Trono De Sangue
8 Capítulo 8 RÉQUIEM AO SENHOR DE IRĠIEL KIESAĦ...
Notas iniciais
Seus lábios tocavam os meus bem devagar... A brisa quente parecia vir de seu corpo esguio, cuja pele macia rivalizava com a minha. Ouço sua voz melodiosa me chamando e começo a rir quando ele me faz cócegas para depois olhar-me com luxúria e tocar minha ereção que já desponta, apenas com a visão daqueles lábios...
Nos abraçamos e, de repente, Aioros se transforma em pó. Um pó denso e avermelhado que entrava pelas suas narinas, boca e olhos...
“Acorde Shura...”
A voz dele continua a chamar-me, mesmo depois de desfazer-se sobre mim e eu começo a sufocar e tossir em um longo e escuro túnel sem fim...
“Acorde Shura. Não tenho muito tempo, meu amado...Seja forte, abra os olhos”
Shura abriu os olhos e encontrou escuridão e pó. Sua cabeça parecia cheia d’água e um zumbido constante o impedia de pensar com clareza. Ouviu um arquejo, seguido de um gemido baixo e então lembrou, estavam na Torre dos Lamentos ou o que sobrara dela.
– Conselheiro... é o senhor? – perguntou Shura limpando o rosto com as costas da mão.
– S-Sim... sou eu... acho que quebrei o tornozelo....tem uma pedra em cima da minha perna.
– Vou ajudá-lo... Ainda custo acreditar que a torre caiu. Estamos protegidos por um cruzamento de escombros... Não sei quanto tempo iremos aguentar. – disse Shura.
– Alguém... quer ter certeza da nossa morte, comandante. Fui tolo em achar...que não corríamos perigo. Pelo estrondo e pelo cheiro, alguém usou o Ardor negro uma mistura de betume, enxofre e salitre que se expande violentamente, destruindo tudo.
– Mas isso é uma arma de guerra! Não é algo que qualquer um tenha acesso.
– Sim, meu amigo... Não lidamos com um assassino comum. Quem quer que tenha feito isso, planejou sua ação com muita precisão.
Um barulho fez os dois homens franzirem o cenho e tentar ver no escuro. Milagrosamente, lá vinha ele, com as mãos nas costelas e sangue escorrendo-lhe pelo rosto. Dégel, ele também sobrevivera...
– Senhores... vejo que teremos uma reunião, realmente, privada. – disse Dégel.
– Seja bem-vindo... – disse Shion. – Como vê, estamos com poucas alternativas... sobrevivemos por um milagre, mas...
Shion tossiu, sentindo um sabor de sangue na boca e interrompendo sua fala. O ar abafado e a poeira ardiam em seus olhos e narinas. Tocou em seu bolso constatando que perdera o broche que, há essa hora estava perdido em meio a tantas pedras e escombros.
– Tem... uma galeria subterrânea no lado oeste ...lembro de Regulus ter compartilhado esta informação. Eu tenho quase certeza que estamos perto. Só precisamos afastar aquela pedra grande, estão vendo? – disse Dégel apontando para um canto.
– Vão vocês... eu não consigo mover minha perna... – falou Shion, tossindo mais uma vez.
Shura olhou para Dégel e ambos se posicionaram para carregar Shion.
– Estamos juntos nessa! – disse o comandante. – Venha, Dégel e eu o tiraremos daqui.
Com dificuldade, os três caminharam pelos caminhos preservados pelo acúmulo de destroços até chegar a uma entrada subterrânea. Havia somente um jeito de passar para chegar até ela, era preciso deslocar uma pedra enorme e, ao mesmo tempo sustentar uma viga de madeira que impediria que tudo viesse abaixo.
Dégel não havia compartilhado, mas sentia que quebrara algumas costelas e uma delas devia ter perfurado seu pulmão, pois sentia o gosto ferroso e metálico do sangue subindo pela garganta. Shura olhou a pedra e falou:
– Se movermos, haverá um desabamento. Precisamos de uma escora para poder passar.
– Leve... Shion. Eu seguro. – disse Dégel, controlando a respiração que já começava a ficar ofegante.
– Se ficar... não vai ter alguém que segure, quando for sua vez de passar. Temos que pensar em outra alternativa. – disse Shion.
– Senhores... não esqueçam que eu já sou um homem morto. Se sair daqui, serei executado por traição... Não há tempo, o ar está acabando e não estamos em condição de ficar procurando. E Regulus... ele precisa saber quem matou Aioros para terminar com essa loucura. Achem o assassino e eu saberei que nada do que fiz, foi em vão.
Shura olhou firmemente para Dégel vendo no semblante ferido uma determinação rara. Por um momento, viu a face de seu amado mesclar-se com a face do Senhor do clã Akkwarju e soube que ele estava ali, apoiando-os de forma misteriosa e, ao mesmo tempo, tangível como aquelas pedras.
– É um homem de honra, Dégel. Saiba que farei de tudo para que seu nome seja lembrado como aquele cuja palavra e honra são inquestionáveis. – Disse Shura.
– Obrigado, meu amigo... – disse Shion. — Tem a gratidão de meu coração e a promessa que tudo farei para o retorno da paz e da justiça em Dwiefer. Também quero que saiba que Regulus... ele sempre o amou como a um irmão e essa loucura que o acomete agora, tem algo por trás dela e eu também descobrirei o que é.
– Conto com isso, Conselheiro... Agora vão... – disse Dégel posicionando-se, para que Shura pudesse retirar a pedra.
Quando o comandante abriu caminho, Dégel respirou fundo, os pulmões ardendo e a dor excruciante perpassando todas as fibras de seu corpo ferido. Seus olhos se fixaram além dali, seus dentes morderam com força e ele sustentou o peso correspondente a dez homens envolto em uma névoa de agonia, mas também de força quase sobrenatural.
Pensou em seus filhos e na força de seu clã. Sentiu quando a energia dos lobos emergiu de sua alma, sustentando seu corpo, mesmo que cada nervo gritasse de dor e o esforço para respirar fizesse afluir o sangue direto para sua boca.
Após a passagem de Shura e Shion, ele fechou os olhos, ouviu o chamado ancestral da matilha e entregou-se à escuridão...Na mesma hora, em Irġielkiesaħ os lobos se reuniram na montanha alta e uivaram em coro, cortando a madrugada, em uma conexão primitiva, transcendente e atávica...
O Senhor do clã Akkwarju despedia-se deste mundo, porém, não sozinho e nem desonrado. O homem justo e que se colocava a serviço de algo maior que a si mesmo adentrava a morte com o destemor dos bravos e o canto de despedida de seus irmãos...
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Após rastejar e andar e voltar a rastejar, Shura e Shion, finalmente, viram a luz do dia. Soldados, criados e nobres circundavam os destroços quando os dois emergiram do centro da terra sob olhares de alívio, mas também de estranheza.
Dohko adiantou-se, orientando criados e soldados, tendo Saga ao seu lado. Sem permitir que se fizessem perguntas, ordenou que Shion e Shura fossem levados aos seus aposentos e ele mesmo se incumbiu de tratá-los, após os criados providenciarem banho e roupas limpas para os dois.
Os aposentos de Dohko eram amplos e austeros. A cama larga e com lençóis brancos se destacava em meio às escrivaninhas, prateleiras abarrotadas de livros e armários de vidro contendo armaduras e armas.
– Tinha me esquecido desse seu... interesse por troféus de guerra. – disse Shion tentando mexer a perna que Dohko havia imobilizado.
– Porque não me contou? – perguntou Dohko ignorando a fala de Shion.
Shion suspirou e virou o rosto. Toda a investigação que fizera, compartilhara apenas com Shura como uma medida de segurança. Talvez estivesse errado, porém não queria estender nenhum perigo a alguém mais, principalmente Dohko.
– Não quis envolver mais ninguém, além daquele que tinha mais intimidade com o nosso soberano e podia fornecer-me mais detalhes.
– Intimidade... onde foi que perdemos a nossa, Shion? Ao menos, pensei que continuaríamos amigos. Mas, vejo que me enganei.
– Não tem nada a ver conosco. Apenas... não quis que corresse perigo. Aioros, Ailish... ambos foram assassinados bem debaixo dos nossos olhos. Regulus se comportando como um déspota, a execução do senhor de um clã, a morte de Dégel, o reconhecimento de Pandora... são muitas coisas ao mesmo tempo!
– Por isso mesmo! Devia ter compartilhado, confiado em mais alguém para ajudá-lo. Agora descanse... beba um pouco de vinho com extrato de lótus. Aliviará a dor e o fará dormir. Pelo que vejo sua insônia permanece.
– Dohko... eu confio em você, em Saga e Shura. Mas, não sei em quem mais posso me atrever a tal! Não quero nada que me deixe inconsciente ou lerdo em demasia. Portanto, dê-me apenas água com um pouco de sálvia e hortelã, por favor.
– É tão grave assim? – perguntou Dohko sentindo no coração a aflição do homem que, um dia, fora seu amante.
– Uma torre secular foi derrubada, apenas para matar três homens. O que você acha? – rebateu Shion.
– Acho que eu mesmo vou ter que velar o seu sono. Agora durma e não se preocupe com mais nada. Jamais deixaria algo machucá-lo. – disse Dohko, tentando não transparecer que ainda o amava, muito mais que ousava confessar.
– Obrigado. – disse Shion sentindo as pálpebras pesadas e rendendo-se ao sono.
O céu recebia o róseo tom da aurora e Shura observava a luz espalhar-se, com as mãos firmes pousadas na balaustrada fora da janela. Não dormira muito, apenas descansara após ser tratado por Dohko e ver se o Conselheiro estava bem. Desde a morte de Aioros dormia pouco e agora observava a paisagem que, em outros tempos, se encarregaria de retratar em um desenho.
Embaixo, as pedras da torre que desmoronara, se amontoavam como se fosse uma pequena montanha exibindo um tom dourado à medida que a alvorada se estendia pela paisagem. Uma névoa pálida e fantasmagórica teimava em pairar nos campos distantes e ele fechou os olhos, mais uma vez, tentando repetir o sonho de quando estava sob os escombros.
Aioros o tinha chamado e graças a ele, agora ali estava, vivo, inteiro e salvo. Pensou em Dégel e na promessa que fizera. Quando achassem o corpo do senhor de Akkwarju ele, pessoalmente, se encarregaria de levá-lo a Irġielkiesaħ para que fosse enterrado com honra, mesmo que não soubesse como justificaria isso ao seu soberano, mas era algo que tinha de fazer.
Ouviu duas batidas na porta dos aposentos em que fora acomodado e virou as costas ao nascer do sol. Ao abrir a porta, seu semblante encontrou o de Pandora. Ela o encarava com aquele sorriso tímido, quase dissimulado e trazia uma jarra de vinho junto a uma bandeja de ouro com o que parecia ser o desjejum.
– Bom dia, senhor Shura. Não sabe o quanto fiquei feliz em saber que estava à salvo e bem, assim como o Conselheiro Shion. Eu tomei a liberdade de vir vê-lo e trazer um pouco de vinho, pão fresco e algumas frutas, se for do seu agrado... E também... partilhar um segredo, se me permitir. Sei que estou tomando uma liberdade que talvez não aprecie, mas meu irmão Aioros sempre confidenciou-me que, se havia alguém em que se pudesse confiar em Dwiefer, esse alguém seria... o senhor.
– Obrigado, senhora. Mas, do que se trata? – perguntou Shura dispensando o vinho.
– Bem, sabe que... mesmo sendo reconhecida por meu pai, eu... continuo sob o estigma de ser ilegítima aos olhos de todos os que professam a antiga lei. Todos os eruditos do Círculo de Honra tratam-me bem na frente de Regulus, mas nas costas agem como se eu fosse uma leviana qualquer. Sinto-me desprotegida e sozinha quando longe de meu pai, mas... se pudesse confiar em um amigo, poderia suportar melhor.
– E que atitude destes eruditos a faz pensar que a consideram leviana? – perguntou Shura desconfiado.
Pandora suspirou e retirou algo do bolso do vestido.
– Isso! Está vendo esta joia? Tenma ofereceu-me como um presente e depois insistiu que eu aceitasse deitar-me com ele. Eu recusei, é claro e tentei devolver, mas ele não aceitou. – disse Pandora mostrando um grampo de cabelo em forma de pássaro.
– Tenma lhe deu isso? – perguntou Shura olhando dentro dos olhos de Pandora.
– Sim, ele me deu. O pai dele é o famoso ourives, Yohma de Mefistófeles, e essas peças são únicas, disse-me ele. Creio que achou que poderia comprar-me com tal joia e quando eu recusei, ele passou a destratar-me. Eu não quero levar mais problemas ao meu pai, pois desde a morte de meu irmão que ele sofre muito. – disse Pandora aproximando-se de Shura. – Peço, somente que eu possa contar com a sua amizade e como o senhor é próximo do Conselheiro, possa dizer-lhes que eu não pedi para estar aqui. Permaneço ao lado de meu pai porque o amo e também... porque me é difícil enfrentar a solidão. – completou ela deixando que as lágrimas lhe caíssem dos olhos.
– Fique tranquila, senhora. Tomarei providências quanto ao seu incômodo.
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– Inferno! Onde se meteu este menino? – gritou Hilda ainda quando estava escuro.
Em Irġielkiesaħ o sol ainda não tinha saído quando a jovem tinha ido até os aposentos de Hyoga levar-lhe uma dose de leite com ervas para a tosse persistente que o menino manifestava há dias. Ao chegar no quarto, encontrou as janelas abertas e nem sinal dele. Correu até os aposentos de Fenrir que levantava com os olhos pesados de sono, encontrando-o nu e com cara de poucos amigos.
– Perdão, senhor... mas, Hyoga não está em seus aposentos e achei que estaria aqui. – disse ela observando que o corpo de Fenrir desenvolvera bastante com o manejo do machado.
– Estará perdoada se... vier aqui e me fazer algo delicioso com essa sua boca para que eu acorde de melhor humor. – disse o garoto mostrando que acabara de ter uma ereção matinal.
Hilda desviou o olhar do sexo de Fenrir, encarando-o com os olhos chispantes e furiosos.
– Creio que devo lembrá-lo que ainda é muito jovem para pensar nestas coisas e que não sou uma rameira para que tome a liberdade de ofender-me com tal proposta! Exijo que me respeite.
– E quem disse isso? Por acaso somente rameiras fazem sexo? Sei muito bem que se interessa por meu irmão... Mas, eu não me importo. Pode foder com ele e comigo... O que acha?
Hilda sorriu de um jeito malévolo e se aproximou do garoto, levando a mão ao falo ereto. Encarando-o ela apertou-o com tanta força que Fenrir sentiu faltar-lhe o ar.
– Acho que o senhor deveria ter mais cuidado com o que fala se desejar ter um pau quando for a hora de usá-lo!
– Aiiiiii!!!! P-Por... f-favor... P-Por... f-favor...n-não aperte tanto!
Largando o sexo de Fenrir, Hilda deu de ombros, pisando pesado e foi procurar Hyoga. No corredor encontrou Kamus que já estava vestido, pronto para as lições com a espada.
– Senhorita Hilda, bom dia. Aconteceu alguma coisa?- perguntou o jovem vendo que ela estava um tanto corada.
– Nada com que tenha que se preocupar, meu senhor. Mas vejo que seu semblante parece cansado, dormiu mal? – perguntou ela notando as olheiras do jovem e aproveitando para tocar-lhe, delicadamente, a face.
– Tive um pesadelo terrível... sonhei que meu pai tentava chamar-me, mas havia uma barreira invisível entre nós e o ar estava pesado, sufocante.Quando, finalmente, pude tocá-lo ele se transformou em névoa e tudo o que sobrou foi a escuridão e o cheiro da morte.
– Sente a falta dele, é isso. Faz muito tempo que ele nos deixou.
– Também ouvi o uivo dos lobos, nesta madrugada. Era um uivo diferente de todos que já ouvi e Raio não voltou esta manhã. Sinto um incômodo no peito que não consigo identificar. – disse Kamus.
– Seu irmão não está em seu quarto. Talvez esse incômodo seja isso. Vamos procurá-lo juntos. – disse Hilda tomando a mão de Kamus na sua.
Hyoga sempre tivera medo daquela árvore. Ela era enorme e retorcida, porém junto às raízes grossas nasciam pequenos cogumelos de uma cor azulada que lhe chamaram a atenção quando brincara ali, com seu lobo.
À noite, tivera um sonho com sua mãe, ela estava envolta em luz e pairava sobre aqueles cogumelos e eles iam crescendo até se tornarem gigantescos e tomar conta da floresta.
Então, um lindo lago transparente surgia em volta deles e pássaros estranhos, que ele não conhecia, deslizavam sobre a água e depois se desfaziam em pontos luminosos. Em pé, sobre um destes pássaros se encontrava a sua mãe e ela lhe estendeu a mão sorridente e afetuosa.
“Venha, meu querido...” Disse ela e ele entendeu que ela esperava que ele andasse sobre as águas do lago.
“Não sei nadar, mamãe. Vou me afogar!” Respondera aflito.
“Não tenha medo...Venha, confie.” Ela dissera, novamente.
Despindo-se de seu medo, ele aceitara o convite e andara sobre as águas até onde ela se encontrava. Sorridente, ela o beijou e apontou para a margem onde seu lobo branco estava ao lado de seu pai. “Papai!” Ele gritara, mas seu pai permanecera quieto, olhando-o com tristeza. Em seguida, viu-o acenar como se estivesse se despedindo e desaparecer no ar como a névoa fria que começava a desprender-se da água do lago.
Agora, ali estava no mesmo lugar do sonho e não tinha a mínima noção de como viera parar ali. Estava encostado à árvore e sua tosse tornara-se mais persistente e foi ela que o acordou, ao sacudir seu corpo violentamente. Sentiu uma tontura e pareceu-lhe que a neve adquirira vida e vinha saltitando em sua direção.
– Neve! – exclamou ele quando o lobo branco emergiu do interior escuro da floresta junto de Raio, seu irmão de pele azulada.
O lobo encostou o focinho em seu rosto e lambeu-o, enquanto Raio olhava em volta como que antevendo a chegada de Kamus. Em instantes, Hilda e Kamus surgiram e viram Hyoga deitado na neve fria com os dois lobos ao seu lado.
– Hyoga! – chamou Kamus correndo na direção do menino.
O garoto vestia, apenas, um camisolão de algodão e seus lábios estavam azulados. Inacreditavelmente, ele não congelara, nem estava inconsciente. Apenas a tosse continuava seca e rouca.
– Irmão... – disse ele com os olhos brilhantes de febre. – Nosso pai... ele veio aqui, ontem a noite e se despediu. Eu estava com minha mãe e... o vi, bem ali, na margem do lago. Também tinha uma ave grande e bonita que deslizava nas águas. Minha mãe disse que ela representa a beleza e a força e que eu tinha as duas dentro de mim.
Hilda olhou na direção apontada vendo apenas, árvores e neve. Revirou os olhos, pensando no que era capaz de aguentar para agradar Kamus e tornar-se sua esposa de pele, quando o seduzisse e engravidasse. “Aquele menino era lunático, chorão e muito estranho”. Porém, Kamus amava-o muito, assim como gostava de Fenrir, o selvagem pervertido que mais parecia um cão no cio. Tinha que aturar os dois e fingir que também os amava, então tomou a mão de Hyoga na sua e a beijou.
– Pobrezinho... Precisamos cuidar dessa tosse e pedir a Healer que lhe dê uma infusão para que não saia por aí andando dormindo. Já imaginou o perigo? Podia morrer congelado aqui fora. – disse ela, docemente.
– Minha mãe não deixaria. – disse o menino, enquanto Kamus retirava seu manto e o colocava em volta do irmão.
“Mais loucuras! Esse garoto nem conheceu a mãe e fala dela como se ela estivesse sempre presente. Pelo deus Louco, preciso de todas as minhas forças para não mandar tudo às favas antes de deitar-me com Kamus!” Pensava Hilda enquanto sorria e distribuía beijos no topo da cabeça de Hyoga.
No caminho, Kamus mantinha-se em silêncio, refletindo sobre o sonho de Hyoga e o seu. Mesmo sendo um jovem mais pragmático que intuitivo, sentia que havia uma conexão entre os dois.
Mais tarde, ao receber a notícia que seu pai havia morrido, Kamus recolheu-se no mesmo lugar onde encontrara Hyoga e chorou sozinho por muito tempo. Raio foi até ele e lambeu-lhe as lágrimas fixando aqueles olhos vermelhos nos seus. Depois se deitou aos seus pés em cumplicidade muda e ambos ficaram em silêncio, ouvindo o vento lamentar-se por entre as árvores geladas como se chorassem, também, a morte de Dégel.
Quando voltou para casa, não havia mais lágrimas nos olhos juvenis. Era o Senhor do clã Akkwarju, não era sua função ser consolado e sim consolar. Andou ereto com Raio ao seu lado e, por um instante, antes de enfrentar aqueles a quem devia proteger, dali para frente, tocou sua cicatriz e lembrou-se das palavras de seu pai:
“Um guerreiro conhece seus limites e apesar de se esperar que seja destemido e domine o manejo da espada antes, precisa aprender o bom uso da mente. A inteligência é superior à força. As paixões devem ser dominadas. Ser herói é colocar-se à serviço dos que precisam e não da exaltação de si mesmo. O ego, Kamus, é a principal queda do homem! Que esta cicatriz lhe lembre disso. Seja um Senhor forte e honrado e, onde eu estiver, minha força e meu amor estarão sempre com você.”
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