Trono De Sangue

4 Capítulo 4 VERDADE E CONSEQUÊNCIA...


A delgada chama da vela vacilou com o sopro do vento.


Estava na hora...


Como se fosse umas das sombras do lugar, Hakurei de Altar permaneceu no corredor escuro vigiando à espera dos acólitos que haviam saído durante a noite.


Um a um, eles chegaram e se dirigiram, silenciosamente, às suas celas onde deitaram nas esteiras de palha e cobriram-se com um cobertor de lã, sem perceber que ele os havia visto e sabia o nome de cada um, apenas pelo som dos passos.


Todos haviam voltado, menos, Milo.


Hakurei se perguntava se havia se enganado com o menino, porém, quando ele chegou ao raiar da aurora e entrou altivo pela porta da frente, ele sorriu e soube que não se enganara.


O garoto fez uma saudação e olhou nos olhos de Hakurei, dizendo:


– Mestre, eu... saí ontem à noite sem pedir a sua permissão e fui até o canal das barcas, mas não com a intenção de quebrar meu juramento. Apenas, desejava fazer isso... – disse Milo mostrando a tatuagem em seu corpo.


Hakurei permaneceu sério, os olhos fitando os de Milo com uma intensidade que já fizera muitos homens desviar o olhar. Entretanto, o garoto não desviou e portou-se com uma dignidade própria de quem não recua diante de um desafio.


– E você foi sozinho? – perguntou Hakurei.


– Sim, mestre. Apesar daqueles filhos da puta terem me deixado para trás, não seria digno dedurá-los. Pensou Milo enquanto respondia sem hesitar.


A essa altura, os outros garotos espiavam por entre os pilares grossos e sentiam o tradicional frio no estômago tentando ouvir o que Milo e Hakurei conversavam.


– Acham que o mestre vai castigá-lo? – cochichou Asterion.


– Não! Milo é filho de Kardia, nem mesmo Hakurei ousaria... – Zelos respondeu baixo.


– O mestre sempre disse que a única autoridade aqui é o deus Sombrio. – completou Jamian.


– É, mas lembrem-se de que Milo recebeu o sopro do deus. Isso deve livrá-lo de muita coisa. – falou Argol.


A expressão de Hakurei era severa, mas em seu olhar não havia qualquer sinal de ira ou desaprovação. Milo não baixou o olhar, embora sentisse um pouco de vergonha por ter agido daquela forma. Abriu a boca para pedir desculpas, mas Hakurei falou primeiro:


– Sei que não estava sozinho, Milo. Dou aos jovens a liberdade de escolha, antes de confirmarem seus votos. Alguns se aventuram e decidem que não desejam ficar. Outros experimentam e resolvem permanecer como servos do deus. Mas, existem poucos que são escolhidos para uma missão muito importante e estes, devem ter fibra e honra. Você pertence ao último grupo, Milo e sua lealdade e caráter já se manifestaram. Venha, vamos até a biblioteca.


E voltando-se na direção dos pilares, emendou: — Vocês que estão escondidos observando e ouvindo como se fossem pequenos ratos covardes, vão cumprir com as suas obrigações! E para purificar esses corpos, vão orar e jejuar durante dois dias! Ah, e você Zelos, vai jejuar por três dias! Lembre-se deste dia quando liderar algo e depois omitir-se das consequências.


Zelos, Argol, Jamian e Asterion se apresentaram mantendo a cabeça baixa. Milo teve vontade de rir, mas apenas manteve uma expressão zombeteira e quando Hakurei deu as costas em direção à biblioteca, Milo o acompanhou depois de fazer um gesto obsceno com o dedo para os rapazes.


Na biblioteca Milo viu livros e pergaminhos antigos, assim como um imenso tabuleiro bem no centro da grande sala. O ar tinha cheiro de papel, incenso e um pouco de pó. Um filete de luz entrava pela janela e nele, pontinhos de poeira ficavam ziguezagueando até desaparecer no ar.


Pequenas peças que representavam pessoas, animais, armas e bandeiras estavam ao redor do grande tabuleiro e, após sentar-se em uma esteira, Hakurei arrumou-as e disse a Milo para sentar-se também. O garoto observou a cena e logo percebeu que não era apenas um jogo. Nada na Torre Negra era para diversão. Havia sempre um teste, uma lição, um conselho.


– Está vendo esta área central? Vamos imaginar que seja Darneheim. Aqui inicia o nosso jogo. Escolha as suas peças.


Milo foi escolhendo, enquanto Hakurei arrumava as peças de forma a delimitar territórios. Depois de tudo organizado, ele iniciou o jogo propondo uma questão à Milo:


– Diga-me, se para vencer-me, você necessitasse sacrificar apenas uma das suas peças. Qual seria? Escolha uma.


Olhando para o tabuleiro, o garoto pensou e pensou, já que não conhecia as regras do jogo. Então, por intuição, pegou um boneco que parecia destacar-se de todos. O restante das peças eram homenzinhos, mulheres, animais, bandeiras...


– Tem certeza? – perguntou Hakurei.


– Eu não conheço este jogo, mas se preciso vencer e só tenho uma escolha... Bem, só me resta esta peça. Ela me parece importante, e é a única com peso, entende? Então acho que o sacrifício recai sobre ela, mas... não entendo como isso me levará até a vitória. – respondeu o garoto franzindo o cenho.


– No skák temos a oportunidade de visualizar estratégias. Ao contrário de certos jogos onde a figura de maior poder tem que ser protegida, aqui o personagem de mais valor sabe quando deve dar o passo à frente. É ele quem protege o restante e não o contrário. Por isso, quando uma decisão é tomada e exige sacrifício, é ele quem arca com o ônus.


Milo olhou para Hakurei ainda com um brilho de ingenuidade nos belos olhos azuis. Mal sabia ele, que entenderia e sentiria a dor daquelas palavras bem mais cedo do que gostaria...


– Mas, se o personagem principal arca com tudo, como fica o resto? Seria como sacrificar o senhor de um clã, não é? – perguntou Milo.


– Existe um tempo e a oportunidade. É isto que este jogo ensina. Diferente do Soberano, o Senhor de um clã vive a impermanência. Por isso, mesmo que o primogênito herde o título de Senhor, se algo acontecer a ele, os outros irmãos continuam. Na linhagem dos clãs não existem bastardos, todos são legítimos. Entende a diferença?


– Entendo.


– Bem, agora que já teve a sua primeira lição, vamos jogar. Uma partida simples de tomada de território. Mas, antes, vamos comer um pouco. Deixe as suas peças arrumadas e vamos até aquela mesa. Mandei preparar um desjejum especial com frutas secas, mingau de aveia e pão ázimo.


O garoto sorriu e levantou-se com rapidez. Tinha fome já que sua última refeição tinha sido ao entardecer do dia anterior. Embora preferisse o desjejum que era servido em seu lar, já se acostumara às refeições frugais servidas na Torre.


Nada de bacon, pão assado, mel, leite de cabra e bolos de aveia recheados com frutas secas. Ah! Aquilo sim era comida! Pensou Milo fechando os olhos enquanto mastigava o pão seco e sem fermento, imaginando os bolos quentes e deliciosos da cozinha de seu lar.


Hakurei observou-o com ternura, embora seus olhos atentos não revelassem tal sentimento. Juntou-se a Milo e também comeu deixando os pensamentos sombrios guardados em sua mente e em seu coração. Tudo tinha o seu tempo sobre a terra e agora era o momento de, apenas, desfrutar de um bom desjejum....



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Você não podia ter feito isso! – gritou Ailish. A voz histérica reverberando na amplidão do salão principal.


Alheio ao protesto da esposa, Regulus permanecia sentado no trono de pedra com o rosto apoiado na mão direita. Era quase meio dia de uma cinzenta e agitada manhã. O céu setentrional estava congestionado pela fumaça vinda dos incêndios que assolavam vários pontos em Dwiefer.


A expressão do soberano estava fechada e, embora Ailish o provocasse, ele apenas a ignorava.


– Não finja que não me ouve! Desde a morte do nosso filho que você enlouqueceu. Não o reconheço mais! Além do sofrimento, tenho que suportar mais esta situação, vê-lo trazer sua bastarda para viver aqui! A lei é clara, os filhos ilegítimos não possuem lugar na...


– Chega, Ailish! Cale-se e não ouse discutir minhas ordens! Pandora é minha filha e eu a quero perto de mim. Algumas leis têm de ser mudadas! – ordenou Regulus interrompendo a fala de sua esposa.


Neste momento, Dégel entrou no grande salão. Olhou para Ailish que estava com os olhos vermelhos e as vestes descompostas. Depois, pousou os olhos em Regulus que olhava para os céus como que procurando respostas que não vinham.


Já se passara dois anos e todos os esforços para encontrar o assassino de Aioros tinham fracassado. Somado a isso, revoltas começavam a estourar em diversos pontos de Darneheim. Até mesmo ali, na terra natal do jovem soberano, havia se formado um grupo de rebeldes que questionava as ordens e decretos do soberano. Os pequenos saques e incêndios começaram a tornarem-se, constantes...


– Meu senhor... precisamos conversar. – disse Dégel fazendo a saudação habitual ao soberano.


– Dégel! Você é a nossa Voz, por favor, diga a ele que trazer essa bastarda para cá só vai piorar as coisas! – falou Ailish agarrando-se ao braço do Senhordo clã Akkwarju.

Senhora... por favor, deixe-nos às sós e eu farei o que puder. – respondeu Dégel, baixo.


A mulher obedeceu, as mãos trêmulas sinalizando a grande perturbação em que se encontrava. No mesmo instante, Saga, o líder do Círculo de Honra, entrou acompanhado do conselheiro Shion e foi ter com Regulus e Dégel.


Saga estava sério, assim como Shion. Desde que Dégel havia se curvado e assim, conseguido manter seu clã protegido, Regulus assumira a liderança, enquanto Aiolia não atingia a idade para substituir Aioros.


Aconselhado por Saga, o soberano enviara Aiolia para Irmied e, em troca, deixara o clã que jamais se envolvera com guerras e mantinha-se afastado da civilização, intacto e soberano quanto ao seu destino.


Ensandecido e sequioso por resultados, o soberano iniciara uma caçada em busca do assassino do filho. No entanto, ninguém foi encontrado e a pressão sobre os outros clãs foi intensificada. Informações distorcidas criavam mais atritos que ajudavam. Um clima de terror ameaçava transformar Darneheim em algo bem diferente do sonho de paz conquistado por Aioros.


Kardia havia sido preso, após declarar-se contra as ordens de Regulus e sua insurreição acabou por incitar outros. A situação estava saindo do controle e outros senhores menores, uniam-se aos grandes clãs para desafiar a autoridade ancestral do clã Iljun.


– Senhor, precisamos reverter o quadro de insurreições. Mesmo o apoio dos homens livres não serão o suficiente para impedir uma guerra, caso haja uma ação conjunta de todos os outros clãs. – disse Saga com sua voz profunda.


Regulus olhou-o. Havia algo nos olhos azuis acinzentados do soberano que Shion observou de relance, mas que o intrigou. Nunca o caos reinara sob a dinastia dos leões. A premissa maior sempre fora a justiça, a unidade e a proteção. E, agora, ele vislumbrava um brilho de loucura em seu soberano, o homem que amava como um filho.


– Saga tem razão, meu senhor. Precisamos retornar às origens quando Iljun recebeu a benção de liderar Darneheim. Tentemos trazer os líderes dos maiores clãs para o nosso lado. Liberte Kardia e vamos convocar uma grande Assembleia para tecer novas estratégias! – completou Shion.


O soberano levantou-se. Parecia cansado, porém seus olhos refletiam uma fúria e um ardor que tanto Shion, quanto Saga jamais tinha percebido em seu senhor.


– Kardia será trazido a mim e deverá curvar-se, obediente, como deve ser! Se não o fizer, será executado como exemplo do que acontece com quem desafia o Leão.– disse Regulus ignorando as palavras de seus conselheiros.


– Meu senhor, Kardia é um líder poderoso. Por favor, deixe-me tentar convencê-lo a ajudar-nos. Não tome nenhuma medida precipitada. – adiantou-se Dégel.


– Até onde eu sei, você tentou e falhou! – respondeu Regulus.


No mesmo instante da resposta de Regulus, Pandora adentrou o salão em seu usual e magnífico vestido negro. Havia se tornado uma bela mulher com um corpo esguio e longos cabelos negros. Um decote generoso deixava antever a curva dos seios pequenos e o colar de diamantes e rubis brilhavam no pescoço gracioso. Seu andar era deslizante e seu olhar parecia refletir todos os humores de seu pai.


– Bom dia, senhores. Mandou chamar-me, meu senhor? – disse ela com voz suave e ajoelhando-se à frente de Regulus.


– Sim, minha menina. Levante-se! Não é necessário ajoelhar-se. É minha filha, minha princesa... – disse o soberano estendendo-lhe a mão.


Saga e Shion continuaram impassíveis, apesar da cena inusitada. Dégel inspirou e esperou, sentindo de antemão, um gosto amargo de derrota.


Pandora sentou-se em uma almofada ao lado do trono de pedra, porém Regulus a fez levantar e puxou-a para o seu colo, cochichando algo em seu ouvido, fazendo-a sorrir. Ela cochichou de volta e os dois se olharam nos olhos antes de Regulus depositar um beijo leve nos lábios da filha.


– Bem, senhores, acabo de perguntar a minha filha que atitude devo tomar: agir com clemência ou agir com rigor? Sabem o que ela respondeu? Que o leão é soberano e jamais se curva!


Ao ouvir aquilo, Dégel sentiu seu sangue ferver. Tinha se curvado, vivido a humilhação de ser considerado um senhor covarde, deixado seus filhos e aceitado ser a Voz do soberano, um cargo que o tornava intimamente ligado à Regulus e tão importante e influente, quanto os dois conselheiros ali presentes. Porém, agir como a Voz nada mais era que confirmar sua subjugação, uma forma que encontrara de tentar demover Regulus de seus constantes desatinos autoritários. E até isso, tinha falhado...


– Quando me curvei a sua autoridade, o fiz na esperança de manter a paz e a segurança de todos! Porém, creio ter cometido um erro e já é hora de consertá-lo. Abdico da função de ser a Voz do soberano, recuso-me a representar a intolerância e a tirania! – gritou Dégel retirando, do pescoço, a corrente com o medalhão em ouro e preta com a insígnia do Leão.


Regulus ficou sério, sua boca curvou-se em um esgar de ira, mas ao fixar os olhos em Dégel, pareceu recuperar um pouco de lucidez, enquanto Pandora permanecia alheia ao clima pesado e brincava com as pedras de seu colar.


– Dégel... como ousa abandonar-me? – falou o soberano.


– E o senhor? Como ousa aconselhar-se com uma criança sobre assuntos que significam vida e morte em seus domínios? Não sou um fraco, nem um fantoche! Submeti-me pensando em um bem maior, não em mim mesmo. Porque, se dependesse apenas da minha vida e vontade, eu estaria na mesma cela em que Kardia se encontra! Darneheim está afundando no caos e, ao invés de buscar soluções, suas atitudes só geram mais descontentamento. Está cego, Regulus e nem mesmo eu estou conseguindo fazê-lo enxergar, portanto, meu cargo como sua Voz acaba aqui! Não serei porta-voz de um tirano!


Shion e Saga aproximaram-se de Dégel, apoiando-o.


– A Voz tem razão! Foi para isso que o nomeaste, meu senhor. Para alertá-lo das armadilhas e dizer, somente, a verdade. Uma verdade que é recusada em cada medida que é imposta pela vossa autoridade. – disse Shion.


– Dégel apoiou-o quando todos os outros recusaram. Torná-lo sua Voz implica em ouvir a sabedoria que não está somente no cargo, mas na vivência dele como senhor de um dos clãs mais poderosos de Darneheim! O Círculo de Honra ainda acredita que tudo pode ser resolvido com civilidade, desde que se adotem outros métodos na caça ao assassino. – completou Saga.


– Saiam! Saiam todos, menos você, Dégel! – gritou Regulus.


Pandora olhou para seu pai e ele sinalizou-lhe que também saísse. Quando todos cruzaram o grande arco, Regulus aproximou-se de Dégel. Os olhos vermelhos e a respiração ofegante denunciaram que algo estava errado. Preocupado com seu soberano e amigo, Dégel se aproximou e Regulus apoiou-se em seu ombro.


– Não me abandone... Dégel! Não faça isso... – disse com uma voz rouca. – É meu único amigo. Único!


– Não posso concordar com o que fazes, Regulus. Cada vez mais, o vejo afundar-se! Onde está o homem digno e justo que combateu ao meu lado?


– Sou o mesmo homem! Mas, agora, tenho de ir até o fim... Deixe-me, se assim o desejar! Mas, quero que saiba que encontrarei o assassino de Aioros mesmo que isso me custe a sua amizade.


– Minha amizade? Perderá mais que isso, meu senhor. Perderá um reino. E, se quer um último conselho, mande Pandora de volta. A presença dela aqui, somente acirrará os ânimos.


– Pandora é minha filha e seu lugar é ao meu lado. – disse Regulus desabando sobre o trono de pedra, com o cansaço estampado nas belas feições.


– Pois que seja. Temo ser a última vez que nos falamos, meu senhor. – disse Dégel visivelmente triste.


– Quem diz a última palavra sou eu. E, quero que saiba que, se abdicar de seu cargo, tornar-se-á meu inimigo!


– Seu inimigo não sou eu e sabe disso. Seu maior inimigo, neste momento, é você mesmo! Adeus, meu soberano. – disse Dégel dando as costas à Regulus.



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A prisão de Kardia não era um calabouço fétido e insalubre, mas mesmo assim era uma prisão.


A Torre dos Lamentos, como ficara conhecida era o lugar onde ficavam presos os senhores de clãs. Era alta e possuía várias celas, onde o prisioneiro podia usufruir de uma cama, uma latrina, uma mesa com uma bacia de prata, um jarro de água fresca, uma poltrona em frente a uma pequena lareira e uma pilha de papeis dispostos em uma prateleira junto a uma pena e um tinteiro.


Um cativeiro de luxo, pensava Kardia, olhando através da janela. A vista que tinha era belíssima, montanhas altas e azuladas serpentando no horizonte, o verde se metamorfoseando em marrons, amarelos e vermelhos das folhas e dos frutos, o sol livre e luminoso abrindo espaço entre as nuvens...


O cheiro de mar que adentrava pela janela lembrava Berkehell e suas especiarias, o cotidiano dos portos e os dias quentes... Às vezes, no início da manhã o sol entrava pela janela, mas não demorava mais que alguns minutos e logo, aqueles aposentos mergulhavam nas sombras.


A única visita que Kardia recebera fora de Dégel, o Senhor que se curvara e agora era a Voz do soberano. Lembrou-se da expressão do rosto como em um apelo, das palavras estudadas para fazê-lo mudar sua posição e sentiu as entranhas se apertarem. Um Lobo jamais deveria dobrar-se daquele modo, como se fosse um cão! Pensava, enquanto mantinha uma expressão de escárnio no rosto viril.


Um criado entrou trazendo a sua refeição, vinho, pão, carne de bisão defumada e frutas secas. O homem não era autorizado a falar com ele, assim, entrava mudo e saía calado, o que, para Kardia era uma benção. Não tinha a mínima vontade de falar com nenhum daqueles capachos. Nem mesmo Dégel com seu discurso pacifista conseguira demovê-lo de continuar a ser um rebelde. E, se o deus Sombrio o ajudasse, sua vontade férrea seria o impulso das ações que libertariam Darneheim da tirania do Leão.


Após a saída do criado, uma ave semelhante a um melro pousou na murada da janela e voou para dentro da cela. Havia um pequeno canudo preso em sua perna e, em seu interior, um bilhete. Kardia pegou-o e leu. Um sorriso escapou-lhe dos lábios e, de repente, a refeição lhe pareceu por demais apetitosa...



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Regulus estava em pé junto à janela, observando a última luz do sol desaparecer entre as montanhas, quando um grito agudo e desesperado irrompeu o salão quebrando aquele raro momento de paz que parecia devolver-lhe o centramento que sempre lhe fora característico.


Perturbado, voltou-se para a porta em arco e viu Pandora correr em sua direção e cair aos seus pés com os olhos vermelhos e inchados.


– Pandora, o que foi minha filha? – perguntou Regulus pegando-a pelos braços.


– A-Algo... h-horrível meu pai! A senhora... a Senhora...Eu fui vê-la e...


– O que aconteceu? Fale!


Com lágrimas escorrendo dos olhos escuros, Pandora apontou na direção dos aposentos de Ailish que, desde a morte de Aioros, mudara-se para um quarto separado de Regulus.


A porta do quarto estava entreaberta e algo balançava como um pêndulo, lançando sombras furtivas nas paredes claras.


Regulus correu e escancarou a porta, deparando-se com uma horrível cena: suspensa pelo pescoço por uma corda amarrada em uma das arquitraves do aposento, Ailish balançava com suas vestes rasgadas, os cabelos longos cobrindo parte dos seios, os olhos abertos e vítreos, a língua arroxeada pendendo para fora da boca.


Ao chão, uma carta jazia escrita com tinta e sangue. Sangue que escorria de um dos pulsos cortado com um punhal de prata, também no chão e junto ao papel contendo as últimas palavras de Ailish.


“Não posso mais suportar a dor, nem saber que o assassino continua livre e impune. A morte será meu doce refúgio e rogo ao Senhor das Almas e à Senhora Zelosa de Muitas Faces que recebam a mim com o mesmo amor com que receberam meu filho Aioros.”


Assim como o filho, Ailish foi encaminhada à Torre dos Mortos. Houve uma comoção muito grande pela perda da senhora que sempre fora reconhecida como uma mulher ponderada e bondosa. Prantos e lamentos ecoaram pelos corredores, enquanto o corpo coberto com seda branca era carregado sobre uma padiola de madeira parecendo uma entidade fantasmagórica.


Regulus, amparado por Pandora retirou-se para uma capela existente no último recanto da imensa fortaleza e lá permaneceu de joelhos, sem nada dizer, apenas olhando para as velas acesas que tremulavam, exalando um aroma de mel...


A dança das pequenas chamas ardia em castiçais dourados, frente à escultura em mármore negro do Senhor das Almas. O deus não possuía face, ao contrário da Senhora Zelosa de Muitas Faces que exibia as três idades de uma mulher: a jovem, a mãe e a anciã.


Encoberto por um capuz negro, o Senhor das Almas ocultava em si, os segredos da vida após a morte e estendia as mãos de finos e longos dedos como uma benção e um chamado a todos os homens prontos a adentrar os seus mistérios...


Um silêncio tenso desceu sobre a fortaleza e permaneceu no ambiente como algo tangível e denso. Enquanto Regulus orava, Saga convocava o Círculo de Honra e Shion, novamente, examinava o corpo de alguém que amava e admirava, na Torre dos Mortos.


Sob a luz intensa de vários archotes ele dispensou, por algumas horas, as Irmãs do Suplício e observou a mulher morta e pálida, cujo pescoço exibia as marcas da corda dourada, retirada do dossel que enfeitava a cama.


Hematomas espalhados pelo corpo de tez clara, assim como aquele olhar mortiço, parecendo que tentara registrar uma última e importante imagem fez com que Shion observasse cada detalhe, fossem pelos, marcas de nascença ou um simples e minúsculo pontinho, que se assemelhava a uma picada de inseto.


O olhar atento e investigativo do homem que era o Grande Conselheiro percebeu algo que o fez estreitar os olhos e mandar chamar, Shura, com redobrada urgência.


O comandante atendeu ao chamado quase imediatamente. Ao chegar de uma missão, desmontou de seu garanhão negro e foi direto ter com Shion. Enquanto atravessava o pátio, ouvia todos comentando que sua senhora havia tirado a própria vida. Algo que ele custava a acreditar.


Senhor das Almas! Amparai-nos... Pedia Shura, correndo e galgando os degraus da Torre da Morte de dois em dois. Mais uma vez sentia o coração disparado e uma sensação horrível na boca do estomago. Quando por fim, chegou à sala de preparação dos mortos, ajoelhou-se e levou a mão ao peito, num ato reflexo.


– Minha... senhora... – sussurrou vendo o corpo sem vida.


– Levante-se, Shura. Ela não pode mais vê-lo e não temos muito tempo. – disse Shion com voz grave.


O jovem olhou para Shion sem entender do que ele falava. Então, o Conselheiro aproximou-se dele sinalizando para que fosse até um jardim interno, lugar onde as Irmãs do Suplício entoavam cantigas fúnebres antes de preparar os mortos.


No centro do jardim, uma árvore desprovida de folhas elevava seus galhos secos como braços abertos em súplica a algum deus. Shura acompanhou-o, o corpo tenso e a mente fervilhando. O cheiro da morte parecia ter se espalhado até ali, onde não havia paredes, nem archotes e nem velas...


Então, embaixo da árvore conhecida como a Suplicante, Shion fitou o comandante com seus olhos violáceos e disse com autoridade:

Ailish não se suicidou, ela foi assassinada, assim como Aioros! Quero que escolha alguns homens de sua absoluta confiança e mande-os vigiar dia e noite todos que mantém contato íntimo com o soberano. Tenho fortes motivos para acreditar que o assassino está entre nós.

Notas finais
*** O skák é um jogo que eu inventei, que é o inverso do xadrez, ou seja, quem se sacrifica é o Rei ou Senhor. E é o poder de sacrifício deste rei ou senhor que vence o jogo.
AGRADECIMENTOS: Kassiminha, Chakal_Maldito, LSA, Mel Dark, Vanessa, Sion neblina,DDKarolina e quem mais chegar! A luz de vocês brilha em cada comentário e em meu coração! Bjs, XD