Trono De Sangue

20 Capítulo 20 O SILVO DA SERPENTE...


Notas iniciais
Para aquelas que esperam notícias de seus personagens preferidos, adianto que como a fic tem uma certa densidade pela própria cronologia, alguns ficam de fora de alguns capítulos, mas não foram e nem estão esquecidos. Apenas, estou seguindo um ritmo que a fic exige. Bjs, e obrigada pela presença e carinho em cada review.

Então Shaka Deependra está mostrando suas garras... A pura e isenta Irmied ousa reconhecer um novo líder. Pensou Hades, enquanto olhava sua obra da sacada, embora o que visse em sua mente fosse bem diferente da estrutura negra e triangular que despontava majestosa e ainda inacabada.



A túnica negra que lhe moldava o corpo recebia reflexos dourados no sol da manhã e quando Radamanthys entrou, acompanhado de Shura, Shiryu e o mensageiro, ele cumprimentou-os com um movimento de cabeça e sentou-se no trono de pedra.



Pandora estava ausente e sua criada dissera que permanecia descansando em seus aposentos. Os homens permaneciam em pé, esperando uma palavra de seu senhor e Hades corria os olhos por todos eles, antes de pronunciar-se.



— Vamos até o salão de reuniões, mandei reunir o Círculo de Honra ou o que restou dele. Quero todos cientes do que eu decidi fazer. – disse Hades, calmamente.

A longa mesa do salão, já estava ocupada por alguns homens e em nada lembrava sua formação original. Os homens que ali estavam, mostravam claramente sinais de tortura e alguns, de um estranho envelhecimento que fazia reluzir as cabeças cobertas de fios brancos. Shura fitou-os, lembrando o tempo em que o Círculo de Honra era liderado por Shion e Saga, constituindo-se em um grupo cuja sabedoria havia regido e protegido Dwiefer por muitos anos. Parecia que séculos tinham se passado!



Radamanthys sentou-se ao lado de Hades e Shura permaneceu afastado, assim como Shiryu. Os outros estavam dispostos de modo a ter uma visão privilegiada de seu senhor, embora houvesse um brilho de medo estampado nos rostos magros.



— Pois bem, como é sabido, o senhor de Irmied teve a audácia de reconhecer outro líder e, a essa hora, os clãs descontentes sentir-se-ão chamados a apoiá-lo. Creio que Shaka deve ser lembrado sobre a quem deve sua lealdade e, ao mesmo tempo, usado como exemplo. Vergni será o primeiro clã a deixar de existir!



— Como? – disse Shura franzindo o cenho e se levantando.



Hades olhou-o com um misto de frieza e desprezo, antes de responder.



— Sei que deve estar surpreso, subcomandante. Será que noto certa urgência em servir-me? Acalme-se, pois terá a sua vez de se pronunciar. Shaka usa meu irmão contra mim e essa afronta exige medidas drásticas. Creiam-me, senhores, ninguém me desafia deste modo e fica impune.



Shura cerrou os punhos e Shiryu tocou-lhe gentilmente a coxa, sinalizando para que ele se controlasse. Radamanthys tocou na bainha de sua espada e olhou-o num desafio mudo. Shura enfrentou-lhe o olhar sentindo um ódio frio comprimir-lhe o estômago, mas Shiryu tinha razão, precisava conter-se, não daria esse gosto a Radamanthys...



Os olhos de Hades brilharam e ele sorriu, sedutor e perigoso. As ideias borbulhando em sua mente...



— Pois bem, senhores! – disse Hades sentindo um prazer perverso. – Um pequeno exército será enviado à Irmied com a missão de trazer Shaka Deependra à minha presença para uma retratação e meu irmão para reconhecer-me como senhor.



— E se o senhor de Irmied se recusar a vir? – perguntou Ashllan, um antigo membro do Círculo de Honra.



— Ora, para isso enviarei o nosso impetuoso subcomandante como uma espécie de embaixador. Creio que o senhor Shura saberá como convencê-lo, visto que está ansioso pra cumprir o seu dever. Radamanthys comandará a tropa e assegurará a rendição de Irmied e a idoneidade física do nosso... Embaixador. Não é mesmo, comandante?



— Com toda a certeza, meu senhor. – respondeu Radamanthys.



— A reunião está encerrada. Agora vão. – disse Hades, secamente.



Todos se levantaram, alguns com visível temor, outros, resignados. Shura permaneceu parado e foi até Radamanthys. O olhar de escárnio do comandante só aumentou a convicção de Shura e ele cerrou os dentes falando apenas para os ouvidos de Radamanthys:



— Deve saber que o cão é o melhor amigo do homem, não é mesmo comandante? Oh, claro que sabe, porta-se como um sabujo humano e crê, com isso, desfrutar do mesmo poder do dono. Aproveite... enquanto pode.



— Ora, logo você me acusando de ser um lacaio... – falou Radamanthys rindo. – Eu sou um mercenário, defendo aqueles que me dão lucro e poder. Mas, você... Você é um covarde que se curvou com a desculpa patética de deixar sua vingança para um momento mais apropriado. Dizem que você era devotado à Aioros... Eu custo a acreditar nisso, ou melhor, acredito que sua devoção era pequena frente ao seu medo. Se eu estivesse em seu lugar, meu caro... eu teria cortado a garganta de Hades mesmo que custasse a minha vida. Mas, você preferiu o caminho da servidão...



As palavras de Radamanthys calaram fundo no coração de Shura. Raiva, dor, culpa tudo se juntou ao amargo que sentiu na boca. Seu corpo tremeu e ele esqueceu o autocontrole pegando o comandante pelo colarinho e batendo com as costas dele na parede.



— Você não sabe nada! – grunhiu Shura.



— Ah, sei... sei bem o tipo de homem que você é! Fraco, covarde, do tipo que sempre chega tarde demais!



Shura elevou o punho, porém Shiryu voltou e o deteve.



— Subcomandante, não!



Com o corpo tenso, Shura obedeceu. Agredir seu superior daria ao inimigo o poder de levá-lo à prisão ou à morte. Precisava engolir os insultos e esperar como vinha fazendo. Olhou bem dentro dos olhos de Radamanthys e cuspiu no chão.



— Não me importa o que acha de mim, comandante. Hades cairá e quando isso acontecer, você irá para o inferno junto com ele!



— Ótimo, creio que é sempre bom voltar prá casa. – respondeu Radamanthys.



Shiryu tocou o ombro de Shura sentindo-lhe a ira vibrar no corpo. Silenciosamente, se manteve ao seu lado, compartilhando do sofrimento daquele que amava em profundo segredo. Andaram em direção à saída, enquanto Radamanthys ajeitava a roupa.



— Obrigado. – disse Shura, após alguns momentos.



— Sou seu tenente e seu amigo. Não permitirei que a ira o desvie. – respondeu Shiryu.



Shura olhou para o jovem ao seu lado, reverenciando a sabedoria que ele lhe oferecia. Caminharam juntos e, de repente, o fardo que carregava já não parecia, exclusivamente seu. Respirou fundo retomando o controle sobre suas emoções e foi preparar-se para a fatídica viagem.



Radamanthys andou pelos corredores sombrios até chegar aos aposentos de Pandora. Uma criada o chamara em segredo e agora ele pensava no que a irmã de Hades podia querer com ele.



Ouviu a música suave que ela extraía da cláirsí, um instrumento de cordas longas fixadas em uma base triangular. Esperou um pouco antes de bater na porta e só quando a música cessou, ele anunciou sua presença.



— Entre, comandante. – disse ela, mesmo antes de Radamanthys bater.



— Mandou chamar-me, senhora?



— Sim, por favor, sente-se.



— Não posso me demorar. Logo sairemos em direção à Irmied e ainda tenho coisas para arrumar.



— Eu sei, Hades tenta preservar-me, mas tudo o que faz é de meu conhecimento.



Radamanthys observou o rosto pálido de Pandora. Sempre a vira no grande salão, ao lado de Hades e, nestes momentos, o que se sobressaía eram as conversas, a música e a postura submissa que ela mostrava. Ela não possuía o tipo de beleza exuberante e sensual, mas quando direcionava os olhos aos de um homem parecia pedir para ser protegida, tocada, amada...



Entretanto, agora, havia uma força invejável, fluindo ao redor dela e um magnetismo perigoso que resplandecia na pele alva e sedosa. Quando ela elevou os olhos e mexeu os cílios longos, o comandante foi tomado por um sentimento desconhecido. Mesmo grávida, Pandora exalava uma aura de luxúria misturada a uma fragilidade que fez Radamanthys encará-la de um modo rude.



— Diga o que deseja, senhora.



— Desejo que poupe a vida de Shura. Pode fazer isso por mim?



Com o cenho franzido, Radamanthys encarou os olhos violáceos.



— Peça isso ao seu irmão, não a mim. Sou leal à Hades.



— Eu imploro que o poupe! Preciso dele! – disse Pandora num tom desesperado.



— Ele é seu amante?



— Meu amante?— sussurrou Pandora em meio a uma risadinha histérica. – Ele me odeia! Mas, ainda assim, somente ele pode me ajudar.



— Ajudar no quê?



— A salvar meu filho. – respondeu ela tocando o ventre. – Mesmo amando e sendo leal a meu irmão, não posso deixá-lo usar a criança em seus intentos. Shura é minha única esperança.



— Aquele covarde? Ele não tem fibra nem para salvar a própria pele!



— Você é um tolo se acredita nisso. Shura pode ser tudo, menos covarde.



Radamanthys riu, sentindo uma ira contida pela admiração velada nas palavras de Pandora. Sua voz soou grave e sarcástica.



— Então não deve temer por ele, senhora. Quem deve ter cuidado, sou eu.



— É um guerreiro formidável, senhor Radamanthys. Meu irmão foi inteligente em fazê-lo comandante de suas forças, pois o senhor não teme nada, nem ninguém. Sua lealdade a ele me impede de... pedir que me ajude, além do que estou pedindo neste momento. Somente, poupe Shura até que ele possa levar a criança para um lugar seguro. Convença meu irmão a brincar de deus misericordioso e eu o recompensarei.



— E o que a senhora me oferece para que eu arrisque despertar a ira de um homem que se considera quase um deus?



— Aquilo que desejar...



— Desejos são fraquezas, senhora. Por isso, abstenho-me de alimentá-los! Portanto, não há nada que possamos negociar aqui. Agora, preciso ir. – respondeu o comandante virando as costas.



— Radamanthys!



A forma como ela chamou seu nome o fez parar e quando os olhos dela encontraram os seus, Radamanthys viu-se enredado em um fascínio insólito que o fez estremecer. Pandora aproximou-se, de forma lenta e sinuosa. Tocou-lhe a face e ele sentiu a maciez dos dedos acompanhada de uma onda de calor que parecia varrer os alertas que sua mente lhe enviava. Afaste-se dela!



— Por favor... – sussurrou ela e quando a boca pequena apossou-se da sua, Radamanthys soube que estava perdido.



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A sensação era diferente de tudo o que já havia vivido, apesar dele sentir-se quase um ancião com, apenas, dezoito anos...



Os lábios de Ikki tocaram os seus, inicialmente devagar, então Shaka arfou e o moreno aproveitou para aprofundar o beijo, inserindo a língua entre seus lábios entreabertos. Aquela era uma posse forçada de sua boca, que ele não convidara... Porém, sua resposta foi imediata. Uma onda de excitação percorreu o seu corpo fazendo-o gemer e desejar mais...



Mãos quentes o seguraram e ele sentiu a aspereza dos dedos através da túnica. O beijo era tão erótico que fez sua mente esvaziar. Era impossível pensar ou fazer qualquer outra coisa que não fosse render-se e corresponder àquela invasão de sensações...



Então, sentiu as mãos de Ikki movendo-se sobre o seu quadril, erguendo o tecido da túnica de modo a tocar sua pele. Foi aí que a razão retornou.



— P-Pare! — disse Shaka rompendo aquele estranho e fogoso elo que se estabelecera entre os dois.



Os olhos azuis de Ikki vasculharam os de Shaka, aflitos. Ele também estava surpreso com o que havia acontecido, mas, diferente do senhor de Irmied já conhecia a sensação do desejo, embora só o tivesse vivenciado com mulheres.



— Perdoe-me... eu...- Ikki balbuciou qualquer coisa, porque no momento não sabia o que dizer daquilo.



— Não há nada a perdoar, senhor Ikki. Agora, por favor, descanse. – disse Shaka ainda sentindo o calor e o gosto do moreno em seus lábios. – Mais tarde, poderá fazer as refeições fora do aposento, se assim o desejar. Mas, vamos com calma e cuidado. O ferimento que sofreu é muito grave e podemos dizer que foi um milagre a sua sobrevivência. Não ponha tudo a perder agora. – falou Shaka mais rápido que o normal num esforço hercúleo para manter-se sério e sob controle.



Ikki assentiu com a cabeça e permaneceu deitado na cama, tentando esconder a ereção que despontou ao beijar Shaka. Jamais tivera uma excitação tão fulminante, nem mesmo quando Cersi decidiu iniciá-lo sexualmente, já que Milo, seu alvo predileto, se tornara um acólito. Lembrou-se de como a criada ofereceu-lhe os seios fartos para que os sugasse e o levou para o meio de suas pernas, enlaçando-o e movendo os quadris para que a penetrasse.



As mulheres eram quentes, úmidas, e pareciam engolir e apertar seu falo, fazendo-o questionar a tradicional afirmação que era o homem quem comia. Nunca tinha se deitado com um homem, mas já vira alguns soldados fodendo nos cantos escuros e achara um tanto inusitado, mas não menos excitante. Com Cersi e depois Alona, aprendera a foder todos os orifícios possíveis e sabia que o prazer dependia da habilidade do amante em tocar, lamber e sugar nos lugares certos. Entretanto, nenhum homem, em particular, havia chamado sua atenção, até... agora, e de um jeito que chegava a ser doloroso.



Inspirou fundo e tentou afastar o gosto dos lábios de Shaka de sua mente. Ele tinha um gosto diferente, tão refrescante e frutuoso quanto às especiarias exóticas de sua terra. Parecia sedento e tímido, tudo ao mesmo tempo e havia algo nele que atiçava todos os seus poros e nervos. Fechou os olhos e pensou em Shun e, mesmo assim, o desejo custou a arrefecer...



Misty viu Shaka sair apressado em direção ao bosque e estranhou. Àquela hora, o senhor de Irmied sempre visitava os doentes e agora estava quase correndo. Olhou para o corredor onde ficavam os aposentos do ex-moribundo e sorriu, malicioso. Alguma coisa lhe dizia que o jovem moreno perturbara o impassível senhor e isso o divertia. Estava mesmo ficando entediado com a eterna paz daquele lugar, embora soubesse que tudo estava para mudar com a decisão de Shaka em apoiar Aiolia...



Shaka sentou-se no tronco coberto de musgo, abraçado a si mesmo, fitando o chão coberto de folhas douradas. Tentava, em vão, compreender o porquê do desejo despertado por um... garoto! Sempre se mantivera acima destes sentimentos devastadores, até porque não tinha sido ensinado a colocar-se acima de seus deveres como senhor de clã.



E agora, parecia que estava rumando em direção ao desastre... Acendera a Pira ardente e beijara outro homem. Pior que isso, era o sentimento que acompanhava o desejo como se fosse uma força poderosa demais para ser contida dentro do peito. Era mais que afeto, cuidado ou até mesmo empatia. Havia uma ligação com aquele garoto, como se ele viesse abrir uma porta que até então estivera fechada com chave, correntes e cadeado. Grande deusa do firmamento, ajude-me! Orou ele a Mãe Estelar, àquela que Asmita o ensinara a venerar nas estrelas quando menino.



— Aconteceu alguma coisa? – perguntou Misty aproximando-se de mansinho como se não tivesse nenhuma segunda intenção.



— Não, apenas estou meditando. – respondeu Shaka num tom desprovido de emoção, sem olhar para Misty.



Misty encostou-se a uma árvore e voltou-se para Shaka. Estava desconfiado, mas no controle de si mesmo.



— Mesmo? Pensei que sua meditação acontecesse no início e ao final do dia. Alguma razão em especial? Está aborrecido?



— Misty, aprecio e agradeço sua preocupação, mas gostaria de ficar sozinho, se não se importa.



O belo assentiu e sua expressão era solene quando deixou Shaka sem extrair dele nenhum tipo de confidência ou informação. Entretanto, não ficou sem um espetáculo, ao andar pela Clareira dos sussurros. Como um voyeur, ele viu Mu e Aiolia conversando e escondeu-se para apreciar...



— Não sabe o quanto me deixa feliz, Aiolia. Você é o herdeiro de uma dinastia de paz, só você pode libertar Dwiefer desse tirano.



— Me acha tão forte assim? E se eu não...



— Shhhh... Não diga isso. Você é tão digno e forte quanto Aioros era! Está no seu sangue, mas, além disso, está aqui, em seu coração. – disse Mu tocando o peito de Aiolia.



— Eu só sei que... te amo tanto Mu. Deixá-lo me consome. – disse Aiolia com o rosto contorcido em sofrimento.



— E quem disse que vai me deixar? Todo o exército precisa de um curador para tratar dos feridos. Estarei ao seu lado. Sempre.



— O quê? Está dizendo que...



— Estou dizendo que pedirei a Shaka para acompanhá-lo e sei que ele permitirá. Quando me afastei de você foi para que pudesse decidir o que era certo. Queria que se apropriasse das suas responsabilidades, independente das perdas que pudesse ter. Aprendemos isso, em Irmied. Desde crianças somos educados a servir à vida, independente de nossos desejos. Agora, você pode me entender e eu posso continuar minha missão ao seu lado.



O rosto de Aiolia se iluminou e enquanto seus lábios se abriam num sorriso, Mu possuiu-lhe a boca em um beijo profundo e quente...



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O vento soprava forte, prenunciando uma tempestade. E o som parecia o uivo de cem lobos em fúria quando Kamus voltou da Floresta negra. O céu cinza chumbo começava a enegrecer e o jovem senhor decidiu mandar que os homens deixassem a obra e voltassem para casa.



— Fenrir! Onde está Hyoga? – perguntou Kamus.



— Ele foi... ter uma conversinha com...Hã... Ele já vem! – respondeu Fenrir.



— O que está acontecendo? Eu sei que fiquei meio ausente quando da visita do senhor de Berkehell e deixei vocês meio de lado, mas agora quero saber o que há.



— Nada de diferente. Hyoga continua esquisito e eu, selvagem. Não se preocupe, irmão. Tá tudo sob controle. – respondeu o jovem lobo dando de ombros.



Kamus franziu o cenho, mas logo viu Hyoga surgir em meio às árvores. Parecia um tanto pálido, mas caminhava firme.



— Hyoga, precisamos conversar. – disse Kamus, chamando-o.



— Aconteceu alguma coisa? – perguntou o mais novo.



— Notei que você está diferente, está pálido e ausente. Quero saber a razão disso.



— Não é nada. Tenho aumentado o período de jejum, só isso.



— Quero falar com a Healer sobre isso.



— Kamus, não tem nada de errado. Sabe que... bem, sou diferente de você e Fenrir.



— Eu sei. Mas, mesmo assim, sou seu irmão mais velho e minha obrigação é cuidar para que fique bem. Talvez esteja exigindo demais de si mesmo.

— Sou do clã Akkwarju. Mesmo que não pretenda ser um guerreiro, devo esforçar-me para ser um curador poderoso. Somos exigentes, seja com a espada, seja de outra maneira. – disse Hyoga sério e de queixo erguido.



Kamus fitou-o e viu a determinação do garoto. Tocou-lhe o ombro e sorriu.



— É verdade. Sei que o fará. Saiba que me orgulho de você e acredito em sua força.



Fenrir olhou-os e também sorriu. Desde que tinha procurado Hyoga na Floresta Negra, entendera melhor as capacidades do irmão e se tornara mais íntimo dele. Hyoga o fizera ver a Passagem para o outro mundo e ele compreendera que a esquisitice do irmão era possuir uma ligação com as forças invisíveis da natureza.



Conhecera a velha árvore e vira seres luminosos e pequeninos. Tudo parecera um sonho, mas, por alguns minutos, ele entrara em contato com o mundo onde seu irmão transitava desde pequeno. Fora um momento de profunda conexão e os dois ficaram mais próximos, desde então. E melhor, lhe atribuíra alguns pontos com Hilda e isso o deixara feliz e esperançoso.



Não gosto desse clima de tempestade! Pensou Hilda enquanto recolhia as roupas. Para além das árvores que balançavam, ela viu a chegada dos homens e sorriu ao ver Kamus entre eles. O jovem senhor andava quieto e melancólico, após a partida do senhor de Berkehell e trabalhava exaustivamente dia e noite. Não chamara nenhuma mulher ou homem para a sua cama e isso significava que talvez fosse o momento de tentar consolá-lo...



O salão já havia sido arrumado para a janta. A mesa larga estava repleta de pães, carne assada e sopa quente. O vinho era servido junto à outra bebida feita de trufas fermentadas que, segundo a Healer ajudava a prevenir doenças e tonificava os músculos do corpo.



Kamus estava sentado ao lado dos irmãos e sua mente divagava, pensando como estaria Milo. Nestes momentos e, quando estava em seus aposentos, era quando permitia que seu coração substituísse a mente e onde era acometido por uma saudade dolorosa.



Desde a partida de Milo, trabalhava incessantemente. Sabia que se aproximava a hora da batalha e queria deixar todos protegidos. Também havia aquele incidente a ser desvendado, o tal estranho que o desafiara. Inspirou fundo e sorveu um gole de vinho. Do outro lado do salão, Saori acenava e sorria, mas para ele, era apenas um vulto e, em seu lugar, eram os fios loiros e o sorriso de Milo que ele imaginava ver...



Quando as sombras desceram e a noite se instalou, todos em Irġiel kiesaħ se recolheram. Hilda viu quando Kamus voltou da sala de banho, o corpo nu brilhando com os pingos da água que escorriam ao longo dos cabelos e músculos. Enquanto ele se secava, ela ousou entrar. Afinal, antes de terem partilhado a cama, eram amigos desde crianças.



— Deseja que lhe faça companhia esta noite, meu senhor...? – perguntou Hilda sorrindo e com um jarro de vinho nas mãos.



— Não, obrigado. Prefiro ficar só. – disse Kamus, secamente.



Hilda abriu a boca para falar, mas o impacto da resposta e o olhar frio de Kamus a fez emudecer. Ela saudou-o com um movimento de cabeça e deixou o aposento sentindo o rosto quente.



A reação magoada no olhar de Hilda fez Kamus arrepender-se do modo como falara com ela. Porém, ele não voltou atrás, nem se desculpou. Era melhor que o achasse rude, pois não queria dar explicações sobre seus sentimentos. A verdade era que descobrira a enorme diferença entre foder e fazer amor. Ambos eram prazerosos, mas só um o fazia sentir-se feliz e inteiro, do modo que voltava a ser aquele menino vivaz que achava poder conquistar o mundo. Fazer amor com Milo era diferente de tudo o que vivenciara e este ato se tornara sagrado, único e... insubstituível.



Hilda andava duro pelos corredores com um sentimento de raiva e desgosto. Como ele ousava tratá-la daquele jeito? Resmungava para si mesmo.



— Quando você se cansar de se humilhar, eu estarei aqui, esperando. – disse uma voz um pouco menos grave que a de Kamus.



— Fenrir! O que faz aí, nas sombras? Siga o seu próprio conselho e vá dormir, garoto. – disse Hilda baixando os cílios para esconder o olhar desgostoso.



Como um lobo, Fenrir colocou-se à frente de Hilda, interrompendo-lhe o caminho. Os olhos dourados cintilaram na pouca luz e seu corpo pareceu-lhe, ainda mais desenvolvido. De repente, o cheiro dele inundou suas narinas e Hilda sentiu-se incomodada com a repentina excitação de seu corpo.



— Quer mesmo que eu durma ou...



— Saia da minha frente, Fenrir! Não estou com paciência para... aturar as suas brincadeiras!



— Tem certeza que é isso mesmo que quer? Porque não me dá uma chance? Eu não estou brincando com você, Hilda. Eu a desejo e você sabe disso.



Hilda elevou os olhos. Em seu íntimo, a vergonha de ser rejeitada e a vontade de esquecer. Porque não? O mínimo que poderia acontecer era ter um sexo medíocre como alguns que já havia tido. Mas, pelo menos, não dormiria com aquele gosto amargo de sentir-se como um lixo.



— Você ganhou, garoto! Mostre-me do que é capaz. – disse ela numa atitude de desafio.



O sangue de Fenrir pareceu ferver. Pensava em ter Hilda desde que se conhecia por gente. E agora ela consentia, de livre e espontânea, vontade! Pegou-a, facilmente, no colo e correu para o quarto.



— E-Ei me coloque no chão!



— Não vou te dar a chance de voltar atrás! – disse Fenrir buscando os lábios de Hilda e calando-a com um beijo.



Os aposentos de Fenrir eram tão simples e selvagens como ele. Não havia livros, tabuleiros ou qualquer objeto alusivo ao intelecto. Havia a tradicional e necessária lareira, cornos de animais que haviam sido caçados e as peles acinzentadas que repousavam sobre a cama larga, que agora recebiam os corpos que se tocavam e abraçavam num ritmo frenético.



Fenrir estava em chamas, o desejo insano, enfim, seria satisfeito. Despiu Hilda sem pensar em mais nada que não fosse ficar sobre ela. As mãos tremiam sobre a pele macia, a boca consumia a dela, saboreando-a... O silêncio do aposento começava a ser quebrado pelos leves gemidos de Hilda e por sua própria respiração entrecortada.



Sua boca varria febrilmente o corpo de Hilda, os caninos roçavam seu pescoço, os lábios viajavam com uma sensualidade selvagem por seu ventre, por seus seios até voltar à sua boca e beijá-la com um ardor voluptuoso que ela jamais havia vivenciado.



Hilda gemia e, diferente das vezes em que fodia com outros, não estava no controle. Seu corpo estremecia quando os pelos do corpo de Fenrir raspavam sua pele e, ao mesmo tempo, ele lambia seus seios fazendo com que seus mamilos se enrijecessem com os movimentos da língua.



E quando ela já se contorcia, querendo-o dentro de si, Fenrir levou a boca até o triângulo dourado que ela tinha entre as pernas e beijou-a ali, para em seguida explorá-lo com a língua e fazê-la gemer, cada vez mais alto...



Um tremor, acompanhado de um grito fez Hilda gozar pela primeira vez, naquela noite. Estonteada, ela agarrou-se aos cabelos de Fenrir e antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele já se elevara e a beijava novamente, com seu gosto nos lábios e uma expressão de orgulho e satisfação.



— Pelo... Lobo negro... – ela murmurou entre o beijo.



Fenrir ouviu o tom maravilhado da voz dela e ergueu a cabeça. Seu cabelo estava suado, assim como o resto de seu corpo. Ele a fitou dentro dos olhos com um desejo tão explícito quanto o sentimento que o acompanhava.



— Eu te amo, Hilda...



As palavras saíram sem pudor ou qualquer hesitação e Hilda sentiu-se estremecer. Sentia Fenrir entre suas coxas, o falo rijo gotejando, pulsando, buscando seu sexo molhado de excitação e saliva. Abriu as pernas, sentindo-se arder para tê-lo, para saciar-se do modo que seu corpo pedia. De repente, não era somente o desejo, mas também um sentimento confuso que se revelava na forma intensa, mas também cuidadosa com que Fenrir a tratava.



Olhou para baixo no instante em que o jovem lobo a penetrou. Seus olhos acompanharam o falo deslizando para dentro do seu corpo numa única e forte investida e aquela conexão tornou-se uma experiência única onde, pela primeira vez, a fez sentir-se, verdadeiramente, ligada a um homem.



Fenrir ficou parado, os cotovelos apoiando seu peso, os olhos fixos nos de Hilda e, pela primeira vez a viu sorrir. Não do jeito sarcástico de sempre, mas um sorriso de prazer e intimidade. Arfou de contentamento quando a sentiu cravar as unhas em suas nádegas e pedir que se movesse.



O jovem lobo moveu-se num ritmo lento e torturante, os dentes cerrados, o corpo tenso... Depois acelerou o ritmo, sentindo o calor do corpo de Hilda e a contração dos músculos dela apertando-o, tragando seu falo mais para dentro, fazendo-o gemer alto com um prazer que fora sonhado à exaustão...



Não desviou o olhar nem um minuto sequer dos olhos úmidos de Hilda. Queria ficar olhando-a, vendo-a tremer e apertá-lo com desespero... E quando ela entreabriu os lábios e arqueou o corpo, ele bebeu do prazer dela em sua boca e, em seguida grunhiu, gozando dentro dela.



Hilda agarrou-se às costas largas de Fenrir, cravou as unhas nos músculos fortes e arfou com o coração descompassado. Ele a abraçou em silêncio, a respiração acelerada, porém permaneceu dentro dela...



E, quando Hilda achou que ele deitaria ao seu lado, sentiu o falo de Fenrir endurecer novamente dentro de si. Com os olhos arregalados de espanto, ela buscou os dele que brilhavam no rosto afogueado.



— Ainda não acabou... – sussurrou ele. – Não esperei tanto tempo para acabar assim. Vou fazê-la gozar muitas e muitas vezes...



Hilda gemeu, extasiada, quando os movimentos recomeçaram e Fenrir a fez chegar ao orgasmo, novamente. E assim foi durante toda a noite. Dormiam, acordavam e se entregavam um ao outro com voracidade e ardor.



Quando o amanhecer chegou, encontrou-os adormecidos e entrelaçados. E, pela primeira vez, Hilda se permitiu o tipo de intimidade que mudaria sua vida para sempre...



Notas finais
OBRIGADA DE TODO O CORAÇÃO: A todas que comentam, cobram, pedem a postagem, lêem quando sobra aquele tempinho, lêem no seu silêncio habitual. Bjs, e boa semana!!!