Trono De Sangue
35 Capítulo 35 - O LEÃO RUGE! Parte II
Notas iniciais

A chuva fustigava os rostos com violência e, em meio à confusão, os soldados tentavam conter seus cavalos, enquanto Aiolia e os demais desembainhavam suas espadas. Shaka fechou os olhos e buscou Hyoga que se posicionara atrás das tropas. O jovem Maístir respondeu mentalmente a questão do Senhor de Irmied. Ambos sabiam que aquela tempestade, seguido do surgimento dos répteis, era sinal da intervenção de Hades desejando mostrar o poder das sombras.
Os cabelos longos de Shaka se elevaram como fios de luz desafiando a chuva. O ar ficou ainda mais eletrificado, raios e trovões se sucediam tão rapidamente que a paisagem parecia ter se transformado em uma batalha de elementos, água desafiando o fogo, a terra fustigada pelo vento...
Ao mesmo tempo em que Shaka abria os belos olhos transformados em orbes de luz, Hyoga se elevava no ar com os braços abertos, palavras murmuradas ultrapassavam a barreira da fúria da tempestade e, de repente, pingos grossos de chuva se metamorfoseavam em flocos de neve.
Os soldados olhavam para cima, surpresos com a transformação, enquanto o Senhor de Irmied desmontava do cavalo e andava na direção das criaturas. Ikki desmontou também com a espada em punho, mas um gesto de Shaka o fez parar. As criaturas moviam os corpos de forma sinuosa, avançando com cuidado, enquanto sibilavam.
Shaka deslizou os dedos pelas contas do colar, a pele sentindo a vibração e o desejo de liberar a força. Não deixe que ela o seduza! Repetiu, mentalmente, para si, enquanto virava as palmas da mão para cima.Uma luz azulada envolveu os dedos longos e finos, projetando-se na direção dos répteis.
Só então, todos visualizaram melhor o que eram aquelas criaturas... Pareciam lagartos gigantes cuja pele era composta de escamas negras e reluzentes. A língua bífida se lançava fora das bocas junto com um sibilo monótono semelhante ao zumbido de milhares de abelhas.
Milo armou o arco, porém, antes que disparasse com a agilidade que lhe era característico, Shaka envolveu uma das criaturas com a luz que brotava de suas mãos. O réptil foi se desintegrando até restar, apenas, um odor ocre e enjoativo de carne queimada. As demais criaturas recuaram, mas a luz as buscou e envolveu dando a elas o mesmo destino.
Hyoga se aproximou de Shaka e os olhares se encontraram. O Maístir tocou o ombro do Senhor de Irmied com uma cumplicidade muda, pois sabia o quanto aquele ato custava a um homem como ele.
— Shaka, você está bem? – perguntou Ikki, baixo, ao se aproximar dele.
— Sim, eu estou. – a resposta veio rápida e seca, como se evitasse maiores considerações sobre o assunto. Porém, o jovem guerreiro compreendia o porquê e, de certa forma, temia por isso.
— Tudo bem por aqui. Podemos ir em frente! – gritou Ikki.
Milo, Kanon e Aiolia se olharam em silêncio. Então, o jovem soberano falou:
— Vencemos mais uma etapa, mas precisamos nos reorganizar e acertar alguns detalhes importantes. Sugiro que busquemos um local para acamparmos, por hora. Deixemos que Hades pense que nos atrasou.
Mesmo contra a sua vontade, Milo acatou a fala de seu soberano, olhando na direção de seu general de confiança. Kanon fez um movimento de cabeça, compreendendo a ordem muda de indicar um local propício à concretização da vontade de Aiolia.
— Podemos seguir em frente, até chegar à enseada dos corais negros. Lá, existem cavernas onde podemos nos abrigar até o tempo firmar, totalmente. – falou Kanon.
As tropas seguiram em fileiras, Shura, Shiryu e Máscara da Morte cavalgavam lado a lado, desviando de árvores caídas e cuidando o lamaçal que se formara com a tempestade. O mar retornava à calmaria, embora ondas gigantescas ainda se elevassem e quebrassem na praia. O silêncio permitia ouvir o som da água batendo nas rochas, dos cascos dos cavalos, do vento que acalmara, mas que ainda fustigava os corpos.
Aiolia refletia sobre todos aqueles homens lutando ao seu lado e sentia como se tivesse amadurecido anos naquelas poucas horas de convivência. No caminho para a enseada, grupos grandes e pequenos se somavam ao exército do soberano. Havia, em cada olhar, a esperança de voltar ao que era antes, quando a paz reinava em Darneheim. Tudo isso acrescentava mais responsabilidade sobre os ombros do jovem leão. Entretanto, a mudança em sua personalidade o fazia acolher tudo isso com muita clareza e decisão.
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Ao cair da tarde, aos poucos, as trevas circundavam a pirâmide negra, enquanto os acólitos devotados ao martírio e consagrados ao culto sombrio continuavam com seus lamentos e autoflagelação. Ao mesmo tempo em que alimentavam aquele monumento hediondo com seu sangue, recebiam de volta a permissão de dar vazão aos mais sórdidos instintos. Cenas repulsivas somavam-se ao medo daqueles que permaneciam fiéis ao clã do leão, mas não podiam se manifestar.
Pandora estava perto da janela, observando a movimentação e a diminuição da luz. Dali a dois dias, tudo acabaria e isso, ao invés de deixá-la preocupada, trazia uma estranha serenidade. Logo, toda essa loucura encontrará o seu fim e eu... terei paz.
— Senhora?
A voz rouca e baixa da criada a fez voltar o rosto.
— Sim?
— Uma pessoa deseja falar-lhe.
Os olhos violáceos se estreitaram. De imediato ela soube quem era.
— Diga-lhe que entre.
A criada fez uma reverência e saiu. Em seguida, uma figura encapuzada entrou, posicionando-se próximo da lareira e do símbolo acima dela, o escudo de prata estampado com a figura majestosa de um leão.
— Pensei que Hades não permitiria a permanência disso. – falou uma voz masculina em tom grave.
— Nem tudo pode ser apagado. Mas, não foi para isso que veio, senhor... meu pai.
Regulus afastou o capuz o suficiente para fitar sua filha nos olhos. Ela o reconhecera no instante em que ele colocara os pés naquele salão.
— Você sabia.
— Sim, desde que pediu esta conversa.
— Você é mais poderosa que a sua mãe.
— O que veio fazer aqui? – cortou Pandora.
— Arrisquei vir para avisá-la. Achei que deveria tentar impedi-la de...
— Não perca seu tempo. – cortou ela, mais uma vez. – Sugiro que saia, agora.
Elevando a mão trêmula, Regulus se aproximou de Pandora, mesmo arriscando que ela o rejeitasse.
— Eu cometi erros imperdoáveis, mas eu a amo, verdadeiramente. Quando tudo isso acabar, eu...
Neste momento Pandora levou os dedos delicados aos lábios do pai.
— Quando tudo isso acabar, tudo voltará a ser como antes. Agora vá, antes que perca a sua vida. Não poderei esconder a sua presença, aqui por mais tempo.
Com uma expressão sombria, Regulus obedeceu e deixou o lugar. Tinha arriscado muito ao ter ido ali, mas a angústia que sentia havia abafado o bom senso. Lá fora, Shion o esperava escondido sob uma tenda próxima da fortaleza, onde vendedores ambulantes tentavam negociar artigos para flagelação. O burburinho lembrava uma colmeia de abelhas, zunindo em torno da grande pirâmide negra que parecia absorver a energia humana de um jeito assustador.
— Já estava ficando preocupado e arrependido de dar ouvidos a essa sua ideia. – murmurou Shion quando Regulus se aproximou dele.
— Eu precisava tentar. Sei que você gostaria de ter se juntado às tropas do meu filho, mas Pandora... Apesar de tudo, ela é minha filha, também.
Shion fitou o rosto de seu amigo com pesar.
— Creio que Pandora está além do que possamos fazer. Olhe em volta, toda essa gente está envolvida em perversidade, ganância e escuridão. Hades cairá e Pandora irá com ele.
A mão de Regulus apertou o ombro de Shion com força, mas ele nada disse. A dor estava estampada nos olhos azuis que agora careciam de brilho e força.
— Vamos, precisam os nos preparar para nos unirmos às forças que combaterão Hades quando elas chegarem.
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As conversas se alternavam naquele espaço rochoso. Os clãs unidos à Aiolia possuíam as mais diferentes procedências, mas via-se que, apesar disso, o espírito combativo era o mesmo. Pequenas fogueiras foram acesas e as provisões, compartilhadas.
Máscara da Morte relembrava sua noite com Afrodite, enquanto Ikki se aproximava do senhor de Irmied.
— Quer beber um pouco? – perguntou o jovem estendendo um cantil na direção de Shaka.
O loiro aceitou, mais para permitir a aproximação daquele que detinha o seu coração, que por necessidade real. A mão forte de Ikki sempre lhe transmitia segurança e bem-estar, apesar de ele ser mais jovem.
— Obrigado. – disse, simplesmente.
— De nada. – respondeu Ikki, já se afastando.
— Espere... – falou Shaka.
Quando os olhos azuis profundos encontraram os seus, o senhor de Irmied sentiu-se incomodado. Ikki podia ser mais jovem em idade, mas possuía maturidade suficiente para compreender certas coisas, principalmente se os sinais estivessem evidentes como sabia que estavam.
— Esse poder... Ele é capaz de despertar em mim a verdadeira índole dos meus ancestrais e isso muda tudo, principalmente, o fato que isso contraria o que considero de melhor em mim.
— Eu sei.
— Está decepcionado comigo.
— Não, mas, vai ter que decidir sozinho se deseja honrar essa herança ou deixar que ela o consuma.
— Eu sempre escolherei defender a vida, mas cada vez que uso deste poder, sinto que algo sombrio dentro de mim se fortalece, independente da minha vontade.
— Escute, você, mais que qualquer um de nós, possui uma vontade superior a tudo isso. O amor sempre guiou as suas ações, você construiu um lugar pacífico de cura e se tornou uma referência em toda Darneheim. Ao invés de tentar resistir, assuma sua herança e a transforme. Você pode fazer isso!
Shaka levou a mão ao rosto do jovem e algo dentro de si, se expandiu. Desde que o conhecera, suas emoções adquiriram importância e seu coração vibrava com a paixão recém-descoberta.
— Você foi o presente mais precioso que os deuses me concederam. – disse o senhor de Irmied num tom que misturava amor e tristeza.
— Você me devolveu a vida. Se alguém aqui tem que agradecer aos deuses, esse alguém sou eu. – emendou Ikki.
Um riso espontâneo brincou nos lábios de Shaka.
— Somos ambos agraciados pelos deuses.
O jovem guerreiro também sorriu e, em seguida, aproximou os lábios da boca entreaberta de Shaka. O beijo seguiu-se terno e rápido, apenas uma prova que nada seria capaz de separá-los.
— Agora vou falar com Milo. – disse Ikki.
Shaka assentiu com a cabeça e olhou na direção onde o senhor de Berkehell se encontrava. O interior da caverna era tão amplo quanto o exterior, visível a grandes distâncias. As falas ecoavam por entre as paredes rochosas e havia, também, o som da água escorrendo por entre as estalactites até formar um imenso e profundo lago azul que se estendia até lugares, cuja profundidade, eles não alcançariam.
Milo estava próximo ao lago e tinha nas mãos uma flecha negra e longa. Seus dedos longos tocavam o artefato como se ele estivesse colocando ali, toda a sua energia e intenção. Aquela era uma flecha especial, banhada em seu sangue venenoso.
— Milo...
O senhor de Berkehell voltou-se para aquele que o chamava.
— Fala, Ikki.
O jovem sorriu.
— Eu sei que é cedo para perguntar o que vai acontecer depois que derrotarmos Hades, mas... eu gostaria de saber se você permite que eu acompanhe o Shaka de volta à Irmied quando tudo isso terminar.
Os olhos azuis de Milo fitaram o rosto do irmão. Ikki era um guerreiro nato. Sempre fora. Muitas vezes havia se perguntado se não seria melhor que ele fosse o filho mais velho. Ikki não duvidava, tinha uma índole inabalável... Mas, até mesmo ele, havia se rendido ao amor e era essa nova força que via em seus olhos.
— Você é livre, meu irmão. Faça o que o seu coração deseja.
Ikki sorriu e o abraçou.
— Obrigado.
Kanon se aproximou de ambos e ofereceu um odre com vinho.
— Um último gole, senhores! Logo, ao amanhecer, poderemos partir. – disse o general.
Milo sorriu, levando o odre aos lábios. Em seguida passou ao irmão que também bebeu. E assim, todos que ali estavam, tiveram um instante de partilhar o vinho e alguma comida, antes de rumar, novamente, para Darneheim.
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Uma brisa quente e densa perpassava por entre as fileiras. Sob o comando de Radamanthys, as tropas permaneciam em prontidão já há bastante tempo nas fronteiras de Dwiefer. Mesmo que nada surgisse no horizonte, o general não permitira nenhuma distração ou afastamento. Alguns soldados o observavam, ele parecia concentrado em algo muito além dali.
E, realmente, enquanto aqueles homens esperavam ver a silhueta dos inimigos surgir, Radamanthys relembrava a cena na pirâmide negra, o momento exato em que possuiu Pandora e foi violado por Hades. Tudo aquilo fora uma grande e sombria loucura. Algo que o modificara para sempre...
— Senhor! Os batedores voltaram! O inimigo está bem perto e é numeroso!
Radamanthys permaneceu sereno diante da notícia.
— Mantenham as posições!
O soldado suava e estava ofegante. O sol alto fazia brilhar as cotas de malha e o calor provocava ondas que se elevavam do solo fértil. O homem voltou para a sua posição na segunda fileira, como ordenado. O tempo de espera pareceu longo, até o solo tremer e as tropas lideradas por Aiolia serem avistadas.
— Não disparem até eu ordenar! – gritou Radamanthys.
Valentine emparelhou seu cavalo ao de Radamanthys. O som dos tambores e trombetas reverberou ao mesmo tempo em que o estandarte negro ondulou na atmosfera pesada e quente.
— Ao seu comando, general.
Radamanthys olhou para o rosto de seu tenente, percebendo lealdade e amor. Valentine parecia frágil, mas era um guerreiro com habilidades invejáveis. Fitou-o com seriedade, mas nada disse. Ajeitou o elmo e elevou a mão direita, enquanto o chão tremia e a poeira se elevava no horizonte. Então, quando o tremor da terra uniu-se ao retumbar dos tambores, ele deu a ordem:
— Avante, homens! Vamos mostrar a esses rebeldes a quem devem temer!
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Aiolia tinha os senhores de clã, Hyoga e os generais ao seu lado. Ao se aproximar do lugar que era o seu lar, não pode deixar de pensar em Regulus e em Aioros. Preciso da força de ambos, estejam comigo! Disse para si mesmo como se fosse uma oração pessoal.
O inimigo cavalgava ao seu encontro permitindo vislumbrar as cotas de malha sobre o couro negro, luvas e caneleiras de couro trançado, capacetes de aço reluzindo sob o sol escaldante...
Tinha, junto consigo, muitos guerreiros dispostos a lutar, porém o inimigo também era numeroso. Era a sua primeira batalha e não podia falhar. Respirou fundo e olhou para Milo.
— Nós atacaremos com todo o nosso poder de fogo, enquanto Shaka e Ikki cavalgarão ao seu lado para que chegue o mais rápido possível à pirâmide negra. Liberte Kamus, senhor de Berkehell e abra caminho para derrubarmos o usurpador.
Milo assentiu e olhou na direção de Hyoga. O jovem Maístir se posicionou junto ao senhor de Irmied murmurando algo baixinho. Apesar dos seus poderes, ele, assim como Shaka, era um homem que jurara proteger e curar. No entanto, o senhor de Irmied possuía outros poderes. Poderes capazes de rivalizar com todo o caos desencadeado pro Hades e que cobravam um preço alto.
Shaka agradeceu, também, em tom baixo e segurou as rédeas de seu cavalo com força. Hyoga ficaria junto de Aiolia assumindo uma postura de cuidado e cura, mantendo os ideais que homens, como ele e Shaka, haviam se comprometido a defender e transmitindo segurança ao grande grupo.
Ikki respirou fundo. Sua função era acompanhar o irmão e Shaka, de forma que conseguissem romper a barreira humana daqueles que serviam a Hades. Sabia que Milo e Shaka eram fortes, talvez até mais fortes que ele próprio. Porém, Milo precisava resguardar sua energia para libertar Camus e Shaka deveria usar seus poderes o menos possível, até que, realmente, fosse necessário.
— Estou pronto. – disse o jovem guerreiro tocando a empunhadura de sua espada. – Milo, Shaka, vamos!
Os três galoparam juntos por outro caminho, enquanto Aiolia e os outros avançavam em direção ao inimigo.
O som dos cascos dos cavalos se misturava aos gritos de guerra de ambos os lados. As espadas se chocavam e lanceiros se posicionavam para deter os cavaleiros. Uma nuvem de setas, acompanhadas de um silvo irrompeu o ar e gritos, misturados ao relinchar dos cavalos anunciava que a batalha já começara do modo mais brutal e sangrento.
Kanon e Saga se uniram para lutar e proteger Aiolia, assim como Manigoldo e os homens do clã Akkwarju lideravam outra fileira destinada a encobrir o deslocamento de Shaka, Ikki e Milo. Hyoga se manteve em uma posição estratégica, vigiando as energias do lugar e verificando se haveria alguma intervenção sobrenatural...
O jovem soberano brandia a sua espada com tanta precisão que parecia possuído pelo animal totem de seu clã. Podia-se ver o dourado do clã do Leão parecendo rugir nos estandartes, à medida que os gritos de guerra se transformavam em sons de dor e morte. E era preciso que assim fosse, porque o reconhecimento da soberania passava pelo teste de bravura e força.
Ao passar das horas, as cores dos mais diversos clãs se metamorfoseavam em uma só, a cor do sangue que se derramava a cada encontro das armas.
— Arranquem as cabeças destes malditos! – gritava Máscara da Morte.
— Morte à escória rebelde! – gritou Valentine.
Uma lança de arremesso voou na direção de Aiolia, mas ele se esquivou e viu o general inimigo atacando furiosamente com uma precisão mortal. Puxou as rédeas de seu cavalo para ir na direção de Radamanthys, porém o animal foi flechado, no mesmo instante. O puro sangue empinou, derrubando-o. Pó e sangue lhe sobrevieram ao rosto, assim como o corpo do animal lhe prendeu parte da perna.
Praguejando, Aiolia moveu o corpo, soltando-se, mas ficando à mercê do soldado inimigo que já estava próximo de si. O homem enorme desceu o machado rente a sua cabeça, obrigando-o a desviar novamente.
Radamanthys sorriu ao localizar o jovem soberano e vê-lo lutar pela vida com um dos seus. Galopou na direção dos dois, mas foi interceptado por Shura que o fitou com um frio prazer.
— Voltamos a nos reencontrar, general. – disse Shura libertando todo o poder de sua espada sobre a de Radamanthys.
Faíscas azuladas escaparam do beijo das lâminas e os olhares se enfrentaram com a mesma intensidade. As lâminas se chocaram num reconhecimento de distâncias e força.
Radamanthys agiu rápido, penetrando no flanco esquerdo de Shura recebendo um bloqueio de sua ação. Grunhiu raivoso e, mais uma vez, brandiu a espada com força, fazendo Shura empreender um movimento fluído que o fez perceber que o moreno não era fraco como ele achava que era. Avançou a perna, girando o tronco e tentando atingir Shura na altura dos rins, porém ele desvencilhou-se e saltou, fazendo a espada descer em uma linha diagonal que atingiu a manopla que protegia o braço de Radamanthys, quase lhe arrancando o pulso.
Rapidamente, Radamanthys se esquivou, mas seu braço sofreu um corte, próximo ao punho. O sangue espirrou na terra quente e Shura sorriu, levando os dedos a sua lâmina, tocando-a e sentindo o líquido viscoso que nela se depositou.
— Pronto para seguir seu senhor no Inferno?— provocou Shura.
Radamanthys não respondeu e posicionou-se defensivamente. Estreitou os olhos e sorriu. Não precisava aceitar provocações no campo de batalha, nem pensar em nada. Precisava, apenas, usar da estratégia, esperando o momento exato para golpear e acabar com Shura. Um golpe certeiro naquele covarde e tudo estaria acabado!
Shura conhecia aquele homem. Apesar de odiá-lo, sabia que a força combativa de Radamanthys era real. Preparou-se para o golpe, e ergueu a espada com a mão direita, enquanto deixava a esquerda em prontidão para segurar-lhe o braço.
Radamanthys gritou e avançou, elevando a espada acima da cabeça. Shura fez o mesmo, resultando em um choque brutal, fazendo com que ambas soltassem faíscas, mais uma vez. Um movimento rápido e, Shura recebeu o beijo da espada na testa, num pequeno corte que levou sangue ao solo.
Os dois continuaram a bater as espadas num ritmo violento e vertiginoso em meio aos demais, enquanto Aiolia também enfrentava o seu inimigo, golpeando com precisão fazendo-o largar o machado em meio à poça de sangue que se formou. O jovem soberano venceu e se posicionou para continuar lutando.
Valentine batalhava com outros, quando viu Radamanthys e Shura lutando. Percebeu também a movimentação de Milo, Ikki e Shaka. Apertou as rédeas de seu cavalo e abriu caminho com a mesma precisão que o general, matando e mutilando, até encontrar Máscara da Morte que se pôs, em seu caminho, deliberadamente. O líder dos carniceiros sorriu, a selvageria estampada nos olhos azuis...
Embora fosse forte, Valentine não era páreo para um homem como aquele, mas isso não o deteve. Manuseando o machado com rapidez espantosa, Máscara da Morte já tinha decepado várias cabeças e membros com facilidade espantosa e era sua função impedir que seus companheiros fossem interceptados.
O oficial das forças de Hades cerrou os dentes e investiu com toda a força que dispunha, expandindo a violência da luta, abrindo caminho para o que aconteceria a seguir. Sua espada quebrou-se de encontro ao machado e ele viu a lâmina brilhar em meio ao sangue que a cobria. Em segundos, sua vida transformou-se em imagens passando frente aos seus olhos em uma onda sucessiva de cenas e desejos.
— Por... aquele que amo! – gritou com toda a força que lhe restava.
Máscara da Morte esperou, seus olhos espreitaram como os de um predador. Valentine ainda tentou sacar um punhal, mas não foi rápido o suficiente. Sua cabeça voou em uma coreografia macabra, os cabelos platinados esvoaçando em uma trajetória marcada pelo sangue...
Os olhos dourados de Radamanthys foram atraídos para a cena de um jeito estranho. Ele viu a cabeça de Valentine ser decepada pelo machado e, de imediato, sentiu que as forças, ao seu comando, começavam a arrefecer. Apertou o cabo da espada e ignorou a dor da perda em seu peito. Fitou Shura com ódio e pediu força às sombras que, de imediato, tomaram conta do seu coração...
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Pandora olhou-se no espelho. O vestido negro aderia ao seu corpo esguio como se fosse uma segunda pele. Seus cabelos estavam soltos, presos por um fio de prata que os deixava cair como uma cascata pelas costas nuas. O colar de pérolas negras era o mesmo que usara no dia em que Regulus viera buscar consolo pela morte de Aioros, porém, ela não era mais aquela jovem sedenta por reconhecimento e afeição. O reconhecimento do fato, longe de alegrá-la, apenas confirmava que tudo tinha um começo e um fim...
Por um momento, sentiu o beijo gélido das sombras. Radamanthys... Ele está pedindo ajuda. A sensação forte a fez levar a mão ao colar em uma prece muda. Sabia que o momento chegaria e, mesmo assim, isso não diminuía o sofrimento. Sinto, meu amigo. Mas, não poderei ajudá-lo e nem permitir que Hades o faça!
— O soberano mandou chamá-la, minha senhora. – disse a serva entrando no aposento.
— Diga-lhe que já estou indo. – respondeu com serenidade.
Assim que a mulher saiu, Pandora tocou as pérolas de seu colar, os olhos violáceos fixos no espelho emoldurado em ouro. Um túnel escuro se abriu, tomando conta do espaço em que ela se encontrava e, dentro dele, espirais giravam em sentido anti-horário. Ela elevou a mão e tudo congelou. Imagens do campo de batalha surgiram, confirmando o avanço das tropas leais à Aiolia, embora a escuridão invocada por Radamanthys estivesse presente em meio aos corpos dos vivos e dos mortos.
Murmurando algumas palavras, Pandora pôs fim às imagens e ao túnel, saindo, calmamente do aposento para encontrar seu irmão.
Hades a esperava no grande salão. A roupa cerimonial evidenciava-lhe o corpo esguio e bem proporcionado, embora como receptáculo do Caos ele tivesse perdido um pouco do aspecto humano. Sua pele alva parecia ser feita de mármore e seus olhos possuíam um brilho insano e sobrenatural.
— Vamos dar início à cerimônia?— perguntou Pandora entrando no ambiente gélido e silencioso.
Ele virou-se e a encarou.
— Está preparada?
— Claro que estou. Por que a pergunta?
— Porque será a sua mão que erguerá o punhal, minha cara.
Pandora sorriu.
— Sacrificar um senhor de clã e oferecê-lo ao Caos será uma honra.
Hades se aproximou, as narinas abrindo e fechando como se a farejasse.
— E eu terei muito prazer de vê-la executando esta... oferenda.
A pirâmide negra estava cercada pelos acólitos e, em seu vértice, Kamus havia sido colocado preso, sobre um altar inclinado. Os cantos monótonos o haviam despertado, porém seus olhos estavam inchados e ficava difícil, mantê-los abertos.
Um homem magro se aproximou, tocando-o no rosto e o senhor de Irġiel kiesaħ forçou-se ficar consciente. Havia um brilho de insanidade no olhar daquele homem, assim como as marcas evidentes do flagelo autoinfligido.
— Não tenha medo... Nosso soberano e deus logo o tomará para si. É uma grande honra morrer e adentrar as sombras pelas mãos dele! – falou o homem como se estivesse alucinado.
Kamus tentou mover o corpo, porém a droga que Pandora lhe dera, ainda fazia efeito, deixando-o letárgico. Mesmo assim, ele cerrou os dentes e clamou pela força dos lobos em pensamento. Aos poucos podia sentir as amarras nos pulsos e nos tornozelos, embora tudo ali parecesse pertencer a um cenário distorcido e irreal. Forçou as amarras até sair sangue, mas não conseguiu rompê-las. Esperaria o momento certo. Tinha que economizar suas forças.
As caravanas começavam a chegar e prostrarem-se ao redor da pirâmide negra, os cânticos e lamentos criavam uma acústica lúgubre com a finalidade de compor uma corrente de flagelos e histeria coletiva.Em meio a tudo, surgiram os protagonistas da cerimônia. Hades e Pandora abriam caminho entre os acólitos, a presença deles causando uma comoção que se estendia, sombriamente, por todos ali. Para alguns, era pura devoção, para outros, medo e para poucos, uma loucura que deveria ter um fim.
Hades tomou a mão de Pandora na sua e começou subir a escadaria que levava ao topo da pirâmide. A cada passo, o clamor dos acólitos se elevava, as sombras pareciam adquirir vida e força...
Quando os dois chegaram ao local do sacrifício, o povo exultou. Hades olhou para Kamus e sorriu. Pandora permaneceu ao lado do irmão e também fitou o ruivo.
— Neste dia memorável, todos nós seremos agraciados com o poder das sombras! Todos nós seremos beijados pelo Caos!— disse o usurpador.
Um clamor tomou conta do aglomerado de acólitos. O tempo mudou, trazendo mudanças súbitas na atmosfera. Os cabelos negros de Hades e Pandora dançavam ao sabor do vento sobrenatural que parecia desejar varrer os vestígios dos acontecimentos.
Kamus tentou, mais uma vez, soltar-se, até Pandora encará-lo e mexer os lábios numa ordem explícita para que ele não o fizesse. O senhor de Irġiel kiesaħ inspirou fundo e tentou compreender o significado de tudo aquilo, enquanto Pandora recebia o punhal da devoção na mão delicada. O cabo, feito de obsidiana negra, era frio e brilhante, contrastando com a prata da lâmina.
— Tire o coração dele e o dê para mim... – murmurou Hades, próximo ao ouvido da irmã.
Pandora elevou os olhos, fitando Hades com uma profundidade envolvente.
— Guie a minha mão, meu soberano, meu amor... – respondeu ela.
Hades sorriu, envolto na atmosfera de adoração que os acólitos proporcionavam e no olhar sedutor de Pandora. Ele a levou até Kamus, se colocando atrás dela e posicionando sua mão sobre a dela, envolvendo-a...
— Em nome do Caos. – disse Hades e Pandora repetiu a frase.
Houve um momento de tensão e silêncio. O ar pareceu mais denso, as sombras dividiram-se, como se alguém as tivesse cortado com as próprias mãos. Hades pegou a mão de Pandora e ambos, segurando o punhal, o posicionaram para cravá-lo no peito de Kamus.
No exato momento em que as duas mãos se abaixavam para sacrificar o senhor de Irġiel kiesaħ, um silvo se fez ouvir e um murmúrio permeado de surpresa fez parar a respiração de todos. Uma flecha cortou o ar e a escuridão cedeu lugar a uma grande luz...
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