Trono De Sangue
9 Capítulo 9 O COMEÇO DO FIM...
Notas iniciais
Shion deixou os aposentos de Dohko assim que improvisou uma tala que permitia seus movimentos com o auxílio de uma muleta. Encontrou Shura com uma expressão preocupada e logo foi colocado a par do que Pandora havia confidenciado ao comandante.
– Não creio que Tenma tenha algo a ver com isso, embora seja um jovem ambicioso e com ideias contrárias ao governo de Regulus. – disse Shion franzindo o cenho.
– Eu também acho, mas certamente, seu pai, Yohma, pode ajudar-nos a descobrir quem encomendou a joia, já que ele a confeccionou. Também sinto dizer que... embora Aioros amasse a irmã, não confio em Pandora. Não sei explicar, mas parece que desde a chegada dela, as coisas ficam cada vez mais complicadas.
O conselheiro olhou para o jovem comandante e sorriu. Ainda não tinha dividido a sua teoria que Pandora era uma peça chave que ele ainda não conseguira encaixar, mas o faria. Shura era inteligente, discreto e isso o agradava. Um sentimento melancólico imiscuiu-se por entre a constatação que fazia. Tinha por Shura uma afeição e admiração genuínas, porém sentia falta de ter Dohko ao seu lado, dividindo as mesmas impressões...
Assim como Shura, Dohko possuía uma intuição natural, quase próximo do feminino, pois não se fixava apenas nos fatos, e sim nos mistérios intangíveis que não deixavam um rastro claro, mas nem por isso, menos presente. Lembrou-se de como podiam adivinhar o pensamento um do outro e como esse fato, tão especial, os aproximara de um jeito que ele jamais vivenciara com outra pessoa. Levou a mão aos olhos cansados e ainda doloridos e tratou de afastar as lembranças. Tinha de focar-se na resolução daquele assassinato que já se desmembrara em tantos outros.
No mesmo instante, Dohko surgiu, trajando uma cota de malha negra e flexível por cima de uma túnica púrpura e calça justa também negra. Shion havia esquecido, ou melhor, deixado guardado em sua memória emocional, o quanto ele era elegante, belo e bem feito de corpo. Mesmo na maturidade, conservava o porte altivo sem ser arrogante.
Dohko olhou-o com aqueles olhos parecendo esmeraldas flamejantes, os únicos capazes de despertá-lo para os anseios do corpo. A verdade era que depois de ter sido amante dele, nunca mais ficara com outro. Seu corpo sublimara a parte instintiva levando-o aos estudos, investigações e aconselhamento. Se não fosse pela excitação que sentia agora, podia jurar que tinha se transformado em um ser assexuado, quase um eunuco já que ficara tantos anos sem buscar o toque ou prazer com outro amante.
– Vejo que já encontrou uma forma de voltar ao seu ritmo frenético. – disse Dohko com um sorriso triste.
– Não temos tempo para descansos ou para refrear os ânimos. Tenho um pressentimento que algo ainda pior vai acontecer. — respondeu Shion ainda preso naqueles olhos.
– Infelizmente, você tem razão. Recebemos notícias de uma movimentação estranha nas fronteiras de Dwiefer. Estou saindo com uma tropa para averiguar.
– Então é algo grave. Sua presença só é solicitada quando...
– Quando se precisa de um cônsul com habilidades muito além, da diplomacia verbal. Em outras palavras, depois que Regulus baixou leis inapropriadas, estamos sujeitos a tudo, inclusive sermos atacados por outros clãs e somos nós que temos de lidar com isso. – completou Dohko.
– Dohko... eu gostaria de agradecer por tudo o que fez por mim e Shura. Se não tivesse providenciado os nossos cuidados, talvez não estivéssemos aqui. Tenho um último pedido, quero que tenha cuidado... Nada é o que parece, posso afirmar, mesmo sem ter provas contundentes, que um sério perigo ronda a todos nós. Escolha bem em quem confiar.
– Não é preciso que me peça para ter cuidado. Desde a perda de Aioros que Dwiefer equilibra-se em uma linha tênue e instável, capaz de romper-se a qualquer momento. Mas, é com você que estou preocupado. Ordenei uma escolta pessoal para protegê-lo, sem alardes, enquanto estiver assim. — disse Dohko tocando-o na face e olhando para a perna enfaixada. — O jovem Shiryu é o braço direito de Shura e supervisionará, periodicamente, a escolta que solicitei. Ele é eficiente, discreto e de confiança. Se precisar de algo, não hesite em pedir a ele.
Shion continuou fitando-o dentro dos olhos e colocou a mão sobre a dele, com um sorriso também triste e carregado de inquietações. Dohko inspirou fundo como se buscasse coragem em todo o ar do salão, então aproximou o rosto e beijou-o.
Os lábios, a princípio, tímidos, evoluíram para um encontro fogoso das línguas que buscavam, uma a outra, com avidez de quem estava sedento, sem saber o quanto...
Nenhum dos dois estava preparado para o choque que pareceu atingi-los de dentro para fora. Foi como se toda a tensão se materializasse fazendo-os sentir um formigamento intenso percorrer ambos os corpos quando as bocas se encontraram naquele nível de intimidade.
Shion deu um passo para trás sentindo os lábios arderem e Dohko também. Confusos, se olharam meio trêmulos, meio sorridentes, até Dohko afastar-se, ainda com os dedos longos tocando os lábios.
– Pelo visto, nosso... magnetismo não arrefeceu com o tempo. – disse o cônsul.
– Creio que jamais arrefecerá... Pelo visto, vou envelhecer e ainda assim... amá-lo até o fim dos meus dias! – disse Shion com medo que seu último pensamento fosse revelado em seus gestos nervosos. Despediu-se, mais uma vez e, em seguida, deu as costas apressado e mancando, o coração disparado como se ainda tivesse dezessete anos.
Dohko, como sempre acontecia, sabia exatamente o que Shion queria dizer e sentiu-se tomado por uma doce euforia. Dividido entre a alegria e a tristeza ficou olhando Shion afastar-se com dificuldade. O que tinham vivido permanecia tão presente, em seu coração que ainda doía ter escolhido o dever ao invés do amor. Entretanto, quando se é jovem e se acredita ter poder de mudar o mundo, certas escolhas parecem corretas até que se descubra, no fim, que nada é definitivo. Elevou a cabeça e olhou na direção do longo corredor. Então, tocou na bainha de sua espada e partiu em direção ao seu destino.
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Nas fronteiras de Dwiefer, a folhagem era densa e brilhante. Os múltiplos tons de verde oscilavam nos carvalhos, abetos e sequoias que pareciam imponentes e gigantescos guerreiros guardiães a salvaguardar as terras férteis.
Ali, mais de três mil e quinhentos homens montados em corcéis negros preparavam-se para levantar acampamento sob as ordens de um homem imponente, cujos cabelos loiros acinzentados eram fustigados pelo vento.
Radamanthys de Wyvern, era o nome dele, um nome pronunciado com temor e respeito pelos homens que ali estavam. General implacável, ele liderava a força de um dos clãs mais insólitos de Darneheim, o clã dos Spectrum Svört.
Vivendo como nômades nas Terras livres, o clã era formado por homens de diferentes raças, crenças e estilo de vida que se reuniam sob a liderança de um homem que tivesse o poder de convencer aqueles que não tinham terras, nobreza ou caráter, de segui-lo em seu objetivo de conquista e expansão.
O Spectrum Svört era bélico, terrível e movido pelo prazer de usurpar poderes e bens. Muitas vezes agiam como mercenários à serviço de outros clãs por um alto preço. Quando Aioros trouxe a paz a Darneheim, a união dos clãs relegou-os ao mundo das sombras, porém agora sob a liderança de um jovem, cuja linhagem o tornava singular, o clã iniciava a sua jornada mais ambiciosa: destituir Regulus e tomar Dwiefer para si.
– Tem uma tropa se aproximando, senhor! – disse o jovem batedor para Radamanthys.
O general sorriu e ordenou que todos entrassem em formação. Ainda não era a hora, então teria de usar outro lado seu, a dissimulação para cumprir o papel que lhe fora ordenado. Viu que dois homens se aproximavam junto com um grupo grande, porém menor que o seu. Ergueu o estandarte negro cuja imagem em roxo e prata mostravam um pássaro com cauda de réptil envolto em uma papoula negra e, ao fundo, uma teia prendendo os dois. Levou seu cavalo em direção ao homem que, certamente, era o líder.
Dohko notou a aproximação, assim como o número de soldados superiores aos seus. Rapidamente, chamou Cassios, ordenando que voltasse para Dwiefer advertindo-o a usar rotas por dentro da floresta e de forma rápida.
– Diga à Shura para colocar seus homens em prontidão. Creio que teremos problemas. – falou Dohko em uma linguagem de sinais para seu subordinado.
A aproximação do homem à sua frente parecia amigável, porém sua intuição gritava perigo! Dohko saudou o homem, percebendo a linguagem arrogante do corpo dele, disfarçada sob uma atitude diplomática.
– Saudações, me chamo Radamanthys de Wyvern, general das forças do Spectrum Svört. Estamos marchando em direção a Dwiefer para colocar-nos à serviço do soberano. Creio que seremos uma boa aquisição para todos vocês. – disse ele encarando Dohko.
– Saudações, general. Eu sou Dohko, cônsul e conselheiro do Círculo de Honra. Vim recebê-los para que não sejam confundidos com inimigos, pois vejo que suas tropas são consideráveis.
Radamanthys deu um meio sorriso, estudando a forma gentil e firme do homem que o encarava. — Será uma honra. – respondeu, logo a seguir.
– Onde está o seu Senhor? Ele também veio ou enviou-os com antecedência?
– Nosso líder já se encontra em Dwiefer. Creio que há esta hora, já está sendo recebido pelo soberano. – disse Radamanthys com um brilho de vitória nos olhos frios.
Exercendo todo o autocontrole que lhe era peculiar, Dohko sentiu-se estremecer, porém continuou olhando Radamanthys nos olhos quando falou:
– Pois bem, então vamos juntar-nos às forças que nos esperam em Dwiefer. Estou ansioso para conhecer os planos de seu Senhor. – disse Dohko, enquanto Radamanthys deliciava-se com a certeza que nehum dos planos de seu Senhor agradaria aos Leões....
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Alheio aos últimos acontecimentos, Shura preparava-se para levar o corpo de Dégel para Irġielkiesaħ. Misteriosamente, Regulus o havia chamado e incumbido de tal tarefa, parecendo consternado e próximo do que era, antes de todas as tragédias terem desabado sobre seus ombros.
Notou que o soberano, cada dia, mostrava-se com humores diferentes. Às vezes estava colérico, outras, apático, sempre com uma taça de vinho nas mãos e o olhar viajando pelas paredes de pedra. Pandora acompanhava-o, sorrindo e solícita. Em muitos momentos, ela cantava e lia, em voz alta e, nestas horas, o soberano parecia atingir um estado de paz. Entretanto, ainda assim algo nela o incomodava e aquela questão da joia tinha de ser investigada.
Shion estava se encarregando das investigações e como Conselheiro Guardião circulava com maior facilidade e tinha, em suas palavras, alto grau de persuasão, portanto dominaria sua ansiedade em desvendar, de vez, aquela história e iria até Irġielkiesaħ voltando em, no máximo, em três semanas.
Shura já estava de saída quando Cassios adentrou os portões com uma expressão tensa.
– Senhor comandante! Dohko avisa para ficarmos de prontidão. Teremos visitas. – disse o jovem desmontando com agilidade.
– O que aconteceu? Quem está vindo para Dwiefer neste momento? – perguntou Shura.
– Os homens do clã Spectrum Svört, senhor e com tropas numerosas.
Shura não permitiu que seu corpo traduzisse a preocupação avassaladora que se abateu sobre si. Fazia muitos anos que não havia movimentação, nem notícias daquele clã. Era preocupante o fato de estarem em grande número e vindo até Dwiefer. Os Spectrum Svört eram um clã anárquico, movimentavam-se como chacais farejando presas, espalhando destruição e morte por onde passavam...
– Dohko está com eles?
– Sim, senhor, mas ele desconfia de algo e, sinceramente, eu também. Nunca tinha visto soldados tão organizados assim para uma visita. São uns três mil e quinhentos, mais ou menos.
– Inferno! Chame todos e diga que me encontrem no pátio central, imediatamente. – disse Shura olhando para o corpo na carroça. – E peça a Shiryu que venha aqui.
– Sim, senhor!
Shiryu já havia verificado o paiol das armas numa rotina diária que assegurava o perfeito funcionamento do aparato bélico e agora treinava um dos seus golpes rápidos e mortais com duas espadas, quando Cassio chamou-o, no pátio de treinamento.
– Tenente, o comandante exige sua presença de imediato. – disse o homem cujo rosto já estava vermelho de tanta movimentação.
O jovem limpou o suor com um pano de linho, vestiu a camisa de algodão e embainhou a espada, sentindo que havia algo errado. Amarrou os longos cabelos negros com uma tira de couro e foi ter com seu comandante. Quando chegou ao pátio de treinamento, viu Shura organizando as tropas e juntou-se a ele.
– Problemas, senhor? – perguntou posicionando-se ao lado de Shura.
– Sim, ainda não sabemos a extensão ou o quê são estes problemas. Aparentemente, o clã Spectrum Svört vem oferecer suas espadas à Regulus, mas não consigo acreditar nisso.
– Nem eu. Esses homens são predadores em potencial e agem como corvos em busca de carniça. Temo que... Perdão, não devo falar sobre isso. – disse Shiryu interrompendo sua fala.
– Sabe que pode dizer-me o que pensa, Shiryu. Tenho-o por um homem honrado e visionário, por isso escolhi-o para meu tenente.
Shiryu permaneceu sério, mas sorriu, internamente. Não havia nada mais importante para si que servir àquele que amava em segredo. Sabia que Shura jamais iria olhá-lo ou nutrir por ele, sentimentos além do companheirismo e da confiança. Mas, mesmo assim, permaneceria ao lado dele, recusando a herança de tornar-se Senhor de clã, quando da morte de seu irmão. Apesar de não ter esperanças, se contentaria de permanecer fiel ao homem que tocara seu coração como nenhum outro.
– Pois bem, nosso soberano não se manifesta como antes. Seu carisma e poder se perderam em decisões tomadas a partir da frustração e da dor. Em meu clã existe um ditado: ”A vida de alguém é limitada; a honra e o respeito duram para sempre.”Ao desobedecer as leis que existem para proteger os clãs, ele jogou a si mesmo e a todos nós aos que espreitam uma oportunidade de nos destruir. – falou Shiryu.
Shura olhou para o jovem belo e tão maduro, ao seu lado, com extrema simpatia e respeito. Shiryu era diferente dos outros. Não almejava poderes, honrarias ou ocupava seu tempo com os excessos que seriam normais em sua idade. Muitas vezes sentava ao lado dele somente para conversar e via nas opiniões fortes e ponderadas uma qualidade rara que lhe fazia bem. Em alguns aspectos, ele lhe lembrava Aioros, porém, diferente da natureza aberta e amorosa do soberano, Shiryu era melancólico e retraído.
– Como sempre, suas observações vão direto ao ponto, tenente. Porém, é nosso dever defender Dwiefer e rezar para que sejamos fortes o suficiente. – disse Shura.
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– Alto! – gritou o guarda quando da aproximação de um jovem alto, imponente, os cabelos escuros movendo-se quando ele andava.
– Vim ver o soberano. – disse o jovem fitando, diretamente, os olhos dos dois guardas que estavam de prontidão às portas do grande salão da fortaleza.
Os dois sentiram um tremor ao fixar os olhos nos do jovem, como se, de repente, seus medos e pecados aflorassem de imediato, embotando-lhes o raciocínio.
– P-Precisa ser anunciado, senhor! – disse o guarda de maior estatura.
– Sou esperado, portanto, deixem que eu mesmo anuncie a minha presença. – respondeu o jovem mostrando uma corrente que cotinha o selo do clã Iljun.
– P-Pode passar, senhor... – falaram os dois, ao mesmo tempo.
O jovem sorriu e inclinou a cabeça, olhando na direção do trono onde Regulus estava sentado tendo Pandora aos seus pés lendo um poema e cochichando, entre risinhos, alguns trechos do mesmo. Alguns nobres conversavam, outros apenas desfrutavam da comida e do vinho. Ele sorriu, antevendo o que seria daquela corte patética quando assumisse o seu lugar.
Quando os olhos azuis e frios dele encontraram os seus, Pandora sentiu a vibração em todos os recantos de seu corpo. Finalmente, ele viera colher os frutos que ela tinha semeado. Seu coração, sua alma e sua vontade eram dele, desde o ventre de sua mãe. Eram irmãos gêmeos, embora não fossem idênticos e, mesmo tendo sido criados separados, o vínculo existente entre eles era forte, eterno, obsessivo...
– Quem é você? – perguntou Regulus largando a taça de vinho e fixando o olhar turvo na figura do jovem estranho à sua frente.
– Quem sou eu? Ora, mas que decepção... pensei que o Leão reconheceria aquele que possui o seu sangue. Eu sou Hades, irmão gêmeo de Pandora e... seu filho!
Regulus levantou-se do trono, o cenho franzido, a boca estranhamente seca... Os demais estancaram, olhando a cena com curiosidade, mas também terror.
– Que brincadeira é essa?! – gritou o soberano, enquanto Pandora se levantava e caminhava na direção do irmão.
– Não é brincadeira, meu pai. Hades é seu filho, assim como eu. Nossa mãe separou-nos, quando pequenos para que ele fosse preparado para este momento.
– Esse momento?
– Sim, meu pai. O momento em que o senhor me entregará Dwiefer e me ungirá como o novo soberano, aquele que restaurará a ordem em Darneheim.
Regulus sentiu seu corpo fraquejar, como se estivesse sendo tragado para dentro de um redemoinho. Sua mente girava incessantemente e só quando Shion surgiu no salão, ele vislumbrou uma luz tênue e distante que se transformou nos braços do homem que o amparou.
– Shion... Ele... Ele diz ser meu filho! Pelo Senhor das Almas...
Shion olhou para Pandora e Hades e tudo, finalmente, fez sentido. O quebra-cabeça montado na morte de Aioros mostrava, todo o tempo, as intenções do assassino. Ao colocar vestígios dos clãs mais poderosos a mensagem era a de usurpar a autonomia, fazer com que todos soubessem que uma nova ordem seria estabelecida. Uma mensagem ousada e doentia que agora se confirmava. Aquele jovem cuja aura preenchia o salão com uma força estranha e sombria estava ali para usurpar a liderança de Regulus, após ter engendrado e finalizado a queda de Aioros.
– Você é o assassino! Você matou Aioros! Como ousa exigir reconhecimento como filho de Regulus e a liderança deste clã? – gritou Shion vendo que Regulus estremecia convulso, em seus braços.
– Ah, meu caro Conselheiro... sua acusação me ofende. Pelo que sei, o culpado deste ato vil repousa sobre um homem de seu próprio clã e pertencente ao seu Círculo de Honra. Um jovem com ideias anárquicas sobre a não existência de um soberano, algo que ele mesmo chamou de... República! Aliás, fui informado que minha irmã dividiu suas suspeitas sobre ele e tal fato foi ignorado. Isso me leva a pensar que o senhor, talvez, tenha interesse que este crime não seja, devidamente, esclarecido.
– Construiu uma teia interessante, Hades. Mas, ninguém aqui irá aceitar esse seu ardil! – disse Shion sem se alterar.
A seguir, ajudou Regulus a levantar-se, sentindo-o estranhamente quieto e ainda trêmulo.
– Guardas, pela autoridade a mim conferida como Conselheiro Guardião, ordeno que prendam este homem e a Pandora também! – disse Shion.
– Sua autoridade só se faz necessária quando o soberano não está em condições... Então, eu pergunto, senhor meu pai... Vai permitir que prendam seus filhos, aqueles que vieram ajudá-lo a restaurar a ordem? Aqueles, cujo amor o salvará da dor e fará, de Dwiefer, um lugar poderoso e próspero, novamente?
Regulus ergueu o olhar, olhando para Hades e Pandora. A palavra amor dita na entonação grave e profunda ecoou dentro de sua mente completando o círculo. O pó da Papoula negra, administrada constantemente ao vinho que Pandora lhe dava, deixara-o sem limites, entregue aos delírios, à lascívia e ao alívio que ela dava à angústia e à dor. Mas, principalmente, colocava-o sob controle psíquico da filha que o dominava, mais e mais. Cada vez que ele a possuía e chegava perto do gozo, Pandora lhe sussurrava ao ouvido, programando-o, fazendo a mente de seu pai entrar em um estado hipnótico pronto para obedecer, quando ouvisse a palavra, novamente e, pronunciada no momento certo...
– N-Não... – sussurrou Regulus.
Shion quase entrou em desespero. Não podia acreditar no que acontecia em frente aos seus olhos. Regulus afastou-se dele, trôpego e transtornado. Então abriu os braços e Pandora correu em sua direção. Quando ela o abraçou, ele riu de forma febril e enrouquecida, levando a mão ao rosto da filha. Então tornou a olhar para Hades, como se estivessem sozinhos, ignorando os olhares dos nobres, dos guardas e de Shion. Estendeu a mão trêmula e falou alto:
– Venha... meu filho... Sejamos... uma família completa!
Notas finais
Kassiminha, minha linda! Teus comentários e tua sensibilidade e humor (bem parecido com o meu) me deixam dando pulinhos de contentamento.
Chakal_Maldito, tua presença e tua poesia, sabendo eu do teu tempo curto, me honra muito!!!
Mel_Dark, tua objetividade e teu carinho me esclarece muito e me faz ter ideias bastante interessantes!!!
Vanessa, tuas colocações e cobranças me deixam com expectativa de fazer sempre algo melhor!!!
Sion Neblina, teu carinho me estimula, teus comentários emocionantes me extasiam!!!
Perséfone_San, teus comentários me estimulam, me ajudam a organizar a trama e são sempre bem-vindos!!!
Ciça_DF, tua presença estimulante é D+++!!!
E aos que passam como a brisa, deixando aquele rastro invisível e gostoso, também o meu muito obrigado!!!
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