Trono De Sangue

36 Capítulo 36 - O FIM DO CAOS...


Notas iniciais
Pois então, após um longo tempo, estou retornando e postando a conclusão desta fic. Àqueles que ainda estiverem comigo, minhas desculpas pelo longo tempo e também o meu carinho pela honra de tê-los como leitores. Obrigada, sempre!!♥

Horas antes...

O espaço entre Shura e Radamanthys se reduziu a nada em poucos minutos. Havia escuridão e morte nos olhos dourados, enquanto os sons surdos de corpos, escudos e espadas preenchiam o ar em volta de ambos. O ruído terrível entrou nos ouvidos do general a serviço do caos no instante exato em que Shura o golpeou no ventre, fazendo-o ofegar e arregalar os olhos.

— Valentine... – murmurou Radamanthys, enquanto caía de joelhos.

Shura olhou-o com desprezo e, em seguida gritou alto e forte:

— Radamanthys está morto!

Dito isso, abriu os braços mostrando o campo de batalha, onde a superioridade daqueles que lutavam pelo soberano de Darneheim se comprovava através dos gritos dos homens feridos e daqueles que suspiravam pela última vez. E para que não houvesse dúvida, decepou a cabeça do general inimigo e balançou-a até que todos vislumbrassem aquele movimento macabro e depusessem suas armas.

Máscara da Morte uniu-se a Shura e um brado de vitória ecoou junto com os estandartes que tremulavam ao vento. Com as vestes sujas de sangue, Aiolia recebeu o olhar de admiração de Saga e Kanon, assim como dos outros líderes que testemunharam sua força e liderança em combate. O jovem leão havia lutado com garra e protegido o avanço de Ikki, Shaka e Milo em direção do alvo.

— Eles conseguiram avançar! – disse o jovem soberano.

— Sim, agora, vamos nos juntar a eles! – respondeu o general Kanon.

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Milo, Shaka e Ikki cavalgaram velozes, sem olhar para trás. O senhor de Irmied tinha um papel fundamental a desempenhar, seu corpo formigava, o poder milenar de sua raça vibrando, pedindo para ser liberado...

Ikki emparelhou seu cavalo ao de Shaka, seu olhar firme enviando uma mensagem tão clara como se estivesse pronunciando cada palavra. Eu estou aqui. Você é o senhor de Irmied e de si mesmo. Por segundos, ambos se olharam e o ar pareceu congelar. Shaka assentiu com a cabeça e Ikki sorriu.

Milo encarou os dois, compreendendo na própria pele a intensidade do sentimento existente entre eles. Lembrou-se do sonho que tivera com Kamus bem no início conturbado do relacionamento. Havia urgência, perigo e um cheiro de morte que ameaçava sugar o ar de seus pulmões. Inspirou profundamente e apertou o corpo de seu arco. Resista Kamus! Eu estou indo!

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O som dos cânticos preenchia o ar reverberando nas paredes da pirâmide negra. Corpos ondulavam, os olhares repletos de fanatismo e insanidade criavam um espetáculo tão macabro quanto a névoa densa e negra que pairava sobre o lugar.

Kamus moveu as mãos, sentindo as amarras cravarem sua pele, enquanto Pandora se aproximava calma e decidida. Hades lhe estendia um punhal e ela o acolhia na mão pequena como se recebesse um valioso presente. Tire o coração dele e o dê para mim... A frase sussurrada como se fosse uma declaração de amor entre amantes.

Pandora sorriu com o olhar febril, enquanto conduzia o irmão junto a si. Guie a minha mão, meu soberano, meu amor... Hades sorriu, totalmente, entregue ao Caos, embriagado pelo poder das sombras e de seu amor proibido e obsessivo pela irmã que o conduzia submisso e alheio ao desfecho daquela cena. Sua mão grande e pálida uniu-se a dela em direção ao peito do senhor de Irġiel kiesaħ, ao mesmo tempo em que algo afiado e veloz perfurou-lhe o corpo, enquanto uma grande luz dispersava as trevas.

Os olhos tempestuosos de Hades se arregalaram, enquanto os de Pandora se fechavam e seus lábios sorriam.

Os acólitos gritaram ao ver o homem envolto em luz que levitava sobre eles, enquanto, logo abaixo dele, outro homem em pé sobre um cavalo disparava uma flecha maior que as flechas normais e tão rápida e brilhante que parecia algo sobrenatural.

Shaka elevou-se ainda mais e, desta vez, seu poder não buscou a destruição e sim a dispersão do caos. Quando o poder do senhor de Irmied cortou a escuridão com uma luz cegante, Milo empunhou o arco e disparou a flecha com uma precisão e rapidez assombrosa. Em segundos, ela perfurou o corpo de Pandora e também de Hades que se encontrava junto dela. O sangue venenoso impregnado na flecha agiu com rapidez se espalhando por ambos os corpos como se fosse uma serpente mortal.

A escuridão do Caos rugiu como um grande animal agonizante, o ar vibrou em uma espiral desenfreada e o Receptáculo do Caos sentiu algo perfurar-lhe a carne junto à sensação do calor que a fusão de seu corpo com o de Pandora proporcionou.

P- Pandora...— murmurou levando as mãos ao peito.

A jovem virou o rosto, os olhos violáceos se encontrando aos dele e se tornando opacos, o sangue tingindo a veste negra, enquanto seu corpo continuava unido ao do irmão e caía, lentamente, à frente de Kamus.

A- Acabou...— disse ela com um sorriso, enquanto tombavam juntos, o adeus trágico pondo fim ao reinado do caos.

Kamus fechou os olhos. Milo...

E então veio a dispersão. Os acólitos corriam de um lado a outro como se estivesse acordando de um pesadelo. Alguns choravam e gritavam em desespero se lançando contra Ikki e Shaka, sendo rechaçados, apenas com o olhar duro do jovem que possuía a força da Fēnikss. Outros, como se saídos de um transe, simplesmente largavam os flagelos e pareciam chocados ao olhar para si mesmos seminus e cobertos de marcas...

Milo correu, chegando até o homem que amava, uma expressão de alívio misturado com aquele amor profundo que os havia unido. Dois homens tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão complementares.

— Kamus! – gritou ele, retirando um punhal do cinto e cortando as amarras que prendiam o senhor de Irġiel kiesaħ.

— Estou aqui... – disse Kamus com um sorriso e a voz enrouquecida.

Os olhos rubros se tornaram calorosos, enquanto era ajudado a deixar o local do sacrifício. Os dois se encararam e, mesmo com as mãos dormentes, Kamus tocou o rosto de Milo sentindo o cheiro da pele bronzeada, enquanto o senhor de Berkehell fazia o mesmo.

— Ah, Lobo... Eu jamais me perdoaria se você...

Milo não terminou a frase, seus lábios foram tomados com sofreguidão e saudade. De repente, não havia mais nada em volta, apenas aquele sentimento e estranho magnetismo que sempre deixava ambos famintos um pelo outro.

Shaka olhava a cena com carinho até sentir o braço forte de Ikki em torno de si.

— Eu sabia que conseguiria senhor de Irmied. — disse o jovem.

Lágrimas brilharam nos olhos azuis, mas não se derramaram. Shaka tomou a mão de Ikki na sua e agradeceu.

— Fizemos isso juntos. Obrigado.

— Eu apenas dei apoio moral. Você tem um poder incrível, Shaka. Mas, não é esse poder que o define. Você é mais que isso, é um ser especial que me faz ter muito orgulho de lutar ao seu lado.

Shaka sorriu tímido e as lágrimas contidas escorreram pelo belo rosto. Ikki o puxou para si num abraço forte e afundou o rosto no ombro do senhor de Irmied.

— Eu te amo...

Tornando o abraço mais forte, Shaka desistiu de conter as lágrimas.

— Eu também te amo Fēnikss!

Em seguida, Dwiefer estava tomada pelas tropas que chegavam tendo Aiolia à frente. O jovem soberano sentiu o coração bater mais rápido ao encontrar o olhar cansado, mas orgulhoso de seu pai. Regulus sentiu os olhos marejados e, por um segundo, viu Aioros sorrindo ao lado do irmão. Fechou os olhos com força e, quando os abriu, foi o olhar profundo e adulto de Aiolia que encontrou. Imediatamente, fez uma reverência respeitosa.

— Meu soberano! – disse com voz embargada.

Aiolia desmontou e tocou no ombro de Regulus.

— Não se curve meu pai. – disse com voz forte.

Regulus sorriu triste.

— És meu... Nosso soberano. Devo-lhe respeito e minha lealdade, não devo ser tratado com deferência depois de tudo o que fiz..

Aiolia esboçou um meio sorriso.

— Haverá muito tempo para se redimir, meu pai. Agora não é momento para formalidades. – disse abrindo os braços.

Lágrimas de alegria escorreram pela face marcada do leão mais velho e, após alguns segundos de silêncio, todos ergueram suas mãos com gritos de júbilo. O Caos e todos os demônios da escuridão haviam sido banidos para sempre de Darneheim!

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No dia seguinte, as tropas se reuniram e trataram de fazer voltar à rotina natural de Dwiefer. Desfizeram tendas e altares e prepararam os ritos fúnebres.

Os corpos de Hades e Pandora foram colocados dentro da pirâmide negra sobre a pedra que havia testemunhado rituais profanos, morte e orgias. Regulus presidiu a cerimônia de adeus. Ele tocou o rosto da filha com pesar, compreendendo que, no fim, fora ela quem decidira terminar com toda aquela loucura e perversidade.

— Perdão, filha... Espero que encontre a paz. – sussurrou antes de se afastar com lágrimas nos olhos.

Shion o amparou quando ele fez o sinal para que os archotes ateassem fogo no monumento impregnado pelo mal. O óleo inflamável espalhado por toda a pirâmide a transformou em uma pira funerária gigantesca.

O calor e o som lamentoso que ecoou pelas pedras pareciam um pranto de pesar e, ao mesmo tempo, algo desafiador. Todos sustentaram o olhar, principalmente Aiolia que mantinha a postura altiva e uma expressão firme.

— O mal foi banido de Dwiefer e de toda Darneheim! – gritou o jovem soberano em meio ao calor escaldante produzido pelo fogo.

Em uníssono, todos repetiram a frase, acrescentando: Vida longa ao soberano!

Aiolia sorriu, porém logo seu semblante tornou-se sério. Sua voz soou grave e forte.

— O clã do leão não venceu a batalha sozinho. Eu não teria conseguido e nem me transformado no líder que meu pai e meu irmão esperavam, sem o apoio de todos os clãs. A profecia da paz começou com Aioros, porém, não coube apenas ao leão, e sim a todos vocês trazer uma nova era e um novo entendimento para toda Darneheim.

Houve brados de vivas, alguns bateram em seus escudos, outros no próprio peito. A pirâmide ardeu rapidamente e as espirais negras de fumaça pareciam figuras disformes que se elevavam e se fundiam às nuvens, também negras que ocupavam o firmamento.

Centenas de vozes ecoaram por toda Dwiefer e a profusão de sentimentos deixava a maioria eufórica pela vitória. Os senhores de clãs, apenas observavam e, em seu íntimo, já se preparavam para a reconstrução neste novo cenário.

Quando chegou a noite, o clima era de festa. O luar iluminava o céu, uma brisa trazia os cheiros de pedra queimada, flores noturnas e o brilho longínquo das estrelas parecia o reflexo de milhares de joias soltas no espaço.

A fortaleza retomada abrigou a todos e os salões ficaram lotados. Havia comida e bebida, todos brindavam a volta da ordem. Kanon conversava com seu irmão, enquanto Máscara da Morte bebia e pensava em Afrodite, o belo senhor dos venenos que o tinha enfeitiçado de um jeito único. Manigoldo ria e brindava com Shura e Shiryu. Aquela reunião de homens e mulheres tão diferentes se mostrava como um caleidoscópio de costumes, cultura e visão de mundo.

Hyoga dividia sua atenção com Shun e com Kamus, enquanto Milo trocava ideias com Kanon e Saga. Ikki compartilhava sua bebida com Shaka e ambos riam baixinho.

Aiolia circulava pelo salão conversando com todos, agradecendo e ouvindo elogios. O clima de alegria e vitória só não o deixava mais animado, porque sentia falta de certo alguém. Como estaria Mu? Será que a notícia da vitória já havia chegado aos ouvidos dele?Quando poderia vê-lo novamente e tê-lo nos braços?

Em meio a todas as indagações do jovem soberano e de muitos outros ali, a madrugada chegou e grande parte daqueles homens cedeu ao cansaço. Os que ainda tinham energia trocavam impressões sobre o que havia acontecido, alguns contavam vantagens, outros aumentavam as histórias e alguns bebiam em silêncio.

Shiryu encheu a taça de vinho de Shura, notando-o melancólico.

— Aioros foi vingado! Façamos mais um brinde! – disse o jovem tenente.

Shura elevou sua taça mantendo a expressão séria, sentindo-se inadequado naquele ambiente festivo.

Percebendo que o general preferia ficar sozinho, Shiryu decidiu deixá-lo. Ele nunca vai esquecer... Pensou enquanto se afastava.

O ato do jovem fez Shura dar-se conta que não desejava ficar só. Bebendo o que restava do vinho em um só gole, viu-se indo atrás de Shiryu. Encontrou-o no corredor e o chamou.

— Shiryu!

O jovem tenente estancou e voltou-se na direção do chamado.

— Sim, general?

Suspirando, longamente, Shura encarou seu tenente sem saber direito o que dizer. A verdade era que se sentia vazio, mas, ao mesmo tempo, precisava seguir em frente. Aioros fora vingado, Darneheim estava em paz, o que lhe restava senão seguir lutando para que o mal jamais retornasse? Não seria isso que Aioros esperaria dele?

— Eu sei que não estou sendo uma boa companhia. Estou sendo egoísta, mas gostaria que ficasse comigo.

— Esta noite?

Shura fitou o rosto do jovem que não lhe exigia nada, porém estava sempre por perto e possuía força e maturidade exemplar. Por alguns instantes, viu o rosto de Aioros sobrepor-se ao de Shiryu e ouviu a voz melodiosa daquele que amara: Ame, viva e seja feliz, meu amado general! Então se permitiu responder com toda a verdade do seu coração:

— Sim, esta noite e... muitas outras. Não vou mentir e dizer que o amo, mas gosto muito de você e desejo me permitir amá-lo.

Shiryu sorriu e abraçou Shura com força.

— Eu sou um homem paciente. Eu espero.

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Kamus olhou pela janela ampla que mostrava um céu diferente do céu da sua terra. O efeito da droga que lhe fora aplicada havia passado, mas seu corpo ainda sentia a densidade e, de certa forma, todo aquele movimento incessante e caloroso, ao qual ele não estava acostumado o deixava um pouco deslocado.

— Cansado, Lobo?

O ruivo virou o rosto assim que ouviu a voz rouca e sentiu o hálito quente junto a sua orelha.

— Não, apenas pensando.

— Em mim? – insistiu Milo.

Sorrindo, Kamus sacudiu a cabeça, mas sabia que não adiantava negar.

— Talvez. Ainda não lhe agradeci devidamente por ter salvado a minha vida.

Com um sorriso largo e malicioso, Milo tomou-o pela mão.

— Vem comigo! Sei de um modo que você pode me agradecer...

O senhor de Irġiel kiesaħ achou que sabia onde Milo o levaria para agradecer. Porém, foi surpreendido ao ver que o senhor de Berkehell o estava puxando para uma escada que subia em direção ao alto da fortaleza.

— Milo, onde estamos...?

— Veja. – ele apontou para uma pequena portinhola, enquanto continuava arrastando Kamus pela mão.

Subiram alguns degraus até chegar a uma área plana com uma vista ampla do céu e do horizonte. Podiam-se perceber resquícios de fumaça escapando da pirâmide negra, o orvalho se depositando silencioso nas pedras e plantas.

Kamus olhou para o rosto do amado elevando uma das sobrancelhas.

— Eu sei que achou que eu te levaria direto pra cama. – disse Milo encarando-o.

Os olhos rubros fixaram-se no azul profundo com uma interrogação muda.

— Veja bem, Lobo. Eu quero... E muito. Mas...

— Mas o quê? – perguntou Kamus.

Milo não respondeu, apenas o beijou. Eles já haviam se beijado de todas as formas, famintos, devagar, erótico, divertido, agressivo, amoroso... Mas, de certa forma, aquele beijo era diferente. Continha saudade, ternura, mas acima de tudo, amor e decisão.

Se afastando, apenas o suficiente para olhar Kamus nos olhos, Milo falou:

— Somos os primogênitos de nossos pais. A nós coube a responsabilidade de cuidar do nosso clã. Eu fui preparado na Torre Negra e você nas montanhas frias de Irġiel kiesaħ. Esta guerra nos mostrou a importância desta liderança, mas também nos trouxe para junto, um do outro. Eu não sei como, mas eu desejo muito ficar ao seu lado. Isto é, se você me quiser. Só que... não sei como vamos fazer.

Kamus sorriu e tocou a face bela e bronzeada.

— Há muitas coisas a serem feitas e acertadas, agora que a paz voltou a Darneheim. Como líderes nós temos responsabilidades. Mas, eu prometo que nós nos reencontraremos e, se você me quiser, nós ficaremos juntos até o final dos meus dias sobre esta terra.

Um sorriso misturado com lágrimas tornou o rosto de Milo ainda mais belo aos olhos do senhor de Irġiel kiesaħ. Os dois tornaram a se beijar, agora de um jeito mais afoito. Olhando Kamus bem dentro dos olhos, Milo sentou de frente no colo do ruivo, até que todo o seu corpo estivesse, intimamente, colado ao dele. Pegou uma das mãos do amante e, tomando os dedos longos na boca, umedeceu-os com a própria saliva.

Kamus arfou em êxtase ao se deixar guiar, sabendo o destino que seus dedos teriam... Ele gemeu baixo ao sentir a cavidade estreita e quente, antevendo o que seria quando o penetrasse. Moveu os dedos dentro de Milo, acariciando-o, preparando-o para a penetração.

Quando sentiu a amante acelerar a respiração, posicionou o falo túrgido no canal e mergulhou fundo, soltando um gemido rouco e arrancando um gemido longo, de puro êxtase, do senhor de Berkehell.

Excitados, os dois começaram a mover-se num ritmo intenso e devastador como se estivessem em um ambiente privado e não ao ar livre que, mesmo assim, incendiava a ambos apenas com suor, a saliva, o olhar arrebatado dos dois...

Milo subia e descia o corpo sobre o membro de Kamus numa ânsia selvagem. O senhor de Irġiel kiesaħ gemia com o prazer sublime de ter seu falo pressionado pela cavidade estreita e agarrava-se às nádegas do senhor de Berkehell , abrindo-as, fazendo-o engoli-lo ainda mais, arrancando gritos e gemidos do amante.

Por alguns segundos, eles se olharam bem dentro dos olhos, o rosto afogueado, os lábios entreabertos... Kamus elevou o corpo e inverteu a posição, deitando Milo na pedra fria e ficando sobre ele em uma necessidade insana de possuí-lo ainda mais fundo, seduzido pelo erotismo intenso do escorpião.

Sorrindo, Milo enlaçou as pernas em torno das costas de Kamus, aprofundando-o ainda mais dentro de si, sentindo um delicioso vigor a cada estocada e começando a chegar ao ponto em que o corpo se contraía antevendo o orgasmo.

Percebendo as reações do corpo do amante, Kamus entrava e saía devorando-o, possuindo-o, fazendo-o estremecer antes de enterrar-se, novamente e, embora Milo estivesse próximo ao orgasmo, o lobo queria que aquele momento durasse mais, que jamais acabasse... Uma onda de emoção, mesclada com um prazer intenso e devastador insinuava-se por todo o seu corpo e ele sentiu Milo enterrar o rosto em seu pescoço e cerrar os dentes, gemendo o seu nome e contraindo o corpo na mesma hora em que seu sêmen se derramou entre os corpos unidos.

Gozando, ao mesmo tempo, as bocas se buscaram e agora arfavam, enquanto os corpos tremiam convulsos. Kamus derramou-se dentro de Milo e, ao estocar as últimas gotas de seu prazer, olhou-o nos olhos e sentiu-se tragado pelos lábios entreabertos e o sorriso que ele lhe deu.

— Lembra... a primeira vez que a gente fodeu...? – murmurou o escorpião.

Kamus assentiu sentindo o coração retumbar nos ouvidos.

— Eu... fui um idiota.

— É... foi. Mas, mesmo assim eu quis muito te beijar depois de gozar...

— Eu também...

Os dois riram e Kamus encarou-o com o mesmo olhar lupino da primeira vez. Buscou os lábios de Milo para beijar, a língua invadindo e explorando a boca do outro num ritmo lânguido e molhado, ondulando sensualmente, recebendo a reciprocidade que agora era plena e deliciosa.

— Eu te amo, lobo...— sussurrou Milo entre o beijo.

— Eu também te amo, escorpião. E... uma correção.

— Qual...?

— Mesmo que eu tenha sido um idiota, nós não fodemos, nós fizemos amor desde a primeira vez.

Milo abraçou Kamus com força e os dois ficaram com os corpos unidos sob a imensidão do céu povoado de estrelas.

Ao longe, no horizonte, uma luz brilhou e sumiu na imensidão. Os Sacerdotes brancos de Gyðja, os Acólitos do sombrio deus Dauði, assim como todos aqueles que possuíam o praesensio sentiram e souberam que a luz voltara a Darneheim.

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— Se eu entendi bem, você está sugerindo que eu e Fenrir tenhamos uma liderança compartilhada? – falou Yohma.

Kamus se mantinha calmo, fazia um mês que retornara a Irġiel kiesaħ e após fazer um inventário de todas as necessidades do clã, providenciar alimentos, consertos e até mesmo oficializar casamentos ele resolvera, por fim, comunicar a decisão que havia tomado. Apesar dos homens e mulheres de seu clã o estar cercando com aquela expressão de surpresa e, ao mesmo tempo medo, ele se sentia totalmente seguro de sua decisão.

O salão foi tomado por um forte burburinho, Fenrir arregalou os olhos e tornou a encarar Yohma, o único a ter coragem de questionar a fala do senhor de Irġiel kiesaħ.

— Acalmem-se! – falou Kamus elevando a voz. — A paz voltou a Darneheim. Temos um novo e legítimo soberano e tudo o que foi destruído pela guerra está sendo reconstruído. Como líder deste clã eu procurei manter todos em segurança e desempenhei meu papel com responsabilidade desde a morte de meu pai até hoje. No entanto, não pretendo gerar um descendente para herdar o meu lugar. Todos sabem dos meus sentimentos pelo senhor de Berkehell e é ao lado dele que desejo viver. Yohma foi o primogênito e tem um filho. Fenrir logo será pai. Meus dois irmãos asseguram a força e a continuação do clã Akkwarju e é justo que sejam eles a liderar.

Houve rumores, porém, menores desta vez. Os únicos que estavam tranquilos eram os lobos, Raio, Neve e Noite. Sentados juntos, os três apenas observavam, parecendo entender e concordar com cada palavra do senhor de Irġiel kiesaħ.

Kamus esperou que todos assimilassem suas palavras e então continuou:

— Desejo que vocês, meus dois irmãos, compartilhem a liderança para que não seja um fardo pesado para, apenas, um homem. Irġiel kiesaħ é uma terra exigente. Você Yohma tem experiência e sabedoria para gerenciar conflitos. E você, Fenrir, tem força, coragem e espírito livre. Os dois podem tornar este clã muito mais forte e próspero.

— Mas, e Hyoga? – perguntou um homem no canto do salão.

— Hyoga é um Máistir, ele é o guardião espiritual do clã e de Irġiel kiesaħ. Mas isso não impede que ele também faça algumas escolhas e busque amar como qualquer um de nós. Ele transita por outros lugares, mas sempre virá quando chamado. Fiquem tranquilos e continuem com suas vidas, seu trabalho e os seus sonhos.

O silêncio tomou conta do salão quando Kamus estendeu ambas as mãos na direção de Yohma e Fenrir. Os três formaram uma corrente e, ao final, todos aplaudiram a cena e um banquete foi servido para selar a nova maneira de liderar o clã.

Hilda assistia a tudo, orgulhosa pela maneira com que Kamus conduzia aquela nova situação. Logo o bebê nasceria e sua família estaria completa.

Saori e Seiya cumprimentaram os novos líderes, enquanto um homem alto, forte e com alguns fios de cabelo grisalhos se aproximava de Kamus.

— O jovem que eu treinei se tornou muito mais que um líder. Seu pai teria se orgulhado bastante se estivesse aqui.

— Será, mestre Aldebaran?

— Ele tem razão. – falou Manigoldo colocando o braço sobre os ombros de Kamus. — Dégel foi o homem mais inteligente que conheci e custei muito compreender a extensão de sua sagacidade. Ele deixou a lição que o ego de um homem é a sua queda... E veja, foi pelo ego que Hades foi derrotado. Mas, ele sempre acreditou em você e estava certo, sua visão é tão sagaz e inovadora quanto a de seu pai.

Kamus sorriu e aceitou a caneca de cerveja escura que Yohma lhe entregava.

— À família! – disse o novo líder.

— À família! – gritaram todos em uníssono.

Manigoldo ergueu a caneca e lembrou-se dos sentimentos que nutrira por Dégel, assim como sua experiência com o belo e delicado Misty. Agora se dava conta que o amor que sentira pelo líder do clã Akkwarju era fruto de uma profunda admiração, o que resultara em algo platônico, ancorado em fantasias e ilusões. Já com Misty vivenciara o prazer concreto, pele contra pele, emoções e sentimentos expostos de ambas as partes... Ah, meu belo e fogoso rapaz!Eu não me esqueci da promessa que fiz, eu vou buscar você!

— O que o faz sorrir bobo desse jeito? – perguntou Aldebaran.

— Você logo saberá. – respondeu Manigoldo bebendo toda a cerveja num só gole.

Aldebaran balançou a cabeça e socou o braço do amigo.

— Só pode ser um rabo de saia!

— Tire a saia e deixe o rabo... Aí sim, você terá acertado!

Os dois gargalharam e foram juntos pegar mais bebida para comemorar.

Kamus olhou ao redor com o coração leve, embora soubesse que sentiria falta de todos e, principalmente, do seu companheiro Raio. O lobo se aproximou encarando-o e o senhor de Irġiel kiesaħ se ajoelhou ao lado dele e o abraçou.

— Você estará sempre em meu coração, meu amigo.

Raio lambeu o rosto de Kamus e, em seguida puxou-o com os dentes pela manga. Correu porta afora, parando de vez em quando. Isso significava que queria mostrar algo a Kamus. O ruivo o seguiu até uma pequena caverna. Chegando lá, Raio correu na frente e quando Kamus o alcançou ele estava acompanhado de uma loba branca mais três lobinhos.

— Então você tem uma família! – Kamus exclamou comovido.

O lobo uivou e o senhor de Irġiel kiesaħ compreendeu que ele o incitava a seguir seu coração.

Logo, Yohma e Fenrir entrariam na Floresta Negra para vivenciar o seu tempo de lobo. Ao final da prova, Kamus se juntaria a eles em uma despedida e a matilha uivaria junta, mais uma vez...

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O sol da manhã lançava raios dourados na água e o mar movia-se criando redemoinhos de espuma. Em Berkehell iniciava a estação das grandes viagens, quando os navios chegavam e partiam cheios de especiarias, sedas e diversas mercadorias.

Conforme Milo cavalgava pela praia e observava, um grupo desembarcou trazendo algumas peles de animais e a lembrança que veio à mente do escorpião foi de Kamus vindo ajudá-lo a combater Hades. O imponente senhor do clã Akkwarju, o homem que amava e que era o responsável pela saudade dolorida que oprimia seu peito desde que voltara para Irġiel kiesaħ.

Desde a última noite que tinham ficado juntos, Milo se empenhava em buscar uma solução, em confiar que, ao final, tudo daria certo e ficaria ao lado de Kamus. Entretanto, a realidade era que a responsabilidade de liderar o clã Skorpjun era sua. Ikki já havia pedido para se afastar e ir para Irmied, onde encontraria seu amor, Shaka. Shun embarcara em uma jornada com Hyoga. Então, restara ele, Milo, para resolver problemas e cuidar de todos. Até mesmo Kanon, seu amigo e homem de confiança pedira um tempo para conviver com seu irmão, Saga.

E agora, sentindo o peso da responsabilidade que tinha sobre os ombros, pensou que deveria estar acontecendo o mesmo com Kamus. Não recebia nenhuma notícia e já havia se passado três meses...

— Senhor!

Milo olhou na direção do chamado.

— Afrodite. O que posso fazer por você?

O senhor dos venenos olhou ao redor, certificando-se que ninguém ouviria o que pretendia falar.

— Eu gostaria de pedir um favor.

Com o cenho franzido, Milo encarou Afrodite e desmontou.

— Pedir não, cobrar... Não esqueci que lhe devo um favor por ter curado meu irmão.

Suspirando, o belo jovem balançou a cabeça.

— Depois de tudo que passamos, não é esse tipo de relação que pretendo ter com o senhor.

— Então me chame de Milo e fale logo o que precisa.

Afrodite encarou o senhor de Berkehell.

— Em primeiro lugar, gostaria que permitisse que eu ficasse em seu reino.

Berkehell não é meu reino, todos são livres para ir e vir. Sou líder do clã Skorpjun e tenho responsabilidades em manter tudo em ordem. Só isso. Mas... Não me parece que esse seja o favor que quer me pedir.

— Não, não é. Eu... Bem, seu irmão viajou para Irmied e seu principal comandante também se ausentou. Sei que houve um conflito entre Máscara da Morte e seus irmãos, mas durante a guerra, ele mostrou seu valor e...

— Espere aí, você está tentando interceder em nome de Máscara da Morte?

— B-Bem, sim! Se ele for valorizado deixará de comandar aquele clã horroroso!

Milo ficou imóvel por alguns segundos, então suspirou e sorriu.

— Vocês estão juntos?

O loiro cruzou os braços na altura do peito — Ele é arrogante, irascível e...

— Te satisfaz na cama. — completou Milo.

Afrodite encarou-o com as faces ruborizadas.

— Não é somente sexo. Eu acabei me apaixonando por aquele imbecil orgulhoso.

O senhor de Berkehell ficou sério. Não estava tão sozinho, afinal. Podia compreender o medo da perda, a vontade de ter o amado junto de si.

— Deixe comigo, na verdade eu pretendo recompensar a todos, de alguma forma.

— Obrigado! – disse o senhor dos venenos com alegria na voz melodiosa.

Milo acariciou a cabeça de seu cavalo e Afrodite notou-lhe a expressão cansada.

— Estou sendo egoísta. Vejo agora que está cansado e parece não estar dormindo bem, meu senhor. Tome – disse o loiro tirando do bolso um pequeno vidro. – Três gotas disso o ajudarão a ter um bom e profundo sono.

Olhando para o pequeno frasco, Milo aceitou a oferta. Fazia semanas que se revirava na cama, o corpo tenso, a saudade cutucando-o como se fosse um fantasma.

A noite chegou quente e escura como um manto bordado de diamantes. Na fortaleza, após o jantar, o senhor de Berkehell reuniu seus homens no salão oval para iniciar o reconhecimento de seus guerreiros e a consequente distribuição de prêmios e recompensas. Entretanto, apesar de reconhecer alguns homens e mulheres do clã dos Carniceiros, não viu Máscara da Morte entre eles.

— Cersi, por favor, mande chamar Máscara da Morte.

A criada sorriu satisfeita, mas ao sair e deparar-se com Afrodite, ficou séria e foi fazer o que lhe tinha sido ordenado. Todos falavam que aquele belo homem dominava todo o tipo de veneno e, alguns, não deixavam vestígios podendo fazer parecer uma morte natural. Então, mesmo que o belo e viril Máscara da Morte povoasse os sonhos eróticos de algumas mulheres, o que corria boca a boca era que ele e Afrodite eram amantes e possessivos, um com o outro e que, era melhor ficar de fora desta relação para o próprio bem...

Máscara da Morte conversava com June nos jardins. Havia tomado uma decisão e agora era o momento de deixar tudo as claras.

— Eu pensei bastante e acho que é hora de eu sossegar. – disse o líder dos Carniceiros. Mas, não exijo o mesmo de ninguém. Por isso, decidi abrir mão da liderança. Agora é com você. Ou, se preferir ficar também, será bastante útil.

— Útil? Eu? Ficar vendo você ser o cachorrinho daquele...loiro bonito e...

— Cachorrinho, capacho... A verdade é que eu sou louco por aquele homem, June. Pode me chamar do que quiser, mas um dia, quando você se apaixonar saberá como é.

June engoliu em seco e sorriu com deboche.

— Apaixonada? Nunca!

Eles ficaram calados por alguns minutos, até que Cersi chegou dando o recado ordenado por Milo. A serva falou com os olhos baixos, mas de vez em quando, apreciava o corpo musculoso de Máscara da Morte. Naquela manhã, no pátio, tinha visto o peito e a barriga lisa com a musculatura retesada ao manusear o machado. Aquele homem era uma perdição! Pena que já tinha dono...

— Vá! – disse June. — Eu vou tratar de arrumar minhas coisas e rumar mundo afora.

Máscara da Morte fitou-a bem no fundo dos olhos. Depois a beijou na boca e foi ao encontro do senhor de Berkehell. Uma lágrima traiçoeira rolou pelos olhos de June e ela limpou-a com as costas da mão. Colocou um sorriso nos lábios e elevou a cabeça. Há um mundo todo a minha espera!

Milo já havia falado com vários guerreiros e distribuído parte da recompensa que decidira dar àqueles que haviam sido leais, os que se feriram gravemente e às famílias dos que haviam morrido em combate. Quando Máscara se aproximou, ele estava pensativo.

— Mandou me chamar?

Servindo-se de uma taça de vinho e oferecendo uma ao líder dos Carniceiros, Milo levantou-se da mesa.

— Vou direto ao assunto. Você é um guerreiro de grande valor. Meu irmão decidiu ficar em Irmied e Kanon passará um tempo com Saga. Preciso de um homem com o seu talento para o combate. Aceita ser um de meus generais?

Levando a mão ao queixo, Máscara encarou Milo.

— Vai confiar no homem que quase matou o seu irmão?

— Vou confiar no homem que lutou ao meu lado para acabar com aquele usurpador. Não costumo viver no passado. Com exceção do que sinto por Kamus. Pensou. — Aceita ou não?

Máscara sorriu, agora poderia oferecer algo mais à Afrodite.

— Aceito. Eu ia mesmo me estabelecer por aqui. Sempre soube que Berkehell é a terra dos homens livres.

Milo ergueu a taça com vinho e Máscara fez o mesmo. Num canto bem afastado, Afrodite sorriu satisfeito.

— Bem, então estamos conversados. Agora vou me retirar. Esteja amanhã cedo para que eu o apresente aos meus homens.

Máscara assentiu e Milo foi se deitar. O senhor de Berkehell estava cansado, precisava, ao menos de algumas horas de sono. Dispensou as criadas solícitas, pedindo para ficar só. Chegou ao quarto e encontrou uma banheira com água quente como havia pedido que deixassem. Tirou suas roupas e entrou, sentindo o corpo relaxar com o banho. No entanto, o vapor da água o levou de volta ao passado e à caverna onde ele e Kamus haviam feito amor muitas e muitas vezes. Não adianta, tudo me remete a ele... a nós. Quanto tempo ainda ficaremos longe um do outro? Um ano? Dois?Merda! Tenho que parar com isso!

Irritado, deixou a banheira, secou-se e virou o conteúdo do pequeno frasco em uma taça com vinho. Precisava dormir ou acabaria enlouquecendo...

O efeito da poção foi rápido. Logo, Milo dormia esparramado na cama, um dos braços sobre a testa, encobrindo parte do rosto, o corpo nu saudoso de estar junto do amante.

Então algo estranho aconteceu. Viu a si mesmo deitado no quarto escuro. A luz tênue do fogo da lareira imprimindo sombras finas sobre a parede. De repente, Kamus surgia do nada, o cabelo ruivo refletindo a luz do sol e brilhando com diversas tonalidades de vermelho...

Sentiu as mãos indóceis para tocar aquele cabelo, cheirá-lo e esfregá-lo no rosto e no seu corpo, enquanto faziam amor... Porém, os fios de fogo, ondulavam formando uma espécie de teia e o rosto do amado se evanescia e retornava como se estivessem brincando de esconde-esconde...

Kamus...! Ouviu-se chamar, quase gritando, mas sua voz foi perdendo força, seu corpo sendo tomado pelo tesão insuportável e a escuridão vindo, tragando-o para dentro das suas entranhas...

Kamus...! Kamus...!

— Há quanto tempo ele está dormindo?

—Um dia e meio! – respondeu Cersi cobrindo o corpo de seu senhor com uma manta.

Afrodite suspirou com o cenho franzido. Milo havia usado toda a poção e não havia muito que fazer, somente, esperar que o efeito passasse.

— O senhor Milo está bem? Eu fiquei muito assustada, achei que ele estivesse...

— Morto. Eu sei. Esta poção é extremamente forte, mas não precisamos nos preocupar, o sangue do senhor de Berkehell facilita a recuperação do efeito prejudicial das drogas e venenos.

— Ele parece nem estar respirando. – disse a jovem com uma expressão preocupada.

De repente, uma figura alta e imponente adentrou o quarto, os cabelos avermelhados presos em uma trança, o olhar fixo na cena em que Milo jazia espalhado e inerte nos lençóis brancos que contrastavam com a pele bronzeada.

— Milo!

Cersi deu um gritinho baixo de surpresa e o senhor dos venenos encarou Kamus com surpresa e, ao mesmo tempo, alívio. Havia a curiosidade de saber o que o líder do clã Akkwarju fazia ali, mas isso podia esperar. O remédio para o cansaço, preocupação e tristeza do senhor de Berkehell havia chegado!

— Antes que aconteça mais confusão, senhor de Irġiel kiesaħ saiba que Milo está bem. Ele andava muito cansado e com dificuldade para dormir. Dei-lhe uma poção para que relaxasse, porém ele exagerou um pouco e agora parece o personagem de uma daquelas histórias infantis onde o príncipe é enfeitiçado e só desperta quando encontra seu verdadeiro amor. – disse Afrodite com uma entonação divertida.

Kamus aproximou-se da cama ignorando Afrodite e a serva que deixaram o quarto rapidamente e em silêncio. Como bem havia dito a jovem, Milo parecia não respirar, o que dava ao rosto jovem e belo uma expressão quase infantil. O corpo nu e voluptuoso parecia uma escultura perfeita cinzelada em carne. Colocou os dedos entre os cabelos loiros e revoltos, levando-os ao nariz. Inalou aquele cheiro de sol e especiaria que Milo trazia na pele e no olhar. Beijou-lhe os lábios carnudos repetidas vezes e depois acomodou-se na cama ao lado dele, puxando-o para si. Abraçando-o forte, murmurou: eu te amo escorpião e voltei para você. Ao término da frase fechou os olhos e adormeceu também.

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Os odores do verde, das flores e da terra úmida compunham uma sinfonia luxuriante e permanente em Irmied. Ali, a natureza permanecera intocada como testemunha da força de seu senhor e da sabedoria milenar das árvores anciãs.

Shaka terminava a última parte do inventário do estoque dos remédios e anotava as informações em um pergaminho quando Misty e Mu apareceram na porta do salão das ervas.

— Meu senhor, eles chegaram! – disseram os dois juntos.

O senhor de Irmied elevou uma das sobrancelhas, disfarçando o sobressalto de seu coração. Mantendo a expressão serena, largou o pergaminho sobre a mesa e fez a pergunta para a qual já sabia a resposta.

— Eles quem?

— Ora, Aiolia e Manigoldo!

Shaka sorriu lembrando que tanto Misty quanto Mu passavam grande parte de seu tempo observando as fronteiras à espera de seus amados.

— Então vamos recebê-los!

Ao dirigir-se para o pátio, Shaka viu que alguns jovens consertavam um muro de cerca viva, tendo um jovem belo e viril supervisionando e aprendendo sobre tipos de madeira e a idade das árvores. Ikki acenou e o senhor de Irmied retribuiu a saudação olhando-o com amor e sentindo-se muito à vontade com a luxúria que aquela cena lhe despertava. Fēnikss estava mais robusto e musculoso. Cada vez que faziam amor, Shaka descobria-se cheio de desejo e isso, ele descobriu, lhe aumentava os poderes de cura.

— Sejam bem-vindos, meu soberano e senhor Manigoldo. – disse o senhor de Irmied fazendo uma reverência.

— Saudações, Shaka Deependra! – disse Aiolia sorrindo e abraçando-o sem cerimônia.

Manigoldo também agradeceu a acolhida, mas seus olhos estavam cravados em Misty cuja face estava intensamente ruborizada.

Mu olhou para o amigo com o cenho franzido e tocou-lhe a face e a testa.

— Você está bem, Misty? Parece estar com febre.

— E-Eu? Claro que não, é apenas calor... – respondeu Misty mordendo o lábio inferior, enquanto Manigoldo lhe enviava mais um daqueles olhares.

Ikki juntou-se ao grupo e todos foram se refrescar para depois festejar. Aiolia só tinha olhos para Mu e isso significava que a visita tinha uma intenção clara de levá-lo para Dwiefer. No entanto, o jovem era herdeiro de Shaka e talvez não fosse tão fácil desistir de tudo por amor.

Mu conversava e ria, mas em seu íntimo se perguntava se Shaka sabia qual decisão ele tomaria. Desde que acabara a guerra, a rotina em Irmied voltara ao normal. O senhor do clã, apesar de viver uma relação forte e intensa com o guerreiro de Berkehell continuava a ser o líder.

Misty estava claramente ligado a Manigoldo e talvez também abandonasse seu aprendizado. Enquanto ele, Mu, não sabia o que fazer. Amava Aiolia, mas o leão era o soberano de Darneheim. Que papel teria ele ao lado de um homem com tanta responsabilidade e poder? Como Shaka ficaria sem a sua ajuda?

Shaka ouvia as histórias contadas por Aiolia e Manigoldo, mas sentia a angústia de Mu. Sabia que Aiolia viera buscá-lo e que o amor entre os dois era verdadeiro e forte. Fechou os olhos e inspirou. Era ele quem devia encaminhar a situação, libertando Mu e Misty para viver seus destinos fora de Irmied. Em seguida, ergueu a taça que tinha em mãos e pediu a atenção de todos à mesa.

— Senhores! Estamos vivendo uma era de paz e também descobrindo o poder das boas relações e do amor. Estou honrado com a presença do nosso soberano em Irmied e também do general Manigoldo, um guerreiro que ajudou a restabelecer a paz e o bem. Sei que ambos vieram para firmar um compromisso com seus amados e, apesar, de isso significar que perderei dois excelentes curadores, eu tomei uma decisão.

Misty e Mu se olharam e, em seguida focaram em Aiolia e Manigoldo. O silêncio foi quebrado por um breve e baixo rumor, assim como risinhos e cochichos.

Shaka continuou:

— Eu mesmo aprendi e evoluí muito, através do amor. Mu, você é um curador em potencial e será de grande ajuda ao lado de Aiolia. Misty, seus talentos de comunicação também podem curar mal-entendidos e serem de grande ajuda em outro lugar. Quero que saibam que eu os abençoo e espero que, onde forem, levem a mensagem de paz, cura e sabedoria que aprenderam aqui.

Demorou alguns segundos para que as risadas preenchessem o ar. Mas, logo, todos brindavam e festejavam a benção do senhor de clã mais poderoso de Darneheim. Shaka sentiu o suave aperto da mão de Ikki na sua, enquanto Mu agradecia com o olhar aquele gesto de puro amor do homem que admirava como se fosse um deus.

— Já disse que você é incrível, senhor de Irmied?— sussurrou Ikki próximo ao ouvido de Shaka.

— Já, mas gostaria que me mostrasse em gestos mais... concretos. – respondeu Shaka com puro fogo nos olhos azuis.

Ikki acariciou-lhe a parte interna da coxa e o senhor de Irmied permitiu-se sorrir e deixar o salão para embarcar em mais uma aventura erótica com seu amante. Afinal, tudo era justo e perfeito. E o amor, a cura para todos os males...

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Milo tentava abrir os olhos, mas parecia que suas pálpebras estavam coladas e foi preciso muito esforço para movimentá-las. Sentia-se preso a alguma coisa quente e sólida que o envolvia como se fosse uma espécie de tentáculo? Virou a cabeça com lentidão, sentindo uma lufada de ar quente em sua face e só então percebeu que havia algo ou alguém junto a si. Forçou os olhos e a visão dos fios vermelhos e da pele alva o fez pensar que ainda estava dormindo e sonhando.

— Kamus...? – chamou ele ao deparar-se com o rosto do amado junto ao seu, a respiração baixa e ritmada atestando que ele dormia.

Profundamente emocionado, Milo levou a mão trêmula ao rosto alvo e, antes que o tocasse, Kamus abriu os olhos.

— Você acordou... – falou o ruivo.

— E você está aqui! Como foi isso? Quando chegou? Porque ninguém me acordou?

Kamus segurou as mãos de Milo e as levou até os lábios. Beijou cada dedo e o fitou nos olhos.

— Segundo Afrodite você tomou uma poção e caiu num sono mágico. Somente o amor verdadeiro poderia despertá-lo.

Milo sentiu o calor da boca do ruivo em sua pele e foi o suficiente para que o seu sangue corresse acelerado nas veias.

— Ainda bem que você veio, senão acho que dormiria para sempre. Senti muito a sua falta, lobo. Cheguei a achar que...

— Eu passei a liderança do clã para os meus dois irmãos, Yohma e Fenrir.

— Você fez isso por mim?

— Fiz por nós. Você vai ter que me aturar ao seu lado para sempre, escorpião.

— Jura que não vai se arrepender?

Kamus não respondeu. Olhando Milo nos olhos enroscou a mão nos cabelos fartos e baixou a cabeça cheirando e beijando-o ao longo do ombro e do pescoço até chegar à orelha, onde o mordiscou ouvindo o gemido baixo escapar dos lábios do escorpião. Em seguida, passou a beijá-lo nos cantos da boca, mordeu o lábio superior e depois o inferior até invadir-lhe a boca e sugar-lhe a língua.

O beijo tornou-se profundo, molhado, exigente... O ruivo puxou Milo para si e, em meio ao frenesi do desejo, sussurrou rente aos lábios úmidos do amante.

— Não sou homem de arrependimentos, e você?

— Nem eu, lobo... — respondeu Milo com um beijo ainda mais ardente

A forma como Milo o beijou espalhou fagulhas de prazer no corpo de Kamus. As mãos tocaram-no com possessividade e ele o beijou de um jeito erótico e agressivo. Kamus o recebeu com os lábios abertos, gemendo quando sentiu a língua ávida invadir sua boca.

Quando a situação esquentou, ainda mais, Milo sentiu algo pequeno e gelado em seu rosto e Kamus também. Os dois abriram os olhos e ficaram surpresos ao constatar que eram pequenos flocos de neve bailando acima deles...

— Neve?! – disse Milo.

Boquiaberto, Kamus percebeu que milhares de flocos prateados caiam sobre ele e Milo. Levou a mão e tomou um deles entre os dedos. Era uma pequenina obra de arte esculpida em gelo.

— De onde está vindo isso? – questionou Milo.

Olhando com muita atenção, Kamus percebeu que a neve, simplesmente, aparecera. Então, só podia ser... magia.

— Hyoga... – falou o senhor de Irġiel kiesaħ.

Milo olhou para o floco de neve que, como por encanto, desapareceu no ar como se nunca tivesse existido.

— Mas o quê?!

Kamus sorriu e tornou a puxar Milo para si.

— Creio que meu irmão e o seu estão nos mandando um recado.

— Ele e Shun estão nos espionando?

— Hyoga não estava quando deixei o clã e Shun não voltou a Berkehell. Talvez essa seja a maneira que ambos acharam para nos abençoar.

Encostando os lábios, novamente, nos de Kamus, Milo reiniciou de onde tinha parado. — É melhor que eles não estejam olhando agora...

Enquanto isso, bem longe dali, em uma floresta repleta de árvores antigas, numa outra dimensão, Hyoga e Shun recebiam de volta o “floco de neve” que o Maístir havia enviado. Num piscar de olhos, a Alkuaineen voltou ao corpo original e flutuou entre os dois com um risinho malicioso:

Eles estavam quase fazendo amor! Eu acho que atrapalhei...

Hyoga tocou suavemente o rosto do amado.

— Os dois estão bem, viu? Não precisava se preocupar.

Shun sorriu.

— Será que eles sabem?

— Certamente que sabem. Kamus, principalmente. Mas, agora, onde estávamos antes de você desejar saber se tudo corria bem com os dois? – disse Hyoga deitando de lado no tapete feito de folhas e flores macias e abrindo os braços para o amante.

Shun se acomodou no peito do jovem Maístir, pleno de contentamento. E quando seu corpo desejou fundir-se com Hyoga, o jovem olhou para a minúscula figura iridescente que planava entre eles.

— O que você acha de dar uma volta, hein mocinha?

A Alkuaineen piscou e tornou a ser um floco de neve. Quem sabe se ela voltasse àquele lugar de humanos tão bonitos e cheios de amor para compartilhar poderia se divertir um pouco também?

FIM

Notas finais
♥ Esta fic foi muito importante para mim e concluí-la me deixa muito feliz! Obrigada a todos pelo carinho, pela paciência, pelos comentários, cada um com sua peculiaridade, seu estímulo e, também, pelos silenciosos que, mesmo sem se manifestar deixam sua energia por aqui! Um 2019 fantástico para todos e, mais uma vez, obrigada pela honra e alegria de me acompanhar!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!