Trono De Sangue
23 Capítulo 23 A HORA DO PESADELO...
Notas iniciais
Espero que gostem!! Bjs, e obrigada pelas recomendações, pelo carinho e acompanhamento.
O vento gélido surgiu num torvelinho branco, no exato momento em que o mamute baixou o corpo e o jovem ruivo que o montava, desceu. Seu olhar voltou-se para os lados e para cima, logo uma ordem escapou de seus lábios e tanto os lobos, quanto as mulheres trataram de obedecer.
– Protejam-se! – gritou ele e o vento zuniu, congelando e açoitando a carne de homens e animais.
Kamus perdia sangue e a dolorosa tentativa de manter seu corpo em pé tornava-se um exercício de muito autodomínio. Arfou, sentindo adormecer o corpo em um momento e no outro, a visão de olhos conhecidos e faiscantes dentro do turbilhão gelado que se movimentava em espirais fantasmagóricas e rápidas.
– H-Hyoga... – gemeu Kamus.
“Aguente irmão! Vou segurá-los aqui. Raio e Noite o levarão para casa.” – disse Hyoga, enquanto Kamus vislumbrava partes do corpo nu do irmão mesclar-se com a neve e o vento.
Raio foi até Kamus oferecendo o pescoço para que ele abraçasse, enquanto Noite puxava o trenó ocupado pelo velho que atacara Kamus e que agora se encontrava vazio. Com muito esforço, Kamus atrelou ambos os lobos ao trenó e deitou-se sobre ele, esforçando-se para manter a consciência apesar da dor e do sangramento. Seus olhos estavam pesados e ele queria falar algo, mas assim que ocupou o trenó, os lobos correram com espantosa rapidez e a paisagem branca transformou-se em um borrão...
No centro da tempestade de neve, Hyoga mantinha a força do vento com a energia vital de seu corpo. Nunca tentara nada parecido, mas ao descobrir que seu irmão corria perigo, agiu por instinto, invocando a força dos elementais e se integrando a eles. Entretanto, sua parte humana fazia um esforço muito além do que já aprendera e o preço a pagar por isso, se revelaria doloroso...
O ruivo que atacara Kamus sentia sua pele arder com o frio, então se abrigou próximo ao corpo do mamute, cujos pelos grossos funcionavam como proteção. Os outros sofriam o castigo do tempo que, aos poucos, foi arrefecendo.
Hyoga sentiu faltar-lhe o ar, sua boca abriu-se, arfante e sua carne parecia estar sendo arrancada de seus ossos. Ele cerrou os dentes e se esforçou para não gritar, antes de tudo escurecer diante de seus olhos...
Na Floresta Negra, Natássia sentiu-se estremecer e os cisnes agitaram-se nas águas, outrora tranquilas.A Alkuaineen que um dia fora invocada por Hyoga manifestou-se agitada, os grandes olhos mudando de cor num frenesi enervante, os cabelos brancos e brilhantes enredando-se, como se os fios lutassem entre si...
Ele tentou a fusão, senhora! Ele vai morrer... – falou a Elemental.
A Dama das Águas franziu o cenho e seu etéreo coração apertou. Desde que amara Dégel, jamais deixara aquele lugar. Ali, em completa sintonia com todos os elementos, ela vivia e protegia os seus. Agora, esse equilíbrio estava para ser quebrado, mas ela não tinha escolha... Ou melhor, tinha e não era a Dama das Águas que o faria e sim, o seu coração de mãe.
A natureza ensandecida rugia em meio ao vento e à neve. Natássia caminhou altiva e adentrou o torvelinho estancando-o e fazendo parar o tempo... Flocos de neve congelaram no ar, criando um corredor de pontos esbranquiçados que cedia espaço para os pés delicados e às vestes transparentes e luminosas da Dama das Águas.
Hyoga estava caído, o corpo retesado, os olhos azuis abertos, preso na agonia de pertencer a dois mundos e, ainda assim, ousar continuar exigindo demais do seu corpo humano.
Natássia abaixou-se e tomou o filho nos braços, tocando-o no centro da testa e murmurando baixinho.
“Róa þig, litli minn ... Fá aftur til mín eins holdi og blóði!“ (Acalme-se, meu pequeno... Volte a mim como carne e sangue!)
O jovem relaxou e pareceu adormecer nos braços da mãe. Natássia beijou-o, de leve nos lábios e uma névoa prateada saiu de sua boca, tranformando-se em uma pequena espiral que adentrou os lábios de Hyoga. Um suspiro rouco brotou da garganta do jovem e Natássia sorriu, acariciando o belo rosto do filho.
Mãe...e-eu....
Shhhhh não fale. Feche os olhos, meu amor e durma. Já exigiu demais de si mesmo.
Hyoga tentou sorrir, mas até mesmo esse simples ato parecia dificultoso. Então, a noite pareceu descer, novamente, diante dos seus olhos, porém agora, ele vislumbrava as estrelas...
A mão delicada de Natássia moveu-se como se ela executasse um movimento de dança. Os rostos contorcidos pelo frio permaneceram em uma relativa imobilidade e a Dama das Águas desapareceu no vento norte, acompanhada de seu filho.
O tempo ainda permaneceu congelado e, lentamente, foi voltando ao seu curso normal. Os invasores voltaram a si e ficaram algumas horas desnorteados e com a memória confusa, até o ruivo ordenar que acampassem, ali mesmo para que pudesse refazer os planos da invasão. Em sua mente, imagens desconexas dançavam e ele sentia náuseas, sem compreender o que havia acontecido e nem o porquê daquele frio esquisito.
– Façam fogo! – gritou ele.
E, enquanto algumas das mulheres disformes cuidavam dos detalhes e do fogo, Yohma franzia o cenho e focava na imagem do senhor de Irġiel kiesaħ, seu irmão, o homem que sempre desejara destruir.
Não deixava de ser irônico que o filho nascido defeituoso e abandonado para morrer, havia sobrevivido e ali estava para reclamar seus direitos. Ele lutaria com Kamus e o mataria, assumindo como senhor do clã. Daria a chance de viver para aqueles que o aceitassem e liquidaria com os outros. Essa tinha sido a visão do homem das sombras, seu mestre, seu salvador, aquele que o impedira de morrer e lhe oportunizara realizar a sua vingança...
Olhando para o fogo, que agora estava alto, Yohma sorriu e chamou uma das mulheres para aquecê-lo. Enquanto fodia a mulher por trás, planejava a queda do senhor de Irġiel kiesaħ e sonhava com o poder que sempre ansiara para si.
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Algo aconteceu ou ela não viria até mim, pensou Hades quando Verônica adentrou a fortaleza com sua beleza madura, emoldurada pelo ar sensual que sempre a caracterizara. Seus cabelos em um tom de prata, ainda eram longos e cacheados e se destacavam no vestido justo, em tons de roxo e preto.
– Meu senhor... – disse ela curvando-se ante o filho.
– O que a traz aqui? – perguntou Hades, sem rodeios ou gentileza.
– Sei que és o soberano, mas esperava um tratamento mais carinhoso... Afinal, sou sua mãe! – respondeu ela em um tom queixoso.
– Nosso relacionamento nunca foi ancorado em gentilezas ou amor. Fez questão de enfatizar isso tanto para mim, quanto para Pandora, então, se está aqui é porque algo ameaça as suas ambições. – respondeu Hades.
– Somente as minhas? Não, meu querido... Estou aqui, porque sua soberania corre perigo.
Hades fitou-a com o cenho franzido, esperando que ela dissesse o motivo da visita inusitada.
– Tive uma visão. As tropas enviadas a Irmied foram dizimadas! Parece que Shaka é mais poderoso que ousava demonstrar.
– Como? – perguntou Hades mantendo o ar impassível.
– Em minha visão vi, apenas, carne e sangue! Um poder desconhecido, gerado pelo senhor de Irmied destruiu cada soldado e animal de um jeito formidável! Devia ter ouvido os gritos... foi algo inesquecível! – disse Verônica quase sorrindo.
– Vejo que ainda sente prazer na morte. Veio avisar-me, somente ou... sentiu saudades de seu amante?
– Regulus ainda vive? – indagou ela.
– Sim, mas não por muito tempo. Creio que depois do acontecido, teremos que adiantar a cerimônia e depois nos livrarmos do velho leão. – disse Hades, sério.
Verônica suspirou, depois andou até a sacada onde vislumbrou a pirâmide negra e reluzente, o Ádito dos Mistérios...
– Você vai matá-la? – perguntou a necromante.
– Não. Aliás, já que está aqui, quero que cuide disso para mim. Tire a criança, mas deixe Pandora viva.
– Ainda está fodendo com sua irmã? Pensei que já havia superado essa fase... Sabe que depois da cerimônia ela vai odiá-lo, portanto esteja preparado.
– Não importa, eu a quero viva. Certifique-se que será feito ou o seu sangue também servirá de oferenda ao Caos! – respondeu Hades e seu olhar frio encontrou-se com os olhos escuros e fugidios de sua mãe.
– Está bem, você é quem sabe.
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Os lobos corriam depressa, porém o caminho íngreme, por vezes, tornava a jornada de volta, lenta e tortuosa. No entanto, ao chegar perto das fronteiras de Irġiel kiesaħ, Raio farejou o ar e uivou, sendo seguido por Noite.
Fenrir ouviu o uivo de ambos os lobos e correu. Hilda ficou séria, sentindo algo no ar e logo chamou as outras mulheres para que se preparassem para o que havia de vir.
Saori bordava uma peça, quando ouviu a voz autoritária de Hilda. Levantou-se e foi até ela.
– O que está acontecendo? – perguntou a jovem nobre.
– Os lobos voltaram e Kamus está com eles. – respondeu Hilda.
– Kamus! Será que ele está ferido? – indagou Saori.
Hilda a olhou sem muita paciência, tudo o que menos desejava era ficar ouvindo as perguntas idiotas de Saori.
– Faça um favor a si mesma e a nós e volte ao seu bordado. Assim que soubermos de algo, terá as suas respostas. – disse Hilda deixando a jovem com outra pergunta presa na garganta.
Se ela pensa que eu vou ficar aqui esperando, está enganada! Eu serei a futura senhora e tanto Hilda quanto as outras vão ter que me engolir! Pensou Saori largando o bordado e seguindo, logo atrás de Hilda.
O som longo, extraído do corno de carneiro, cortou o ar no exato instante que Kamus adentrou Irġiel kiesaħ. Era o alerta que seu senhor chegava ferido e, portanto, as defesas deveriam ser acionadas. Batedores jovens muniram-se de espadas e arcos e foram investigar, enquanto Fenrir retirava seu irmão do trenó. Yuna veio às pressas, instruindo com firmeza para que levassem Kamus para o interior da fortaleza.
O senhor de Irġiel kiesaħ estava desacordado, embora ainda segurasse firme as tiras de couro que o mantinham sobre o trenó. Hilda viu o sangue, assim como a flecha ainda cravada no ombro de Kamus e o pedaço da outra que se encontrava na coxa musculosa.
Saori levou a mão à boca e empalideceu, tendo que ser amparada por uma das mulheres. Revirando os olhos, Hilda ordenou que a retirassem do local, mesmo que ela esperneasse e teimasse em ficar ao lado de Kamus.
– Tirem essa retardada daqui! – disse Hilda e uma jovem, prontamente, conduziu Saori para longe da cena.
O túnel escuro girava e girava, enquanto Kamus sentia que mãos o tocavam de forma firme, mas gentil. Estava em seus aposentos, deitado sobre as peles negras. Suas roupas haviam sido retiradas, exibindo as marcas em sua pele e ambos os ferimentos que deviam ser tratados com prontidão.
– Beba isso, meu senhor. Ajudará com a dor, mas preciso que fique consciente. Olhe em meus olhos. – disse Yuna para Kamus.
O jovem senhor esforçou-se para abrir os olhos, mas não era consigo que estava preocupado e sim com o irmão que ficara para trás.
– Hyoga... ele...
– Seu irmão está bem. Precisamos cuidar de seu ferimento, agora. Tenho que retirar a flecha de seu ombro e ela está muito profunda. Olhe para mim, meu senhor, preciso que fique comigo aqui e agora. – disse a Healer sabendo da gravidade dos ferimentos de Kamus.
Kamus obedeceu, recordando-se de tudo, a neve, a luta, o homem que parecia consigo, a deformidade que ele exibia... Fixou os olhos rubros nos da Healer e mordeu um pedaço de couro que lhe foi colocado entre os lábios por Hilda.
Ele não gritou quando a flecha foi tirada, mas seu corpo estremeceu de dor e ele gemeu baixo, quando o pedaço de couro foi retirado de sua boca. O túnel negro abraçou-o, novamente e ele caiu na escuridão aveludada e quente como o sangue que vertia, abundante, de seu corpo.
– Preciso estancar o sangue e manter a ferida limpa com fogo. – disse Yuna. – Hilda, rápido, coloque o punhal na chama da lareira e traga-o para mim.
De imediato, Hilda obedeceu e, quando o metal ficou incandescente, ela o encostou na carne ferida de Kamus. O jovem senhor arquejou e voltou a abrir os olhos em agonia. Hilda segurou-lhe a mão, sentindo que ele a apertava com uma força desesperada.
Yuna manteve a mão firme, até a carne queimar, fechando a ferida e cessando o sangramento. Murmurou uma prece e, em seguida, colocou uma pasta de ervas e enfaixou o ferimento. Depois, cuidou do ferimento na coxa e por fim, das escoriações menores que podiam ser vistas, facilmente, na pele alva.
– O ferimento é muito profundo... – sussurrou Hilda, deixando refletir a preocupação nos olhos claros.
– Sim, é. Mas Kamus é o senhor de Irġiel kiesaħ e possui a força dos lobos em seu espírito. Ele lutou com bravura e voltou para casa. Ele viverá. – disse a Healer.
Após a saída de Yuna, Hilda tocou no rosto adormecido de Kamus, ato que Fenrir presenciou ao entrar no aposento.
Ela ainda o ama. Pensou o jovem, mas não demonstrou seu descontentamento. Apenas se aproximou e perguntou:
– Como ele está?
– Yuna diz que ele vai viver, mesmo que o ferimento seja grave.
– Cuide dele, vou atrás de Hyoga. – disse Fenrir, sério.
De repente, Hilda percebeu que aquele jovem possuía uma maturidade que ela não notara antes. Tinha ido para a cama com ele e tido uma noite de prazer inesquecível, mas o que sentia, agora, estava além das necessidades de seu corpo. Temia pelo jovem e também por si mesma. Revelar-se em sua essência nunca fora algo que a agradasse, mas também nunca vivenciara um sentimento tão forte como aquele que teimava em aflorar, cochichando que era Fenrir o verdadeiro objeto de seu amor.
– Fenrir...
– O que é? – perguntou Fenrir voltando-se para trás.
Hilda saiu do lado de Kamus e aproximou-se do jovem, tomando-lhe o rosto entre as mãos para beijá-lo longa e profundamente.
– Cuide-se, jovem lobo. Espero ter uma segunda noite, naqueles mesmos termos. – disse ela ao afastar os lábios e olhar, profundamente, dentro dos olhos dourados de Fenrir.
Um sorriso satisfeito abriu-se nos lábios do jovem.
– Me espere. – disse Fenrir.
Hilda também sorriu e passou a língua nos lábios, de forma sugestiva.
– Estarei esperando, ansiosamente... – respondeu ela.
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Misty notou a beleza de Milo, mas inexplicavelmente, foi a seriedade e o olhar severo de Manigoldo que chamou a sua atenção. Vivia entre belos homens, todos com feições simétricas e até um tanto delicadas, mas aquele homem tinha uma beleza selvagem e experiente, as mãos grandes e a forma com que falava produziam calafrios em sua espinha...
– Bem, senhores, aqui estamos! Shaka, o senhor de Irmied está se recuperando do ataque ao nosso clã, então deixem-me fazer as honras da casa. – disse Misty olhando, sugestivamente, para o comandante das forças de Irġiel kiesaħ.
– Eu agradeço a sua gentileza, mas gostaria de saber se meu irmão, Ikki, ainda se encontra aqui? – perguntou Milo.
– Ah, oh, sim! Ikki está entre nós e se recuperou muito bem dos ferimentos, ele está com... Shaka. Quer dizer... eles estão conversando, só isso.
Milo franziu o cenho, aquele homem parecia esconder algo nas entrelinhas de cada frase dita e também nos sorrisos. Tinha malícia nos olhos e uma certa afetação um tanto irritante..
– Por favor, senhor... Misty. Eu gostaria de ver meu irmão, agora. – disse Milo.
Misty sorriu, mais uma vez, porém antes que encontrasse outra desculpa, Ikki surgiu, ao lado de Shaka.
– Pelo deus Sombrio... Irmão! – exclamou Ikki.
Os lábios do senhor de Berkehell se curvaram em um sorriso largo e logo ambos estavam abraçados. Shaka percebeu o olhar de Misty sobre si, mas dirigiu-se a Manigoldo e aos três jovens que o acompanhavam, assim como ao comandante Shura e seu tenente.
– Senhores, sejam bem-vindos à Irmied, embora a ocasião que nos une traga mais tristezas que alegrias. – disse Shaka.
– Permaneceremos muito pouco em seus domínios, meu senhor. Por acaso, tem alguma informação sobre o irmão mais novo do senhor de Berkehell? – perguntou Manigoldo.
– Minha intuição diz que o irmão do senhor Ikki está bem, porém não sei nada sobre esse tal senhor dos venenos. Estivemos ocupados com as tropas enviadas por Hades.
– Devo dizer que sua atitude me surpreendeu. Irmied jamais se posicionou a favor da guerra e não vejo guerreiros com tanto poder de fogo ao ponto de derrotar tropas enviadas por Hades. – falou Manigoldo.
– Nossa posição não é a favor da guerra, comandante. Nós apenas reconhecemos a linhagem de Aiolia e o acolhemos a pedido do Conselheiro Shion. Irmied não possui guerreiros para combater, somos um clã de cura. No entanto, enquanto eu viver, ninguém entrará em Irmied para desonrar nossos propósitos. – respondeu Shaka.
– Hades não deixará barato. De alguma forma, ele buscará a retaliação. – disse Shura.
– Por ora, comandante, fico feliz que o senhor e seu tenente estejam do lado da verdade e apoiem Aiolia até que os outros clãs se reunam, numa só força, para combater o usurpador. Quanto à retaliação, esperemos que Hades entenda o recado quando lhe enviarmos os sobreviventes. – falou Shaka.
– Se fosse eu, mandava apenas as cabeças desses filhos da puta! Deixá-los vivos é dar-lhes a chance de retornar, novamente, e ainda mais fortes. – disse Manigoldo.
– A destruição das tropas foi um ato de defesa. Como o senhor mesmo observou, meu clã foi construído sobre pilares de cura e respeito, não de batalhas e morte. Enviarei os sobreviventes e espero que isso seja o suficiente.
– E se não for?
Shaka suspirou.
– Então terei que ser mais enfático. – repondeu Shaka e seus olhos brilharam de um jeito perigoso.
– Bem, como eu dizia, tenho o prazer de fazer as honras da casa e como temos motivos para comemorar, peço que me sigam! – falou Misty tentando amenizar o clima.
Milo seguiu abraçado ao irmão e os outros os acompanharam percebendo a atmosfera tranquila e luxuriante do lugar. Por um instante, Milo sentiu aquele arrepio na nuca e o mesmo desconforto de antes, agora mais forte e desagradável.
Olhou para Manigoldo que era assediado por Misty e, de vez em quando, olhava na sua direção. Sentia algo intenso e estranho e, constantemente, a imagem de Kamus vinha a sua mente e perturbava o seu coração.
– O que foi irmão? – perguntou Ikki vendo que Milo estava pálido e não mais sorria.
– Não sei, mas algo aconteceu. – respondeu Milo passando a mão na testa.
– Com nosso irmão? – devolveu Ikki.
– Não, com outra pessoa. – sussurrou Milo e, de repente, sentiu todo o seu corpo estremecer.
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Sonhava que estava deitado, com a cabeça apoiada no colo de Milo. Havia sombras por toda a volta, assim como aqueles animais peludos e com trombas alongadas. Homens encapuzados e vestindo negro queimavam a floresta, fazendo com que os animais fugissem em desespero.
Os lobos uivaram... Seus irmãos, sua família todos evanesciam... Seu corpo doía, mas, mesmo assim, desejava beijar aqueles lábios...
Milo... o homem que amava. O rosto dele foi desaparecendo em meio à névoa.
Não! Não! Ouviu-se gritar, enquanto o fogo surgia em seu peito, queimando, destruindo, afastando-o dele...
– Milo... – gemeu Kamus e Hilda enxugou-lhe a testa ardente e embebeu um pano com a infusão de ervas, pingando algumas gotas dentro da boca entreaberta de seu senhor.
Kamus estava com os olhos fechados, o corpo ensopado de suor, o ardor da febre fazendo-o tremer como se estivesse ao relento. Pacientemente, Hilda continuou a dar-lhe a infusão e a enxugar-lhe o suor. Lá fora a tempestade viera com toda a força e ela orou aos deuses da floresta que protegessem Fenrir e curassem Kamus.
– H-Hilda... – chamou Kamus, abrindo os olhos.
– Sim, meu senhor. Deseja que eu chame Yuna? – perguntou ela.
– Não... ali, dentro daquele... pequeno baú...traga-me a... bolsa de couro. – disse ele.
Hilda foi rápida e logo a pequena bolsa estava nas mãos de Kamus. Ele tinha dificuldade em mover o braço, cujo ombro fora perfurado, mas mesmo assim ele insistiu, retirando uma mecha de cabelo loiro e dourado de dentro da bolsa.
Ofegante, o jovem senhor apertou-a forte, levando-a ao nariz e aspirando, profundamente. Um sorriso fraco insinuou-se em seus lábios e ele fechou os olhos, novamente.
Hilda percebeu que Kamus agarrava-se à vida, através do seu amor pelo senhor de Berkehell. Cobriu-o e velou seu sono, orando como nunca fizera antes...
Yuna retornou com mais ervas e infusões. O corpo do senhor de Irġiel kiesaħ foi lavado, novamente, e todos os ferimentos limpos e cobertos com uma pasta feita de minerais e ervas. Raio permanecia no aposento, deitado aos pés de Kamus, atento e vigilante.
Enquanto Kamus era cuidado, Fenrir adentrava a Floresta Negra com Noite e Neve ao seu lado. A tempestade de neve parecia estranha, arrefecendo de tempos em tempos e se intensificando em outros. Neve elevou as orelhas num claro gesto de que algo acontecia, algo invisível aos olhos de Fenrir, mas não aos do lobo.
Era aqui a entrada para o tal reino... Mas, sem Hyoga, não consigo vê-la. Pensou Fenrir, enquanto olhava na direção da grande e retorcida árvore.
Natássia tocou o focinho de Neve e o lobo ganiu, satisfeito. Ela sorriu e olhou para Fenrir que estreitava os olhos e, num ato instintivo, levava a mão ao machado que sempre o acompanhava.
“Fique tranquilo, Fenrir... Você já conhece a passagem para o nosso mundo. Não há perigo aqui, por enquanto.”– disse a Dama das Águas.
O jovem franziu o cenho e, de repente, viu a imagem luminosa e transparente que parecia mudar de cor, como se o arco-íris que surgia, após a tempestade, tivesse tomado um corpo físico e estivesse ali, bem diante dos seus olhos.
“Eu sou a mãe de Hyoga e estou cuidando dele. Volte tranquilo e em paz, mas prepare-se para o que há de vir.”
– Você é a mãe dele... – deixou escapar Fenrir, a boca aberta pela surpresa e pela beleza daquela aparição.
“Sim, eu sou e interferi no curso dos acontecimentos, mexendo na linha do tempo para salvar meu filho e dar-lhes alguma vantagem, jovem Fenrir. Manterei Hyoga aqui, onde posso protegê-lo. Agora vá e leve esta flor com você. Dê à Yuna e diga-lhe que é um presente meu. Seja rápido, pois vocês não têm muito tempo...”
Nem bem Fenrir estendeu a mão para pegar a flor, Natássia desapareceu, deixando-o confuso. Entretanto, os lobos o olharam de forma intensa e tomaram o rumo de casa, fazendo-o acompanhá-los e deixar as perguntas não feitas para outra oportunidade.
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O jantar fora farto. Não com as carnes gordas e suculentas que enchiam as mesas de Berkehell ou Akkwarju, mas ainda assim, os pratos feitos com frutas e vegetais eram igualmente deliciosos e o vinho parecia uma iguaria celeste, algo fora do comum em sabor e aroma.
Shaka estava sorridente, algo que Misty e os outros notaram e comentavam entre si. Milo conversava com Ikki, ouvindo todos os detalhes do que acontecera com ele e Shun, mas, em determinados momentos, sentia-se inquieto.
Depois, quando o jantar acabou e todos se sentaram para conversar e ouvir música, Milo foi até Manigoldo que já estava um pouco alto com o vinho e ria com Siegfried, Thor e Hagen que chamavam a atenção pela robustez de seus corpos e os tons muito claros de suas peles.
– Manigoldo, podemos falar um instante? – perguntou Milo.
O comandante olhou-o, vendo que o jovem estava sério.
– Claro, meu rapaz! Mas porque está tão sério? Seu irmão renasceu e você o encontrou. O menor, encontraremos também, é só uma questão de tempo.
– Por favor, vamos falar lá fora. – disse Milo.
O céu estava tão negro que as estrelas pareciam diamantes incrustados no manto escuro. Era lua nova e, portanto, a escuridão parecia ainda maior naquele lugar onde a natureza parecia ter tecido um paraíso único.
– Então, o que está acontecendo? – perguntou Manigoldo.
– Quero que volte amanhã para Irġiel kiesaħ e leve os rapazes com você.
– Por que insiste nisso? Sabe que obedeço a ordens de meu senhor e Kamus foi bem claro quanto a...
– Por favor, Manigoldo! Esqueça as ordens! Minta e diga que está tudo bem comigo, que encontramos meus irmãos e que eu ordenei que voltasse! Aconteceu algo com Kamus, eu sinto...
– Mas o que pode ter acontecido? Hades ainda não atacou outros clãs.
– Não sei, mas sinto que é grave e ele vai precisar de você e de toda a ajuda disponível. Eu e Ikki voltaremos para Berkehell e lá reuniremos batedores para encontrar o tal senhor dos venenos. Por favor, homem... Faça o que eu estou pedindo.
Manigoldo franziu o cenho. Não era homem de descumprir ordens, mas, no entanto, o desespero de Milo não lhe era tão estranho. Ele também ouvira, por alguns segundos, o uivo de lobos e se perguntou se não estaria ouvindo coisas, já que em Irmied não existiam lobos.
– Tem plena certeza do que me pede?
– Tenho. Eu vou escrever uma carta ao Kamus, nela eu explicarei tudo, assim ele não poderá responsabilizá-lo por desobedecer ordens. Eu sei bem que aquele lobo não gosta de ser contrariado. – disse Milo tentando sorrir.
– Está certo, eu voltarei. – disse Manigoldo.
Milo agradeceu e, quando Manigoldo voltou ao salão, ele retirou de dentro da camisa uma pequena bolsa de couro. Abriu-a e retirou a mecha de cabelos ruivos, levando-a ao nariz. De olhos fechados, aspirou, lenta e profundamente, sentindo o cheiro de Kamus, lembrando-se dos olhos rubros e dos lábios desenhados que adorava beijar.
Kamus, meu amor, que o deus Sombrio o proteja. Pensou o jovem senhor de Berkehell, enquanto beijava a mecha de cabelos ruivos sentindo, além da saudade extrema, um profundo incômodo dentro do peito...
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A lua negra... O momento propício e natural para adentrar a escuridão e sorver-lhe os segredos.
O céu escuro, apenas deixava ver o faiscar das estrelas, testemunhas mudas do seu destino. Pensou Pandora ao elevar os olhos para o firmamento.
Estava perto, ela o sabia. Logo seria o momento em que Hades faria a cerimônia e, a simples lembrança do fato, fazia seu ventre se contrair. Pandora deixou a sacada e andou, lentamente, pelo seus aposentos.
A noite estava fria e uma aragem úmida parecia penetrar na pele e chegar até os ossos. Ela tocou os braços nus sentindo o arrepio percorrer-lhe o corpo. Logo...! Logo, chegaria a hora em que ela executaria o plano para salvar seu filho e, se os deuses o aceitassem, faria do amor e proteção da criança, a remissão de seus pecados...
– Não consegue dormir, filha?
A voz preencheu o quarto e Pandora virou-se, os olhos arregalando-se ao ver-se de frente com sua mãe.
– Verônica? O que faz aqui? – perguntou, tentando dissimular o nervosismo.
A mulher sorriu, suspirou e passou as mãos pelo espaldar da cadeira.
– Você e seu irmão são mesmo filhos de uma única semente... Também você me recebe como se eu fosse uma qualquer.
Pandora continuou olhando-a, como se a mãe fosse uma fera espreitando-a.
– Perdoe-me, mas você sempre fez questão que a tratássemos como a necromante e não como nossa mãe.
– É verdade... Mas, fiz isso para que aprendessem a controlar suas emoções e as soubessem usar de modo eficaz. E você, minha querida, o fez com perfeição! O filho que carrega é de Regulus ou de Hades?
O rubor tomou conta do rosto alvo de Pandora.
– Eu não sei.
Verônica aproximou-se e tomou o rosto da filha, puxando-a pelo queixo e fazendo-a sentir as unhas longas tocando-a de forma lenta e sinuosa.
– Ah, você sabe... Pode fingir para si mesma que não, mas você sabe! Você quer esta criança, não é mesmo? Mas, desista dessa ideia patética! Você não embalará, nem amamentará esse filho. Ele pertence ao Caos, não a você!
Lágrimas escorreram dos olhos de Pandora
– Mãe... Por favor...
– Agora a palavra mãe vem aos seus lábios... – disse Verônica, tocando o ventre de Pandora. – Que emocionante... Se eu não a conhecesse bem, acharia que se tornou mais uma destas criaturas ridículas que sonham com uma vida insossa e comum!
– Mãe... Não!
Verônica olhou dentro dos olhos aterrorizados da filha e a imagem da morte formou-se, densa e sensual, levando Pandora à inconsciência. O corpo de Pandora deslizou até o chão e logo, dois criados surgiram com uma padiola, colocando-a sobre ela e levando-a, coberta por uma seda escura até a imensa construção de pedras negras.
Hades observou quando a colocaram no topo da pirâmide e a deixaram ao relento, o corpo sendo tocado pela escuridão sobre a pedra reluzente...
Verônica retornou, vestindo apenas um manto negro e portando um punhal de prata que continha algumas inscrições em um dialeto antigo e proibido. Hades acompanhou-a, também vestindo um manto longo que deixava ver o tórax esguio e alvo.
Quando ambos aproximaram-se de Pandora, a jovem abriu os olhos e o horror desceu como se fosse algo vivo e palpável. Verônica sorriu, murmurando um encantamento e elevou o punhal, entre frases pronunciadas em um tom alto e rouco, antes de usá-lo para abrir o ventre de Pandora.
Pandora gritou e Hades apenas olhou-a com seus olhos frios e implacáveis.
Quando a criança foi retirada e sacrificada para chamar o Caos, os três ficaram banhados de sangue e a escuridão tomou forma, ocupando os espaços, trazendo desequilíbrio, poder e... dor!
Era a hora do pesadelo e das trevas...
O horror em Dwiefer e, em toda Darneheim, estava apenas começando...
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