Trono De Sangue
6 Capítulo 6 BRAVURA INDÔMITA!
Notas iniciais
Nas asas dos falcões que riscavam os céus, a notícia da execução de Kardia voou com o vento aos quatro cantos de Darneheim.
O alvoroço se tornou visível nas tendas de Dwiefer que eram montadas ao redor da praça central, o local das execuções conhecido como Pillorium. Alguns se posicionavam ao lado de Regulus, outros, secretamente, apoiavam o destemor do Senhor do clã Skorpjun. Um rapaz loiro fazia apostas da pontaria dos arqueiros da execução, enquanto um homem rechonchudo apostava no tempo que Kardia levaria para morrer.
Em Berkehell, as vozes indignadas misturavam-se ao aroma das frutas e especiarias. Ninguém entendia porque as forças do clã Skorpjun não marchavam em direção a Dwiefer e libertavam Kardia. Pequenos senhores de terras, comerciantes, lavradores e até a Guilda das tecelãs mostravam-se dispostos a pegar em armas e lutar pelo seu Senhor, porém as forças do clã, comandadas por Kanon mantinham-se confinadas na fortaleza.
Em meio ao alarido que reverberava por toda a fortaleza, Kanon reunia-se com os generais e soldados. Sua expressão denotava desconforto, mas agia e falava com firmeza. Todos estavam alvoroçados, mas quando seu comandante elevou a mão pedindo silêncio, todos ficaram calados.
– Senhores, o que tenho a dizer são ordens do próprio Kardia. Uma ave foi enviada, em segredo, até onde ele se encontra confinado informando-o que Milo recebeu o sopro do deus Sombrio. Ao saber da notícia, ele decidiu sacrificar-se para que outros clãs se juntem a nós, quando Milo tornar-se o novo Senhor.
– Mas... isso levará mais quatro anos!
– Esse é o tempo para buscarmos aliados. Pela lei, nenhum clã pode ser atacado enquanto seu senhor não tiver idade para governar.
– De que valem as leis, agora? Regulus pode cuspir nelas como fez ao exigir a tutela dos primogênitos e agora exibe a filha bastarda para quem quiser ver e gostar! – gritou um dos generais com o rosto avermelhado e deixando escapar gotas de saliva.
– Eu sei. Mas, quando executar Kardia, Regulus não ficará em uma posição favorável. Mesmo em Dwiefer há descontentamento e insegurança. A morte de um Senhor de clã, desta forma, traz maus augúrios, sejam eles políticos ou... espirituais. Regulus está cavando um poço negro e profundo para si mesmo. – falou Kanon com a autoridade de quem havia sido escolhido como braço direito do Senhor do clã.
Escondido, Ikki ouvia a fala de Kanon e se esforçava para ser forte e não fraquejar. Era o segundo filho, tinha que manter a força da linhagem na ausência de Milo e proteger seu irmão menor. Entretanto, mesmo assim sentia um frio por dentro e um tremor que parecia sacudir seus ossos.
Mesmo sendo de dia, o clima sombrio fez com que pairasse sobre o ambiente uma escuridão que exigiu o acendimento dos archotes. As tochas chiavam ao serem beijadas pelo vento que entrava pelas amplas janelas. Então houve silêncio. Os generais se encararam e logo retornaram às discussões acaloradas sob o olhar paciente de Kanon.
Enquanto ouvia as palavras duras dos generais, Ikki pensava em Shun e mordia o lábio inferior com força, apertando os dedos até sentir as unhas cravando-se na palma da mão. Como direi ao meu irmão que nosso pai vai ser morto?
Imerso na profusão de seus pensamentos, o segundo filho de Kardia só aterrissou na realidade quando sentiu uma pequena mão tocando-o e olhos confusos e brilhantes fitando os seus. Shun!
– Ikki... o que vai acontecer com o pai? Ele vai ser resgatado? – perguntou o menino.
Com um nó na garganta, Ikki olhou-o, mas se obrigou a reter a própria angústia. Milo estava longe e ele era o mais velho, agora. Ajeitou o corpo e tocou os pequenos ombros do irmão encarando-o nos olhos.
– Shun... temos que ser fortes. Somos homens do clã Skorpjun, portanto, a morte é nossa velha conhecida. Lembra-se da história que nosso pai contou aquela noite? A do escorpião que pede para ser transportado rio acima pelo sapo?
– S-Sim... na travessia, o escorpião ferroa o sapo, mesmo sabendo que vai morrer junto com ele.
– E porque ele faz isso?
– Porque é da sua natureza fazer o que deve ser feito, mesmo que tenha de morrer. – respondeu Shun com um fio de voz.
– Muito bem, irmãozinho. Pois... nosso pai, ele...também fará o que é melhor para o nosso clã.
– Ele vai morrer... É isso que estão todos discutindo, não é? – pergunta Shun com lágrimas nos olhos.
– Sim, ele vai, mas como um herói... – completa Ikki, com a voz embargada. – E devemos oferecer a ele o nosso orgulho e não as nossas lágrimas.
Shun estremeceu e Ikki puxou-o para si, abraçando-o forte. Sentiu o próprio corpo sendo sacudido pelos soluços do menor e seu coração doeu duplamente, tanto pela perda pai, quanto pelo sofrimento intenso do irmão. Tentando achar algo para diminuir a dor de Shun, sacou do punhal de prata que ganhara de Kardia quando completara doze anos.
– Veja, ganhei este punhal de nosso pai quando venci o torneio de lutas. Agora ele é seu. Tem a força de nosso pai e a minha, dentro dele. Assim, quando você se sentir muito triste saberá que não está sozinho, As nossas duas almas estão aí dentro protegendo-o.
– Você não vai morrer, também, não é Ikki? Porque isso... eu não poderia suportar. Prometa que vai se cuidar. Prometa! – falou Shun guardando o punhal e agarrando-se ao irmão com mais força.
– Prometo, Shun... Vou viver e protegê-lo. Sempre! – disse Ikki acolhendo em seu coração os soluços engolidos do irmão menor e também, a própria tristeza.
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Na Torre Negra, Hakurei acariciou a ave que enviara para informar o Senhor do clã Skorpjun que seu filho havia recebido o sopro do deus Sombrio. Agora, outra ave chegava com a confirmação da execução de Kardia. Inspirou fundo, enquanto pensava em como dar a notícia a Milo. Infelizmente, alguém já falara e agora o garoto subia as escadas com o rosto pálido e angustiado.
– É verdade? – perguntou Milo sem que Hakurei tivesse tempo de pensar em como falar sobre o assunto.
– Sim, Milo. Seu pai será executado amanhã.
– Tenho que salvá-lo! Mestre, por favor, deixe-me ir! Kanon deve estar se aprontando para marchar até Dwiefer! Eu vou me encontrar com ele no caminho e...
– Milo... seu pai fez esta escolha e não há nada que possa ser feito para mudá-la. Kanon não marchará para libertá-lo.
– Não...? Como assim não vai marchar?! Ele não pode permitir que matem o meu pai!
– É a vontade de Kardia, filho. Lembra-se do jogo de skák e do que eu lhe disse?
– Não quero saber de jogo nenhum! Foda-se o skák! Não vou deixar matarem meu pai! – gritou o garoto dando as costas à Hakurei.
Milo correu, abrindo caminho entre os acólitos que se aproximavam para saber o que estava acontecendo. Desceu as escadas frias com velocidade e uma única intenção: resgatar seu pai.
Caía uma garoa fina quando ele montou um cavalo sem sela e saiu em disparada em direção ao cais. Sabia que se pegasse uma barca, podia aportar em Dwiefer dali a algumas horas e era o que tencionava fazer.
Quando saíra da Torre Negra, Zelos tinha lhe dado uma bolsa com alguns trocados. Tome!- disse ele. — Sei que fui covarde em deixá-lo sozinho naquela noite. Então... se precisar de dinheiro para ir até Dwiefer, essas moedas devem cobrir uma passagem. Apertou a bolsa de couro de encontro ao peito e bateu com os pés na barriga do cavalo, fazendo-o galopar com mais velocidade.
O céu ficou escuro e os mastros altos, da barca conhecida como Estrela Solitária elevavam-se como se pudessem tocar o céu. Homens cuidavam das velas e limpavam o chão quando Milo saltou do cavalo perguntando se iam até Dwiefer. O homem queimado de sol e com olhar de poucos amigos olhou-o de cima a baixo e cuspiu.
– Sim, nós vamos. Temos uma missão a cumprir. E você garoto? O que pretende fazer?
– Vou salvar o meu pai.
Fiodor de Mandrágora gargalhou e sua risada pareceu um guincho estridente. Seu rosto não tinha barba como da maioria dos homens que se lançavam ao mar, porém, mesmo assim, sua presença parecia incitar o temor.
–E como pretende fazê-lo, filho de Kardia?
– Não sei, mas vou tentar! Não entendo porque ninguém está indo resgatá-lo! Ele é o Senhor de um clã de covardes!
– Não julgue o que não compreende, Milo. – disse uma voz forte e conhecida às suas costas.
Milo virou-se. Seus olhos azuis cheios de angústia encontraram os de Kanon. O comandante encarou-o, observando que ele crescera bastante, mas ainda conservava a impulsividade juvenil e a beleza selvagem que atraía os olhares.
– Então me explique! Porque não está liderando os homens para libertar meu pai? – desafiou Milo.
– Porque seu pai assim ordenou.
– O quê? Como assim, ordenou?
– Kardia ordenou que protegêssemos você e seus irmãos até você tornar-se Senhor e liderar-nos na revolta contra Regulus. Ele não deseja ser salvo, Milo e sim tornar-se o exemplo da coragem e do destemor. Com sua morte, os clãs irão se unir e acabar com a Dinastia do Leão.
– M-Mas...
– Eu sei que é duro, mas você será o líder de um dos maiores clãs de Darneheim e desde já, deve aprender que um Senhor aceita a impermanência e o sacrifício. Trarei o corpo de seu pai para casa. Pode ir comigo ou ficar com seus irmãos. – disse Kanon.
– Eu irei e serei eu quem trará o corpo de meu pai! – respondeu Milo apertando os punhos com os olhos cheios de lágrimas, mas com firmeza na voz.
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A praça estava repleta de curiosos, vendedores, sons e cores. O céu, que sempre amanhecia claro e ensolarado em Dwiefer estava negro, parecendo desejar conservar a noite, antevendo o espetáculo que dali a algumas horas, ceifaria a vida de um Senhor de clã.
Kardia foi levado da Torre dos Lamentos em um cortejo pelas ruas estreitas. A escolta armada era composta de homens corpulentos que abriam caminho sem muita dificuldade e protegiam o Senhor do clã Skorpjun.
Os murmúrios iam se somando ao ritmo da marcha forte da escolta e dos soldados que enchiam a praça fazendo um cordão de isolamento com seus corpos. O Círculo de Honra estava presente no palanque em frente ao estrado onde Kardia seria amarrado e executado, assim como os balesteiros em prontidão,os Sacerdotes brancos de Gyðja, o deus Louco que pregava a liberação total, as Irmãs do Suplício, os acólitos do Senhor das Almas e da Mãe Zelosa de muitas faces.
O Senhor do clã Skorpjun caminhava altivo, sem nenhuma demonstração de medo ou qualquer outro sentimento. Seu belo rosto, agressivo e viril, era uma máscara dura de quem vencera o jogo. Sim, tudo se encaminhara segundo os seus planos. Sua morte seria um divisor de águas e nada mais seria como antes.
Apesar de o público gritar xingamentos ou escarnecer do condenado, ninguém se atreveu a atirar pedras ou frutos podres, embora muitas mãos estivessem prontas para tal. Cada vez que uma mão se preparava, Kardia olhava na direção e nos olhos do adulto ou criança. De imediato, o ato era abortado e o Senhor de Skorpjun continuava a andar como se nada tivesse acontecido.
Dégel percebeu a aura de poder em torno de Kardia, a forma como conseguia dobrar qualquer um, apenas com aquele olhar... o olhar que se transformara em fogo na noite em que ficaram juntos. Ainda sentia o calor da pele dele, os lábios percorrendo seu corpo, as mãos apertando-o enquanto o penetrava... O gongo soou e seu coração saltou junto, cortando as lembranças de prazer que o acompanhariam até a sua morte.
Olhou na direção do Círculo de Honra e percebeu que Saga ficara ao lado de Shion, ao invés de sentar-se com os outros membros do círculo. Pareciam todos tensos, assim como ele próprio. O único que parecia estar, excepcionalmente, calmo, era o condenado...
Kardia estava em pé, à frente de dois pilares de madeira unidos em forma de X. Vestia uma túnica de lã negra e um manto de lã, também negro com um escorpião bordado em dourado. Após ouvir a sentença ser proferida pelo Conselheiro Guardião, Kardia foi despido da capa e amarrado no pilar da execução. Em nenhum momento Dégel viu-o baixar a cabeça ou apresentar uma expressão preocupada. Parecia divertir-se com toda aquela estrutura montada para si.
Regulus elevou a mão direita no exato momento em que o sol rompia a escuridão e tocava o rosto de Kardia e também o túmulo de Aioros. Pandora estava ao seu lado, um pouco atrás e cochichou-lhe algo ao ouvido. O soberano franziu o cenho e ergueu-se. Sua voz, como sempre, encheu a praça, sonora e grave:
– Para que não digam que sou um déspota e não tenho misericórdia, dou a este homem a última chance de reconhecer seu erro. Curve-se, Kardia Adamán Alethea, Senhor do clã Skorpjun guardião de Berkehell, e eu, Regulus o punirei, apenas, com o exílio temporário de dez anos e assumirei seu primogênito que deverá residir sob os meus domínios até completar a idade de governar o clã.
Kardia olhou para Regulus como se ele houvesse dito uma sandice ou uma piada sem graça. Um sorriso sardônico emergiu dos lábios grossos e ele falou tão alto quanto o soberano:
– Está brincando...
A praça inteira murmurou inquieta. Alguns riram, outros gritaram Blasfêmia! Ele ousa caçoar do nosso soberano! Regulus apertou os maxilares e Shion baixou a cabeça como que buscando algo para amenizar a cena. Saga encarou Kardia com um misto de aprovação e ar de fatalidade, enquanto Dégel sentia-se estremecer. Kardia jamais retrocederia, seu objetivo era desencadear uma revolta dos clãs mais poderosos com sua morte.
Sentando-se na cadeira de espaldar alto, Regulus sinalizou para Shura que ordenou o posicionamento dos balesteiros. Os três soldados posicionaram suas bestas mirando no peito de Kardia que os encarava diretamente nos olhos.
– Então, que assim seja! Que a sentença se cumpra e que todos saibam que Kardia Adamán Alethea recusa-se a aceitar a autoridade de seu soberano e, portanto, é condenado à morte pelo crime de traição. Seu primogênito será trazido à Dwiefer e ficará sob a minha tutela até ter idade para liderar seu clã e jurar lealdade ao seu soberano! – disse Regulus.
– Não! – gritou Dégel. – Já se passaram dois anos e continuar nesta loucura trará a guerra a Dwiefer! Se deseja, realmente, mostrar-se como um soberano justo, devolva a autonomia aos clãs e permita que o ajudem na caçada ao assassino!
O público, mais uma vez se excitou e uma massa de corpos moveu-se de encontro ao cordão de isolamento formado pelos soldados. Uma onda de protestos e apoio mesclou-se ao movimento e Shura olhou para os seus homens, instruindo-os com rapidez.
Shion aproximou-se, buscando uma oportunidade junto ao seu soberano.
– Meu senhor, pela memória de Aioros e seu governo pacífico. Revogue a lei de tutela aos primogênitos. Não traga a guerra para Dwiefer.
Como se estivesse olhando para um estranho, Regulus encarou seu conselheiro e seus olhos profundos e azuis refletiam um brilho gélido e estranho. Shion percebeu que havia algo obscuro naquele olhar e perguntou-se como não havia percebido antes. Enfrentou o olhar de seu soberano de cabeça erguida. Sua intuição gritava que algo estava prestes a acontecer...
– Shion... de todos, és aquele de quem espero lealdade absoluta. Como ousas questionar a decisão de teu soberano?
– Como bem disse, meu senhor, tem minha lealdade, mas também a certeza de ouvir de minha boca conselhos baseados na verdade. Sei que o vosso coração foi ferido e essa dor atinge a todos nós que sempre amamos Aioros e desfrutamos de sua benevolência, enquanto soberano. Mas, os clãs não podem pagar pela tragédia como se fossem o próprio assassino.
– Conselhos baseados na verdade, você diz... Pois que fique bem claro que minha palavra é a verdade absoluta! Portanto, os clãs não estão sendo punidos e sim agraciados com a oportunidade de servir ao seu soberano até que esse assunto seja esclarecido. Então, quem se atreve a questionar aquele que detém a verdade?- perguntou Regulus correndo os olhos por todos que se encontravam no palanque.
Foi então que Dégel não mais suportou. Uma ira fria insinuou-se em suas entranhas. Os anos em que apoiara Regulus transformaram-se em uma guerra interna cujos revoltosos insistiam em lançar-se ao combate, mesmo sendo um suicídio. Tocando na bainha de sua espada, ele a desembainhou fazendo com que os soldados se movessem, instintivamente.
– Eu me atrevo! E vou mais além que apenas duvidar da vossa palavra... Eu, Dégel Roux Larc, Senhor do clã Akkwarju retiro meu apoio ao soberano de Dwiefer por não reconhecer neste homem, aquele que sempre amei e respeitei como soberano e amigo. Hoje, o que vejo a minha frente é um tirano! E, em nome das leis ancestrais de proteção dos clãs, exijo do Círculo de Honra e do Conselheiro Guardião que testemunhem este dia como aquele em que dois Senhores não se calaram diante de um déspota!
A multidão rugiu, os nobres, soldados e sacerdotes se moveram, inquietos. Regulus fitou Dégel com os olhos escuros, as pupilas dilatadas...
Kardia sorriu e sua expressão era de orgulho ao encontrar o olhar de Dégel. Quando Shura, sob as ordens de Regulus, prendeu Dégel, os dois senhores murmuraram um para o outro em total cumplicidade:
“Skák...”
Minutos depois, a execução teve início. Dégel foi contido à ferros e mantido no palanque, enquanto Kardia era transpassado por três flechas certeiras que cortaram o ar encontraram seu peito largo.
O público ficou em silêncio e o ar pareceu congelar, como se todos estivessem contendo suas respirações... O zunido das flechas foi o único som cortando aquele silêncio perplexo que parecia estender-se à brisa morna sempre constante em Dwiefer.
Todo o tempo, o Senhor do clã Skorpjun permaneceu com os olhos abertos e quando as três flechas rasgaram sua carne, alojando-se em seu coração ele exalou um suspiro baixo, antes de um filete de sangue escorrer pelo canto da boca. Sua cabeça demorou a pender e seus olhos permaneceram abertos, parecendo tomados por uma epifania.
Ele também recebera, quando muito jovem, o sopro do deus Sombrio e ali estava ele, recebendo-o em seu reino e, ao contrário de seu nome, o deus acolheu-o na luz...
No exato instante em que a morte acolheu Kardia, Milo adentrou a praça correndo, tentando abrir espaço entre a massa de corpos que se acotovelava em um prazer mórbido de presenciar os últimos estertores da morte de um senhor de clã.
O garoto sabia que aconteceria, mas ver seu pai amarrado e transpassado pelas flechas causou-lhe uma dor e aflição maiores do que imaginava. Teve vontade de gritar, mas ao sentir as mãos fortes de Kanon em seus ombros, lembrou-se de quem era e do que era esperado de si.
Milo engoliu as lágrimas e os soluços, presenciando um fenômeno raro e misterioso que ocorreu nos céus. O sol foi encoberto por inesperadas nuvens negras e espessas de tempestade transformando, em espantosa rapidez, o dia ensolarado em noite profunda.
O povo olhou para os céus com medo e incredulidade. Um forte vento que parecia surgir das entranhas da terra se abateu sobre as tendas, arrancando-as como se estivessem sido colhidas em um varal. Trovões estrondosos e raios multifacetados riscaram os céus e uma chuva torrencial caiu como se uma cachoeira descesse do firmamento tão escuro quanto um abismo.
Todos corriam e buscavam abrigo, apavorados ao constatar um fenômeno ainda mais estranho: a chuva era negra e oleosa e Regulus, assim como os demais ficaram cobertos pelo negror que parecia aderia à pele como se fosse uma vestimenta.
O único que permanecia limpo, como se a água se purificasse em contato com o seu corpo, era Kardia que, com os olhos abertos e vítreos, parecia estar achando tudo aquilo muito divertido...
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