Trono De Sangue

21 Capítulo 21 O TITÃ SILENCIOSO...


Notas iniciais
Demorei um pouco para atualizar, mas aí está. Espero que se divirtam!
Mais um capítulo dedicado a Sion Neblina, minha irmazinha amada de alma e a todas que curtem o belo virginiano conhecido como Shaka. Muito da origem dele ainda é um mistério que, aos poucos, será revelado...Bjs, e obrigada!!!

Radamanthys rumou aos seus aposentos logo após ter falado com Pandora. Seus pensamentos estavam confusos. Depois que ela o beijara, ele parecia impregnado do cheiro dela, da maciez dos cabelos, da expressão dos seus olhos lânguidos e cheios de desejo...


Ela é uma bruxa, sussurrava uma voz. Ela vai destruí-lo, disse uma voz diferente e, essa, vinha de fora da sua mente.


– O que disse? – perguntou Radamanthys ao ver seu tenente escorado à porta de seu quarto.


– Sei que Pandora mandou chamá-lo e, pela sua expressão, não foi boa coisa. Aliás, tudo o que vem daquela mulher se transforma em merda e caos.


– Não se intrometa, Valentine.


– Essa vadia fode com o irmão e com o pai. Que tipo de retorno pode haver de alguém assim? Ela vai usá-lo como faz com todos e eu juro que... se ela vier a prejudicá-lo...


Radamanthys voltou os olhos para o jovem que mantinha uma expressão raivosa e sombria. Aproximou-se dele, vendo os lábios crispados e o olhar transtornado. Tocou-lhe o rosto e Valentine fechou os olhos, entregue àquele sentimento fervoroso e intenso que tinha por seu superior.


Ninguém me usa, Valentine... A não ser, que queira ser usado também.


Ditas as palavras, Radamanthys desceu a boca até o pescoço de Valentine. Sugou a pele, sentindo-o estremecer. Então sorriu e soltou-o.


– É melhor que ouça seus próprios conselhos! Agora saia e prepare-se. Sairemos em no máximo duas horas. – disse o comandante.


Valentine obedeceu, amaldiçoando aquele sentimento que nutria por seu superior. Respirou fundo e começou a caminhar devagar, de cabeça erguida. Não se deixaria abater por uma puta incestuosa. Havia muito a fazer e ele o faria, sem hesitar.


0000****0000****0000


O céu exibia um azul turquesa profundo, uma visão belíssima que contrastava com o verde escuro das árvores centenárias. O ar era agradável e fresco, num equilíbrio perfeito para a respiração e a absorção dos diversos aromas que transitavam ali.


Os olhos de Shaka pareciam vislumbrar além de toda aquela vista, havia inquietude e dúvida, tanto em sua mente, quanto em seu coração. Entretanto, o senhor de Irmied não podia perder-se em devaneios, havia tomado uma decisão que afetaria todo o seu clã e era nisso que devia focar.


– As aves voltaram, meu senhor! – disse Álephe, que chegava um tanto agitado e nervoso.


Shaka virou-se. A resposta havia sido rápida e isso só podia significar que a sua ação já desencadeara uma retaliação de Hades. Com uma inspiração profunda, o senhor de Virgo acompanhou o jovem que olhava-o com ansiedade. Sabia que ele esperava uma palavra sua, entretanto, sua prudência aconselhava que primeiro, se inteirasse da situação.


Os falcões estavam pousados no galho retorcido e pareciam inquietos. Shaka tocou-os e, logo, eles foram acalmando os batimentos cardíacos e aproveitando a carícia apaziguadora do senhor de Irmied.


Ao mesmo tempo em que as aves serenavam, Shaka pode ver através dos pequenos e brilhantes olhos... Homens vestido de negro avançando pelas terras baixas em direção à Irmied em um número pequeno, mas considerável. Reconheceu Shura, o antigo comandante das forças de Dwiefer e o jovem Shiryu. Os demais lhe eram desconhecidos e possuíam uma energia densa e bélica que parecia distorcer o ar ao seu redor.


– Hades enviou uma tropa. – disse em voz alta.


Álephe arregalou os olhos. Shaka sentiu-lhe a angústia e o medo, então tocou-o no ombro.


– Não há razão para temer o que há de vir.


– E-Eu sei, meu senhor, mas... nós nunca nos pronunciamos, politicamente. A decisão de apoiar Aiolia fará com que Hades o acuse de traição. Não temo por mim, mas pelo senhor.


Um sorriso compreensivo formou-se nos lábios delicados de Shaka. Como explicar o inexplicável? Como dizer aos seus que jamais permitiria que a guerra chegasse até Irmied? Certamente, ficariam ainda mais assustados em entender o que, para ele próprio, era um poder insólito, capaz de dar e tirar a vida em um piscar de olhos.

Não tema por mim, nem por Irmied. Agora diga-me, como está Ikki?

Aquele rapaz é tão teimoso que nem a morte se arriscou levá-lo. Ele perguntou se havia um lugar para treinamento e não se contentou com a resposta que aqui não temos esse tipo de coisa. Então eu disse que podia usar a clareira próxima à cachoeira de ujëvarë.


Shaka suspirou, mais uma vez. O caráter de Ikki fora forjado em um clã de guerreiros, contrariar a sua natureza era o mesmo que pedir ao sol para não brilhar. Sorriu, novamente, para Álephe.


– Por favor, reúna todos no grande salão. Quero esclarecer esta situação e acalmar a todos. Se precisarem de mim, estarei conversando com nosso hóspede.


– Sim, meu senhor! – disse o jovem sentindo-se mais aliviado.


O lugar era paradisíaco como tudo ali. A natureza parecia ter, além da exuberância, uma energia revigorante que se manifestava em todos os elementos.


Ikki respirou fundo, seu torso nu estava banhado em suor e ele manuseava a espada, girando-a sobre o punho e projetando-a para frente e para o lado, como se estivesse enfrentando um adversário invisível. Todos os seus músculos respondiam aos movimentos precisos e fortes. Porém, ainda sentia uma fisgada no baixo ventre.


Olhou para a cicatriz que atravessava seu abdome com o cenho franzido. Ao tocá-la, podia sentir que ainda estava fina, embora a musculatura rija continuasse firme e os movimentos, apesar de dolorosos, podiam ser executados sem o perigo de abrir o ferimento.


Suspirou, lenta e profundamente. Não podia dar-se ao luxo de repousar em demasia. Em seu clã, os homens aprendiam a controlar a dor e seguir em frente e foi essa filosofia sempre o acompanhou, dando-lhe forças quando tudo parecia desmoronar a sua volta. E, além disso, Shun precisava dele.


A muito custo tinha conseguido sua espada de volta. O tal Mu a guardara, embora, cada vez que a tocasse exibisse uma expressão esquisita, como se fosse extremamente desagradável pegar em uma arma.


O punho dela ainda guardava a inscrição do nome de uma ave lendária chamada Fēnikss. Ele gravara este nome em sua espada como uma lembrança das raras vezes em que ele, Shun e Milo ouviam as histórias de seu pai.


Uma vez, Kardia contara a lenda sobre uma ave que havia surgido do sopro de um deus antigo chamado Ghrian. Este deus havia soprado sobre a face de toda a terra para gerar os vulcões e as terras quentes dos desertos. No entanto, uma centelha de seu sopro escapou, dando origem a uma bela ave cuja penugem ardia, incessante. Ele encantou-se com a sua criação e deu-lhe o nome de Fēnikss, “aquela que surge do fogo” e ordenou que a ave fizesse seu ninho nos desertos, usando toda a sorte deervas e especiarias.

Fēnikss! Gostava desse nome, da sonoridade, do poder lendário e regenerador do fogo. Ela tinha tudo a ver com Berkehell, seu sol e especiarias... Quando pequeno, imaginava que uma delas havia feito um ninho acima da janela do seu quarto e quando dizia isso ao Shun ele ria, acreditando plenamente em suas viagens infantis.


Um suave farfalhar o fez interromper seus pensamentos. Ikki aguçou os sentidos e girou a espada. Os arbustos de folhas longas pareceram ondular e, estranhamente, emitir um som baixo, como se fosse uma música...


Eis que Shaka revelou-se, como se fizesse parte da paisagem verdejante.


– Ah, é você? – disse Ikki baixando a espada.


– Pode baixar a espada, não há nada a temer aqui. – disse Shaka.


– É a força do hábito. Preciso manter-me em alerta.


– Devia manter repouso, isso sim. Sua cicatrização é rápida, mas o ferimento foi bastante profundo.


– Não tenho muito tempo. Preciso ir atrás de Shun e quanto mais ficar aqui, mais ele se afastará.


– Uma tropa vinda de Dwiefer se aproxima das nossas fronteiras. — disse Shaka.


– Uma tropa? Hades pretende atacar Irmied?


– Ele quer a mim. Peço que tenha um pouco de paciência. Não poderei deixar que ninguém saia de Irmied nos próximos dias.


– Claro! Não vou simplesmente pegar um cavalo e abandoná-lo numa situação dessas. Ficarei para lutar, é o mínimo que posso fazer em retribuição dos seus cuidados.


Shaka sorriu, mas era um sorriso triste.


– Ninguém lutará, Ikki.


– Como assim?Vai se entregar para preservar seu clã? Não deve fazer isso! Hades é um homem cruel no qual não se pode confiar.


– No devido tempo, você entenderá.


– Shaka... – disse Ikki pegando-o pelo braço.


Os olhares, novamente se encontraram como se o infinito os congelasse em fragmentos de extremo silêncio... Ikki podia ver a angústia por trás da sensatez e serenidade e Shaka sentia o desespero e o senso de dever no toque forte e possessivo...


Ambos, mesmo tão diferentes, eram conectados por algo intenso e muito além de suas inquietações.


Shaka foi o primeiro a quebrar o vínculo.


– Preciso ir. Logo mais, todas as explicações e instruções serão dadas. Obrigado pela sua força, Ikki de Fēnikss.

Como você sabe sobre a Fēnikss?


Um sorriso abriu-se, novamente, naqueles lábios e Shaka virou as costas e seguiu seu rumo. Ikki teve vontade de insistir, porém sentia-se perturbado com a situação e com aquele homem. Em Berkehell já era considerado quase um adulto e, de certa forma, sabia que Shaka não era tão mais velho. Devia ter a mesma idade que Milo. Entretanto, a postura e o olhar penetrante do senhor de Irmied faziam-no parecer quase um ancião e fadado a carregar responsabilidades pesadas demais...

0000****0000****0000

“Caminhava por entre as árvores frutíferas que exalavam o odor de fruta madura. Aioros ria e seus pequenos dedos tentavam alcançar o fruto mais alto da árvore frondosa, cujas folhas oscilavam num bailado cheio de cores .

Ele também sorria e elevava seu filho para que apanhasse o ferskja que parecia ser de ouro devido ao amarelo profundo e brilhante de sua casca. Aioros tocou a fruta e, de repente, ela apodreceu e dissolveu a mãozinha, corroendo seu braço e corpo. Pai! gritou ele e sua face se transformou no rosto de Aiolia...

Pai, ajude-me!“


Regulus saltou na cama, com o coração retumbando no peito e ouvidos... Os cobertores emaranhados e molhados de suor. O aposento estava, completamente, escuro, mas ele podia sentir uma presença...


– Meu senhor. – sussurrou uma voz conhecida e grave.


– Q-Quem... quem está aí? – perguntou Regulus ainda tonto e sonolento.


– Sou eu, meu senhor. Shion.


– S-Shion? M-Mas, como?


– Tenho vindo todas as noites nesse mês, quando posso entrar sem o perigo de ser visto. Beba! Essa é a primeira noite em que me apresento e vejo que está em condições de me reconhecer. – disse o Conselheiro estendendo uma infusão de ervas para o soberano.


– Não tenho memória... apenas sonhos... sonhos incesssantes com...meus... meus filhos! Aioros e Aiolia, agora eu me lembro. – falou Regulus levando as mãos à cabeça e aos cabelos.


– A papoula negra é uma droga poderosa. Leva muito tempo para erradicá-la do corpo e muitos não conseguem. És muito forte, meu amigo. Com as doses que lhe deram, já era para estar louco ou morto.


– Shion...o que eu fiz?


– Acalme-se e trate de expulsar toda a droga do seu corpo. A passagem que possibilita minha vinda só era conhecida por mim e por vós. Ainda há muito a fazer, meu soberano. Não devemos alertar seus outros filhos. Recupere-se e finja, enquanto isso. A hora se aproxima. Aiolia se ergueu contra a tirania de Hades.


– Aiolia... eu nunca o reconheci, eu nunca o.. amei o suficiente. E, no entanto, será ele que acabará com este tormento. Espero viver o suficiente para torná-lo soberano, para dar a ele o que nunca fui capaz.


– Viverá, meu senhor. Agora devo ir.


– Shion... Pandora, ela... está grávida. Acha que eu...


A expressão de Shion ficou grave e mesmo na escuridão, Regulus sentiu o silêncio sepulcral que durou alguns segundos.


– Não pense nisso agora, meu amigo. O que está feito, só pode ser transformado ou terminado. Limpe seu corpo e deixe o resto com o Senhor das Almas.– respondeu Shion, enquanto entrava na passagem secreta e deixava a fortaleza.


Regulus sentiu a cabeça doer e lágrimas quentes rolaram pela face magra. Voltou a deitar na cama e se encolheu, tentando preservar algum calor, já que seu corpo sentia frio, muito frio...Em sua mente, imagens de sorrisos e corpos entrelaçados. Apertou os olhos e deixou que o pranto lavasse a angústia de seu coração, enquanto mais uma vez, a escuridão era cúmplice de sua dor.


0000****0000****0000


Os lábios finos estavam ressecados e escamavam. As mãos apertavam o cobertor com força e dor... Uma dor semelhante a ser preenchido com cacos de vidro por dentro. Estômago, peito, garganta, parecia que todos os lugares de seu corpo arranhavam e queimavam numa eterna ciranda dolorosa.


– Beba. – disse Afrodite estendendo um copo a Shun.


– M-Minha...garganta... está fechada. – murmurou Shun.


– Faça força. Beba! – falou Afrodite com um tom autoritário.


Shun obedeceu e seus dedos trêmulos firmaram o copo, enquanto molhava os lábios com a infusão que Afrodite preparara.


– Isso, vai se sentir melhor. Aos poucos seu corpo reage e se torna mais forte. – disse o senhor dos venenos.


AAlkuaineen olhava para o jovem febril e para o senhor dos venenos. Estava intrigada com a força daquele jovem. Ele conseguira algo inédito, estava barrando a sua ajuda e não permitia que ela lhe desse nenhum tipo de energia, ao mesmo tempo em que estava sofrendo barbaramente, enfrentando as dores que as drogas manipuladas para curar, desencadeavam em seu corpo.


Com os olhos grandes olhando para todos os lados, ela percebeu que o aposento onde Shun se encontrava era espaçoso e até um tanto luxuoso. A cama possuía um dossel, elaborado de forma a parecer um entrelaçamento de flores. E os tapetes que cobriam o chão pareciam com o musgo fresco que se encontrava nas montanhas. Era um lugar que parecia tão mágico quanto o de onde viera...



Já fazia dois dias que Shun se submetera ao tratamento e seu corpo parecia esgotado. Entretanto, antes mesmo de ficar ardendo em febre ele bloqueara a sua ajuda.

“Não quero e não permitirei que me ajude. Hyoga não pode enfraquecer por minha causa. Ele já me ajudou muito. Esse portal que se apresenta a mim, agora, eu devo transpô-lo sozinho!”


Quando ele dissera aquelas palavras, ela debochara delas.Jamais alguém recusara a ajuda de uma Alkuaineen! Era, simplesmente, impossível.


No entanto, Shun olhou-a com aqueles grandes olhos verdes e, de repente, ela não pode mais tocá-lo com sua energia. Agora, ela não tinha escolha. Devia voltar e reportar o seu fracasso...


Shun bebeu a infusão e olhou na direção da Elemental, vendo que ela estava aborrecida e se movia como se estivesse brigando com o ar a sua volta.


– V-Venha aqui... — disse Shun olhando para ela.


Com o semblante fechado, ela obedeceu.


– Não... fique... aborrecida. Você é... incrível. Fico muito... honrado de tê-la... conhecido. Diga a Hyoga... que esta prova... de amor que ele me deu...Estará sempre...em meu coração.


“Antes de ir, quero saber como fez isso! Nenhum mortal consegue impedir uma Alkuaineen de fazer o que lhe foi ordenado. Você tem algo estranho e diferente que eu não consigo vislumbrar.”


Shun , apenas, sorriu e fechou os olhos. A Elemental suspirou e olhou-o, contrariada. Não queria voltar fracassada, mas não tinha escolha. Olhou na direção da janela aberta e viu a bruma se elevando nas terras altas. Tornou a olhar para Shun que agora parecia calmo e sem dores. Foi até ele e tocou-o no rosto, deixando um pequeno ponto de luz no centro da testa do jovem adormecido.


“Pronto! Não me deixa ajudá-lo, mas não pode me impedir de deixar um pingo do meu amor. Esse é por mim, não vem de Hyoga, mas das estrelas que ajudaram a formar o que sou. Durma e se cure, Shun de Andrômeda! Espero um dia, reencontrá-lo. Adeus”


Ditas as palavras, a Alkuaineen desapareceu no ar, deixando um resíduo que parecia pó, mas não um pó qualquer e sim o pó antigo e poderoso das estrelas...


0000****0000****0000


A linha do horizonte se estendia branca e gelada como sempre. Era cedo, mas os homens já se encaminhavam para a obra e Fenrir estava entre eles. Ninguém falava, ouvia-se, apenas, o som das rodas penetrando a neve fria.


O jovem lobo liderava uma das frentes de trabalho sem conseguir tirar da memória a noite que passara com Hilda em seus braços. Os olhos dela tinham-lhe parecido confiantes e até surpresos quando a possuíra. Nunca antes sentira tamanha sensação de triunfo e, ao mesmo tempo, um medo secreto que jamais dividira com ninguém...


Sabia que Hilda era uma mulher experiente e, segundo alguns, muito exigente e fogosa na cama. E ele... ele apenas nutria por ela um sentimento forte e estranho, que surgira desde muito cedo e que se desenvolvera em seu corpo e coração como os cipós que se enroscam nos troncos das árvores e dali só saem se forem arrancados.


O que será que ela acharia se soubesse que ele era virgem até a noite anterior? Que, apesar de pensar em sexo desde os cinco anos de idade, ela era a sua primeira mulher?


Deixara a cama de madrugada. Hilda ainda dormia e era tão linda!... Olhara para o rosto adormecido, antes de deixar seus aposentos e quase voltara para a cama. No entanto, havia trabalho a fazer e também o medo que, de manhã, ela o rejeitasse. Pegou as roupas dela que haviam ficado pelo chão. Cheirou-as intensamente, enchendo-se daquele perfume de fêmea que só ela possuía...


– Fenrir!


O chamado o despertou das lembranças e sensações. Alguém parecia exigir sua atenção. Era Kamus que o olhava atentamente, como se estivesse vendo a sua alma.


– Estou aqui. O que foi? – perguntou ele.


– Deixe as obras com um dos homens e venha comigo. Preciso investigar uma coisa e preciso de um homem forte ao meu lado. – disse o senhor de Irġiel kiesaħ.


– E vai levar a mim? Tem certeza? – perguntou Fenrir.


– Preciso do melhor guerreiro. Quem melhor que meu irmão? – disse Kamus.


Um sorriso largo se abriu nos lábios de Fenrir. Uma estranha sensação de felicidade começava a abrir espaço em sua vida. Estava amando e agora, seu irmão o queria ao seu lado em uma missão importante. Sempre se dera bem com Kamus, mas vê-lo como senhor e sentir-se útil a ele, era algo incrívelmente bom.


Kamus tocou-o no ombro e olhou bem dentro dos seus olhos.


– Sei reconhecer um homem feito, quando ele se torna um. Apesar dos nossos rituais dizerem que isso acontece quando vencemos o lobo negro, acredito que existe um ritual ainda mais poderoso e muito mais difícil. É aquele que acontece aqui. – disse Kamus tocando o peito de Fenrir na altura do coração.


O jovem sorriu e sentiu o rosto quente. Kamus sabia.


– Eu gostaria de me casar com ela. – deixou escapar.


– Então case. – respondeu Kamus com simplicidade.


– Ela não vai querer, eu acho...


– Pelos sons que me chegaram aos ouvidos, ontem à noite. Acho que ela ficou bastante... satisfeita. – disse Kamus com um tom malicioso e sério, ao mesmo tempo.


Fenrir riu e socou o ombro do irmão. Se embrenharam na floresta e logo, seus lobos foram ao seu encontro.


Hilda acordou sozinha, mas havia algo ao seu lado. Uma pequena flor sobre o travesseiro. Sorriu ao pegá-la na mão e saber que Fenrir a deixara ali. Era absurdo o que acabara de acontecer, havia sentido um prazer inédito nos braços daquele garoto incoveniente. Muito mais que quando visitara a cama de homens mais velhos e experientes. Nunca fora tratada com tanta consideração e sentido tanto prazer.


Ergueu-se da cama larga e alisou as peles cujo testemunho do que acontecera continuava ali. O cheiro do sêmen, as marcas dos corpos, a sensação boa do corpo dele no seu...


Fechou os olhos e respirou fundo, preparando-se para voltar à realidade quando sons de passos a alertaram e ela vestiu-se rápido, ajeitando o aposento da forma mais rápida que conseguiu.


– Senhorita Hilda! – exclamou uma das criadas que pareceu surpresa em vê-la ali.


– O que foi, Acace?


– N-Nada, senhorita. Apenas vim limpar os aposentos e...


– E vai continuar a fazê-lo e de boca fechada. – cortou Hilda. — Viu se o senhor Fenrir foi para a obra?


– Os homens disseram que ele acompanhou o senhor Kamus até a Floresta Negra. Dizem que eles foram investigar um mistério..


Hilda franziu o cenho, mas nada disse. Deixou o aposento e foi falar com Hyoga para saber mais sobre o que estava acontecendo.


0000****0000****0000


A árvore antiga mantinha-se silenciosa e imponente. Os galhos retorcidos ainda pareciam abraçar aquela parte floresta. Hyoga fechou os olhos e murmurou:


Helga Grove, láta mig á sínu sviði


Mais uma vez o portal se abriu e ele adentrou os domínios de sua mãe. Ela sorriu amorosa, como sempre e estendeu-lhe a mão, olhando-o com atenção e curiosidade.


– Seja bem-vindo, meu filho. Está com uma aparência mais forte.


Hyoga beijou-lhe a mão e depois olhou sério em direção ao lago. Viu a Alkuaineen que invocara, deslizando sobre as águas, junto de alguns insetos luminosos que pareciam apaixonados por ela.


– O que aconteceu, mãe? Por que ela voltou sem...


– Sem cumprir a missão que lhe destinou? Bem, meu filho, creio que mesmo que ela ache que fracassou, ela cumpriu a tarefa que lhe foi dada.


– Mas, eu sinto que Shun ainda sofre! Sinto a dor e a angústia dele! Eu a enviei para protegê-lo, para não deixar que nada de mal se sucedesse a ele.


– Não podemos interferir no livre arbítrio, meu filho. Shun escolheu vencer seus desafios sozinho e quando um mortal decide isso, nem os deuses podem interferir e, muito menos, nós.


Hyoga socou a árvore centenária e um pó luminoso desprendeu-se dela. De imediato, todos os seres fixaram os olhos nele e com uma expressão de choque.


–Perdão. Sei que não devia...


– Tudo bem... Apesar de tudo, ainda corre sangue de lobo nesse seu corpo. Escute-me, meu filho. Deixe que a vida tome o seu rumo e prepare-se para ser aquilo que sua alma combinou com o universo. Quando for a hora e o tempo, você e Shun voltarão a se encontrar.


Hyoga deixou o lugar e ainda deu uma última olhada para trás. A Elemental olhava na sua direção e parecia triste, como se tivesse perdido algo precioso e não soubesse onde procurar. Ele sorriu fraco, mas com sinceridade. Ela retribuiu e então, dissolveu-se na bruma que se elevava do lago...


0000****0000****0000


O entardecer envolvia Irmied em um jogo de cores alaranjadas que, aos poucos mudava para o vermelho e o roxo. As árvores pareciam fechar-se em um verde escuro muito profundo e a quietude natural acentuava-se ainda mais.


Shaka estava em pé, no meio do grande salão, junto com Mu e Aiolia. Os demais estavam sentados em almofadas e esperavam as revelações de seu senhor.


– Bem, como todos sabem, eu reconheci Aiolia como o sucessor de Aioros e, consequentemente, colocando-me contra Hades. Ele enviou uma tropa e é claro que pretende responsabilizar-me como traidor. Ao amanhecer, os homens de Hades chegarão à nossa fronteira e eu vou encontrá-los. Peço que fiquem calmos e aguardem o desfecho deste encontro.


Um murmúrio excitado reverberou em todo o salão.


– Mas, meu senhor, se fizer isso eles o prenderão ou... pior, vão matá-lo!


– Nunca dividi este segredo com vocês, mas Irmied, assim como eu, possui a capacidade de rechaçar qualquer ataque que implique em prejuízo para o nosso clã.


– Pode nos dizer como fará isso e que poder é esse? – perguntou Ikki que também estava em pé junto à porta.


Shaka olhou-o, ignorou-o e tornou a dirigir-se aos demais.


– Peço que confiem em mim. Sou o senhor do clã e jamais faria ou diria algo que não posso cumprir. Voltem para as suas casas e descansem. Busquem a tranquilidade na meditação, na música ou onde quer que estejam acostumados a encontrá-la. Amanhã, tudo isso acaba.


Todos começaram a obedecer, menos o hóspede que se mantinha sério e em pé.


– Não é que eu não acredite em você, mas... só ficarei tranquilo vendo o que está aprontando. – disse Ikki.


– Então me acompanhe e verá. – disse Shaka.


– Será um prazer. – retrucou Ikki.


Ainda estava escuro quando Shaka andou pelo caminho estreito e escuro que levava até as fronteiras de Irmied. Mu despedira-se dele com um abraço forte e cúmplice. De todos ali, ele era o único que conhecia o poder misterioso do senhor do clã e era por isso, que se solidarizava com ele, sabendo do terrível preço que ele pagaria por ter de usá-lo.


Ikki estava sério e desconfiado, mas permaneceu quieto e apenas acompanhou Shaka que parecia deslizar pelo caminho pedregoso.


A tropa de Radamanthys se posicionava, chegando próximo a um círculo de pedras e árvores que se entendiam como um colar que fora aberto antes de ser colocado. O comandante olhou e ergueu a mão para que todos parassem e escutassem suas ordens.


– Homens! Creio ser essa a fronteira de Irmied. Nossas ordens são para capturar Shaka e dizimar o restante. Tudo muito simples e direto.


Shura arregalou os olhos e Shiryu franziu o cenho.


– Radamanthys, todos que vivem aí são civis! Não podemos empreender uma chacina com homens, mulheres e crianças inocentes! – gritou Shura.


– A inocência começa e acaba no berço, meu caro subcomandante! Nossas ordens foram claras, levar Shaka como prisioneiro e condená-lo por traição. O restante deve ser destruído.


– Você está louco! – gritou Shura.


– E você, acaba de ser acusado de traição! E eu, como comandante, exerço meu poder para executá-lo sumariamente! – bradou Radamanthys.


Shiryu tocou a espada e Shura desembainhou a sua. Entretanto, eram cem homens contra dois. O jovem tenente olhou na direção do círculo de árvores e fez um sinal para Shura. Ambos desembestaram na direção da fronteira e, assim que cruzaram o círculo de pedras, uma voz melodiosa, mas forte e sonora se pronunciou inundando o ar como se o dono dela fosse um gigante.


“Senhores, peço que retornem a partir daqui. Não será permitida a entrada em Irmied. Se insistirem, as consequências serão drásticas e trágicas!”


Radamanthys ordenou para que parassem.


– Quem fala? – perguntou ele


“Shaka Deependra, senhor de Irmied!”


– Ah, o senhor de Irmied... Queremos apenas conversar e levá-lo até Dwiefer para alguns esclarecimentos.


“Não me tome por um tolo, comandante! Minha atitude e minha escolha estão claras. Irmied não reconhece a soberania de Hades. Agora voltem e não ousem ameaçar-me ou ao meu clã.”


Radamanthys ficou sério e apertou as rédeas do seu cavalo. Teve vontade de rir da arrogância daquele moleque manipulador de ervas. Deu meia volta e posicionou seus homens.


Primeiro, atacariam os guerreiros acostumados a abrir caminho, depois seguiriam os arqueiros e, em seguida os guerreiros com machados, espada de gume duplo e lanças.


Com um sinal, os homens começaram a avançar contra o círculo de pedras. A voz de Shaka, novamente se fez ouvir.

“Não costumo ameaçar, comandante. Estou dando um último aviso. Retire-se e evite as consequências!”


Radamanthys não se deu ao trabalho de responder. O senhor de Irmied iria provar o seu poder bélico e engolir as ameaças ou... os avisos, como ele mesmo dissera.


O círculo de pedras possuía uma espécie de portal. Duas pedras enormes dispostas em um dólmen, enquanto que no centro, havia dois pilares baixos com o molde de duas mãos masculinas.


Shaka posicionou-se e encaixou as mãos no artefato. Ambas couberam, perfeitamente, sem sobrar, nem faltar espaço. Ele fechou os olhos e Ikki sentiu uma espécie de voragem formar-se ao redor do senhor de Irmied. Todos os pelos de seu corpo se eriçaram e a pele formigou, como se estivesse recebendo a picada de milhares de formigas invisíveis.


Shaka abriu os olhos e quando o fez, eles não eram mais azuis e sim dois círculos de fogo. Suas mãos brilhavam dentro do molde que também exalava uma luz fantasmagórica cujo matiz variava do branco ao amarelo e ao vermelho sangue e se projetava para além do círculo como se fossem pequenas setas luminosas indo de encontro à tropa de Radamanthys.


A cena que se seguiu deixou Shura e Shiryu de boca aberta e pareceu-lhes um pesadelo grotesco e horripilante, algo que suas mentes jamais poderiam conceber.


Como se fossem lançadas por arcos ou bestas, as setas luminosas avançaram, impiedosas e onde tocavam, liquefaziam a carne até aparecer os ossos. Homens, cavalos, todos que eram tocados por elas urravam de dor e pereciam descarnados em meio aos gritos e ao caos que se instaurou.


Ikki estava pasmo. Não tanto com a morte dos inimigos, mas com a aparência de Shaka. O senhor de Irmied parecia uma entidade sobrenatural. Seus cabelos eram pura luz, seu corpo estremecia como se estivesse pronto para romper de dentro para fora e havia um som que ele jamais tinha ouvido, um zunido estranho que penetrava no corpo e na mente de um modo bastante desagradável.


Ele não sabia se o que faria a seguir estava certo, mas mesmo assim o fez. Abraçou Shaka com força e uniu seu pensamento ao dele. Pare! Pensou bem forte. Pare, ou vai destruir muito além dos seus inimigos!


Shaka estremeceu e depois serenou. Seus olhos voltaram ao normal e as luzes desapareceram, como por encanto. Suas mãos ainda estavam brilhando e seus lábios tremeram quando, finalmente, tornou a olhar o rosto de Ikki.


– O-Obrigado... por isso, eu o trouxe aqui. Precisava de você, Ikki de Fēnikss. – disse o senhor de Irmied.


Ikki o amparou, mas antes que ele dissesse algo, Shaka falou:


– Preciso ver se alguém sobreviveu.


– Eu irei. Se houver algum, lhe darei um fim honroso. – disse Ikki tocando a espada.


– Não! Se houver sobreviventes, eu vou tratá-los e mandá-los de volta.


Ikki revirou os olhos.


– Está louco? Não se deixa um inimigo vivo para que retorne depois.


– Quero que Hades saiba o que aconteceu e que desista de atacar-me.


– Houve dois que ultrapassaram a barreira.


– Aqueles não são inimigos e não podem mais retornar. Precisaremos deles para ajudar Aiolia.


Ikki concordou e foi até a clareira. Se não fosse um guerreiro, teria se apavorado com o cenário que se descortinava a frente de seus olhos. Pedaços espalhados de corpos humanos e de animais... O cheiro ocre de carne queimada. Viu um homem carregando outro e posicionou a espada.


Radamanthys e Valentine haviam sido os únicos sobreviventes. Mas, mesmo assim estavam feridos e desnorteados.


O comandante andava a esmo pelo chão encharcado de sangue e carne derretida. Seu garanhão negro estava estendido com parte do corpo parecendo queimada, mas ainda inteira e parte tão descarnada que parecia ter sido atacada por milhares de corvos.


Nenhum dos dois entendia bem o que acontecera, nem o porquê de estarem vivos. Quando viram um vulto surgir em meio a tudo aquilo, tocaram em suas espadas, percebendo que suas mãos estavam trêmulas e cheias de bolhas.


– Alto! – gritou Radamanthys empunhando a espada com a mão tremendo.


– Baixe sua espada. O senhor de Irmied vai fazer a gentileza de deixá-lo vivo e ainda vai cuidar de vocês. Aproveitem, pois eu não seria tão generoso e ainda os mataria lenta e dolorosamente por ameaçar civis desta maneira covarde. – respondeu Ikki.


Ofegante, Radamanthys pensou em resistir, mas olhou para Valentine que tinha um ferimento profundo no flanco direito e parecia um autômato segurando os pedaços da carne que estavam enegrecidos.


– Muito bem... nós nos rendemos. – falou Radamanthys largando a espada.

Notas finais
Obrigada a todos pelo carinho, pela atenção!
*** SION NEBLINA, POLLYWEASLEY, DRAGON, CHAKAL MALDITO obrigada pela honra e pelo carinho de terem recomendado a fic!!
***ferskja=pêssego