Trono De Sangue

18 Capítulo 18 A ÚLTIMA CEIA...


A última noite.



Nossa última ceia juntos...



Kamus sabia que a hora chegaria, mas mesmo assim, o passar das horas pareciam adagas cravando-se em seu peito. Ao amanhecer, Milo iria ao encontro dos irmãos e depois disso, retornaria a Berkehell onde iniciaria sua função como líder de clã. Quanto tempo se passaria até que se reencontrassem? E se isso fosse possível, o que seria deste amor fora dos padrões e do que era esperado de um senhor de clã?



Com o coração pesado, seguiu para a cozinha onde sabia que encontraria Hilda.



– Peça à cozinheira que prepare um jantar reforçado e escolha um bom vinho. Quero isso servido em meu quarto daqui a algumas horas. – disse Kamus.



– Sim, meu senhor. – respondeu Hilda notando a tristeza nos olhos rubros.



De onde estava Kamus podia ver Milo andando no pátio. Mesmo já estando escuro, viu que muitas pessoas se aproximavam dele e o abraçavam numa atitude inédita e receptiva para quem pertencia ao clã Akkwarju. Seguiu até lá querendo passar com ele o máximo de tempo possível.



Andaram juntos no frio da noite e quando retornaram, foram para os aposentos de Kamus onde tudo estava preparado como ele desejara. A lareira do quarto estava acesa, a comida disposta sobre uma pequena mesa junto da cama, o vinho deixado numa jarra logo ao lado...


Kamus serviu o vinho e estendeu a taça para Milo. Depois aproximou-se e tocou-o no rosto. Milo fechou os olhos, pressionando o rosto na mão calejada do senhor de Irġielkiesaħe depois abriu-os novamente esquadrinhando as feições que amava e tudo estancou...

Nos olhamos como quem deseja aprisionar a eternidade e parar o tempo.

Eu me desnudo por completo e ele também. Esta é a nossa última noite juntos e o que eu sinto é tão forte que me sufoca, mas ainda assim o desejo grita em nossas peles e logo, nossas bocas se fundem sôfregas, quase em desespero.

Eu sinto a língua de Milo buscar a minha e me agarro aos cabelos dele com força, emaranhando meus dedos naqueles fios de sol. Ele geme rente aos meus lábios e me olha daquele jeito que jamais alguém me olhou. É um olhar que mistura desejo e algo tão profundo, que transpassa a minha alma como uma lâmina...

Sinto vontade de penetrá-lo, de me enterrar dentro dele, mas nessa noite, nessa última noite, eu farei algo que nunca permiti, me entregarei por completo, serei dele como ele foi meu...

Pertencemos um ao outro, não importa o tempo ou o que aconteça. Sinto em meu peito um amor tão profundo e uma necessidade inédita de ceder a este sentimento, como se fosse uma última cruzada, um momento único em que posso ser eu mesmo, sem máscaras, sem frieza, somente o calor do meu coração batendo junto ao dele...

As mãos de Milo apertam minha carne e ele continua a mover a língua por meu ventre, deixando rastros quentes, úmidos, antes de descer até meu membro túrgido e tomá-lo na boca, sugando e roçando a língua, enquanto aprofunda os dedos dentro do meu corpo...

Não consigo conter os gemidos e nem quero... Estremeço, mordo meu lábio e me agarro a ele com força, cravando as unhas na musculatura rígida.

Nossas bocas se encontram úmidas, criando pequenos ruídos como o som da água penetrando nas pedras da caverna onde nos amamos... Nossos lábios e línguas se juntam, saboreando uma a outra num movimento lento, erótico, a umidade espalhando-se no calor da boca, nossos corpos correspondendo com uma devassidão deliciosa...

Um aprendizado que, somente Milo, me fez sentir de forma tão completa.

Por um tempo, desfrutamos apenas da fricção dos corpos, da insinuação das coxas roçando uma na outra, do pulsar conjunto de nossos falos que despertam as paredes da carne e nos faz antever o prazer de nos tornarmos um. Meus pensamentos se esvaem e só existe este momento, essa fome que será saciada por ele, o homem que amo e que me ensinou a amar...



Milo alisava a pele quente que revestia os músculos duros do peito e dos braços de Kamus, deliciando-se com a sensação de tê-lo abaixo si e pressionava sua nudez de encontro à dele fazendo-o sentir a excitação que a entrega lhe causava...



Cada movimento de Milo era acolhido por Kamus de um modo ensandecido, cada recanto da pele quente, a pulsação ecoando no pescoço, a maciez dos lábios suculentos e carnudos explorando os seus, a rigidez dos músculos, a mão vagando e tocando seu sexo com um misto de enternecimento e luxúria...



Vagando com seus lábios e sua língua pelos mamilos túrgidos, sugando-os e mordendo-os com volúpia, o senhor de Berkehell demonstrava entender a mensagem e continuava a exploração, totalmente transtornado, imerso no prazer que o amante sentia e que também despertava nele de forma insana, ardente...



Enquanto beijava Kamus, Milo buscava as mãos fortes do ruivo e deslizava as suas sobre elas, até entrelaçar os dedos nos dele, estreitando o contato dos corpos, sentindo os fluidos do desejo gotejando, ao longo das sombras douradas de suas coxas, iluminadas pela luz bruxuleante do fogo da lareira.



Depois levou a mão de Kamus à boca, sugando seus dedos devagar, lambendo o dorso e a palma de sua mão, mordendo, acariciando, fazendo o ruivo descobrir mais do prazer que poderia sentir em outras partes de seu corpo.



Havia uma necessidade voraz de provar da pele, do gosto, de cada recanto do corpo de Kamus e Milo mordiscava e sugava a mão e depois a garganta de Kamus, afundando-se nela com gosto, deixando marcas avermelhadas e um rastro de saliva quente... Sentia um prazer extasiante, selvagem e primitivo, mas ainda assim tão sagrado quanto os rituais que aprendera na Torre Negra...



Para Kamus, que nunca se entregara a ninguém, a sensação era sublime e ele sentia-se plenamente encaixado no leito de sensualidade que era a pele, o olhar, o gosto de Milo. Pulsava dentro de si um instinto mais profundo que a razão e, suas mãos extasiavam-se em tocar as costas largas, em sentir a plenitude das coxas musculosas, em fundir-se na pulsação de um membro latejante roçando o seu...



Milo foi descendo pelo tórax, pelo umbigo até chegar à virilha e mordiscá-la enquanto dava beijos quentes e molhados no falo de Kamus, massageando-o com a língua em movimentos circulares até chegar à base do membro. Então soltou um gemido de prazer e ofegou fazendo o mesmo caminho de volta, da base à ponta, até abarcá-lo inteiro, bem fundo na boca cálida...



Apesar da sua única experiência sexual completa ter sido com Kamus, Milo sabia, instintivamente dar prazer e seu corpo perdia-se no frenesi de fome pelo corpo de Kamus. Ele o sugava e gemia enquanto o fazia. Intensos, os gemidos eram acompanhados do ar quente da respiração entrecortada, o som vibrando na carne quente e túrgida, o movimento cadenciado e úmido ao longo da ereção pulsante sob os seus lábios e dentes, fazendo Kamus arquear-se de encontro a si com a orgia expressa do desejo e a entrega total, sem máscaras e sem reservas...



Milo apertou os lábios contra a base do falo, perto da virilha e sugou-o ainda mais forte, sentindo todo o corpo de Kamus vibrar, cavalgando-lhe vigorosamente a boca com convulsões urgentes e fortes, o aroma forte que antecedia o prazer se anunciando...



Inebriado, Kamus gemia rouco, quase gozando com aquelas carícias, seu corpo inteiro sensibilizado, como se a qualquer momento ele fosse atingir um prazer absoluto e mortal ao ser abocanhado e tocado daquele jeito.



Num ato supremo, Kamus fez com que Milo parasse. Com a respiração pesada ele abriu os olhos enegrecidos de tanto prazer, seus dedos cravando-se na pele bronzeada , seus gemidos e seu olhar ardente se fixando no de Milo, transtornado pela violência de seus sentimentos, de sua paixão explícita.



Não havia nenhuma barreira nos olhos rubros quando se fixaram nos olhos azuis, cheios de luxúria. Havia uma necessidade quase insana de pertencer, de sentir a entrega plena, sem reservas, de dizer eu te amo com a fome do corpo ardente... E foi em nome dessa necessidade que Kamus sussurrou com uma voz enrouquecida de desejo:



– Eu quero sentir você... Quero você dentro de mim, Milo.



A alegria e excitação daquelas palavras fez Milo estremecer, mas o senhor de Berkehell ainda não tinha terminado. Queria gravar em sua mente e em seu corpo todos os gostos e todos os recantos do corpo de Kamus.



– Ainda não... meu extasiante lobo...– respondeu Milo com um sorriso cheio de malícia.



Dito isso, Milo afastou as pernas de Kamus e se insinuou ainda mais entre elas, enquanto sua língua traçava círculos molhados lambendo e sugando a pele rente ao pescoço, a nuca, a curvatura dos ombros...



Continuava explorando os lugares mais íntimos do corpo do amante, seus quadris se alinhando sobre os dele, as mãos deslizando para o meio de suas pernas para sentir-lhe o falo rígido e tocá-lo, arrancando gemidos ainda mais altos, enquanto sua língua escaldante continuava a morder e atormentá-lo com aquele banho de sexo que fazia a carne exultar e o sangue pulsar enlouquecidamente...



Então, quando ambos os corpos suplicavam para serem satisfeitos, Milo ergueu-se e puxou Kamus pelos quadris, penetrando-o lenta e profundamente. O ruivo apartou as pernas e entregou-se por completo, vendo o falo de Milo enterrar-se inteiro dentro de si, sentindo-se preenchido, ferido de êxtase, dor e prazer de uma forma alucinante...



Milo sentiu uma espiral de prazer abarcar seu membro. Era quente, estreito e pressionava seu falo de um jeito que quase o fez gozar, preenchendo um espaço em seu corpo como uma espada preenche a bainha que lhe foi destinada... Estancou um pouco, sentindo o latejar do falo e Kamus ofegar, depois se moveu com força, sua virilidade intumescida arremetendo fundo e arrancando gemidos que eram cada vez mais intensos.



Ele gemeu rouco, engolido pelo corpo voluptuoso que o apertava. Era como ser devorado por profundezas escuras e famintas, que o faziam vivenciar um prazer violento e insano dentro de si.



Kamus ofegava, a boca abrindo-se para puxar o ar, as pupilas dilatadas, o rosto em brasa, a cabeça jogando-se para trás ao sentir o amante aprofundado em seu corpo... Apertou o corpo de Milo segurando-o pelas nádegas, cravando os dedos nela de forma ardente e possessiva, deliciando-se em ouvi-lo grunhir de prazer, enquanto se arremetia cada vez mais forte contra si...



Os quadris moviam-se, quase por conta própria, sincrônicos, intensos fazendo Milo arremeter cada vez mais rápido e Kamus acompanhar aquele ritmo cadenciado do entrar e sair do falo levando ambos, aos tremores que antecediam ao clímax...



Seu coração batia loucamente e o de Kamus também. Os movimentos intensos cobrindo a pele com uma febre selvagem que se expandia por todos os nervos, poros e células de seus corpos.



Milo imprimiu mais força, tocando as paredes da entrada estreita sem parar, atingindo um ponto profundo dentro de Kamus fazendo-o gritar de prazer e projetar à pélvis de encontro à dele, sentindo um profundo vínculo com tudo ao seu redor, o barulho do crepitar do fogo, o uivo longínquo dos lobos, o suor das peles...



Ele se agarrou àquele vínculo e sentiu Milo investir com mais intensidade, o falo entrando e saindo firme, túrgido, aquecido pela cavidade que o sugava, prendendo-o cada vez mais dentro de si. Então, sem suportar mais o crescente e selvagem ardor, Kamus arqueou o corpo e grunhiu, sentindo as contrações apoderando-se do falo que o penetrava e, em seguida, o orgasmo invadi-lo com fúria, fazendo-o derramar-se quente contra o abdome de Milo, enquanto ao mesmo tempo, o loiro estocava uma vez mais e gemendo alto, o preenchia com seu gozo.



Os corpos ficaram unidos num abraço cúmplice, com Milo deitado sobre o corpo de Kamus, até a respiração voltar a serenar e o coração parar de retumbar nos ouvidos. Depois, deitados sobre as peles eles se olharam e Milo sussurrou no ouvido do senhor de Irġielkiesaħ:



– Eu te amo, Kamus...



Os olhos rubros ficaram úmidos e Kamus tocou os lábios de Milo com os dedos. Depois sorriu e disse com a voz rouca e grave:



– Eu também te amo, Milo.



O ar da noite era frio e Kamus sentia Milo junto ao seu corpo, aquecendo-o. Acariciou-lhe o peito até chegar aos cabelos e lá iniciar um carinho leve. Sabia que Milo ainda dormia, exausto pelo prazer e também pelas emoções que havia tido com as notícias desagradáveis e não queria levantar-se para pegar o cobertor de pele por medo de despertá-lo. Moveu a perna e, com os dedos dos pés, prendeu a pele, puxando-o sobre ambos.



Ficaram um tempo aquecidos e aninhados, mas Kamus não dormiu. Respirou fundo e voltou os olhos para a janela. Não conseguia mais dormir sabendo que dali a algumas horas o amanhecer chegaria.



A sombra de uma lágrima começava a aparecer e ele ouviu o uivo longo e pungente dos lobos. Não era um uivo qualquer e logo, Raio adentrou o quarto olhando-o num chamado mudo. Kamus levantou, tendo o cuidado de não acordar Milo. Vestiu-se e acompanhou o animal.



O vento gelado suspirava por entre as árvores e a floresta exalava um rico aroma ... Raio corria, pulando por entre a neve e saltando sobre troncos caídos. Kamus tentava acompanhá-lo, mas ainda estava com o corpo relaxado pelo orgasmo intenso que tivera com Milo e ficava para trás.



O vento mudou subitamente.



Kamus sentiu e Raio também. Havia medo no ar e cheiro de sangue. O jovem senhor sacou seu punhal e embrenhou-se na mata fechada onde encontrou uma corça deitada no chão. O animal estava morrendo e cercado por lobos acinzentados. O macho alfa do grupo vagueava ao redor da presa num círculo cuidadoso e quando viu Kamus, ele ganiu e se afastou, reconhecendo o lugar do senhor de Irġiel kiesaħ na hierarquia de todas as matilhas.



Kamus se aproximou com cuidado quando de repente um lobo gigante e branco rugiu, surgindo da escuridão e lhe mostrando os dentes. Era maior que Raio e tinha um olhar estranho, parecendo que seus olhos eram feitos de vidro.



Kamus apertou o punhal e preparou-se, porém Raio se adiantou e saltou sobre o lobo fazendo com que os outros se afastassem. Os dois iniciaram uma luta rolando juntos sobre raízes, neve e o sangue que vertera da corça. Os dentes afiados rasgavam o pelo um do outro, as patas se tocavam e empurravam com selvageria e força.



O lobo maior era forte, mas Raio também era e ainda havia Kamus, o jovem senhor cujos lobos faziam parte da sua matilha.



De tempos em tempos, os outros lobos intervinham na luta, mordendo uma perna ou uma orelha fazendo o estranho lobo perceber que estava sozinho.



A luz da lua refletia nas pelagens, branca e azul, e Raio investia com fúria, até que se lançou com tanta rapidez sobre o lobo branco que rasgou-lhe parte do focinho e, em seguida, um pedaço da orelha também. O lobo deixou escapar um rosnido e, de repente, estancou como se tivesse ouvido algo. Os outros lobos olharam-no com olhos amarelos e brilhantes. Era um som estranho apenas para os seus ouvidos. O lobo branco fugiu e Raio ia atrás dele quando Kamus o chamou:



– Deixe-o ir, Raio. Volte!



Os outros lobos aproximaram-se da corça e esperaram por Kamus e Raio. O senhor de Irġielkiesaħ olhou atentamente e viu que o animal não tinha sido morto pelos lobos e sim por uma arma denteada que rasgara do pescoço ao ventre de forma precisa e mortal. Procurou perto do corpo algum vestígio, mas nada encontrou. Franziu o cenho e guardou o punhal. Cheirou a carne, sentindo se havia algum vestígio de veneno e depois de verificar que não, sinalizou para que os lobos aproveitassem a caça.



Ajoelhou-se na neve e chamou Raio, verificando o pelo do animal e se não estava ferido. Nada. O sangue que havia em seu corpo era do outro lobo e Raio permanecia intocado e disposto a ir atrás do inimigo.



– Vamos, meu amigo. À noite e de madrugada não teremos chance.



O lobo ganiu e olhou para a presa morta. Sentia o cheiro quente e aliciante de carne fresca e salivou. Aproximou-se dos lobos que comiam a carne e eles lhe deram lugar no banquete. Raio enterrou os dentes na barriga da corça e rasgou um pedaço de carne suculenta e quente.



Enquanto isso, Kamus viu algo brilhante emergir rápido e sibilante do fundo da floresta e cravar-se no tronco de uma das árvores altas próximo de si. Era uma espécie de dardo feito de metal e trazia em si, um pergaminho com uma inscrição na língua original de seu clã, uma língua que fora substituída pela língua mãe, aquela que todos em Darneheim aprendiam desde pequenos e que era falada em todos os clãs.



Kamus pegou-o, arrancando-o do tronco e leu:


L'hégémonie du clan est Akkwarju à la fin!
Méfiez-vous, ô Seigneur Irġiel kiesaħ, il suffit de savoir qu'il sera vaincu!



Kamus franziu o cenho e partiu na direção do dardo, embrenhando-se na floresta ainda mais. Raio percebeu o movimento e foi atrás, lambendo os beiços e saltitando com rapidez.



Muito em baixo, na base da floresta, algo se moveu por entre as árvores tão rápido que a sua sombra evanesceu em meio aos troncos grossos. Frustrado, Kamus percebeu que quem quer que fosse já estava muito longe, que tinha se embrenhado demais na floresta e as primeiras luzes do amanhecer já se insinuavam. Eram nestas primeiras horas que Milo deixaria Irġiel kiesaħ e ele não estaria lá. Tinha que se despedir, mas sabia que talvez não chegasse a tempo...



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Na fortaleza, Manigoldo arrumava a cota de malha sob a camisa de lã. Estava com o cenho franzido e se preparava para pegar sua espada quando Aldebaran entrou em seus aposentos e o encarou :



– Bem, eu disse que Kamus havia aprendido bem o que você mesmo ensinou a ele. Agora, trate de achar os rapazes e voltar. Precisamos de você aqui.



O comandante olhou para o único amigo que lhe restara. O único que sabia de seu segredo.



– Ele nem consegue esconder que está tomado de amores por esse tal Milo.



– Essa lição você não ensinou a ele. Ele aprendeu sozinho. Você nunca assumiu suas emoções. Seu amor por Dégel se tranformou em serviço e lealdade. Nem mesmo quando ele se submeteu à Regulus e partiu, você disse que o amava.



– Eu jamais arriscaria a amizade que ele devotava a mim por...



– Amor ? Você nunca saberá o que teria acontecido, porque simplesmente, não teve coragem de confessar.



– Dégel gostava das mulheres. Como eu ia... Ah, isso faz parte do passado. Dégel está morto e eu honrarei a sua memória servindo o filho dele. É isso e ponto final.



– Muito bem, então faça isso e não jogue mais seu mau humor sobre aqueles que tiveram a coragem de fazer suas próprias escolhas.



– Tem razão, se eu tivesse ficado calado estaria livre para ficar aqui. Bem, vamos lá. Cuide de tudo na minha ausência.



– Eu cuidarei, velho amigo. – disse Aldebaran abraçando Manigoldo.



Milo estava pronto e seu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito. O cheiro e o gosto da pele de Kamus ainda impregnava seus sentidos e ele acordara sozinho, algo que o deixou apreensivo e decepcionado, embora soubesse que algo devia ter acontecido para Kamus sair no meio da madrugada. Porém, ele não voltara e a sensação de perda era horrível. Tinha que partir cedo ou não venceria as distâncias necessárias para chegar a Irmied em três dias.



Todos já estavam montados, Manigoldo, Siegfried, Thor e Hagen, prontos para auxiliar Milo a encontrar seus irmãos. O senhor de Berkehell olhava, insistentemente para a direção da Floresta e para os criados que não sabiam onde seu senhor havia ido.



– Sinto ter de dizer que não podemos esperar mais. Se quiser chegar a Irmiedlogo, temos que partir agora. – disse Manigoldo e, desta vez, não havia nenhum tom cruel em sua voz.



Milo assentiu com um movimento de cabeça.



– Vamos embora. – disse o senhor de Berkehell.



Saori olhava radiante e Hilda, estranhamente, sentia um misto de compaixão e alívio, embora o primeiro fosse mais forte do que gostaria. Todos se despediram do grupo que deixava Irġielkiesaħ.



Kamus chegou meia hora depois que o grupo tinha partido. Estava afogueado e aproximou-se de Hilda que o olhou, confirmando que ele estava atrasado. Angustiado, Kamus pensou em um jeito de alcançá-los, mesmo sabendo que eles estavam muito à frente. Montou seu cavalo e chamou Raio que o acompanhou aos pulos, como de costume.



Ao chegar à divisa das terras de Dwiefer, Kamus viu os cavaleiros ao longe, pequenos vultos negros em contraste com a paisagem gelada. Não os alcançaria, então algo lhe veio à mente, uma lembrança de uma conversa que havia tido com Milo. Um sorriso triste lhe escapou dos lábios, mas sabia que pelo menos, seu amado entenderia o recado. Sacou do punhal e cortou uma mecha dos cabelos avermelhados...



Raio, leve isto até Milo. – disse Kamus estendendo uma pequena bolsinha de couro onde colocara a mecha de cabelo.



O lobo olhou-o com um brilho nos olhos rubros, moveu a cabeça e abocanhou a bolsa, disparando por entre arbustos, raízes e neve.



Milo galopava em silêncio, embora achasse engraçada a excitação dos três jovens que se mostravam felizes por empreender sua primeira viagem. Via-se, um pouco neles, quando deixara a Torre Negra. Entretanto, sentia-se triste por não ter se despedido de Kamus, olhá-lo mais uma vez, beijar-lhe os lábios, tocar-lhe a cicatriz...



De repente, Manigoldo viu um risco saltitante em meio à vegetação e parou, sinalizando para os quatro que fizessem o mesmo. Para surpresa de todos, o que surgiu foi um lobo enorme e azul com algo na boca.



Raio?– murmurou Milo, vendo que o lobo vinha direto em sua direção.



Com a aproximação do lobo, o cavalo de Milo empinou as patas dianteiras e relinchou. O jovem senhor o acalmou e desceu do cavalo num pulo. O lobo o encarava com a bolsa na boca, até que a deixou cair aos pés de Milo que a pegou.



Todos se entreolharam, mas permaneceram em silêncio, enquanto o senhor de Berkehell abria a bolsa e retirava o seu conteúdo. Ao ter nas mãos uma mecha dos cabelos de Kamus, um sorriso largo junto com uma lágrima solitária dançou nas belas feições de Milo e a lembrança de uma noite ardente junto com conversas sobre tradições amorosas aqueceu o seu coração:


“Sabia que em Berkehell temos uma tradição? — dissera ele a Kamus entrelaçando os dedos nos fios avermelhados do amante.

E qual seria esta tradição? – perguntou Kamus mordendo-o no lóbulo da orelha.

Quando acreditamos encontrar o verdadeiro amor cortamos uma mecha de cabelo e a entregamos a quem amamos. Isso significa que jamais teremos outro no coração ou na cama e estaremos unidos para sempre, mesmo que por alguma razão tenhamos que nos separar. É como se fosse uma promessa que diz que, no final, ficaremos juntos e felizes.Parece bobo, não é? Mas, eu confesso que acho romântico. – respondera rindo e buscando a boca de Kamus para beijar.”



Milo colocou a mecha de cabelo por dentro da roupa, próximo ao coração e então cortou uma mecha de seus cabelos colocando-a na bolsa e entregando-a ao lobo.


Raio partiu tão rápido quanto havia chegado e os demais continuaram em silêncio, enquanto o senhor de Berkehell sorria e sentia um delicioso calor no peito.

Notas finais
****L'hégémonie du clan est Akkwarju à la fin!
Méfiez-vous, ô Seigneur Irġiel kiesaħ, il suffit de savoir qu'il sera vaincu!
**** A hegemonia do clã Akkwarju está para terminar!
Cuidado, senhor de Irġiel kiesaħ, logo conhecerá aquele que o superará!
Obrigada a todas pelo carinho!!! Queria ter postado esse capítulo no dia dos namorados, mas por motivos alheios a minha vontade, não deu. Milhões de beijos para quem acompanha, comenta, cobra, enfim participa deste processo que não é só meu! Bjs para os silenciosos que, se um dia romperem seu silêncio, terei prazer em escutá-los também!!!XD