Trono De Sangue

12 Capítulo 12 CHEGADAS E PARTIDAS...


Ikki estava pálido, segurando Shun em seus braços, enquanto Milo tocava o rosto suado do jovem e o chamava, tentando manter a voz calma e ocultar seu desespero.



– Shun... acorde, irmãozinho! – falava Milo.



No salão, ninguém se moveu e todos olhavam para o seu senhor como que esperando uma atitude. Hyoga mostrou-se aflito e quando ia falar, Kamus tomou a palavra.



– Chamem a Healer e levem o rapaz para um dos aposentos da ala leste. Hyoga mostre o caminho.



Milo elevou os olhos na direção de Kamus e encontrou os olhos rubros sobre si. Viu aquele brilho estranho que remexia algo, em seu estômago, mas sua preocupação com Shun não deixava espaço para se permitir investigar mais sobre o assunto. Tomou o irmão nos braços e seguiu Hyoga. No meio do caminho, Shun abriu os olhos e Ikki estremeceu.



– Shun... você está me vendo? – perguntou aflito percebendo o quanto aquela pergunta era estranha, mas ainda assim, ele precisava fazê-la.



– Estou, irmão... desculpe!



– Não me deve desculpas. Eu... só quero que você fique bem! Vai dar tudo certo, você vai ver!



O jovem sorriu e Ikki cerrou os dentes, tentando manter sua postura rígida e confiante, quando em seu interior um terror mortal se expandia como uma febre. Ele amava aquele irmão com tanta intensidade que mais parecia um pai. Assumira a responsabilidade de cuidá-lo e o fizera, enquanto Milo permanecia na Torre Negra. Em muitos momentos, esse cuidado foi a âncora que o ajudou a manter-se forte e deu-lhe suporte para seguir em frente. E agora, a simples perspectiva de perdê-lo era tão terrível que não podia pensar, nem sequer considerar a hipótese.



– Vai ficar tudo bem, Shun. – disse Milo sorrindo, fazendo Shun relaxar um pouco com aquela energia confiante que o irmão mais velho sempre exibia.



Ao chegar no aposento, simples, porém limpo e arejado, Shun foi colocado na cama coberta por peles acinzentadas, enquanto Hyoga se encarregava de acender a lareira.



– Obrigado. – disse Ikki vendo que o jovem não se importava de fazer uma tarefa que era relegada aos criados.



– Tudo bem, ele precisa manter-se aquecido. Hilda foi chamar a Healer que, em nossa língua é “aquela que cura”. Ela nos dirá o que fazer. Enquanto isso, comam alguma coisa e descansem. Meu irmão é severo, mas não é injusto. Sei que é difícil aceitar certas coisas que ele diz, mas é graças a ele que o nosso clã evoluiu e se manteve após a morte de nosso pai. – falou Hyoga e Ikki permitiu-se um breve sorriso.



– Mesmo assim, agradecemos a sua gentileza, Hyoga. Se não tivesse interferido em nosso favor, as coisas ficariam piores. – disse Milo.



Hyoga sorriu e foi até a beirada da cama. Olhou para Shun que parecia cansado e pegou-lhe a mão entre as suas.



– Não se preocupe, a Healer vai deixá-lo novo em folha. Eu também tinha muitos resfriados quando pequeno.



Shun sentiu que lágrimas quentes lhe invadiam os olhos. Não sabia o que aquele garoto tinha que provocava uma revolução dentro de si, fazendo-o sentir uma emoção tão forte que ele tinha vontade de rir e chorar, ao mesmo tempo. Permaneceu com os olhos fechados para que Hyoga não visse as lágrimas. Sabia que resfriados não faziam cuspir sangue, nem desmaiar. Estava doente e não queria ser um entrave para seus irmãos. Talvez merecesse uma morte rápida e assim, os deixaria livres de sua presença fraca...



O jovem loiro percebeu e afastou-se, despedindo-se dos outros dois. Sabia como Shun se sentia, pois ele também era o irmão caçula e Kamus sempre o protegera. Fenrir também o fizera, à sua maneira, assim como Hilda que cuidara bem dele, mesmo que fosse com “segundas intenções”. Ser o mais novo e apresentar problemas era sempre angustiante e deixava um gosto de fracasso...



Antes de deixar o quarto, Hyoga voltou-se para a cama e disse mentalmente: — “Eles o amam, Shun e você os ama. Existem aqueles que jamais vivenciaram este tipo de amor. Estes sim, vivem como amaldiçoados. Lute, viva e continue sendo uma benção.” Em seguida, fechou a porta, deixando Shun com os olhos bem abertos e uma expressão surpresa.



– O que foi Shun, sente alguma dor? – perguntou Ikki vendo que o irmão estava com uma fisionomia diferente.



– Não, eu estou bem. – respondeu Shun sorrindo e pensando se o que ouvira dentro da sua cabeça tinha sido verdade ou imaginação.



Sem que tivesse tempo de aprofundar o que acontecera, Shun viu-se diante de uma mulher bela e delicada com um olhar intenso e perscrutador. Nada a ver com a imagem que fazia de uma mulher ligada à cura. Em Berkehell, geralmente, eram mulheres mais velhas que se dedicavam a esta atividade. Porém, esta, era uma mulher madura, mas não enrugada, nem com dentes amarelados. Era suave e forte e exalava um cheiro bom...


Yuna de Águia olhou para o jovem de imensos olhos verdes e tocou-lhe a testa, fechando os olhos e murmurando algo. Depois, retirou algumas ervas de uma bolsa e dirigiu-se à lareira já acesa. Montou um pequeno caldeirão e misturou algumas sementes com vinho e mel. Depois atirou algumas ervas no fogo, fazendo surgir uma fumaça transparente que preencheu o ar de um aroma refrescante e suave. Só então retornou para junto da cama e acariciou a face de Shun dizendo:


– Você sabe que está doente, mas não se preocupa consigo e sim em não incomodar seus irmãos. Existe muito amor em você, rapaz, e é um tipo raro de amor, daquele que muitos matariam para sentir uma migalha que fosse. Por isso, Noite o tocou... os animais se curvam a esse sentimento incondicional que, naturalmente, reside em seu coração. Mas, agora, precisa cuidar de si mesmo.


Olhando para Ikki que se mantinha atento a tudo, Yuna pediu que ele tirasse o caldeirão do fogo e colocasse o líquido fumegante em uma caneca. Ela pegou a caneca e murmurou mais algumas palavras e então a deu a Shun.


– Beba tudo. – disse ela.


Shun aceitou, agradecendo e tomando um grande gole. Incrivelmente, a bebida fumegante, embora quente, não queimou seus lábios e ainda lhe trouxe um delicioso calor e alívio da dor aguda que sentia nas costas e no peito.


O garoto sorriu e ela levantou-se da cama, dirigindo-se à porta. Milo e Ikki foram até ela com uma expressão preocupada e ela sinalizou para que não falassem.


– Descansem, amanhã cedo conversaremos sobre o irmão de vocês.


Ditas as palavras, a Healer deixou o aposento e Milo, não se contendo, foi atrás dela.


– Senhora! Por favor! Eu preciso saber o que ele tem e não posso esperar até amanhã. Por favor, diga-me! – falou Milo ansioso e pegando o braço de Yuna.


– Você possui muita força e, também, generosidade, senhor de Berkehell, mas lhe falta tato e um pouco de limite. Eu disse amanhã. – respondeu Yuna com um olhar tão afiado que Milo sentiu como se ela o espetasse com aqueles belos olhos violáceos.


– Perdoe-me, mas... não estou em boa situação aqui. Seu senhor me odeia e, a essa hora, deve estar pensando em uma punição bem rigorosa para a transgressão que cometi. Como se eu tivesse tido escolha! Eu sou o responsável pelos meus irmãos e preciso saber como agir. – falou Milo levando a mão aos cabelos.


Yuna sorriu e sentiu uma legítima afeição por aquele jovem.


– O senhor Kamus é um homem justo e não creio que ele o odeie. Agora, se me dá licença, preciso ajudar em um parto. Amanhã conversaremos.


Milo deixou-a ir. Estava cansado, mas não conseguia relaxar. Olhou em volta. A fortaleza era parecida com a sua, a diferença maior eram as tapeçarias nas paredes e as lareiras sempre acesas para combater o frio. Mesmo assim, ele sentia um gelo subindo pelas pernas e a atmosfera do lugar era sempre austera, por mais comemorações ou sorrisos que visse acontecer.


Olhou no final do corredor e viu uma janela aberta. Foi até ela e ali teve uma visão da floresta e toda a sua majestade. A noite estava clara e uma imensa lua prateada preenchia o céu e cobria o gelo com uma luz pálida, em um espetáculo único. Fechou os olhos e inspirou fundo tentando apropriar-se daquela magia, pelo menos por alguns segundos.


Um par de olhos o observava, ali, no seu lugar preferido da fortaleza. O corpo vigoroso do estranho, banhado pela luz, despertava algo mais, além do descontentamento de vê-lo em sua janela e na mesma hora em que costumava ir até ali para meditar e relaxar.


Milo sentiu a mesma sensação do sonho e virou a cabeça não dando chance a Kamus de esquivar-se. Novamente, os olhares se encontraram e Milo sentiu desconforto e excitação disputando espaço em suas entranhas.


Kamus manteve o distanciamento habitual, embora aquele homem tivesse o dom de provocar nele uma irritação e, ao mesmo tempo, um desejo inacreditável. Desde quando sentia excitação só em olhar para os olhos de alguém?

– Seria melhor descansar, pois amanhã você e seu irmão terão tarefas a cumprir. – disse Kamus não tendo outra saída senão aproximar-se e falar com um tom casual.


– E o que vamos fazer? Carregar pedras sob o estalo de chicotes? – provocou Milo.


Não sabia o motivo, mas quando dava por si, já estava enfrentando Kamus, provocando-o como um recurso de afastar aquelas sensações absurdas e inquietantes que ele lhe provocava. Eu o detesto, isso sim! Isso só pode ser aversão! Dizia a si mesmo cada vez que palavras ácidas lhe saltavam dos lábios.


– Fazem isso em Berkehell? Pois aqui não somos tão bárbaros. Vão ajudar na construção do abrigo, em um local específico da Floresta Negra, apenas isso. Precisamos de braços fortes e aqui, todos trabalham, portanto, não precisa preocupar-se em sentir-se humilhado por ter de empreender algum esforço. – disse Kamus, agora irônico e dando as costas à Milo.


– Eu não tenho restrições quanto a trabalhar. Só não gosto do jeito como fala. – retrucou Milo.


– Você se dá o direito de falar o que quer, então aprenda a ouvir o que não quer, também. – falou Kamus voltando a encarar Milo.


– Às vezes, eu não consigo me controlar e quando vejo, já falei. Sei o quanto é duro perder o pai. Eu fui enviado para a Torre Negra, ainda menino, e só tornei a ver meu pai quando fui buscar o seu corpo. Foi leviano da minha parte ofender o seu. Mesmo que não gostemos um do outro, assumo que lhe devo desculpas. Não se deve ofender a família dos outros. – disse Milo.


Kamus fixou os olhos rubros nos azuis faiscantes de Milo e, por um momento, quis acreditar na sinceridade daquela voz sedutora que parecia envolvê-lo com um erotismo sem artifícios e, ainda assim, tão intenso que seu corpo reagia com uma tensão que ele lutava para ocultar.


– Vá descansar. – disse o senhor de Irġielkiesaħem um tom mais brando e, virando as costas, rumou em direção às escadas que davam acesso à saída da fortaleza.


Em frente à imensa porta, Raio esperava Kamus para o costumeiro passeio noturno onde caçaria e correria pela neve. Os dois sempre faziam isso juntos, não importando o tempo ou o cansaço. Aquele era o momento em que homem e lobo se sentiam livres e adentravam a noite fria como irmãos.


Fenrir viu quando Kamus e Raio saíram e acariciou a cabeça de Noite. Às vezes, eles juntavam-se aos dois, porém nesta noite o lobo negro precisava descansar e Fenrir estava com outras ideias...


Fazia muito tempo que queria aproximar-se de Hilda sem ninguém por perto e a oportunidade lhe caíra como uma luva. Lá estava ela dando as últimas instruções na cozinha... Que mulher! Ficava excitado só em olhar prá ela e imaginar-se entre aquelas pernas...

– O que quer Fenrir? – disse Hilda sem voltar-se.


– Como sabe que sou eu? – perguntou Fenrir, admirado e já sorrindo.


– Pelo cheiro. O que quer? – insistiu ela com desagrado.


O jovem cheirou embaixo dos braços e continuou farejando o próprio corpo tentando achar algo, mas, estava limpo! Como assim o meu cheiro? Perguntou-se.


– Hã... Bem, eu queria apenas convidá-la para ir ver a lua comigo, já que o Noite está descansando e....


– Se enxerga garoto! Agora vá dormir! Tive um dia cheio e quando terminar aqui vou direto para a cama.


– Já que vai direto para a cama, posso aquecê-la... – continuou Fenrir.


– Vai sonhando...


As duas criadas que já haviam obedecido às instruções de Hilda saíram de fininho sufocando os risinhos maliciosos e Fenrir piscou para ambas, agradecido. Como um verdadeiro lobo ele se aproximou, num rompante, e cheirou a nuca de Hilda que deu um salto, mas não pode evitar que ele a prendesse em seus braços e levasse as mãos até os seios pequenos e empinados...


– S-Seu... S-Seu depravado! Solte-me! – gritou Hilda, mas Fenrir continuou a acariciá-la e, quando ela conseguiu virar o rosto, ele a beijou.


Mais alto e mais forte que ela, Fenrir tomou-a em seus braços e embora Hilda batesse em seu peito, o jovem não a soltava. Ela recusava-se a beijá-lo, mesmo que não pudesse afastar a boca. Então, a ponta da língua dele encontrou passagem em seus lábios e a fez estremecer.


Morda-o,ela dizia para si mesma. Não permita que esse depravado continue.


Mas, estranhamente, ela não conseguiu. Diferente do esperado, Fenrir não foi apressado ou agressivo. A mão grande do jovem segurou sua nuca e o lento deslizar da língua pelo interior de sua boca causou-lhe um prazer quase inebriante. Nunca ninguém a beijara assim, nem mesmo quando, finalmente, conseguira ir para a cama com Kamus, ele, simplesmente, fizera sexo com ela sem beijá-la ou acariciá-la como ela imaginara.


Fenrir, ao contrário do irmão, era quente, selvagem, mas ainda assim a estava seduzindo, tocando-a nos lugares certos e aquele beijo... Ah, que beijo! Aquele depravado sabia o que estava fazendo...


Ela gemeu ao sentir que agora levava as mãos aos cabelos desgrenhados de Fenrir e puxava-o de encontro à boca ávida. O jovem murmurou algo, entre o beijo, e colou o corpo ao dela, fazendo-a sentir a ereção dele contra o seu ventre.


Um ruído de utensílios caindo trouxe Hilda de volta à realidade e ela corou, violentamente e zangada com sua reação. A pele macia e clara estremecia. O olhar de Fenrir se intensificou ao notar a excitação dela e ele sorriu antes de levar uma sonora bofetada no rosto.


– Me larga, seu... seu pervertido! Afaste-se de mim! – disse Hilda afastando-se de Fenrir.


– Ai! Mãozinha pesada essa sua... – disse Fenrir levando a mão ao rosto.


– Fique longe ou sentirá algo mais pesado ainda! – respondeu ela, ofegante.


– Tudo bem! Já que você faz questão de fingir que não me deseja...


– Você é louco e egocêntrico! Sou amante de seu irmão e não sua!


– Meu irmão não tem amantes e sim fodas eventuais as quais obedecem a um rodízio para que saibam que não passa disso, apenas uma boa foda! Pensei que uma mulher inteligente como você já tivesse percebido. Mas, se quer ficar suspirando por um pau eventual, o problema é seu!


Os olhos dourados de Fenrir flamejaram ao dizer aquilo. Nos poucos segundos que se passaram entre o tapa e o beijo ela viu, além da marca dos seus dedos no rosto bonito e jovem, uma outra emoção que ela jamais percebera naqueles olhos. De repente, Fenrir parecia mais velho e também... magoado.


Viu-o olhá-la e sair em silêncio. Só então, apoiou-se, debilmente, na parede fria e fechou os olhos, a respiração quase inexistente.


– Só posso estar louca! – murmurou para si mesma quando viu que seus dedos tremiam, seus lábios ardiam e seu corpo formigava de desejo ...



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As estrelas salpicavam o céu negro e, em seu confinamento, Shion perdia a noção do tempo, mas mantinha a sua sanidade riscando na pedra fria e escura. Comia pouco e recusava carne. Estava magro, seu tornozelo, enfim se consolidara e ele podia andar pela palha seca e, de vez em quando, banhar-se nos filetes de sol que escapavam pela janela estreita e alta.


Um dia de cada vez... E, quando menos esperar, os clãs irão se unir e essa abominação sucumbirá! Repetia para si mesmo todos os dias, desde que fora aprisionado. Ainda sentia uma dor profunda pela perda de Dohko, porém, estranhamente, seu coração parecia senti-lo vivo em algum lugar que ele não sabia onde. Às vezes sonhava que o tinha em seus braços, sorrindo daquele jeito tímido, em outras o via coberto de sangue, pedindo para encontrá-lo. Já era difícil separar o sonho da realidade, mas ele permanecia firme e silencioso. Hades não conseguiria tirar-lhe a dignidade nem a sanidade mesmo que morresse ali, entre a palha e os animais rastejantes que dividiam o mesmo espaço da masmorra.


O carcereiro atirou-lhe um cântaro e fechou a cela. Shion olhou, atentamente, para o vasilhame e depois o pegou. Era água com folhas de sálvia e hortelã! Tentou falar com o carcereiro, mas não havia sinal de mais ninguém. Seu coração disparou e suas mãos tremeram. A primeira palavra que lhe veio à mente foi: Dohko!


Senhor das Almas, devo estar sonhando... – disse Shion levando o cântaro aos lábios e sentindo o alívio da água fresca plena de sabor e refrescância.


Um homem barbudo e de olhos vivos adentrou a cela curvado como se fosse um ancião e vestido com uma túnica de couro puída e em tons de marrom escuro. Como um felino, ele mudou a expressão corporal, colocando-se ao lado de Shion e sorrindo ao tocar-lhe a face magra e pálida.


– É incrível como consegue manter-se belo, mesmo aos frangalhos... – disse o homem e Shion sentiu os olhos inundarem-se de lágrimas quentes.


– Eu sabia... sabia que não estava morto! – disse o Conselheiro levando as mãos trêmulas ao rosto a sua frente.


Dohko sorriu e aproximou o rosto para beijá-lo, mas Shion afastou-se cobrindo os lábios com as mãos.


– Não... Devo estar com o hálito horrível! Deixe-me, apenas tocar seu rosto.


Uma sonora gargalhada se perdeu entre as paredes escuras e frias e Dohko, mais forte e bem nutrido, puxou Shion para si, fazendo-o desequilibrar-se e cair em seus braços.


– Não devo estar cheirando a rosas, pois viajei muito e também não fiz uma higiene adequada. Faz tanto tempo que não me importa, quero sentir o gosto da sua boca... – disse Dohko beijando Shion com tanta paixão que, de repente, pareciam ter voltado no tempo.


O desejo percorreu-lhes as veias junto da saudade que os fazia sentir os corpos sôfregos como na primeira vez que se entregaram um ao outro. Shion gemeu e agarrou-se a Dohko como se nunca mais o fosse soltar e ambos estremeceram, cônscios que a vida lhes dera uma segunda oportunidade.


– Amo-o tanto...! – disse Shion entre os beijos que pareciam não ter fim.


– Também o amo. Sempre amei. Mas, agora, vamos sair deste buraco! – falou Dohko.


Shion franziu as sobrancelhas.


– Como faremos isso? Os homens de Hades...


– Shura é um homem formidável e permaneceu com dois homens de confiança, Shiryu e Jabu. Eles conseguiram introduzir-me aqui. Temos pouco tempo, mas é o suficiente para tirá-lo daqui.


– Ainda fico surpreso como conseguiu escapar. Radamanthys entrou na cidade se gabando de tê-lo matado!


– Quando Radamanthys nos atacou no caminho, estávamos perto de um desfiladeiro e meu cavalo caiu. Milagrosamente, fiquei preso entre as rochas, enquanto meus homens eram mortos e seus corpos despencavam, passando raspando por mim. A arrogância daquele homem foi o seu maior erro. Achou que havia matado a todos nós e nem se deu o trabalho de verificar com maior atenção. Esperei que ele retomasse a marcha e me arrastei de volta. Estava ferido, mas consegui ajuda de um caçador. Ele levou-me para a sua casa e de lá, eu arranjei um meio de permanecer informado das últimas movimentações. Soube que Saga, aos poucos, está conseguindo atrair mais simpatizantes para a causa. Logo, poderemos unir os clãs e acabar de vez com essa palhaçada!


– Existe algo mais neste homem, algo obscuro que me diz que não será tão fácil assim. – disse Shion com pesar na voz.


– Bem, nunca é fácil! Mas, agora vamos logo, antes do surgir da aurora.



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–Está na hora! – disse uma voz anasalada tocando um sino, quando ainda estava escuro.


Milo abriu os olhos e enxergou, apenas, as brasas da lareira. Na cama ao lado, Ikki já se preparava para ir ver Shun, antes de seguir com o homem alto, cujos cabelos loiros eram tão claros que pareciam neve.


– Eu vou ir ver o Shun, enquanto você se arruma. – disse Ikki.


– Eu dormi vestido. Espere-me que eu vou junto. – respondeu Milo com voz de sono.


Shun dormia, tranquilo, tendo ao seu lado Yuna e Hyoga, agora acompanhado de seu lobo branco. Os dois olharam para Ikki e Milo sinalizando para que não o acordassem. Yuna foi a primeira a falar:


– Seu irmão é forte, senhores. Mas, a doença que tomou conta de seu corpo é grave e muito invasiva. Os pulmões estão congestionados e, o clima frio não ajuda. Posso tratá-lo, durante um tempo, mas não curá-lo. Infelizmente, só conheço um lugar com o conhecimento capaz de fazer frente a esta doença terrível.


– E que lugar seria esse? – perguntaram Ikki e Milo, ao mesmo tempo.


Irmied, a terra dos homens santos. Um lugar especial que só pode ser encontrado se o seu senhor, Shaka, percebe a necessidade e pureza das intenções de quem o procura.


– E como ele sabe? Isto é, como ele pode saber de antemão o que uma pessoa é? – perguntou Ikki.


– Mistérios, senhor Ikki. Existem forças na natureza que escapam ao nosso entendimento. Agora, vão, o senhor Kamus já deve estar esperando-os no salão para o desjejum. Eu ficarei até que ele acorde e iniciarei um tratamento para que ele possa aguentar ainda mais um tempo.


Milo ficou pensativo. Certamente, Kamus pouco estava interessado na saúde de Shun e quanto mais permanecessem ali, mais grave a saúde de seu irmão ficaria. A única saída seria fugir, mesmo que soasse como uma falha de caráter. Pelo menos Ikki e Shun poderiam rumar para Irmied, enquanto ele ficaria para pagar pelas transgressões...


– Milo, no que está pensando? – perguntou Ikki.


– Depois eu falo. Agora, vamos, e mantenha esses seus olhos bem atentos. Memorize tudo o que puder, porque vou precisar desta sua habilidade. – disse Milo.


– O que você está tramando? – perguntou o moreno já ansioso.


– Na hora você vai saber. – respondeu Milo já com a cabeça cheia de planos.


Kamus estava no grande salão, no centro da mesa ampla e repleta de pães, carne, cerveja, leite e mel. Conversava com Fenrir quando Milo e Ikki chegaram. Havia muitos homens e mulheres, todos de pele alva e estatura avantajada. Conversavam, animados, porém mantinham um tom baixo, algo que Milo estranhava bastante, já que, em Berkehell sempre havia vozes exaltadas e risadas altas.


– Bem, bom dia a todos, embora eu não veja um único raio de sol! – disse Milo se aproximando.


– Bom dia, senhor Milo. Em Irġielkiesaħ nos aprontamos antes do amanhecer para que, aos primeiros raios de sol já estejamos preparados para o trabalho. Sente-se e coma. – disse Kamus.


Milo encarou-o como se fosse dizer mais alguma coisa, mas se conteve e acatou a ordem. Vai aproveitando, lobo... Ainda vou fazer você engolir essa mania que tem de mandar...


Ikki comeu com vontade, enquanto Milo brincava com uma fatia de pão preto e bebia uma caneca de cerveja escura.


Kamus arqueou uma sobrancelha.


– O desjejum não está do seu agrado? – perguntou estranhando o silêncio do escorpião.


– Não, está ótimo. – respondeu Milo sem encarar o ruivo.


– Bem, vou instruir a todos aqui e depois partiremos para a Floresta Negra. Estamos construindo um abrigo que seja forte, bem localizado e que possa resistir a um ataque inimigo. Porém, o mais importante é que ele se integre à paisagem e não seja, facilmente, localizado. A construção é alta, portanto é preciso ter cuidado com as cordas e andaimes para evitar acidentes. Caso aconteça, algo inesperado, não entrem em pânico, sempre haverá alguém posicionado para dar apoio. Fui claro?


– Sim, senhor Kamus!!! – responderam todos em uníssono.


Milo enfiou um pedaço de pão na boca e bebeu mais um gole de cerveja movendo a caneca em círculos e fitando as profundezas da bebida escura. Depois levantou e quando o fez, Kamus aproximou-se dele e de Ikki.


– Antes de juntarem-se, aos outros, vistam roupas mais quentes. Na Floresta Negra é ainda mais frio que aqui.


– Essas são nossas roupas mais quentes. – respondeu Milo, ainda evitando olhar para Kamus.


– Eu sei, por isso providenciei vestimentas mais adequadas a quem não está habituado ao nosso clima. – disse Kamus fixando os olhos em Milo.


Ele está tramando algo... Posso sentir na forma como age, tentando evitar-me. Pensava o senhor de Irġielkiesaħ, enquanto falava.


Kamus tinham-nos prevenido do frio, porém, Milo não estava preparado para o ar gelado e cortante daquela floresta. O desgraçado tem razão, o frio aqui é capaz de deixar o pau congelado demais até para urinar! Dizia Milo para si.


Alguns seguiam a cavalo, outros em carroças repletas de madeira, pedras e ferramentas. Todos, sem distinção, moviam-se completamente à vontade e com metade da roupa que Kamus sugerira que Milo e Ikki usassem.


Ikki vestia um gibão de couro e, por cima, um manto de pele de urso, já Milo descartara o manto de pele por achá-lo pesado demais e agora tremia e batia os dentes.


– Eu avisei. – disse Kamus emparelhando o cavalo com o de Milo.


– Eu mal posso mover meus braços nesta porcaria de casaco! Se vestisse aquele manto ficaria com meu corpo todo dormente. – respondeu Milo tentando controlar os tremores de frio.


– Melhor dormente que enregelado. – respondeu Kamus com um meio sorriso.


Milo olhou para Kamus que vestia, somente, um gibão de lã e uma capa, também de lã. Ele parecia muito confortável, assim como a maioria dos homens e mulheres que seguiam para a tal construção.


– Isso o diverte, não? – disse Milo, enquanto pensava: Merda de frio! Maldita hora que eu tive a infeliz ideia de vir a este inferno gelado!


– Não, senhor Milo, não me divirto com o sofrimento alheio. Mas, não deixo de achar interessante certos comportamentos... – respondeu Kamus com um olhar penetrante e a voz calma e cheia de autoridade.


– Ah, é? Pelo visto, o meu comportamento o interessa... Resta saber em que nível, não é bonitão? – falou Milo com um olhar e tom de voz, calculadamente, malicioso.


Kamus encarou-o e então... fez algo inesperado. Fixou os olhos nos de Milo e sorriu daquele jeito frio, mas que provocava uma revolução nas entranhas do escorpião.


– Mas é claro que o seu comportamento me interessa. Vou certificar-me que o senhor vai cumprir a lei, enquanto estiver aqui. Está tão apavorado com o tipo de trabalho que vai executar que já está apelando... Quer seduzir-me, senhor Milo? Não perca seu tempo, sou imune a este comportamento, em especial!


– Oh! Eu já devia saber... alguém como você deve ter sérios problemas em relação a sexualidade. Acho que deve mudar os seus conceitos, meu caro senhor. Ao invés de aplicar penas e castigos em estrangeiros, para sentir-se superior, é melhor foder com mais frequência. Tudo é uma questão de prática... Experimente, você pode gostar. – disse Milo com ironia e se afastando de Kamus.


O senhor do clã Akkwarju não respondeu e seu rosto permaneceu impassível, porém, internamente, uma ebulição de sentimentos se formava como os jatos de água quente que existiam em alguns lugares de Irġielkiesaħ. Teve de controlar-se para não mostrar àquele arrogante o que era foder! Chegou a visualizar, enquanto ele falava com aquela voz rouca e aquele maldito olhar, as muitas formas de tê-lo na cama. E só isso já o desagradava profundamente. Desde quando tinha fantasias e desejos desenfreados? Porque aquele homem sem noção nenhuma, despertava esse tipo de reação em seu corpo?


– Senhor Kamus, os lobos negros!


Kamus obrigou-se a interromper sua luta interna e avançar até onde a carroça maior estava parada. A Floresta Negra era imensa e nela, os lobos negros possuíam um vasto território. A permissão para adentrá-lo devia ser pedida pelo senhor do clã e, aproximando-se mais, Kamus reconheceu o líder da alcateia, agora seu irmão.


Raio e Noite estavam correndo juntos e se posicionaram cada um ao lado de seu dono. Kamus aproximou-se do gigantesco lobo negro emitindo um som semelhante a um rosnado. Depois andou de um lado a outro, sendo acompanhado pelo lobo que, finalmente uivou e sua alcateia abriu passagem para os homens de Kamus.


Todos elevaram os braços e riram, satisfeitos. Milo aproveitou para conversar com Ikki, enquanto as atenções estavam voltadas para o senhor de Irġielkiesaħ.


– Ikki, escute, amanhã, quando voltarmos aqui, você vai dar um jeito de ir ficando para trás. Você viu como a fortaleza fica vazia, todos se concentram no trabalho aqui e só ficam aqueles que fazem tarefas domésticas, os velhos e as crianças. Você volta, pega o Shun e dá o fora.


– Mas, Milo...


– Não tem mas, Ikki. Eu fico e cumpro essa porra de castigo, mas eu quero você e Shun fora disso! Leve-o até Irmied. Se for mesmo verdade essa história que o tal Shaka vê a intenção e a pureza dos corações, vocês já estão dentro.


– E você? Milo, se a gente conseguir, Kamus vai descontar em você.


– Eu aguento. Precisamos dar uma chance ao Shun. Eu não vou me perdoar nunca se algo acontecer com ele aqui.


Ikki encarou Milo com a expressão sisuda que lhe era característica. Amava-o, tanto quanto ao Shun, porém o mais velho tinha razão, tinham que buscar a cura e deveria ser logo, enquanto houvesse esperanças.


– Está bem. Vou deixar tudo combinado com ele hoje à noite. Será que ele já pode viajar?


– A tal Yuna conseguiu que ele não tivesse mais aqueles acessos terríveis que o fazia cuspir sangue. E você é melhor que eu em mapas e localização. Dizem que Irmied fica além dos mares de Villtur. Volte para Berkehell pegue um navio e leve Shun. Eu prometo que assim que me livrar de tudo aqui, eu encontro vocês. Isto é, se o tal Shaka der uma dormidinha e deixar passar o meu coração negro e pervertido. – disse Milo rindo.


Pela primeira vez, após terem sido presos, Ikki também riu. Era incrível como Milo conseguia manter o humor apesar de tudo que já havia suportado.


– Bem, agora vamos fazer o nosso trabalho sem levantar suspeitas! – disse Milo juntando-se aos outros.



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Havia muito sol e estava quente. Ele estava nu e podia sentir a gostosa sensação de calor que não vinha do sol, mas do corpo vigoroso que o abraçava... De repente, o dourado cedeu ao vermelho e o prazer se intensificou formigando no baixo ventre, fazendo com que seu sexo se tornasse túrgido e sensível... Era bom, mas antes de vivenciar o que seu corpo desejava a alvorada chegou fria e escura como uma espada afiada, pronta para cortar...”


Milo acordou com dores nas costas e nas pernas. No dia anterior, tinha tido câimbras pelo frio intenso e também porque não estava acostumado a vestir tanta roupa. Não sabia se era melhor enfrentar o frio ou ficar sem circulação pelo acúmulo de vestimenta. Seus dedos pareciam entorpecidos, enquanto lutava com a roupa...


– Merda! Melhor congelar e depois aquecer o corpo com o trabalho que usar essas coisas peludas! – resmungou Milo.


Entretanto, mesmo resmungando, ele não podia esquecer a obra gigantesca e perfeita que Kamus estava construindo. Era um abrigo em forma octogonal que se encaixava nos ângulos feitos por árvores e rochas da Floresta Negra em incrível harmonia com o lugar. Nenhuma árvore tinha sido cortada e os espaços escolhidos para o núcleo da construção eram descampados e não exigiam a derrubada de árvores. A única interferência tinha sido a limpeza do terreno, o restante era “adequação”, uma ordem explícita de Kamus.


Ikki, como sempre, já estava em pé e bebia uma caneca que fumegava tentadoramente.


– Quer um gole? – perguntou ele, vendo que Milo o observava.


– O que é?


– É um vinho quente com mel e algumas ervas. Foi a Healer que me deu quando fui ver o Shun, mais cedo. Disse que é um tônico. O mel é raro por estas terras e as abelhas só aparecem uma vez ao ano, quando o gelo cede um pouco. Ela disse que elas procuram uma flor especial que tem poderes curativos e o mel produzido se torna um poderoso remédio.


– Não, obrigado. Beba você, já que vai precisar... – disse Milo piscando o olho.


Ikki olhou para os lados e se aproximou falando baixinho:


– Já conversei com Shun e ele resistiu um pouco. Disse que não ia deixá-lo sozinho aqui, mas eu o convenci dizendo que era uma ordem sua.


– Isso aí. Afinal, um senhor habilidoso tem de ser respeitado. – disse Milo terminando de fechar o último botão da túnica de lã. – Vou me despedir dele e desço em seguida.


Ikki assentiu com a cabeça, depois se aproximou de Milo e o abraçou com força.


– Tenho muito orgulho de ser seu irmão. – disse Ikki.


As palavras e a intensidade com que elas foram ditas fizeram Milo sentir-se emocionado.


– E eu, de vocês dois. Se tem uma coisa que me faz acreditar que eu não sou um fodido completo é que fui abençoado com irmãos incríveis. – respondeu Milo.


Yuna olhou na direção do aposento onde Milo e Ikki estavam abraçados e sorriu. A presença daquele homem belo e fogoso a fez recordar uma profecia antiga e proibida que ficara guardada na mente daqueles que tinham o desafio de curar e enfrentar a morte... As trevas estavam chegando com o usurpador e Kamus se esmerava na construção do abrigo. Ela rezava para que ele tivesse tempo para concluir a obra e encontrasse um amor que o conectasse com o verdadeiro poder de um homem. Muitas jovens sonhavam com o papel de esposa, porém Kamus continuava sozinho e, embora tivesse apenas dezoito anos, era esperado que, ao menos, vivenciasse a paixão. Mas, seu senhor parecia isento de qualquer outro sentimento mais profundo. Seu intelecto e sua determinação preponderavam em todas as suas relações, mas ela notara que ao bater de frente com o senhor de Berkehell uma fagulha fora disparada no coração de Kamus e, mesmo que não tivesse consciência deste fato, a felicidade de seu senhor estava, inexoravelmente, ligada, ao homem loiro que ali estava...


“Um pacto com a escuridão despertará criaturas antigas e mortais. A terra fértil será violada e o frio se tornará seu amante! Poderes ruirão, clãs encontrarão a morte, até que o senhor do inverno encontre o caminho de seu coração e restaure a paz...”.


Notas finais
Obrigada pelos comentários emocionados, entusiasmados, poéticos, viscerais, enfim, obrigada pela presença sublime e extasiante de todas que acompanham a fic!! Bjs e bom feriadão!!