Trono De Sangue

19 Capítulo 19 AS GARRAS DO LEÃO...


Shaka desceu os degraus naturais forrados de limo e samambaias. Sua túnica branca esvoaçava e ele pisava leve, parecendo levitar.



Aiolia o aguardava nervoso, o coração acelerado. Ele havia procurado Mu, porém o jovem o estava evitando e isso doía em seu coração, até mais que o desprezo de seu pai quando o enviou para Irmied.



Compreendendo, por empatia, o que se passava com o jovem leão, Shaka preparou-se para falar de forma amável, afinal Aiolia era um jovem cujo coração só conhecera o amor e a cumplicidade em seus domínios.



– Pode relaxar, Aiolia. Vamos apenas conversar. – disse o senhor do clã Verġniao encontrar Aiolia parado em frente à pequena queda d’água.



Os olhos verdes de Aiolia penetraram-no, desconfiados, mas com o desejo explícito da confiança que sentia em Shaka.



– É fácil falar quando não é você quem tem de deixar tudo o que ama para ocupar um lugar que nunca foi seu.



A suavidade com que Shaka olhou-o acabou por desarmá-lo e Aiolia baixou os olhos, a angústia demonstrada nos punhos fechados, ao lado do corpo.



– Perdoe-me. Você me acolheu e eu...



– Aiolia... Você não é o único que necessita passar por cima dos seus desejos para cumprir o que é esperado de um líder. Queira você ou não, a herança de seu irmão também recai sobre os seus ombros e é esperado que assuma o seu lugar. Os clãs estão se reunindo para libertar Dwiefer da tirania de Hades, para que tudo o que foi feito por Aioros não acabe esquecido e que Darneheim volte a ser um lugar próspero e livre. Eles lutarão por você, se decidir posicionar-se. Mas, a escolha é sua, somente sua.



A tristeza era visível nos olhos do jovem, mas, afinal, ele possuía o sangue e a honra do leão. Voltou a encarar Shaka.



– Pois bem, farei o que deve ser feito. Não serei um covarde que se esconde, enquanto os outros lutam. Quando me encontro com os líderes dos clãs?



IrġielkiesaħeBerkehell já selaram sua aliança. Faltam os outros. Se você for reconhecido como líder, creio que o restante atenderá ao chamado.



– E como eu faço isso?



Shaka suspirou. Chamar os clãs, da forma tradicional, implicava em expor Irmied, o único que nunca guerreara contra ninguém. Mas, neste momento, era o jeito mais eficaz e rápido de mostrar que Aiolia estava pronto para assumir seu lugar.



Acender a Pira Ardente era o sinal dos clãs, fosse para pedir ajuda, fosse para declarar seu apoio a outro clã, fosse para apresentar uma nova liderança. A chama azul indicava necessidade de ajuda, a vermelha, apoio na batalha. A chama laranja, a cor do Leão, indicava a ascensão de um novo líder e a verde, exclusiva do clã Verġni mostrava a isenção do clã frente a qualquer conflito. Era a chama da cura e da proteção. Entretanto, isso estava para mudar e seu líder meditara e refletira, incansavelmente, frente à mudança radical que empreenderia e as consequências desse ato. Uma inspiração longa e profunda precedeu a resposta.



– A Pira Ardente será acessa na cor da ascensão de um novo líder. Dwiefer saberá que Irmied apoia você como senhor. A partir daí, os líderes dos outros clãs se juntarão a você e será o momento de liderá-los contra Hades.



– Mas, Irmied nunca acendeu a Pira a não ser para acolher os doentes e feridos. – disse Aiolia.



O olhar profundo de Shaka encontrou-se, novamente, com os tempestuosos e verdes olhos do jovem leão.



– Como pode ver, Aiolia, não será apenas você a fazer sacrifícios.



Irmied não é um clã bélico. Nunca vi guerreiros aqui. Como vão se proteger? – perguntou o jovem, preocupado.



Foi então que viu um estranho brilho nos olhos azuis de Shaka, algo sobrenatural e perigoso que lhe trouxe uma sensação esquisita, como se, de repente, ele estivesse sendo obrigado a curvar-se diante do jovem senhor.



– O que não é visto, apenas se mantém obscuro, não quer dizer que não exista. Sou o senhor deste clã e enquanto eu viver, Irmied estará protegida contra qualquer um que ousar atacá-la. – disse Shaka e seus olhos voltaram ao natural.



Aiolia piscou e ficou em silêncio. Jamais poderia imaginar que Shaka possuía tanto poder ao ponto de fazê-lo tremer por dentro daquele jeito.



– Agora vamos e deixemos que o futuro se apresente quando for a sua hora. Vá falar com Mu, ele o aguarda na Clareira dos sussurros. – falou Shaka num tom suave e bem diferente de instantes atrás.



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Já havia anoitecido em Dwiefer e as sombras iniciavam sua dança pelas paredes frias, quando os guardas trouxeram os cadáveres e pousaram-nos no centro do grande salão da fortaleza.



Radamanthys supervisionara, pessoalmente, a caça aos três líderes da Revolta silenciosa, uma insurreição surgida em meio aos trabalhadores da grande obra conhecida como Ádito dos Mistérios.



Dia após dia, a abundância, antes comum em Dwiefer, era substituída pela fome e degradação. Os homens eram obrigados a trabalhar incessantemente, porque Hades tinha pressa e queria a obra concluída antes da chegada do equinócio da primavera. Escravos eram trazidos das Terras Flutuantes e acabavam liderando pequenas revoltas contra as condições insalubres de alimentação e trabalho.


Agora, ali estirados no meio do salão, os três revoltosos eram olhados por Hades sob a iluminação bruxuleante dos archotes. Pandora encontrava-se ao seu lado e cobria o nariz com um lenço de renda. O cheiro da morte lhe impregnava as narinas trazendo-lhe náuseas violentas. Ele se compraz, cada vez mais nesse horror! Pensou ela ao ver o brilho no olhar do irmão.

Muito bem, faça-os de exemplo, Radamanthys. Amarre-os em postes na entrada da cidade e deixe-os com as vísceras expostas para que os corvos tenham o seu o peculiar banquete.


– Se me permite, meu senhor... Eu os trouxe aqui para que visse isso. – disse Radamanthys apontando para a tatuagem mostrando uma serpente de duas cabeças, feita na base da nuca dos homens mortos.


– Alguma seita clandestina? – perguntou Hades sem muito interesse.


– Sim, meu senhor. Descobri que muitos dos líderes insurgentes pertencem a um culto trazido pelos homens das Ilhas Flutuantes. Eles também usam a Papoula negra em seus rituais e ela funciona como uma espécie de instrumento de comunhão entre eles, tornando-os iguais entre si. Eles dizem que todos os homens são iguais e que ninguém tem direito a fazer-se superior aos demais.


Iguais? – falou Hades gargalhando, sonoramente. – Pois estão iguais agora, mortos como os ratos que são! Após pendurar esses... imbecis, prendam todo aquele que tiver uma tatuagem igual a estas. Quero uma demonstração em praça pública do que acontece a quem ousar trazer outra crença para Dwiefer! Queime-os na fogueira!



Radamanthys sinalizou para os soldados que arrastaram os corpos para fora e curvou a cabeça em direção ao seu senhor. Porém, antes que saísse, Hades o chamou.



– Deixe que os soldados os levem e fique. Quero falar-lhe às sós.


– Pois não, meu senhor.


Olhando para o lado, Hades pousou os olhos em Pandora e tocou-lhe o queixo, fazendo-a olhar em seus olhos frios. Ela sustentou o olhar, mesmo que sentisse um desconforto intenso e tentou sorrir.


– Minha querida, vá descansar. – ordenou ele tocando o ventre que cada dia se avolumava mais.


– Obrigada, meu senhor. Eu irei. – respondeu Pandora, obediente.


Hades esperou que ela deixasse o salão. Levantou-se do trono e aproximou-se de seu comandante.


– Mandei Shura ir à Irmied buscar meu querido irmão... Quero que escolha alguns homens em que confie e siga-o. Assim que os dois retornarem, quero que os mate, antes que cheguem a Dwiefer.



– Shura irá sozinho?



– Sim, ele faz de tudo para que eu acredite na falsa obediência que insiste em mostrar-me. Disse a ele que, se falhar, executarei Shion. Como se eu não soubesse que ele tramou a libertação do Conselheiro há algum tempo atrás... Pobre Shura, sua paixão cega pelo falecido Aioros é tão patética que o torna ingênuo e vulnerável. – disse Hades aproximando-se da mesa onde uma taça de vinho refletia a luz dos archotes.



– Será feito, meu senhor. – disse Radamanthys sentindo um grande prazer com as ordens recebidas.



Hades elevou a taça de ouro e sorveu um longo gole de vinho. Depois olhou para seu comandante e o dispensou com um gesto, voltando a sentar no trono. Escondida entre as cortinas grossas, Pandora registrou todo o conteúdo da conversa e deixou que Radamanthys se embrenhasse nos corredores escuros, até sumir de vista. Então, inspirou fundo e usou a passagem secreta que Aioros um dia revelara, a ela, quando ainda era uma menina.



Shura estava sentado junto à lareira com o cenho franzido. Tinha em suas mãos o desenho de Aioros e olhava-o como se pedisse um conselho. Fazia isso sempre que precisava tomar uma decisão frente aos inúmeros desafios que se apresentavam dia, após dia.



O comandante quase não percebeu o ranger baixo, próximo à parede onde se encontrava a sua cama. No entanto, seu instinto guerreiro o alertou e ele sacou o punhal, esperando a revelação da origem do ruído. Qual não foi a sua surpresa quando as portas de um armário de madeira se abriram de dentro para fora.



– Por favor, ajude-me. – disse uma voz feminina e ofegante.



– Pandora! – o nome escapou-lhe dos lábios, enquanto ele permanecia com o punhal em riste.



– Acalme-se, senhor Shura... Como eu lhe disse antes, precisamos conversar. – disse ela, estendendo a mão num pedido de ajuda.



– Como... eu não sabia desta passagem? – balbuciou ele, apoiando-a para que adentrasse o aposento.



– Isso é o de menos importância, senhor Shura. O que precisa saber é que Hades mandou matá-lo, assim que trouxer Aiolia de volta. Radamanthys irá segui-lo com alguns de seus homens e os executará.



– E porque está me dizendo isso? Sei que ajudou a matar Aioros! Sua lealdade é para com Hades, seu irmão, seu senhor e seu amante! Não venha me dizer que trocou de lado, porque não sou estúpido ao ponto de acreditar que se importa com a minha vida ou a vida de Aiolia!



– Tem razão em desconfiar de mim, senhor Shura. Não sou digna de confiança e sou culpada de tudo o que acabou de afirmar. Mas, algo mudou desde... Desde que engravidei. Hades pretende sacrificar o bebê, assim que ele nascer. Para ele, sou apenas o receptáculo de seu... poder!



– Ele quer sacrificar o próprio filho? – disse Shura, incrédulo.



“A criança nascida do incesto alimentará o caos, a força mais primitiva e renovadora do Universo.” Meu irmão e eu crescemos ouvindo essa profecia e... nossa mãe sempre acreditou que seríamos os agentes de sua concretização. Eu não sei se essa criança é filho dele ou de... meu pai. Mas de uma coisa eu tenho certeza, não quero sacrificar meu filho! – disse ela segurando o ventre.



Shura não estava acreditando no que ouvia. Era algo inconcebível e sórdido demais para alguém que acreditava em justiça e lealdade. Levou a mão aos cabelos negros e encarou Pandora, vendo que ela chorava. Pensou se ela tinha chorado assim quando planejara livrar-se de Aioros ou quando reduzira Regulus a uma carcaça sem vontade própria. Sentiu um aperto no estômago e uma forte náusea



– Se ele nos quer mortos é porque duvida de minha lealdade e quer ter a certeza que Aiolia não o enfrentará. A única saída é fingir que está tudo bem e acabar com Radamanthys, primeiro. Depois disso, verei o fazer.



– Posso pedir-lhe uma coisa?



O silêncio de Shura e seu olhar foram como um balde de água fria sobre Pandora. Mas, mesmo assim, ela prosseguiu.



– Não peço por mim, porque sei que não mereço. Mas, por favor, salve a criança. Não permita que Hades ponha as mãos nela!



– E como espera que eu faça isso e permaneça vivo?



– A hora do parto se aproxima, por isso, Hades tem pressa no término de sua grande obra. Na próxima lua, eu irei até a parteira que mandei trazer escondido das terras negras, ao sul de Berkehell. Ela aprendeu a técnica de cortar a barriga e tirar a criança e eu... pedirei a ela que tire o bebê e o leve embora daqui. Depois, direi a Hades que sofri um aborto. A única coisa que lhe peço é que proteja os dois até que deixem Dwiefer. Por favor, senhor Shura...



– O que me pede...



– Por favor! Eu imploro! Eu... imploro. – disse Pandora ajoelhando-se aos pés de Shura.



– Levante-se! Levante-se e saia. Preciso pensar.



– Não há um só dia em que eu... não me amaldiçoe por trair o amor de Aioros. Nem mesmo a morte apagará o que eu fiz, mas... se Hades puser as mãos nesta criança, ele vencerá. Pense nisso. – disse Pandora enxugando as lágrimas e levantando-se com dificuldade.



Shura viu-a voltar pela mesma passagem. Depois, atravessou o quarto e pegou um jarro com água, vertendo-o sobre a cabeça que fervia com todas aquelas informações. De olhos fechados, vislumbrou a imagem de Aioros e suspirou. Depois, abriu-os e soube o que devia fazer...



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Quando Milo viu as montanhas à distância e o dourado do sol cobrir os campos, fechou os olhos e segurou forte, a bolsa de couro contendo a mecha do cabelo de Kamus. Notou que havia uma escuridão de tempestade na direção de Irġielkiesaħ e seu coração se inquietou. Entretanto, ele mais que ninguém sabia da força de Kamus, o seu amado lobo... Inspirou fundo e emparelhou seu cavalo ao de Manigoldo. O comandante olhou-o e nada disse, apenas manteve o trote e ordenou aos outros que buscassem um lugar para que pudessem passar à noite.



As florestas fora dos limites de Irġielkiesaħ eram bem diferentes da densa mata fechada que conhecera. Agora se via árvores mais baixas, de um verde claro que beirava ao amarelo. Estavam dispostas de um modo que, a maior parte do caminho se mostrava como um campo aberto e se podia ver o céu amplo e limpo como uma imensa abóboda permeada de pontos luminosos.



– Acendam uma fogueira. Vou ver se caço alguma coisa. Assim pouparemos comida até chegarmos ao nosso destino. – disse Manigoldo.



– Vou com você. – adiantou-se Milo pegando seu arco.



Dentro da floresta, havia um córrego serpenteando entre pedras e galhos secos. Os pássaros estavam alvoroçados indicando que buscavam o recolhimento antes do anoitecer. Uma lebre deslizou entre arbustos e Milo, ia disparar uma flecha quando viu um animal maior. Parecia um cervo e pelo retesar do corpo ele também os percebera.



Milo sinalizou para que Manigoldo ficasse imóvel e retesou o arco de um jeito que o comandante nunca tinha visto. O senhor de Berkehell parecia fundir-se a sua arma. Os braços, a flecha e o próprio arco criavam um desenho perfeito e alinhado. Nenhum som ou movimento podia ser ouvido e Milo parecia um felino à espreita de sua presa, imóvel, totalmente concentrado...



A flecha foi disparada com tal precisão que o cervo caiu de imediato, sem sofrimento ou estertores antes da morte. O som seco da flecha, cortando o ar e passando por entre os arbustos, durou frações de segundos e coração do animal foi atingido antes mesmo que ele tentasse empreender sua fuga.



Involuntariamente, um som de entusiasmo saiu dos lábios de Manigoldo. Jamais, em sua vasta experiência, havia visto um arqueiro como Milo, alguém que parecia tão inteirado com sua arma ao ponto de não distinguir-se onde acabava o homem e começava o arco.



– Pelo Lobo Negro, homem! Já vi arqueiros habilidosos, mas como você...



– Fui treinado para acertar alvos muitos mais distantes e em condições ruins de visibilidade. Os acólitos das sombras treinados no uso do arco são conhecidos como o sopro trágico do deus Sombrio. Matam rápido e instantaneamente. Caçar chega a ser quase uma brincadeira, mas só faço isso para que tenhamos um bom estoque de comida para a viagem. Não gosto de matar animais. – disse Milo com simplicidade.



Manigoldo não pode deixar de sorrir e deu-se conta que o fazia espontaneamente, como há muito tempo não sentia vontade.



A noite caiu e sob a fogueira, a carne assava, exalando um aroma que fazia os homens salivar. Milo olhou para o céu estrelado e pensou nos irmãos e em tudo que vivera com Kamus. Parecia que sua vida sofrera uma enxurrada de acontecimentos tão distintos que seu coração passava do júbilo à tristeza, vertiginosamente, deixando-o com aquela sensação de falta de ar.



– Vamos vigiar por turnos. Você fica dispensado como um prêmio por ter nos dado um jantar como esse. – disse Manigoldo tocando o ombro de Milo e tirando-o de seus pensamentos.



Siegfried, Thor e Hagen concordaram saboreando a carne suculenta, a gordura a escorrer pelos cantos da boca...



– Não tenho sono. Durmam vocês, eu vigio. – respondeu Milo e Manigoldo viu a tristeza pairando nos olhos do jovem.



– Como eu disse antes, conheci seu pai e agora, conhecendo-o melhor, senhor Milo, vejo muito dele em seu caráter. Agora descanse, mesmo que não tenha sono. Eu farei o primeiro turno de vigília. – disse Manigoldo.



Milo assentiu com a cabeça e viu quando o comandante das forças de Irġielkiesaħ dirigiu-se para uma pedra solitária onde montaria sua vigília.



O jovem senhor deitou-se de costas, olhando para o céu com a pequena bolsa de couro nas mãos. Fechou os olhos por um segundo e então, tudo escureceu.



De onde estava, Manigoldo viu quando todos adormeceram e então realizou o mesmo ritual particular que fazia desde a morte de Dégel. Tirou uma bolsa de couro, onde guardava uma pequena estatueta de madeira. A peça representava o senhor no jogo de skák e, muitas vezes fora manejada por Dégel. Tocou-a com os dedos grossos e levou-a aos lábios, sentindo um pouco da presença do único amor de sua vida. Depois guardou-a, novamente, e voltou ao semblante fechado e sombrio que o ajudava a esquecer a dor.



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– Saia da frente! Não vou permanecer deitado aqui, enquanto meu irmão está precisando de mim! – gritou Ikki tentando deixar o quarto.



A luminosidade do sol já atravessava as janelas amplas e projetava desenhos no chão do aposento criando efeitos que se somavam à sombra poderosa do jovem guerreiro que já vestira suas roupas e tentava deixar o lugar.



– M-Mas não pode! O senhor ainda está se recuperando e...



– Escute aqui, não quero machucá-lo, então saia da minha frente. – repetiu o moreno.



– M-Mas, s-senhor...



– Deixe, Álephe. Eu converso com o senhor Ikki. – disse Shaka com suavidade e se interpondo entre os dois.



Ikki estava suado, os cabelos grudados na testa, porém o olhar era intenso e firme, assim como o corpo posicionava-se com uma incrível firmeza em vista da gravidade de seus ferimentos.



– Agradeço a sua hospitalidade e cuidados. Infelizmente não possuo comigo dinheiro suficiente para pagar pelo que fez. Mas, prometo que assim que resgatar meu irmão e chegar a Berkehell eu...



– Não recebemos pagamento aqui, senhor Ikki. Agora, por favor, volte para a cama antes que ponha por terra todos os nossos cuidados. – disse Shaka ignorando por completo os argumentos do jovem.



– Diga-me uma coisa, senhor de Irmied... que idade tem? – perguntou Ikki permanecendo parado, sem mover um músculo para obedecer a Shaka.



– Tenho dezoito, por quê?



– Porque eu tenho dezesseis e, há muito tempo, já sou responsável por mim mesmo. E, quando eu digo que não vou voltar para aquela cama eu não...



A frase dita pelo moreno não foi terminada e, inexplicavelmente, o jovem viu-se derrubado sobre a cama num piscar de olhos. A cena pareceu acontecer lentamente, como se os dois estivessem dentro d’água e Shaka o estivesse dominando com o olhar, enquanto os braços executavam um movimento de contenção suave e firme, tudo ao mesmo tempo. Os rostos ficaram tão próximos que ambos sentiam a respiração quente um do outro. Neste momento, Ikki fitou a vastidão azul daqueles olhos que transmitiam paz, sabedoria e outro sentimento que lhe tirou o ar.



– C-Como fez isso? – perguntou Ikki sentindo arder a pele onde as mãos de Shaka o tocavam.



– Feche os olhos, Fênix e descanse mais um pouco. Quando tudo se desencadear, vou querê-lo ao meu lado e você precisa estar forte. – respondeu Shaka.



Um relaxamento espalhou-se pelo corpo de Ikki. Seus músculos, antes tensos, agora respondiam ao tom suave da voz do senhor de Irmied. Ele parou de resistir e levou a mão ao rosto de Shaka, tocando-o com os dedos. Nenhum dos dois desviou o olhar ou disse mais alguma coisa. O tempo, novamente, pareceu andar para trás, como se uma energia invisível criasse um espaço único e atemporal entre os dois. Então, os lábios se aproximaram e Shaka vivenciou o primeiro beijo de sua vida...



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Seus olhos já haviam se acostumado à escuridão que precedia o amanhecer. Shura preparava seu cavalo sob o olhar sério de Shiryu. Não havia dormido bem à noite, pensando em tudo o que Pandora dissera. Não confiava nela, mas sabia reconhecer o medo e ela não mentira quando temera pela vida da criança que carregava em seu ventre. Mas, por enquanto, não era nisso que pensava e sim num jeito de derrotar Radamanthys e assim livrar-se do forte comandante e criar um vácuo nas forças de Hades.



– Se a víbora está dizendo a verdade, Hades sabe de todos os nossos passos. Como fará quando Radamanthys o emboscar? Porque não finge estar doente e me envia em seu lugar? – perguntou Shiryu vendo que Shura permanecia em absoluto silêncio.



– Não vou expor você, nem ninguém. Noite passada eu pedi um sinal ao Senhor das Almas e, ao acordar, eu soube que devo prosseguir. Algo está para acontecer e...



– Comandante! Subcomandante! – gritou uma voz vinda dos portões.



– O que aconteceu? – perguntou Shura.



– Radamanthys tem de ser avisado! A Pira Ardente foi acesa! Os batedores trouxeram a mensagem que a chama laranja surgiu nos céus próximo a Irmied. O senhor de Verġnireconhece, oficialmente, Aiolia como o novo líder para o clã Iljun.



Notas finais
Agradeço as recomendações de: SION NEBLINA, CHACAL_MALDITO E DRAGON. Obrigada pelo carinho e pelos comentários instigantes e estimulantes!!! Aquela(e)s, que usam do seu tempo para ler e comentar, obrigada por esse delicioso alimento!! Bjs,amo toda (o)s vocês!!! XD