Trono De Sangue

3 Capítulo 3 INICIAÇÃO...


Notas iniciais
*** A linguagem ultilizada na fic vai usar alguns componentes da contemporaneidade, principalmente nos termos chulos, portanto não se assustem muito. *risos!!

Muito antes que os pálidos fios de luz do sol abrissem caminho pela janela de seus aposentos, Kamus já estava de pé, pronto para mais uma lição com mestre Aldebaran. Dois anos tinham se passado desde que seu pai deixara Irġielkiesaħe ele assumira a responsabilidade de tomar conta dos irmãos e aprender tudo que o tornaria um líder, o Senhor do clã.


As travessuras da infância cessaram e o mundo adulto acenava com seu mar de responsabilidades. Quando a porta que dava para o pátio se escancarou e o vento gélido atingiu seu rosto, ele respirou fundo, olhou para Raio que já se encontrava ao seu lado e foi ao encontro de Aldebaran que bebia uma caneca fumegante de vinho quente misturado com especiarias e leite de rena.


O mestre de armas dirigiu-lhe um sorriso, como era do seu feitio. Aliás, Aldebaran era o único ali que preservava uma personalidade acolhedora, tão diferente do duro e circunspecto, Manigold, assim como dos demais guerreiros.


– Então, Kamus, dormiu bem? – perguntou Aldebaran sorvendo o último gole de sua bebida quente.


– Sim, mestre.


– Bom... E...bebeu alguma coisa antes do treino?


– Não, senhor. Estômago cheio não combina com muito movimento. Prefiro fazer o desjejum mais tarde. Isto é, se tiver forças para erguer o braço depois! Pensou ao ver a espada que o mestre trouxera para o seu treinamento, naquela manhã.


– Muito bem! Vejo que é um rapaz sensato. Então, chega de conversa e vamos às lições de hoje! – disse Aldebaran atirando uma espada para Kamus, enquanto desembainhava a sua. – Hoje lutaremos com espadas mais pesadas!


Fenrir também levantara cedo e, junto ao seu lobo negro, os observava aborrecido, porque, apesar de já ter completado doze anos, ainda praticava com uma espada de madeira. Estava sendo castigado por ter sido indisciplinado com mestre Aldebaran, enquanto o certinho e obediente Kamus ouvia a música do aço e aprendia golpes mais interessantes e mortais. Qual era o problema em querer aprender, primeiro, golpes diretos e matadores ao invés daqueles golpes sem graça que visavam apenas bloquear o inimigo?


O pátio, úmido e silencioso, viu ressoar o tinir do aço e Kamus quase deixou escapar um grunhido de dor quando, ao bloquear o golpe pesado de Aldebaran, o choque percorreu seu braço e subiu-lhe pelo pescoço.


– Bloqueie! Isso! Mantenha o braço na diagonal! Avance essa perna! – gritava Aldebaran.


As instruções de Aldebaran vinham acompanhadas dos golpes fortes da sua espada. Kamus obedecia, mas em alguns momentos sua inexperiência, aliada aos erros faziam-no ganhar cortes e pontos arroxeados no corpo. As lições eram duras para um garoto que acabara de completar catorze anos, mas ele as aguentava sem reclamar e se esforçava ao máximo para corresponder.


Depois de um tempo que pareceu a Kamus ser quase um século, Aldebaran parou de atacá-lo.


– Muito bem! Chega por hoje! Agora você Fenrir, vamos ver o que aprendeu.


Suado e dolorido, Kamus lavou o rosto e viu refletido na superfície brilhante e tremeluzente da água fria, o seu próprio reflexo. Seu cabelo estava na altura dos ombros e sua cicatriz continuava bem visível em seu rosto. Ainda orgulhava-se dela, embora tivesse aprendido a controlar seus impulsos. Ela também lembrava o tempo em que fora mais feliz...


Olhou para Fenrir partindo para cima do mestre de armas e deixou escapar um sorriso. O irmão, decididamente, não aprendia a lição. Era apressado, agressivo e totalmente indisciplinado. Até Hyoga que estava com seis anos era um melhor aluno que ele.


– Bloqueie! Avance! Pare! Pare eu disse! Inferno, Fenrir, se agir assim com uma espada vai ser morto no primeiro confronto!


– Arghhhhh!!!! Mas que merda! – gritou o garoto ao ter a sua décima espada de madeira esfacelada por um golpe certeiro de mestre Aldebaran.


– Já vi que a espada não é para o seu temperamento! – disse Aldebaran baixando a sua.


Fenrir sentiu que lágrimas invadiam seus olhos e seu lobo cujo nome era Noite elevou-se e lambeu-o no rosto consolando-o. Não sabia o que havia de errado consigo. Sempre que conversava com Kamus, prometia se controlar, mas quando tinha a oportunidade de lutar, algo dentro de si era mais forte e ele não se adaptava à dança necessária para aprender o manuseio de uma espada. Agora tudo estava perdido! Mestre Aldebaran ia expulsá-lo e nunca mais o ensinaria a lutar...


– Venha até aqui, seu pequeno lobo indisciplinado! Vamos tentar outra coisa. Não creio que seu caminho seja o da espada, então vamos usar outra arma. Uma que não necessite de tanto autocontrole e que dê vazão a esses seus sentimentos selvagens. – falou o mestre de armas.


– Outra arma? Qual? – perguntou o menino, agora, com os olhos brilhando.


– Vamos tentar o machado. É pesado, exige explosão muscular e um certo...temperamento irascível. Vamos ver se, ao menos, consegue erguê-lo.


Os caninos de Fenrir se revelaram no sorriso aberto. De imediato, ele apossou-se de um machado apropriado para um homem e manuseou-o como se tivesse nascido para isso. Aldebaran sorriu e atacou o menino com toda a força. Fenrir defendeu e contra-atacou descarregando livremente toda a sua agressividade. O som metálico parecia o de um trovão aprisionado dentro de uma urna e os dois, agora lutavam como se estivessem em um campo de batalha.


Kamus sentiu-se bem vendo que o irmão, finalmente, havia achado algo que combinava com o seu modo de sentir e de se expressar. Fenrir nunca deixaria de ser um pouco selvagem e desconfiado com toda a regra imposta, mas parecia que Aldebaran tocara em algum ponto específico e agora, ali estava ele, lutando com desenvoltura e força invejável! Até Noite parecia vibrar com a luta e com o sucesso de seu dono.


Minutos depois, Kamus deixou a arena de treinamento com Raio sempre, ao seu lado, e foi até a jovem Hilda que trazia seu irmão caçula pela mão e acenava na sua direção.


– O que foi, Hyoga? – perguntou vendo que o menino estava com os olhos cheios de lágrimas.


– S-Sonhei de novo... com minha mãe. Ela... estava no fundo de um lago enorme e... chamava por mim! – disse o menino abraçando-se a ele, enquanto o lobo branco que o acompanhava saltitava e ia juntar-se ao seu irmão Noite que assistia impassível, o treino de Fenrir.


– Foi só um sonho. Está com saudades do nosso pai, é isso! Você não conheceu a sua mãe, como sabe que é ela? – perguntou Kamus limpando as lágrimas do pequeno rosto com os polegares.


– Eu sei que é ela! Eu sei!


– Está bem, mas agora está acordado e tem outras coisas que deve dar atenção. Veja, Fenrir está manejando um machado. Não é interessante?


– Não! Fenrir é louco e não tem paciência para brincar comigo.


– Não diga isso. Ele gosta muito de você e até o ensinou a escalar, lembra?


O menino enxugou os grandes olhos azuis e olhou na direção do combate. Quando Fenrir escorregou e caiu, Hyoga riu e esqueceu o sonho que tivera. A jovem Hilda, então sorriu para Kamus e tocou-lhe a mão com suavidade.


– Quer que prepare seu desjejum, meu senhor...? – disse ela com um tom lânguido.


– Não é necessário, obrigado. Fique com Hyoga e incentive-o no treino. Ele é sensível em demasia e precisa aprender a ser mais...


– Viril, como o senhor? – rebateu Hilda.


– Eu queria dizer mais forte. Ele ainda é pequeno, mas nosso clã exige que sejamos duros. Não quero que ele sofra.


– É muito bondoso, meu senhor...


– Eu ainda não sou o senhor.


– Mas, será! E quando for, tenho certeza que o nosso clã será ainda mais poderoso... – disse Hilda com um sorriso estranho, mas que mexeu algo dentro de Kamus.


Hyoga começou a rir quando Fenrir manejou o machado como se fosse um malabarista e seu lobo negro saltava alto perto dele, fintando como se fosse atacá-lo. O lobo branco aderiu à brincadeira e Hyoga resolveu pegar a sua espada de madeira e atacar Fenrir também.


Kamus olhou para a cena sentindo uma espécie de gratidão por ter aqueles lobos que agora entretinham seus dois irmãos e tirava de seus ombros, o peso de tornar a vida deles menos sacrificada e infeliz. Retirou-se da arena e foi tratar dos machucados antes de tomar o seu desjejum.


Naquela tarde, quando Kamus olhava a imensidão branca iluminada pelo dourado do ocaso, Hilda surgiu cautelosa, olhando em volta para ver se ele estava sozinho. O lobo já havia saído para caçar, como sempre fazia. Então, era o momento certo para aproximar-se do jovem ruivo.


Ela era dois anos mais velha que Kamus e havia, de plena e boa vontade, se oferecido para cuidar do pequeno Hyoga. Sua beleza fria chamava a atenção de muitos guerreiros do clã, porém, ela mantinha-se distante e inacessível aos homens e, secretamente, nutria sonhos particulares e ambiciosos. Sonhos estes que incluíam... Kamus!


– Precisa de algo? – disse ela tocando o ombro de Kamus.


– Não, obrigado. Estou apenas pensando e observando.


– Pensa em demasia, meu senhor... Isso deve deixá-lo muito cansado. Precisa relaxar...



Lá estava ela chamando-o de meu senhor... Por um lado, aquilo era um reconhecimento agradável de ouvir. Por outro, ele sentia algo no ar que cheirava a perigo. Mas o que uma jovem como Hilda podia fazer de perigoso?


Enquanto pensava, Kamus sentiu a mão de Hilda deslizar em seu peito e descer até seu membro. A fricção inesperada e o roçar do nariz que ela deu em seu pescoço fez Kamus recuar, embora sentisse uma rápida excitação.


– Não precisa ter medo, meu senhor... Hilda só deseja servi-lo. E servir muito bem... – sussurrou ela colando seu corpo ao dele, enquanto ele permanecia encostado na parede de pedra.


Não sinto nada por ela, Kamus dizia a si mesmo. Mas meu corpo... ele quer que ela continue.


De repente, um barulho os fez parar. Hilda franziu o cenho, pois sabia que àquela hora todos estavam ocupados, a não ser...


– Tatsumi... O que quer aqui? – perguntou a jovem, visivelmente contrariada. Aquele idiota estava sempre à espreita de algo. Farejando o chão que sua protegida pisava como um cão sarnoso! Tinha vontade de esmagá-lo como se fazia com um inseto.


– Ora, vim ter com o comandante Manigold, mas parece que ele não pode receber-me agora. – disse o jovem guerreiro cuja cabeça totalmente raspada fazia com que parecesse mais velho.


– Então pode tomar o seu rumo. Eu e o senhor Kamus estamos... conversando. – disse Hilda irritada.


Tatsumi sorriu com deboche, ignorando o olhar cortante e frio de Hilda. Ele contava com a idade de vinte anos e era uma espécie de guarda pessoal. Sua função era proteger Saori Kido, uma donzela de origem nobre que fora acolhida em Irġielkiesaħ antes da partida de Dégel.


Alguns achavam que, quando Kamus ficasse mais velho, tomaria Saori como companheira de pele, pois ela era bela, inteligentee, apesar de aparentar fragilidade, tinha força, carisma e vinha de uma linhagem antiga e nobre. Tatsumi era uma dessas pessoas. Leal e devotado, ele era capaz de tudo por sua protegida, inclusive iniciar, sexualmente, aquele garoto, antes que Hilda o fizesse...


– Pois eu acho que a senhorita deve fazer o que está sugerindo a mim. O menino Hyoga machucou-se tentando escalar um muro e pedem a sua presença. Pelo menos foi o que ouvi no caminho para cá. – disse ele mantendo um tom de voz calmo e monótono.


Hilda revirou os olhos. Merda de moleque chorão! Pensou, enquanto dizia:


– Vou agora mesmo ver o seu irmão, meu senhor! Mais tarde, podemos continuar a nossa conversa. — o tom da voz suave e doce...


Kamus assentiu com a cabeça. Sua excitação tinha sido cortada, abruptamente, e ele sentia um vazio dolorido no baixo-ventre. Tatsumi sorriu, notando o constrangimento do garoto que um dia seria seu senhor. Então olhou para a porta que dava para a sala das armas.


– Por favor, senhor Kamus... acompanhe-me.


– Para onde e para quê? – perguntou Kamus franzindo o cenho.


– Para isso... – disse Tatsumi levando a mão enorme ao sexo de Kamus, enquanto puxava-o para perto da porta. – Hilda o deixou excitado, eu bem vi. Mas, se deseja tomá-la para si, antes tem de aprender a não desperdiçar sua semente ou ela acabará sendo sua amante e, se lhe der um filho, a sua senhora! Vejo que não nutre sentimentos por ela ou então teria me dispensado e continuado a... conversa.


Atordoado, Kamus revelou toda a sua confusão nos olhos rubros, o sangue subindo ao rosto. A mão quente no seu membro, apertando-o, a pressão mais forte que a de Hilda... O olhar daquele homem prendendo-o...


– E-Eu... nunca fiz...– gaguejou Kamus, enquanto Tatsumi continuava a segurar, fortemente o seu membro e empurrando-o para dentro da sala vazia e escura.


– Eu sei... mas, não precisa se preocupar com isso. Sexo é a coisa mais primitiva e natural do mundo. Apenas, tem de aprender a separar as coisas já que será o futuro senhor do clã. Existem bocetas e picas, cada um com seu grau de prazer! Pode foder tanto uma mulher, quanto um homem, mas tem de saber que, tanto um quanto o outro, atrairão consequências. Enquanto, futuro líder, deve precaver-se até decidir unir-se àquela que lhe dará um herdeiro. Por isso, sugiro que, experimente e aprenda... – disse Tatsumi aumentando as carícias.


A sala escura exalava um ar pesado e, apesar de todo o seu autocontrole, Kamus ainda era um garoto entrando na puberdade, seu corpo experimentava uma enxurrada de sensações que não passava pelo crivo da razão. Tatsumi continuava a falar e tocá-lo com intimidade e, mesmo que sua mente gritasse contra, sua ereção despontava dolorida e implorando por algo que ele queria, mas desconhecia...


O jovem guerreiro abaixou-se e tirou o membro de Kamus para fora das calças e antes que ele reagisse, tomou-o na boca. O garoto arregalou os olhos e em seguida os fechou, sentindo um formigamento no corpo e uma moleza nas pernas. Porém, as mãos grandes e firmes de Tatsumi agarravam as suas coxas, marcando-as e fazendo-o permanecer de pé.


O movimento de sucção e o vai e vem da língua em seu membro era algo, ao mesmo tempo estranho e prazeroso. Ainda era um menino e seu falo cabia todo dentro da boca de Tatsumi. Se uma imagem pudesse traduzir aquele ato, seria como se uma pequena serpente estivesse sendo devorada por um predador maior que ela.


Kamus gemeu e não demorou muito para que uma sensação angustiante e devastadora se convertesse em um clímax súbito e violento. Seu sêmen derramou-se na boca de Tatsumi e ele sentiu-se desabar. Era como se todas as suas forças tivessem se esvaído... Sua respiração acelerou e depois arrefeceu, deixando-o sem fôlego.


Tatsumi limpou a boca com as costas da mão e sorriu ao ver a face corada de Kamus.


– Esta é a sua primeira lição... meu futuro senhor. Gozar, sem nenhum vínculo com aquele que lhe dá prazer. Aprender a deixar os sentimentos guardados para que aflorem somente quando for a hora. Procure-me, quando necessitar dar vazão ao desejo e eu o satisfarei sem perguntas ou cobranças. E se me permite um conselho, afaste-se de Hilda, ela só lhe trará problemas. – disse Tatsumi colocando o membro de Kamus de volta para dentro das calças.


O movimento para o jantar já se fazia ouvir nos imensos corredores da fortaleza. Totalmente, sob controle, Tatsumi saiu, deixando Kamus ofegante junto à parede.


Mil coisas passavam pela cabeça do garoto que não conseguia fixar-se em nenhuma, em particular. Sentia torpor, mas também vergonha. Olhou para as mãos trêmulas e deixou-se escorregar pela parede fria. Ficou sentado, tentando racionalizar o que havia acontecido, mas seu corpo estava cansado e ele fechou os olhos por alguns segundos.


Acordou com Raio lambendo o seu rosto e olhando-o com aqueles olhos vermelhos como se quisesse falar. Acariciou-o tentando acalmar a confusão interna que sentia. Então inspirou fundo e levantou-se. Tinha que estar à cabeceira da mesa no jantar da família.


Assim como no dia em que seu pai se entregara, Kamus experimentava, outra vez, uma sensação de perda que ele não soube identificar, mas que doía e, ao mesmo tempo, aguçava sua curiosidade...



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A noite era de lua cheia e um sopro quente de brisa tocou o rosto de Milo quando ele se debruçou na imensa janela da Torre Negra para olhar o céu. Seus longos cabelos loiros estavam presos em uma trança e ele a desfez, libertando os fios que receberam o ar perfumado vindo do mercado e das flores que preparavam a cerimônia dos votos perpétuos.


Adiante, o gongo soou anunciando que era a terceira hora, momento em que os acólitos se retiravam para os seus aposentos e oravam ao deus Sombrio, oferecendo seu sono e seus sonhos para as obras que porventura o deus desejasse realizar.


Zelos vinha saltitante pelo corredor escuro, cujo archote pouco iluminava.


–Milo! – sussurrou ele. – Encontre-nos no pátio depois da meia-noite.


O garoto voltou-se para o noviço que estava a poucas horas de fazer os votos perpétuos.


– No pátio? À meia-noite? Prá quê?


– Hoje faremos a minha despedida. Logo farei os votos, então hoje iremos todos até o cais e embarcaremos nas balsas da volúpia!


– O que são essas balsas da volúpia?


– É o lugar onde podemos encontrar o prazer por um preço, é claro.


– É um puteiro flutuante?


– Nós não dizemos putas e sim sacerdotisas do sexo. Afinal, bocetas quentes e molhadas levam o homem ao êxtase sagrado!– disse Zelos revirando os olhos e suspirando. Depois, acrescentou: — Quando vamos à cidade e recebemos donativos, cada um de nós esconde uma ou duas moedas e guarda para a despedida da vida de noviço.


– Se quer tanto foder, porque está fazendo os votos perpétuos?


– Ah! Você não sabe de nada, Milo. Vem de uma família importante e quando sair daqui será o senhor de seu clã. Nós, pobres mortais, viemos de famílias pobres e sem condições. O caminho religioso nos oportuniza viver com dignidade, aprender um ofício e gozar de certo status.


– E Hakurei? Ele não desconfia dessa... despedida?


– Se desconfia, faz questão de fingir que não. E então, vai conosco?


– Talvez...


– Estou te estranhando. Quando chegou só falava em sexo. Agora que tem a oportunidade de praticar está hesitando.


– Eu tinha doze anos, agora tenho catorze. E, sinceramente, não costumo faltar com a minha palavra. Todos nós fizemos um juramento, lembra?


– O de “se manter casto de corpo e mente, para que o deus Sombrio faça de nós seus arautos”? Lembro, mas não conheço nenhum acólito que obedeceu este juramento à risca, com exceção do Hakurei, mas ele é velho e não conta. – disse Zelos coçando a cabeça.


Milo riu. Zelos tinha uma cara animalesca, parecendo os sapos gordos e de pele macilenta que eram vendidos na feira e era um dos garotos mais velhos. Diziam que ele tinha sido abandonado na porta da Torre e adotado por Hakurei. Era alegre, fofoqueiro e, decididamente, não tinha vocação religiosa.


– Muito bem, eu vou! Mas... não vou embarcar na tal balsa. Lembra o homem com a pele toda desenhada que vimos mo mercado? Quero fazer um desenho na minha. Você deve saber onde encontrar quem faça isso. Estou certo?


– Se pintar todo o corpo, Hakurei saberá que saímos!


– Não sou idiota, Zelos! Vou fazê-lo em um lugar do corpo que não fique visível.


– Ah, tá. Então venha, sei exatamente onde levá-lo!



Zelos, Argol, Asterion e Jamian esperavam ansiosos, Milo descer pela parede íngreme que dava para o pátio externo da Torre. Não era uma escalada fácil, mas os acólitos eram treinados para ficarem horas empoleirados nos dragões da Torre e escalar rochas usando apenas as mãos.


Milo conseguiu passar escondido pelas pedras que se revelaram caminhos de fuga e vislumbrou ambos os pátios. Um era interno e usado para as orações e o outro se encontrava na área externa e era palco para o treinamento do uso do arco e da lança, as únicas armas permitidas e ensinadas na Torre Negra.


– Pois bem, estou aqui! – disse Milo saltando tão levemente que nenhum som foi ouvido quando seus pés tocaram o chão.


– Então vamos! – disse Zelos, excitado. – Os cavalos estão nos esperando entre as rochas.


O longo canal de barcos flutuantes ondulava sob o movimento oscilatório das águas escuras e profundas. Ali, funcionavam as casas de alimentação onde grande parte dos frequentadores comia, bebia e deixava, como recordação, uma grande extensão de dejetos e lixo.


Mas, ainda assim, os mercadores montavam suas tendas, aproveitando o fluxo de clientes que procuravam as balsas da volúpia. O prostíbulo flutuante era uma das sensações em Berkehell. Ali se podia encontrar de tudo, mulheres, homens, jovens e animais. Não havia limite para as fantasias, apenas uma escala de valores que determinavam o tipo e grau de prazer que o cliente poderia alcançar.


Assim que chegaram, os acólitos deixaram os cavalos amarrados em grossas vigas de madeira e começaram a contar as moedas.


– Bem, se Milo não quiser, mesmo ir, sobram dois lenares. – disse Zelos.


– Isso, aproveitem por mim! Vou estar naquela tenda ali, estão vendo?- disse Milo apontando para uma tenda azul escura com fios pendurados.


– Sim, estamos. É a tenda de Aracne de Tarântula, ele é o riscador de pele mais genial que se conhece por aqui. Dizem que seu desenho é tão perfeito que, se soprar sobre ele, a imagem ganha vida.


– Quanto será que ele cobra? – perguntou Milo.


– Eu não sei, mas dizem... que este homem é estranho e cobra o preço em pedidos. – disse Jamian, outro acólito que parecia um corvo transformado em gente.


– Bem, se ele não quiser comer o rabo do Milo como pagamento... – disse Zelos fazendo os outros rirem.


– Se ele quiser comer o meu rabo, ofereço o seu em troca! Um noviço fazendo os votos perpétuos deve ser bem mais gostoso. – rebateu Milo dando um tapa na bunda de Zelos.


– Isso se ele fosse virgem! Mas esse aí... Acho que desde que aprendeu a falar, a primeira palavra que disse foi foder e daí por diante, só o deus Sombrio sabe o que ele aprontou! – falou Argol rindo.


– Injusto! Eu perdi a virgindade com dez anos e não foi com um homem, foi com a mais bela mulher dessa cidade, a deliciosa Bessamel!


– Sim e também a rameira mais barata do cais. Dizem que ela chupa por apenas... Ai! Por que me bateu? – perguntou Asterion.


– Respeite as damas! – disse Zelos e todos os outros começaram a rir. – Agora vamos que temos de voltar antes do amanhecer para as orações de purificação.


A tenda de Aracne era alta e cheirava a incenso. Uma lamparina tremulava, solitária e fraca. Quase não se conseguia enxergar nada ali dentro. Se tivesse medo das sombras, certamente Milo estaria tremendo, mas aquilo era nada comparado ao que vivera, no salão sombrio da Torre....


– Quem procura o senhor das teias e imagens? – disse uma voz que parecia vir de todas as direções.


– Eu, Milo. – disse o garoto apertando os olhos para visualizar a sombra enorme que surgia detrás da cortina enegrecida.


– E o que quer, acólito? Não acha que está muito longe de casa? — perguntou Aracne olhando para os trajes negros de Milo.


– Bem, eu gostaria que me desse a honra de desenhar algo em minha pele. Um escorpião grande e negro. – disse Milo.


Aracne aproximou-se e a lamparina pareceu adquirir vida própria. A luminosidade cresceu, dentro do ambiente, e Milo observou que aquele homem era mesmo um tanto estranho.


Só falta aquele idiota do Zelos ter razão e esse homem me pedir algo que envolva sexo... Pensou Milo fechando o punho.


– Muito bem, eu posso fazê-lo, mas... vai doer e custar o seu sangue.


– M-Meu sangue? Como assim?


– Você é especial, garoto. Tem um sangue poderoso. Além do mais... preciso de vermelho para compor uma nova tinta. Tem medo de sentir dor?


Milo não sabia como Aracne sabia sobre o seu sangue, porém ao invés de recuar, ele sentiu uma estranha excitação. Ele queria um pouco do seu sangue? Se fizesse o trabalho direitinho, ele o teria. Quanto ao medo de sentir dor? Aquele homem não sabia nada a respeito do que era sentir... dor!


– Não, não temo a dor. Quanto tempo leva?- perguntou Milo com um tom arrogante.


– Algumas horas. Agora tire as suas roupas e deite-se ali. – disse Aracne mostrando um conjunto de almofadas entrelaçadas entre si.


Pacientemente, Aracne usou pequenas agulhas mergulhadas em tinta negra e desenhou um escorpião nas costas de Milo, tendo o cuidado de fazer com que o ferrão saísse da região lombar e acabasse abaixo do mamilo esquerdo.


As agulhadas eram doloridas, porém Milo não se queixou em nenhum momento. Aquilo era nada em comparação ao veneno que circulara em seu corpo dois anos atrás. Na ocasião, ele achara que não ia suportar a dor excruciante que parecia ter se transformado em lâminas afiadas a percorrer-lhe as veias e nem a febre intensa que fizera escamar toda a sua pele. No final, tinha sobrevivido e adquirido uma força e imunidade que Hakurei chamara de o sopro do deus Sombrio.


Depois de pronto o desenho, Aracne mostrou-o a Milo através de uma placa de estanho brilhante que refletia como um espelho. O garoto ficou boquiaberto com a perfeição do trabalho. Parecia que o animal estava ali, apenas repousando.


Então, como o combinado, Milo estendeu o pulso ao artista e aguentou firme quando ele usou uma adaga fina e afiada para cortar sua carne. Um filete de sangue rubro escorreu para dentro de um pequeno vidro e pareceu a Milo que havia um cintilar estranho no líquido que saíra de seu corpo.


– Pronto, é o suficiente! – disse Aracne atirando um pedaço de tecido para que Milo cobrisse o corte e estancasse o sangue.


– Obrigado, senhor! O desenho ficou perfeito! – disse Milo sorrindo.


– Honre seu corpo, garoto... Nele, habitam forças que agora você desconhece, mas chegará a hora em que será preciso libertá-las e somente um guerreiro honrado poderá fazê-lo. – disse Aracne e sua voz parecia um tanto cavernosa.


Milo assentiu com a cabeça e deixou a tenda. Lá fora, a aurora já se anunciava e seus amigos há muito já haviam voltado para a Torre Negra.


Olhou para o céu que já manifestava uma luz difusa e rósea entre as nuvens densas. Merda, aqueles putos não me esperaram! Agora estou fodido e no mau sentido! Pensou Milo enquanto ia ao encontro do cavalo que comia, indolentemente, alguns fios de feno...



Notas finais
Ao séquito das minhas deusas amadas, o meu agradecimento:
CHAKAL_MALDITO, SION NEBLINA, LSA, MEL DARK, KASSIMINHA, VANESSA e quem mais chegar!! Bjs, amadas!!!XD