Trono De Sangue

34 Capítulo 34 - O LEÃO RUGE! Parte I


Notas iniciais
~♥~ Olá, galera amada!!! Após um longo tempo sem postar essa fic, reitero que ela é uma das minhas tramas que me exige muito e, as vezes, isso me trava. Mas, como sempre digo, ela não será abandonada. Um agradecimento muito especial para Mimika que fez uma linda recomendação para esta fic. Amada, muito obrigada pelo carinho e pela honra!!! São momentos como esse que nos estimulam a ir em frente!!! ~♥~ Aos demais, espero que perdoem a demora e gostem do capítulo. Um grande beijo!

As sombras dançavam graciosas envolvendo seu corpo, embora para Kamus, a densidade ainda o oprimisse e trouxesse dor a cada célula do seu corpo. Pandora o mantinha junto a si como uma entidade fantasmagórica até o momento em que ambos se materializaram dentro da pirâmide negra. Um gesto dela e Kamus tornou-se parte das paredes escuras, seu corpo forte aderindo ao frio negro da pedra reluzente como se fosse um inseto preso em uma teia de aranha.

— O que... pretende com isso? – perguntou o senhor de Irġiel kiesaħ.

Pandora andou até o altar onde tantas cerimônias haviam sido realizadas, o cheiro do incenso, sangue e suor impregnava o interior sombrio, iluminado, apenas, por algumas tochas e velas distribuídas de forma a indicar o caminho por onde os acólitos chegavam para oferecer sua dor e seu prazer.

Ela pegou a jarra de prata que jazia sobre a pedra fria onde tantas vezes Hades a possuíra com violência e encheu uma taça com um movimento único, sinuoso e delicado. Soprou sobre ela e encostou-a nos lábios de Kamus.

— Por favor, beba.

Kamus a encarou, mantendo os lábios cerrados e Pandora afastou a taça, fitando os olhos rubros que a encaravam com destemor.

— Sua linhagem e sua honra são lendárias, senhor de Irġiel kiesaħ. Deve estar se perguntando o porquê de tudo isso e com razão. Vou explicar... Meu irmão tornou-se a antítese de tudo que deve permanecer neste mundo, ele não é, apenas, um usurpador, ele é o arauto do Caos. Ele sacrificou o nosso filho e o poder conseguido com este sacrifício o enlouqueceu e... me fez enxergar a terrível verdade. Existe uma profecia sobre a vida superar a morte e o amor lançar luzes as sombras criadas pelo demônio da escuridão. Eu o trouxe aqui, senhor de Irġiel kiesaħ para que esta profecia se cumpra e liberte a todos nós.

— Está dizendo que eu faço parte desta profecia?

— Sim, o senhor faz. Pelo amor que lhe tem, o senhor de Berkehell atingirá o auge de seu poder. Ele será o instrumento do fim. Por isso, encenaremos um teatro... Hades precisa acreditar que nada poderá detê-lo. Agora, por favor, confie em mim e beba. Façamos a nossa parte neste festim diabólico.

O senhor de Irġiel kiesaħ analisou aquelas palavras e percebeu que havia dor nos olhos violáceos, uma dor que ele próprio já sentira com tantas perdas em sua vida. Ela não estava mentindo. Havia nela uma segurança e uma atitude próprios de alguém que não tinha mais nada a perder.

Após Pandora explicar seu plano, Kamus entreabriu os lábios. O líquido ácido e denso ardeu em sua boca e, assim que a bebida tocou seu estômago, ele paralisou, seus olhos ficaram abertos e vítreos como se estivesse morto. Pandora tocou o rosto alvo e inspirou. Vamos lá, hora do espetáculo, Pandora!

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As sombras rastejavam nas paredes quando a noite caiu sobre a fortaleza. O luto pelos guerreiros mortos fora demonstrado com um silêncio sepulcral antes que o jantar fosse servido a todos. Ao amanhecer Aiolia tomaria seu lugar como soberano, liderando as tropas em direção à Dwiefer. Aquela era a última noite em que estariam comendo e bebendo sob a proteção de uma fortaleza, os últimos instantes antes da derradeira batalha...

Milo estava sentado à mesa farta com o olhar perdido e a taça cheia de vinho. As mulheres cochichavam contritas ao observar seu senhor, mas não ousavam oferecer seu consolo e calor. O senhor de Berkehell perdera o amor de sua vida, a vivacidade em seus olhos fenecera, sendo substituída pela melancolia.

Kanon se aproximou tocando-o no ombro. O senhor de Berkehell olhou para o amigo e general de confiança com tanta dor nos olhos que Kanon desejou poder extirpá-la daquele azul profundo. Sentiu-se velho, naquele momento, pois o menino que ajudara a criar, agora era um homem feito e sofria como um.

— Não perca a esperança, não é do seu feitio. – disse, simplesmente.

Não sou mais aquele menino que conheceu.

Kanon postou-se a frente do escorpião.

— Sabe o que sempre admirei no senhor? A fome pela vida! Passou por tantas perdas e, em nenhum momento, se deixou vencer! Não perca isso, senhor de Berkehell. Nunca!

Um sorriso descrente, seguido de uma lágrima alterou as belas feições de Milo.

— Minha fome agora, é vingar Kamus e acabar com este maldito usurpador. Apenas isso.

O general suspirou.

— Que seja. Daqui a algumas horas vamos analisar os mapas e rotas junto com o soberano. Descanse um pouco.

— Vá aproveitar a noite, Kanon. Leve alguém para a cama, tenha algum prazer em sua vida antes da batalha. Já disse que não sou mais um menino. Deixe-me sozinho.

Com uma reverência, o general obedeceu e foi juntar-se aos outros no grande salão. Todos falavam baixo e o clima era de tristeza, embora alguns bebessem à saúde e vida eterna dos guerreiros mortos em combate.

Manigoldo e Siegfried estavam frente a frente e às vezes falavam alto para depois baixar a voz. Hyoga havia se retirado com Shun, enquanto Ikki permanecia em uma mesa ao lado do senhor de Irmied.

Máscara da Morte comia e bebia com seu pessoal, embora direcionasse o olhar para Afrodite que parecia entretido conversando com algumas crianças.

O tempo parecia perder o sentido, dissolvendo-se nas conversas baixas, nas sombras tremeluzentes projetadas à luz das tochas. O aroma da carne assada, do vinho com especiarias e do fogo crepitando nas lareiras enchia o ambiente, mas nada de cantoria ou risadas.

Shaka percebia a tristeza de todos e sua natureza empática o levava a sentir toda aquela dor e incerteza. Sentiu o impulso de falar com cada um, tentar aliviá-los com algumas palavras, mas então sentiu o peso das contas em volta do pescoço. Portava uma arma terrível, algo capaz de destruir mundos... Precisava de serenidade para usá-la e não permitir ser usado por ela.

— O que foi? – perguntou Ikki percebendo a expressão grave do senhor de Irmied.

— Nada. Apenas a constatação que, assim como Aiolia, eu preciso fazer o que deve ser feito. – respondeu Shaka com um tom amargo.

— Nunca conheci alguém como você. Sei que tem um poder imensurável para destruir, mas o natural em você é a preservação da vida. Essa é a sua força. Não tema, senhor de Irmied eu estarei ao seu lado. – disse Ikki tocando a mão longa e delicada de Shaka.

O loiro sorriu. Ikki era uma deliciosa âncora para as suas emoções e desejos. Embora mais jovem, possuía uma força e sabedoria que o havia conquistado de forma arrasadora. Nunca havia sentido algo tão forte por uma pessoa, algo capaz de fazê-lo desejar a felicidade como desejava quando estava ao lado de Fēnikss.

— Eu o amo... Ikki de Fēnikss.— sussurrou Shaka.

Ikki sorriu largo e beijou a mão do amado.

— Também te amo, meu belo senhor. Me dê licença, vou falar com meu irmão e já volto.

O senhor de Irmied observou o moreno atravessar o salão de forma altiva e quase sorriu. Parecia egoísmo sentir aquela alegria interna, enquanto todos ali choravam suas perdas. Sentia pelo desaparecimento de Kamus, mas algo dentro de si teimava em recusar-se a aceitar a sua morte. Olhou na direção de Hyoga que deixava o salão e refletiu sobre o quanto a responsabilidade pesava sobre os ombros do jovem Máistir. Não era fácil colocar seus sentimentos e afetos sob a tutela do dever.

Ikki aproximou-se de Milo e se sentou ao seu lado.

— Irmão, eu... Bem, não tem nada que eu diga capaz de aplacar o seu sofrimento. Mas quero que saiba que eu estou aqui e pode contar comigo.

Milo encarou os olhos azuis do irmão reconhecendo nele uma maturidade que sempre admirara. Muitas vezes pensara que Ikki deveria ter sido o primogênito.

— Obrigado, Ikki. Amanhã marcharemos rumo ao final de tudo isso. Aproveite a noite. – disse o senhor de Berkehell olhando na direção de Shaka.

Ikki tomou a taça nas mãos e a elevou, convidando Milo a um brinde.

— À batalha final. – falou o moreno.

— À batalha final e à morte daquele filho da puta. — disse Milo.

Quando deixou a mesa, Ikki ainda olhou para o irmão que retomava sua postura silenciosa e quase ausente. Por alguns segundos, pareceu rever seu pai na mesma posição e então teve a certeza que Kardia, de alguma forma, os estava orientando.

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— Mas o que temos aqui? – questionou Hades ao ser levado por Pandora à pirâmide negra e deparar-se com o prisioneiro preso às paredes frias.

— Um presente e um trunfo, meu amor...

Hades franziu o cenho e fitou os olhos violáceos da irmã. Por um momento perscrutou-a, longamente fazendo-a sentir como se ele a estivesse tocando.

— Comece a falar. – disse, simplesmente.

— Nossas tropas se preparam para enfrentar a resistência. Radamanthys é um general experiente, mas muitos dos homens recrutados não o são. A onda negra fez algumas vítimas em Berkehell, mas as forças de oposição cada dia engrossam mais as fileiras. Entretanto, uma das vítimas não é qualquer um. Desta vez, você conseguiu atingir um senhor de clã e também, graças ao seu poder, conseguiremos a vantagem nesta batalha. Por que enviar Radamanthys para uma batalha em campo aberto se podemos atrair a resistência para o nosso território? Aqui temos a força do Caos em seu auge, temos os acólitos e temos... um sangue nobre pronto para ser sacrificado em seu nome, meu amado. Vamos deixar bem claro a extensão de seu poder, vamos oferecer a vida de um senhor de clã ao Caos e atrair os traidores para a morte!

A expressão de Hades era enigmática. Ele parecia avaliar cada palavra dita, enquanto escrutinava o semblante da irmã, demoradamente.

— Você usou as sombras e o trouxe... – disse, por fim.

— Sim, eu o trouxe para a sua glória, meu senhor e meu amado... Com sua vitória, poderemos dominar não só Darneheim, mas também muitos reinos além. – respondeu ela oferecendo os lábios umedecidos e entreabertos.

Hades tomou-a nos braços e levou a mão aos cabelos negros na base da nuca de Pandora, puxando-os com violência. Seus olhos adquiriram um tom rubro e cruel, enquanto mantinha a pressão e a fitava intensamente. Pandora enfrentou aquele olhar, enquanto ele cobria seus lábios com a boca faminta, inserindo a língua entre os lábios entreabertos. Ela gemeu e ele aproveitou para aprofundar o beijo, estreitando-a com força e posse junto ao seu corpo. O beijo carregado de erotismo dizia a Pandora o que aconteceria a seguir. Então ela sorriu e o incentivou...

Grudado às paredes lisas e frias, Kamus se constituía numa testemunha muda, seu corpo paralisado estava privado das sensações, mas sua mente divagava em meio ao ambiente sórdido, imersa em visões que, ora eram grotescas reproduções daquela trágica realidade, ora eram lembranças de seus últimos momentos na companhia do senhor de Berkehell. Ele agarrou-se às lembranças, buscando a sanidade ameaçada com aquele estado de catalepsia induzido e a sensação de estar sendo drenado para o interior daquela escuridão.

Milo... A pronúncia mental do nome do amado trouxe paz ao seu coração e, ao mesmo tempo, temor. Confiava no poder do senhor de Berkehell, sabia que havia nele uma força extraordinária. Entretanto, Pandora deveria ocultar esse poder até o momento certo ou tudo seria perdido.

Enquanto Kamus permanecia ali como um troféu vivo, Hades possuía Pandora sobre o altar. O ambiente macabro parecia se alimentar da tensão sexual, do tremeluzir das tochas e do próprio senhor de Irġiel kiesaħ.

Prazer e agonia se entrelaçavam, enquanto Hades atingia o clímax e grunhia agarrado ao corpo de Pandora. Os olhos vidrados de Kamus registraram o momento como se fosse uma lente inerte, apenas refletindo aquela união insólita que parecia alimentar cada sombra ali presente...

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Todos se preparavam para recolher-se após conferir suas armas e vestimentas de combate. Os sons foram ficando mais baixos enquanto, a lareira enorme aquecia o salão e exalava um odor resinoso de madeira queimada, porém quente e aconchegante.

Sentado em sua larga cadeira de carvalho, Milo analisava os mapas que, horas antes, haviam sido analisados pelos generais e agora jaziam abertos sobre a mesa. Uma taça de prata cheia de vinho jazia ao lado dos documentos e a expressão do líder do clã Skorpjun era grave, assim como a do homem que estava, em pé, ao seu lado.

Lembranças mescladas com uma espécie de déjà vu disputavam a mente de Milo que olhava para o seu soberano, Aiolia. O jovem leão revia as estratégias e se mostrava seguro, enquanto o senhor de Berkehell parecia ouvir a voz de seu pai...

— Seja forte e torne-se o homem que o clã Skorpjun precisa.”

— Deve descansar, soberano. Partiremos antes do nascer do sol. – disse Milo bebendo um gole de vinho.

Aiolia tocou o ombro do amigo e se retirou. Assim que ele cruzou a porta, Kanon adentrou o salão e olhou para Milo que franziu o cenho.

— Eu não disse para que aproveitasse a noite? – falou o senhor de Berkehell.

Kanon elevou uma sobrancelha e sorriu.

— Esses são os meus planos. – respondeu ele mostrando uma caixa de madeira trabalhada.

Milo reconheceu a caixa, era onde se guardava o Skák, jogo de tabuleiro muito utilizado para se aprender estratégias, assim como compreender o verdadeiro papel de um líder.

— Este jogo... Meu pai sempre gostou dele e eu sempre odiei.

— Eu sei. Mas, como o senhor mesmo afirmou, não é mais um menino. Está na hora de honrar a sua herança.

— Tem razão, agora eu, realmente, compreendo.

Kanon arrumou as peças e Milo serviu-se de vinho. Os dois iniciaram a partida, concentrados em cada jogada. Quando os dois decidiram que já era hora de terminar o jogo, Hyoga adentrou o salão junto do senhor de Irmied.

— Perdoem a interrupção, mas precisamos contar uma coisa. – disse o Máistir e havia alegria na sua voz.

— O que foi? – perguntou Milo largando a taça sobre a mesa.

— O senhor de Irmied uniu sua mente a minha e tentamos, mais uma, vez vasculhar o tempo e o espaço à procura de algum vestígio de Kamus. Queríamos confirmar se ele estava morto ou vivo.

— E? – questionou Milo já se levantando.

— O senhor de Irġiel kiesaħ ainda vive. – respondeu Shaka.

Ante a resposta direta e em tom sereno, Milo estremeceu e sorriu com lágrimas nos olhos.

— Pelo deus Sombrio... – disse o senhor de Berkehell experimentando uma aceleração nas batidas do seu coração.

— Cremos que Kamus foi levado para Dwiefer. – falou Hyoga.

— Mas como? Quem fez isso? – questionou Milo.

— A irmã de Hades. Ela tem o poder de viajar nas sombras. – respondeu Hyoga.

— Então tudo isso foi um plano. Uma forma de nos atrair para Dwiefer onde Radamanthys estará nos esperando. – falou Kanon.

— Sim, mas creio que Pandora tem outros planos. – disse o jovem Máistir.

— Está dizendo que a irmã de Hades está tramando contra o irmão?

— Ela deixou um rastro proposital e se tornou tão poderosa quando Hades. Foi ela que me avisou da necessidade da minha presença em Berkehell.

— Mas, porque levar o Kamus? – perguntou Milo.

Shaka olhou bem dentro dos olhos do senhor de Berkehell.

— Todos nós temos um papel nisso tudo. Kamus está sendo o instrumento para atrair-nos, mas também, de certa forma, para dar à Hades a falsa segurança de ser intocável.

Milo olhou na direção do tabuleiro e passou as mãos nos cabelos longos. Então a frase que sempre ouvira de Kardia, adquiriu um significado maior. Ele sentiu a presença de seu pai tão forte como se ele ali estivesse e ouviu a frase que sempre questionara: “No skák, quando se pretende vencer o inimigo, temos que sacrificar a peça de maior valor!”

Então, subitamente, tudo pareceu se encaixar. Aiolia surgiu à porta do salão como se tivesse ouvido um chamado e seu coração se alegrou ao saber da novidade, pois também havia experimentado uma situação inusitada. Seus olhos verdes brilharam como duas pequenas chamas.

— Senhores, estamos tendo ajuda de todos os planos de existência e isso só reforça a certeza que Hades cairá!— disse o jovem soberano. -

Kanon elevou uma sobrancelha, Shaka cruzou os braços e Milo postou-se ao lado de Hyoga.

— Fale, soberano. – disse o senhor de Irmied.

— Eu vi Aioros! Meu irmão veio até mim!

— Com todo respeito, soberano, creio que deva ter sonhado. – falou Kanon.

— Não, general. Aioros transpôs a barreira da morte... Ele tocou-me no peito e disse que estaria, sempre, comigo. Vejam! – disse Aiolia abrindo a camisa e mostrando o peito.

Um murmúrio baixo preencheu o ar. No tórax musculoso havia a figura de um leão que parecia ter sido tatuada com fios de luz. Milo se aproximou e o desenho adquiriu uma tonalidade avermelhada para, em seguida, desaparecer.

Shaka pôs-se a frente de Aiolia e sorriu.

— O leão ruge. – disse o senhor de Irmied.

O jovem soberano tinha lágrimas nos olhos.

— Meu irmão... Ele me abençoou.

— Sim, Aiolia. Aioros deu a você a benção do clã do leão. Você, agora, tem a força de toda a sua linhagem para ampará-lo e protegê-lo na batalha quando nos liderar. – falou Shaka.

— Você sempre acreditou em mim, mesmo quando eu não...

— Isso pertence ao passado, soberano. – disse Shaka interrompendo-o. – Sua vida começa agora!

O jovem soberano sorriu.

— Tem razão, vamos planejar o futuro para que Dwiefer volte a escutar o rugido do leão.

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Radamanthys estava posicionado frente às tropas. Sua armadura, de um negro reluzente com o emblema de uma flor de papoula negra em prata e roxo contrastava com o dourado dos seus cabelos revoltos, deixando-o com uma expressão altiva e mortal. Ouvia o tinir das cotas de malha e o chacoalhar do metal das armas que batiam nos escudos. Olhou-os com uma fria superioridade e gritou:

— Não marcharemos em direção ao inimigo e sim esperaremos que eles venham até nós. Vamos exterminá-los em nossa própria casa! Estejam prontos! Durmam, bebam, façam qualquer coisa das suas vidas miseráveis, mas jamais esqueçam o propósito e jamais sejam pegos desprevenidos!

Um brado ensurdecedor ecoou, juntando-se aos cantos sombrios dos acólitos. Dwiefer ficou imersa nos sons estrondosos semelhantes a trovões e no martelar do aço. Cavaleiros vestindo armaduras pesadas surgiram de imediato dentre as fileiras que bradava em uníssono. Com gritos estridentes, estes cavaleiros elevaram os braços na direção do general Radamanthys e, logo em seguida, formaram um bloco compacto, como se fossem um organismo único.

Por Hades!— gritaram eles e o restante do exército bateu no peito, três vezes.

Um destes cavaleiros era Valentine de Harpia. O jovem tenente observava Radamanthys com amargura. O general havia mudado, o olhar antes orgulhoso agora exibia uma sombria resignação. Era como se tivesse descido aos infernos e retornado com tantas cicatrizes na alma, que a mesma se encontrava dividida.

Quando todos dispersaram, Radamanthys retornou ao seu quarto. Instantes depois, Valentine bateu à porta. O general abriu, dando passagem ao seu tenente.

— O que deseja? – perguntou sem dar-lhe atenção.

— Os planos mudaram por causa da vadia?— devolveu Valentine.

Radamanthys olhou-o com frieza.

— Cuidado, Valentine. Não pense que o deixarei faltar o respeito com a senhora. Mais uma palavra e eu mesmo o executarei!

Valentine sorriu amargo.

— Pois pode me matar agora mesmo.

O general voltou os olhos para o jovem que mantinha uma expressão decepcionada e sombria. Aproximou-se dele, vendo os lábios crispados e o olhar melancólico, ainda que desafiador. Levou a mão aos cabelos de Valentine e a fechou com força, puxando-os até que o jovem arqueasse o corpo.

— Tem certeza que é isto mesmo que deseja?

Com os dentes cerrados pela dor, Valentine ousou responder.

— S-Sim! Prefiro morrer a vê-lo como serviçal daquela mulher! E-Eu a odeio!

— Eu sirvo à Hades, seu idiota! Todos nós servimos a ele. Pandora é irmã do soberano e ele a tem como uma extensão de si mesmo. Desonrá-la é profanar o seu soberano! – vociferou Radamanthys segurando Valentine para, em seguida, soltá-lo com violência.

O jovem caiu de joelhos, a dor humilhante em seu corpo fazendo-o ofegar.

— Me mate, general... minha vida é sua. Pouco me importa Hades ou Pandora. Permaneço aqui porque o amo. Sempre amei e sempre vou amar. No campo de batalha, não é a eles que darei o meu melhor. Eu o farei pelo senhor!

Radamanthys fitou o jovem e uma estranha emoção o envolveu. Nunca fora alvo de um sentimento tão intenso. Suas relações eram baseadas no prazer oferecido. Até mesmo a paixão despertada por Pandora não o aquecia como aquelas palavras viscerais proferidas por seu tenente.

— Levante-se!

Valentine obedeceu e Radamanthys fitou-o bem dentro dos olhos. Ao longe, podiam ouvir os acólitos entoando o nome de Hades como se fosse uma oração.

Mesmo sem participar daquela cerimônia, sabiam que os convertidos estariam dançando e cortando as peles, deixando escorrer o sangue pelo corpo até que as gotas caíssem ao chão. Nesta hora, Hades elevaria os braços e o líquido vermelho que vertia dos cortes seria absorvido pelas pedras negras do piso escuro da pirâmide negra. Parecendo entidades vivas, elas beberiam o sangue derramado e fariam com que Hades recebesse o abraço do Caos, assim como Kamus que jazia preso àquelas paredes...

Aquilo tudo era loucura, Radamanthys podia sentir dentro de si. Porém, a decisão de permanecer fiel ao usurpador já havia sido tomada. Agora não podia voltar atrás. Valentine permanecia como uma lembrança dos velhos tempos, tempos em que liderava um clã mercenário e não respondia a ninguém. Tempos que precisava sepultar dentro de si.

— Ouça... É a última vez que teremos esta conversa. Eu sou um nada, você é um nada. Nossas vidas pertencem a Hades! Esqueça seus sentimentos, suas vontades e faça a sua parte neste jogo trágico, assim como eu! Somos peões, apenas isso! Agora saia!

— Eu obedeço, mas antes... este nada deseja sentir o gosto da sua boca.

Ditas as palavras, Valentine ousou e tomou os lábios do general nos seus. Por um instante, temeu que ele o repelisse, mas isso não aconteceu. Radamanthys se permitiu sentir a paixão do jovem tenente, era como se aquele ato fosse o último resquício de humanidade em sua vida.

Beijaram-se com sofreguidão, bloqueando tudo mais, exceto a necessidade primitiva de extravasar toda aquela tensão.

Valentine sentiu seus pés serem erguidos do chão e gemeu quando as suas costas bateram com força na parede de pedra. Preso, entre o áspero e o corpo largo e forte, o jovem tenente deixou-se despir da cintura para baixo, enquanto Radamanthys abria sua calça, revelando uma ereção, extremamente, desperta e túrgida. Ele enroscou as pernas nos quadris do general, colando o corpo, ainda mais ao dele, fazendo-o sentir que também estava excitado. O ato fez o corpo de Radamanthys arder e ele cobriu a boca de Valentine com a mão, penetrando-o com força e tão abrupto e profundo que o tenente levou a cabeça para trás e gritou...

Radamanthys saiu de dentro dele, ficando parado por um segundo. Depois, mergulhou, estocando com força e Valentine gemeu quando bateu, novamente, com as costas na parede dura. Passara tanto tempo sem sentir-se dessa forma, preenchido por completo, tendo o homem que amava desejando-o assim... Agora, tudo o que queria era, sentir aquele falo grosso e quente invadindo-o com fúria.

Prazer, furor e, até mesmo a dor rascante... Queria tudo, sem limites, nos braços daquele homem que o desprezava, mas que estava lhe dando um prazer que não sentia há meses.

— M-Mais forte... — gemeu no ouvido do general, fazendo-o investir com mais ímpeto para dentro de si.

Radamanthys continha os gemidos e arremetia com violência, sentindo os dedos de Valentine ora, cravarem-se em suas costas, ora enroscarem-se, em seus cabelos desalinhados, puxando-os com desvario.

Valentine sentiu quando Radamanthys retesou-se, sentindo o orgasmo se aproximar, tentando controlar-se, mas não resistindo ao prazer de tomá-lo, profundamente. O jovem tenente exultou, sentindo que tinha esse poder sobre o general. Com um gemido rouco, provocou-o, ainda mais...

— V-Vem...M-Mais forte! Ahhhh... Ahhhh... isso, m-mete esse pau com força e me faz...gozar...Ahhhh...!

Totalmente entregue ao calor e prazer de sentir-se engolfado por Valentine e por seus sussurros enlouquecidos, Radamanthys estocou mais forte e rápido, afundando-se mais, enchendo-o com o seu prazer tão profunda e desesperadamente quanto podia. De sua garganta saiu um grunhido abafado e ele sentiu seu tórax ser molhado pelo gozo de seu tenente que também chegava ao orgasmo. Os dois tremeram, convulsos e se agarraram com força, as bocas se encontrando sem fôlego, o coração batendo violentamente por todos os poros.

O general levantou a cabeça enfiada na curvatura do ombro de Valentine onde a pousara buscando recuperar o fôlego. Mexeu-se um pouco, sentindo a respiração ofegante e quente do jovem em seu pescoço. O afastou da parede e o pôs de pé, sentindo um tremor nas suas por ter fodido naquela posição.

— Vista-se e saia... – disse o general, ainda ofegante.

Valentine não tinha esperanças que fosse diferente. Engoliu aquela sensação incômoda de estar sendo dispensado após o sexo e disse a si mesmo que se morresse em combate, pelo menos havia tido Radamanthys, uma última vez, para si.

— Sim, senhor. – disse o tenente.

Quando a porta se fechou, Radamanthys se deixou cair sobre a cama estreita. Fechou os olhos e mordeu os lábios com força. Valentine era a âncora de uma vida que não pertencia mais a sua realidade. Fora tocado pelas sombras no mais alto grau. Havia embarcado em um caminho que não tinha mais volta.

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Ainda estava escuro quando as tropas deixaram a fortaleza de Berkehell. A maresia enchia o ar e o rugido das ondas podia ser ouvido em meio ao silêncio sepulcral.

Aiolia ia à frente, junto de Milo, Shaka, Ikki e os generais. De repente, uma chuva fina e fria começou a cair, obrigando a todos puxar seus mantos.

Milo estava tomado pela ansiedade. Kamus estava vivo! Pela primeira vez, sentiu-se abençoado pelo seu deus sombrio. Desde que Shaka e Hyoga o haviam presenteado com aquela novidade, sentia que o destino tecia cada fato de forma a levá-lo cumprir o que um dia, seu pai previra que faria.

— O senhor de Irġiel kiesaħ está vivo, mas ainda há certa melancolia em seu olhar, meu senhor. – disse Kanon.

— Sim, Kamus está vivo. Mas, quem sabe o que estão fazendo a ele? Hyoga acredita na irmã de Hades. Eu, não. Se ela o feriu de alguma forma, vou fazê-la pagar.

Antes que Kanon respondesse, a chuva intensificou fazendo arder os olhos e criando pequenas trilhas de água que logo evoluíam para fundas poças de água.

— Vamos ter que parar e deixar a chuva passar! – falou o general.

— Não! – bradou Milo.

— Seu general tem razão, senhor de Berkehell.— disse Aiolia.

Contra a vontade, Milo obedeceu. A chuva intensificou e o rugido do mar podia ser ouvido em meio à tempestade mesmo quando já estavam bem longe. Os cavalos patinavam e elevavam as cabeças, raios e trovões iluminavam os céus.

Shaka olhava para o alto quando Ikki se aproximou.

— Acha que isso é natural? – perguntou o moreno.

O senhor de Irmied elevou a mão deixando-a molhar sob os pingos grossos. Seu semblante endureceu, pois Ikki externava o seu próprio pensamento naquele instante. A chuva forte significava algo.

— O usurpador quer nos enfraquecer.

—Ikki sorriu com escárnio.

— Vai ser preciso mais que uma chuvinha destas para nos deter.

— Ele não quer nos deter, quer nos humilhar.

Assim que o senhor de Irmied terminou a sua fala, o relincho dos cavalos alertou a todos.

— O que está acontecendo? – disse Ikki em voz alta.

Antes que a pergunta fosse respondida, criaturas semelhantes a gigantescos lagartos surgiram em meio ao aguaceiro. Os cavalos recuaram e os soldados buscaram suas armas sem conseguir distinguir direito o que os estava atacando.

Desde que se tornara o receptáculo do Caos, Hades divertia-se criando calamidades e despertando seres abismais. As sombras eram alimentadas com o sangue, suor, sexo e cânticos... E ele próprio sentia-se, cada vez mais distante de sua humanidade.

Ao ter Kamus em sua pirâmide, seu ego inflou como Pandora previra. A chance de um sacrifício daquele porte o deixava exultante e brincar de gato-e-rato com as tropas chefiadas pelo jovem Aiolia lhe causava um prazer sem igual. Um gesto seu e criaturas rastejantes se lançaram em meio ao aguaceiro, surgindo das profundezas da terra enlameada.

— Brinquem, criaturas do Caos! Deem as boas-vindas ao fedelho que ousa intitular-se soberano. Veremos o rugido do leão ou será... o miado de um filhote?

A gargalhada de Hades reverberou entre as paredes negras, enquanto em meio à chuva inclemente, o primeiro obstáculo sombrio se fazia presente aos guerreiros sob a liderança de Aiolia e o senhor de Berkehell...

Notas finais
~♥~ Agradecimentos especiais a todos que leem, favoritam, comentam, recomendam, silenciam!!! Toda e qualquer energia é bem-vinda, então, gratidão! Sempre!!! ~♥~ Até o próximo capítulo!!!