Os cabelos longos envolveram-no em um redemoinho sensual, enquanto ela subia e descia por seu falo com fúria e maestria. Ambos gozaram alto na noite profunda e quando amanheceu, nenhum vestígio da necromante foi encontrado.


Passados dois anos, uma menina foi-lhe apresentada e quando Regulus olhou-a com atenção, reconheceu de imediato a si mesmo naqueles olhos. Pandora tinha os olhos da mãe, mas o reflexo penetrante e dominador que ardia neles era seu. Havia, no brilho indelével dos orbes escuros, a força e o orgulho do leão...


De imediato, mandou que Verônica lhe entregasse a filha, instalando-a em uma fortaleza próxima, o suficiente da sua, para cuidar da educação e sustento da menina.


Ailish suportou sua traição com altivez e não se importou que ele visitasse a filha com certa frequência. Afinal, ela era mãe de Aioros, o escolhido, e seu orgulho se sobrepujava a qualquer indiscrição que o marido tivesse cometido.


“Deixe-a nas sombras e farei de conta que nada aconteceu”. Dissera ela, quando lhe contara sobre a filha.


E assim Pandora permaneceu, sempre nas sombras, até Aioros morrer e ele, o orgulhoso Regulus buscar consolo em seus braços. Um consolo que adormeceu sua dor e lhe custou a alma...


– Meu pai... Ainda aqui? Pensei que estaria em seus aposentos. – disse Pandora interrompendo suas divagações e adentrando o salão do trono com os cabelos ainda molhados do banho, a camisola transparente deixando antever os contornos do corpo.


– Estou exausto, mas o sono me é negado. Não consigo deixar de pensar em Dégel... ainda resta-me pensar no que fazer em relação a ele. – disse Regulus com os olhos doloridos, levando a mão à testa.


– Perdoe-me, mas... creio que não há o que pensar, meu pai. Ele tornou-se um traidor como Kardia, portanto, também deve ser executado. – disse Pandora com uma voz terna e rouca.


– Dói-me ter de decidir executar um amigo, um homem que sempre tive como um irmão! Até quando vou perder aqueles que amo? – falou Regulus em tom de desespero.


– Eu sei... Eu sei... Sua generosidade é grande, meu senhor. Mas, estes homens contestaram a sua autoridade, mesmo quando ofereceu a eles a misericórdia como lhe pedi. Agora, deixe suas preocupações por um instante e beba o vinho que eu mesma preparei para ajudá-lo com as dores de seu coração... esqueça a traição, as mortes, tudo. Eu estou aqui... – disse Pandora dirigindo-se até uma mesa de canto, onde instantes antes, depositara uma jarra de vinho quente.


Tendo o cuidado de sacudir o jarro para que a mistura depositada no fundo ficasse ainda mais diluída, ela encheu um cálice de ouro com o vinho escuro e quente, misturado com especiarias e um ingrediente, em especial, levando-o ao pai.


Regulus aceitou a bebida, assim como aceitara no dia trágico em que fora a casa da filha com o coração envolto em dor.


O gosto do vinho era licoroso, forte e encorpado. Havia uma nota frutuosa, floral e ácida que produzia um relaxamento do corpo, começando na língua até chegar ao estomago e depois se espalhava pelo corpo fazendo-o, finalmente, experimentar um alívio. Após alguns segundos, não havia mais dor e sim uma sensação que atiçava os sentidos e, ao mesmo tempo, um delicioso torpor.


Pandora sorriu e aproximou os lábios até tocar os do pai. O beijo iniciou lento, provocante até evoluir para algo mais profundo e violento. As mãos de Regulus se insinuaram por dentro da camisola, tocando os seios pequenos e puxando-a de encontro a si. Os olhos do soberano estavam injetados, as pupilas dilatadas, a respiração ofegante...


– Assim... Toque-me, meu senhor... Deixe-me ser a cura de todos os seus males... — Pandora murmurou-lhe ao ouvido e Regulus tomou-a nos braços, fazendo-a sentar em seu colo.

Ela é sua filha! Ouvia uma voz gritar-lhe ao fundo, como se fosse ele próprio tentando resgatar a si mesmo, porém cada vez mais se afogava em uma névoa escura, o limite entre a sanidade e a loucura retesando-se como a corda de um instrumento prestes a rebentar...


Pandora, percebendo a luta interna do pai, ergueu-lhe a cabeça e tomou, novamente, os lábios de Regulus nos seus, dividindo o gosto do vinho, comungando da droga poderosa que o colocara em suas mãos. Com uma risada rouca, guiou-o para dentro de si e deixou-se penetrar. Tudo aconteceu rápido e frenético como um daqueles sonhos que surgem intempestivos e se dissolvem ao amanhecer...


E quando ambos atingiram o gozo, Pandora olhou nas sombras e vislumbrou os olhos dele, brilhando com perversidade e luxúria. Apertou-se contra o corpo de Regulus e fechou os olhos. Também ela era prisioneira de sua fraqueza, de sua necessidade e de sua obsessão, mesmo que se portasse como algoz.


Nesses momentos, seu coração oscilava entre a culpa, o amor e o desejo, tornando-a como a deusa das lendas, transformando-a em um instrumento perfeito de perdição e morte...



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Mesmo tarde da noite, Saga havia pedido uma audiência com o lorde mais antigo do Círculo de Honra. Normalmente, as audiências com aquele que o criara eram amistosas e produtivas. Discutiam tudo, desde filosofia, política e os planos para solucionar os problemas que a morte de Aioros trouxera para Darneheim. Entretanto, neste momento, Saga encarava o pai com o olhar angustiado e duro.


– Então, meu pai... Pode me explicar, porque o general das forças de Berkehell é igual a mim? Pensei que estava louco quando ele veio, após a execução, exigir o corpo de Kardia para sepultá-lo. Somos idênticos! É óbvio que somos irmãos! Porque nunca me contou que eu tinha um irmão?


Dohko olhou sério para o filho de seu coração e tocou-o no ombro.


– Quando respondi ao chamado de seu pai verdadeiro, eu achei que, apenas, estaria ajudando um amigo. Mas, acabei me tornando, aquele que guardaria um dos últimos descendentes do clã Tewmin.


– Último descendente?


– Sim, meu filho... Kembarera um reino próspero e incomum e não havia nela nem templos, nem deuses. Os sucessivos Senhores do clã Tewmin, que a governavam, se autodenominavam defensores da verdade e do conhecimento e, em nome destes, consideravam a religião um mal que incitava os homens ao confronto e à superstição. Direcionado à construção de um conhecimento superior, o clã Tewmin tinha uma peculiaridade ainda mais interessante: de tempos em tempos, o Senhor do clã gerava filhos gêmeos e quando isso acontecia, as crianças eram preparadas para reinar juntas e assim assegurar a expansão dos princípios do clã. Já fazia muitos anos que este fato havia acontecido quando seu pai soube que seria pai de gêmeos. Na mesma época, os Sacerdotes brancos de Gyðja adentraram Kembar em peregrinação, encontrando uma recepção fria e indiferente de seu pai, mas não de seus vassalos que escarneceram deles e fecharam-se em suas casas, evitando-os como se estivessem doentes ou lunáticos. Os sacerdotes nada disseram e deixaram a cidade. No dia seguinte, uma estranha doença afetou os habitantes e as mortes aconteceram tão rápido que nada pode ser feito. Sua mãe estava para dar a luz e toda aquela movimentação os fez vir antes do tempo. Ela morreu no parto e seu pai tomou a decisão de tirá-los de Kembar.


– Tirou-nos da cidade e nos separou. Por quê?


– Novamente, uma fatalidade se abateu sobre o destino de vocês dois. O navio onde vocês foram embarcados foi acolhido por uma violenta tempestade e, no auge de toda a confusão, seu irmão sumiu e só pude... salvar você. Presumi que ele estava morto.


– Bem, agora sabe que ele sobreviveu. Ele e eu somos Senhores de um clã morto! Como eu nunca soube desta cidade?


– Morto, não. Existem alguns sobreviventes ainda esperam o retorno de seu Senhor para que reconstrua Kembar e restaure o conhecimento que se perdeu. Kembar caiu no esquecimento, porque foi considerada amaldiçoada. Os outros clãs acharam que a arrogância dos Tewmin atraíram a doença e a morte ao escarnecer dos Sacerdotes. Embora fôssemos amigos e seu pai não acreditasse nos deuses, eu sempre soube que a vida humana é um milagre que se estabelece além do conhecimento da mente. Eu pedi um sinal ao Senhor das Almas e ele me atendeu. Seu irmão está vivo e Darneheim está prestes a enfrentar o caos. Está na hora de assumir a sua herança, Saga Deimos Arcane e ajudar a restaurar não só o seu clã, mas também ajudar Dwiefer a reencontrar o equilíbrio.


– Kanon é comandante das forças de Kardia. Embora tenha ficado abalado, jamais desertará do clã que o acolheu e nomeou como guardião. Creio estar sozinho neste desafio, meu pai.


– A força da carne e do sangue está na origem dos clãs. Quando chegar a hora, Kanon estará ao seu lado.



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Kanon estava calado, a expressão fechada e a cabeça latejando. Não bastava ter de assistir a morte de seu Senhor, sem interferir como prometera, ainda descobrira que tinha parentesco com um homem do clã do Iljun!


Milo seguia calado ao seu lado e ele agradeceu o silêncio, porque sentia a dor do menino e sabia que não havia consolo para a perda, somente o tempo se encarregaria de cicatrizar as dores.


À volta deles, tudo parecia reverenciar o luto, as ruas, agora vazias e quietas, o cais que se apresentava com seus navios solitários e o céu escuro e sem luar...


Embora se sentisse atordoado, Kanon não podia perder-se em especulações sobre a sua origem, agora que tinha a responsabilidade de cuidar da segurança do futuro Senhor do clã. Milo voltaria à Torre Negra e lá ficaria até completar dezoito anos. Pela expressão do menino, essa questão seria delicada, pois ele não manifestava nenhuma vontade de voltar a ser um acólito.


– Você está bem? – perguntou Kanon, mesmo já sabendo da resposta.


– Não. – respondeu Milo sem olhar na direção de Kanon.


– Eu sei. Perdoe-me, só queria ouvir a voz de alguém. – disse Kanon mais para si mesmo que para o garoto.


– Tudo bem, eu sei como é. O que vai acontecer agora? Não quero voltar para aquela maldita torre! Quero ficar com meus irmãos, eles vão precisar de mim.


Kanon sorriu, mesmo sem querer. Milo havia amadurecido a olhos vistos, mas ainda havia muito a aprender. Hakurei ainda tinha o desafio de prepará-lo para o que estava por vir. Aquele que era tocado pelo sopro do deus Sombrio tinha um destino próprio e desafiador. Assim o fora com Kardia e assim seria com Milo.


– Eu cuidarei para que fiquem bem. Você ainda tem um aprendizado a cumprir. Gostaria que fosse diferente, Milo, mas não é. Ser um líder é uma responsabilidade que, às vezes, cobra um preço alto. Mas, seu pai... ele sempre o considerou de uma forma especial. Na verdade, mesmo amando seus outros filhos, Kardia sempre teve uma predileção por você.


– Por mim? Mas eu sempre... fui o que mais aprontei. Ele sempre brigava comigo.


– Você é o que mais se parece com ele. Orgulhoso, impulsivo e carismático. Olhando para você, ninguém jamais poderá duvidar que é filho de Kardia. – disse Kanon tocando o ombro do menino.


Milo sorriu e sentiu que as lágrimas invadiam, novamente, os seus olhos. Virou a cabeça em direção ao mar e ficou em silêncio, acolhendo as palavras de Kanon em seu coração.


O navio que os trouxera os levou de volta a Berkehell. O corpo de Kardia foi colocado no centro do convés, como se os comandasse de seu sono eterno. Aos poucos, Dwiefer foi ficando distante e Kanon relegou os últimos momentos e as revelações que partilhara com o homem que era seu irmão a um lugar bem guardado dentro de si.



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Longos e largos degraus levavam até a sepultura de Aioros. Mesmo diante de tantos acontecimentos, Shion não desistira das suas investigações e agora exibia seu medalhão para os Homens sem face para que o deixassem passar. Shura cuidava para que a movimentação permanecesse despercebida e assim, Shion teve acesso ao esquife do jovem soberano.


O tampo de cristal mostrava o rosto sereno de Aioros e ele parecia dormir, apesar dos anos. Era difícil aceitar que estivesse morto ao ver seu corpo assim, intocado. Shion abriu a tampa e nem mesmo o odor de putrefação se apresentou. Um cheiro amadeirado residia nas almofadas que jaziam sob o corpo, como se ele estivesse apenas descansando. “Até mesmo a morte o ama, meu soberano...”


O broche que Shura comentara, segurava a capa real. Shion retirou-o com cuidado, vendo que era uma peça finamente trabalhada em ouro branco cravejado de pequenos diamantes, ametista e ônix. Um olhar atento na parte interna do broche revelou um dispositivo engenhoso. Ao se tocar no corpo do pássaro, uma fina agulha era acionada.


Conhecedor de vários tipos de veneno, Shion reconheceu o cheiro de dois, naquele artefato: Papoula Negra e Ardrax. A associação mortal tinha sido feita por um especialista que conseguira dosar, perfeitamente a quantidade de veneno e colocá-lo ali, de forma que, ao ser introduzida no corpo, a morte seria rápida e, pelo menos, indolor.


Descobrir a origem da joia e de quem a encomendara o levaria ao assassino e, finalmente, acabaria a loucura em Dwiefer. Rapidamente guardou a joia e fechou o esquife. Olhou, mais uma vez, o rosto belo e juvenil que fora amado por muitos e seu coração falhou uma batida. Depois, galgou os degraus em direção à biblioteca para planejar seu próximo passo quando o líder dos Homens sem face o interpelou.



– Precisa vir conosco, senhor Conselheiro. – disse o homem cujo rosto encoberto por uma malha escura e fina, não se podia ver.


– O que significa isso? Onde devo ir? – perguntou Shion tendo o cuidado de mostrar-se calmo, embora sentisse que algo estava errado.


– Tem alguém que deseja vê-lo.


– E posso saber quem é esse alguém?

Antes que o homem respondesse, Shura surgiu nos degraus com a face tensa e a espada desembainhada. Não era próprio e nem função daqueles homens, interpelar o Conselheiro Guardião.


– O que está acontecendo aqui? – perguntou o comandante das forças de Dwiefer.


Os homens sem face rodearam-no, deslizando como se fossem sombras. Eram quatro e Shura levantou a espada fixando os olhos no líder. Não disse uma só palavra, apenas sinalizou para Shion que ficasse atrás dele, enquanto lhe atirava um punhal.


O líder desembainhou sua espada curta, específica para combates que exigiam proximidade e avançou com uma velocidade surpreendente. O aço da espada de Shura aparou o golpe e ele esquivou-se para o lado, sendo atacado por outro do grupo, enquanto Shion lançava o punhal certeiro na garganta de outro agressor.


O homem acertado por Shion caiu com um barulho surdo, enquanto outro saltava com ambas as mãos no cabo da espada. Com uma agilidade inesperada para o inimigo, Shion desviou, acertando-lhe um chute no baixo-ventre e torcendo o corpo para evitar a lâmina. Ao mesmo tempo, levou a mão em forma de garra e fincou os dedos na garganta do agressor, matando-o, instantaneamente.

Shura continuava a lutar com o líder que atacava com ferocidade. Porém, em uma tentativa de quebrar a resistência do comandante, o homem empreendeu um ataque precipitado e a espada de Shura trespassou fundo, expondo as vísceras e fazendo jorrar o sangue. O homem deu um passo para trás antes de cair segurando o ventre.


O único homem que sobrara, recuou empunhando a espada e, quando Shura aproximou-se dele, o homem arregalou os olhos e caiu morto sem que ninguém o tocasse. O comandante olhou para Shion que apenas disse:


– Veneno!


– Mas que loucura é essa? Será a traição uma doença que está contaminando a todos? – disse Shura.


– Alguém já sabe que estamos perto de descobrir o assassino. E você estava certo, o broche dado a Aioros continha um dispositivo contendo veneno. Um simples toque e, uma agulha fina, deposita na pele uma combinação mortal de Ardrax e Papoula Negra. – falou Shion.


– Então só precisamos descobrir quem deu esta joia a Aioros!


– Sim, meu amigo. Mas, agora, temos que cuidar destes corpos e ir até a Torre dos Lamentos. Preciso falar com Dégel e depois irei ter com Regulus.


Shura consentiu e tratou de chamar alguns homens de confiança para recolher os corpos. Em seu íntimo, uma batalha entre o alívio e o sofrimento marcava território em seu coração. Estava a um passo de descobrir o assassino de seu amado, mas também intuía que uma rede sórdida o enredava em desconfianças e traições. Sentiu a mão de Shion em seu ombro e sorriu, recordando da atuação guerreira do Conselheiro.


– Vamos, comandante, logo chegará um novo dia e ainda temos muito que fazer. – disse Shion.


– Sim, Conselheiro ou devo dizer... general? – falou Shura.


– Meus tempos de batalha ficaram longe quando me tornei Conselheiro Guardião, mas ainda creio que é preciso mais que uma espada curta e traidores sem face para me matar.


Os dois embrenharam-se pelas escadas e corredores de pedra, indo diretamente até a Torre dos Lamentos. Totalmente focados em sua ação, ambos nem sonhavam que eram vigiados de longe com um instrumento cônico cuja lente na extremidade permitia ver à distância.


Quando Shion e Shura chegaram às portas da Torre e usaram de sua autoridade para que os permitissem passar, jamais imaginavam o que aconteceria a seguir. Assim que tiveram acesso à escadaria em espiral que levava até a cela de Dégel um som, alto e surdo, semelhante ao soar de um gongo fez vibrar o solo e as paredes da Torre. Shura estancou e Shion perdeu o equilíbrio.


Novamente o som se fez ouvir e desta vez, também Dégel em sua cela percebeu que algo estremecia as paredes e o chão. O tempo em que os três perceberam que algo estava errado não ultrapassou sessenta segundos e, em seguida, um tremor ainda mais violento veio seguido de fogo e calor.


Então, a Torre vibrou uma última vez como se fosse um gigante em seu último estertor de morte. As pedras pesadas, junto com o pó, madeira e o que havia dentro desmoronaram, ruidosamente e, em pouco tempo, soterraram tudo em seu caminho...


A Torre dos Lamentos que fora a prisão de Senhores de clã agora era uma enorme pilha de escombros e o túmulo para três grandes homens...


Bem longe de tudo e, ao mesmo tempo, testemunhando a cena como se estivesse presente no local, um homem sorria na janela de sua pequena fortaleza.


Fazia meses que ali residia, observando, conspirando e orientando... A madrugada estava, extraordinariamente, fria mesmo para o outono e a flor em sua mão parecia ressentir-se, já que o auge de sua floração era o verão. No entanto, ele trouxera a primeira Papoula Negra que desabrochara em seu jardim, nas terras altas e misteriosas de Berkehell e a mantinha perto de si, como uma lembrança de seu objetivo maior...


“Ah, minha querida...”- disse o jovem de beleza fria e inteligência, excepcionalmente, perversa e brilhante, levando a exótica flor perto dos lábios finos e desenhados. – “O verdadeiro jogo começa agora...”.


Notas finais
A lenda da trama foi criada por mim para que se adequasse a trajetória pessoal de Pandora.Como inspiração, utilizei personagens míticos já conhecidos como a Ordem e o Caos, a Noite, etc e criei outros como Mørket (significa Trevas em islandês)e Martraðir (pesadelo, também em islandês).
Obrigada a todas pelo carinho, pelos comentários, pela passada rápida e pelo silêncio. Uma Páscoa renovadora a todas e espero que estejam gostando da leitura!!!Bjs, XD!