Trono De Sangue
14 Capítulo 14 CORAGEM...
Notas iniciais
“Faça com que eu tenha a coragem de enfrentar-me,
Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir pleno de tudo...
Receba em teus braços o meu pecado da razão extrema e, em teu corpo cálido, desperta-me a coragem para amar...”
A noite estava intensamente fria, como todas as anteriores, entretanto, para Kamus nem a benção do vento cortante podia fazê-lo esquecer...
“Deixei que a raiva por ele ter pensado que eu não pouparia uma criança me tomasse por completo. Porque ele não esperou? Eu ia libertá-los no final do dia! Daria por encerrada a punição e os deixaria partir para que tratassem do garoto. Mas, não! Ele tinha que afrontar-me, dizer com orgulho que me fizera de tolo! Inferno! Perdi o controle e agi como um canalha!”
Enquanto a mente de Kamus fervilhava, Raio saltitava e agora tentava caçar um esquilo, enquanto uma coruja branca piava em algum lugar da imensidão gelada.
Uma silhueta formou-se em meio aos agitados pinheiros brancos, agora prateados pelo luar. Kamus percebeu e Raio disparou na frente, deixando a caça de lado para ser tocado pela mão delicada...
– Bom rapaz! – disse Yuna.
Kamus se aproximou e cumprimentou-a com um movimento de cabeça. Yuna parecia uma entidade pálida e transparente, mas ainda assim uma mulher forte e de porte altivo. A presença dela o deixou ainda mais desconfortável.
– Não esperava encontrar ninguém aqui. – disse Kamus.
– A lua está cheia... É um bom momento para procurar ervas e trufas. Quando a Grande Mãe nos ilumina, com seu esplendor, devemos ouvir sua sabedoria e recolher sua essência curativa na natureza. — disse ela apontando para a lua e, em seguida, para a cesta cheia que segurava.
O olhar de Kamus correu da lua para a Healer e ela sentiu a angústia quase palpável do jovem senhor. Ela o conhecia desde menino e ainda lembrava-se do pedido dele para que deixasse a cicatriz em seu rosto. Posicionou-se, olhando-o e então falou, serenamente:
– Algo o incomoda, meu senhor... Estou aqui, se quiser partilhar.
– Esqueço que seus olhos são capazes de enxergar a alma... E a minha, agora, está escura a atormentada. Cometi um erro que jamais sonhei ser capaz e sinto-me muito mal, mesmo que, num primeiro momento, tenha achado que tinha o dever de fazê-lo. – disse Kamus levando a mão aos cabelos.
A Healer sorriu e elevou o olhar para a lua.
– “Embora não possamos voltar atrás e fazer um novo começo, podemos começar agora e fazer um novo fim.” Ouvi isso de um grande mestre, quando mais jovem e sempre me perguntei se isso seria, realmente, possível. Como é possível esquecer uma humilhação ou uma forte mágoa? Eu indagava a mim mesma, achando-me incapaz de atos cruéis, capazes de causar o mal de alguém. Entretanto, a vida ensinou-me uma coisa, somos feitos de luz e sombra e negar que temos estas duas forças é o mesmo que afirmar a supremacia do sol em detrimento dos mistérios da lua. Recomece, meu senhor, tenha coragem de fazer o que o seu coração pede e não o que a sua mente impede... Quando nosso coração está alinhado e a nossa mente está iluminada, nossos passos são firmes. Porém, quando um prevalece sobre o outro, conhecemos a fraqueza e a crueldade. – disse ela tocando-lhe o peito, na altura do coração.
Kamus sentiu uma repentina vontade de chorar e reprimiu-a, ao ponto de sua garganta doer. O toque da Healer pareceu queimá-lo e abrir algo, dentro dele. Surpreso, ele elevou os olhos, enquanto ela lhe dava as costas e falava:
– Muitas dores, meu senhor... Deixe que saiam para que possa desfrutar da luz que existe em seu coração. Algumas cicatrizes nos trazem orgulho e ficam. No entanto, existem aquelas que precisam ceder lugar ao que, realmente, importa.
Raio olhou para Kamus e emitiu um ganido. Depois correu para dentro da floresta, fazendo uma trilha que eles nunca tinha feito. O senhor de Irġielkiesaħ limpou as lágrimas teimosas que escorreram pelo seu rosto, mesmo que as tentasse conter. Não adiantava ordenar que não caíssem, então desistiu secando-as com as costas da mão e foi atrás do seu lobo.
A trilha que Raio adentrava tinha um pequeno córrego que se abria como veias em um corpo. As águas cristalinas refletiam a lua brilhante, parecendo estar cravejadas de diamantes que fluíam até a entrada de uma gruta. O lobo corria e olhava para trás, até sumir dentro da entrada escura.
– Raio! – chamou Kamus, porém o lobo já tinha entrado.
A gruta estava escura, mas estranhamente abafada e quente. Kamus ouvia o som de água correndo e uma luminosidade azulada que parecia colada às paredes úmidas. Avançou mais um pouco e a cena que se descortinou ante os seus olhos foi de uma beleza intensa e quase irreal.
No interior da gruta havia uma piscina natural e cristalina cujos vapores sinalizavam que a água era quente e ela refletia pequenas mariposas azuis, cujas asas brilhantes iluminavam todo o ambiente.
Raio nadava e tentava pegar algumas e, em dado momento, o lobo olhou para Kamus como se o convidasse para participar. O jovem senhor tirou as roupas e mergulhou.
A falta de costume em sentir muito calor fez Kamus fechar os olhos, emitindo um ofego de estranheza e prazer. Quando ele emergiu, viu algo escrito em uma das paredes:
"O universo nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela, corre por nossa conta. Assim foi e assim sempre será."
Dégel, ano da revolução solar de seu décimo oitavo ano.
Um sorriso desconcertado surgiu nos lábios finos e um tremor de contentamento fez Kamus levar as mãos ao topo da cabeça. Seu pai havia escrito aquela frase quando tinha a mesma idade que ele, agora. Podia até ser loucura, mas parecia que Dégel, através de Raio, o trouxera ali para dar-lhe um conselho, orientá-lo num momento único em sua vida...
Kamus leu e releu a frase, ainda emocionado com a descoberta daquele lugar. O lobo tinha saído da água e sacudia o corpo, enquanto olhava-o com aqueles olhos parecendo rubis de fogo. Kamus ficou um tempo flutuando naquele ambiente cálido que se assemelhava a um grande útero quente e iluminado de céu. Sua mente e seu coração pareceram entrar em sintonia enredando-se em uma espiral crescente de entendimento...
Depois de um tempo, Kamus retornou ao ambiente gelado, tendo o cuidado de memorizar aquele caminho. Raio permanecia ao seu lado, sacudindo o pelo molhado e saltitando, como sempre fazia.
Um tempo depois, a fortaleza resurgiu diante de seus olhos, imponente e escura... Kamus fitou-a, olhando na direção onde ficava o aposento de Milo. Não havia dúvidas sobre o que deveria fazer. Inspirou fundo e foi até lá.
O quarto estava envolto em uma penumbra avermelhada devido à lareira acesa, que agora estava reduzida a um amontoado de brasas... Kamus colocou mais lenha e, em seguida, o fogo ardeu, novamente e ele viu o corpo nu, de Milo iluminar-se, apenas envolto no tecido em que se secara.
O loiro estava de lado, um braço embaixo do belo rosto, enquanto o outro pendia relaxado sobre as coxas, um pouco flexionadas. Kamus fitou-o, levando a mão até os cabelos espalhados e ainda úmidos dele. Dali a pouco, chegaria a aurora, pálida e transparente, mas ainda eram as trevas da noite que prevaleciam, como se fossem suas eternas confidentes e envolviam a ambos com seus desejos e segredos...
Desfrutando de um sono profundo, Milo não se mexeu. Então Kamus continuou sua exploração lenta e cuidadosa. Tocou a face dele com a ponta dos dedos, fazendo um caminho até os lábios machucados que agora estavam entreabertos em um ressonar baixo. O pescoço exibia marcas arroxeadas e, se Milo estivesse com o tórax exposto, se poderia ver que os mamilos também estavam avermelhados pelas carícias desenfreadas de horas atrás...
Todo o corpo do jovem senhor de Berkehell exibia marcas que haviam sido feitas pelas suas mãos e boca, analisava Kamus, sentindo-se invadido pela mesma sensação que tivera quando o possuíra. Era uma emoção profunda que o arrancara da zona previsível e confortável das suas relações sem vínculo. Mesmo envergonhado pelo que fizera, não conseguia esquecer as sensações ardentes despertadas em seu corpo e nem a forma como Milo correspondera.
Se fechasse os olhos podia rever em sua mente e corpo, o exato momento em que os olhares se conectaram, intensos, íntimos, antes das bocas se buscarem sôfregas trocando saliva e sangue. O azul dos olhos de Milo mergulhando inteiro no rubro, dos seus. Os gemidos se metamorfoseando em melodias roucas, os corpos ardendo no erótico bailado da possessão e entrega. Havia sido violento, mas, ao mesmo tempo, aquele ato penetrara em suas vísceras, seu coração e sua alma... Nunca uma necessidade de possuir alguém tinha sido tão avassaladora quanto a que sentira por Milo e nunca o prazer fora tão veemente, profundo e completamente diferente do que vivera até então.
Mentira para si mesmo, ao achar que possuir Milo acabaria com o tormento que ele lhe despertava. Aquele homem era fogo, desejo, destemor e o enfrentava sorrindo, brincando, tocando em suas emoções como um atiçador vibrando sobre as brasas para fazê-las arder em todo o seu potencial...
Enquanto Kamus pensava e observava, Milo moveu a cabeça e piscou os olhos sonolentos. O senhor de Irġielkiesaħtocou-lhe o rosto e baixou a cabeça, devagar, aproximando-se e beijando-o com suavidade. Embora tivesse vontade de aprofundar o beijo, Kamus notou que Milo continuava dormindo, embora insinuasse um pequeno sorriso e um som de contentamento lhe escapasse dos lábios.
Tinha exigido demais dele. A conversa que teriam, podia esperar até o dia amanhecer... Levantou-se e puxou uma coberta feita de pele para cobrir o corpo nu. Olhou Milo, mais uma vez e deixou o quarto.
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Ele corria mais rápido do que jamais fizera em toda a sua vida. O medo de perdê-lo empurrava seus passos e não ousava voltar os olhos sobre os ombros, por receio de perder tempo...
Passadas enormes o seguiam e ele viu a montanha negra impor-se, alta e majestosa para que ele a escalasse. Seus dedos procuraram reentrâncias na rocha polida, o vento sobrenatural açoitava seus cabelos e havia aquela pressão em seu peito, mas nada, nem ninguém o impediria de encontrá-lo!
Ao longe, ele ouviu alguém gritar o seu nome...
Milo...
A respiração acelerada acompanhou seu despertar do segundo sonho. Seu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito e, diferente do anterior, este sonho lhe despertara uma forte angústia.
Um aroma de pinheiro misturado com pele de animal logo preencheu as suas narinas e ele sentiu-se preso embaixo da pele escura e espessa. Logo, Milo compreendeu que estava coberto com uma pele de urso e mal conseguia se mexer, por isso aquela sensação de peso permeava todo o seu corpo...
– Senhor Milo? – era Hilda quem chamava, do outro lado da porta.
– Sim? – Milo afastou a pele, abruptamente, tentando controlar o corpo dolorido. Olhou para a janela e viu que já estava claro.
– Posso entrar? – perguntou ela batendo e abrindo uma fresta da porta pesada.
– Se não se importar de ver um homem pelado... Não sei onde larguei minhas roupas.
Homens! Quando é que eles deixam as coisas em seu devido lugar e as acham depois? Pensou Hilda, revirando os olhos e já visualizando as roupas que Milo deixara cair em um canto no chão.
– Eu trouxe roupas limpas e o seu desjejum. Vou levar estas para lavar.
Milo franziu o cenho e enrolou-se no tecido usado para secar-se. Estava sonhando, novamente? Em seu primeiro sonho, Kamus fora vê-lo e ele sentira os lábios dele, nos seus. Agora isso...
– Hã... senhorita Hilda, porque tudo isso? – perguntou Milo.
– Ordens do senhor Kamus. — disse ela disfarçando a observação do corpo de Milo.
– Ele me deixou dormir, mandou que trouxessem o desjejum no quarto e também, roupas limpas? Por acaso eu vou ser executado ou algo do gênero?
Hilda riu. Diferente dos homens do clã Akkwarju, aquele era engraçado e irreverente. Parecia nunca ficar embaraçado, mesmo passando por situações desagradáveis. E ainda que fosse despachado e sorridente, havia uma aura de força e caráter nele que ainda incomodaria muita gente.
Além disso, parecia que o seu senhor tinha desfrutado da companhia daquele homem com bastante apetite...Pensou ela ao ver algumas marcas no belo corpo.
– O senhor Kamus pediu também que lhe entregasse isso. – disse Hilda estendendo uma carta com o selo do clã Akkwarju.
Milo pegou a carta e olhou-a, com desconfiança e curiosidade. Depois abriu sob o olhar disfarçado de Hilda.
“Senhor Milo, estarei ocupado no início da manhã, mas no final dela, desejo falar-lhe. Aproveite para descansar e se, precisar de algo, peça à senhorita Hilda e ela providenciará.”
Kamus.
Mordendo o lábio inferior, Milo fez uma careta, esquecendo que o mesmo estava machucado. Hilda fingia arrumar algumas coisas até que o loiro a interpelou:
– Senhorita, sei que está fazendo o seu trabalho, mas eu agradeceria se me deixasse sozinho.
– Oh! Claro, perdoe-me! Eu só permaneci para ver se não precisa de ajuda.– insistiu ela.
– Não é necessário, mas agradeço a sua gentileza. – disse Milo.
Assim que Hilda saiu, ele atirou-se na cama, novamente e cerrou os olhos. Sentia emoções contraditórias que iam desde a vontade de bater naquele lobo arrogante até o desejo de senti-lo, novamente, em seu corpo. As duas eram fortes, mas a segunda parecia levar vantagem.
Deve ser este veneno em meu sangue! Disse para si mesmo. Por mais que pensasse a respeito, ainda assim se perguntava o porquê dessa estranha e doentia sensação que estava ligado àquele homem.
Inspirou fundo e olhou a bandeja trazida por Hilda. Havia pão quente, cerveja escura e um queijo que ele experimentara com visível prazer na janta. Tudo o que ele gostava estava ali, em cada detalhe, e isso atiçava sua curiosidade. As roupas limpas também eram, exatamente, do seu tamanho... O que o lobo estará tramando, agora?
Vestiu-se e comeu. Pensou em deixar o quarto, mas, ao mesmo tempo, hesitava sem saber ao certo o que fazer. Ah, quer saber, foda-se! Não vou ficar aqui esperando feito uma donzela aprisionada na torre.
Quando deixava o quarto, Milo viu o lobo azul e gigantesco deitado na porta e, em seguida, detrás dele, Kamus surgiu. Ambos se encararam e o tempo pareceu congelar. Raio moveu a cabeça de um jeito esquisito, ganiu e correu em direção ao corredor.
– Bom dia, senhor Milo. – disse Kamus.
– Não havia dito que estaria ocupado? – perguntou Milo ignorando a saudação.
– Sim, eu disse. Mas, mudei de ideia e resolvi falar-lhe agora.
Milo arqueou a sobrancelha e ficou em silêncio, encarando-o. Kamus inspirou, sem desviar o olhar, porém sentiu a garganta arranhar.
– Bem, vou ser direto como é do meu feitio. Sobre ontem à noite, eu... creio que devemos conversar. Eu agi mal e... gostaria de explicar o porquê.
– Ficou irado porque eu o enganei e revidou prá não passar por tolo. Eu sei disso, senhor Kamus. Mas, apesar de sentir um grande prazer em ver culpa nesses seus belos olhos, admito que também o provoquei e também... o quis. – disse Milo de um jeito firme, mas sem ser agressivo.
Kamus continuava a encarar Milo e parecia não acreditar no que acabara de ouvir.
– O senhor quis? – perguntou ele, com os olhos bem abertos e um misto de surpresa e encantamento.
– Sim, eu quis. Embora eu... me sinta um tanto envergonhado em confessar que, em meio à culpa de colocar meus irmãos nesta situação e também em tê-lo afrontado perante os seus homens, eu senti tesão e permiti que acontecesse. Sou homem, lobo, e não vou me portar como uma donzela violada ou vítima indefesa.
– De todos que conheço, o senhor é o único que sempre consegue me surpreender e desconsertar. – falou Kamus.
– E o senhor, desde que pus os pés em seu território, me fode de todas as maneiras possíveis e imagináveis, então... estamos quites. – disse Milo, agora, com um tom malicioso e arrogante.
– Sei que sou rígido, mas não sou cruel. Eu ia libertá-los. Jamais deixaria que seu irmão permanecesse sem tratamento. O senhor se antecipou e tomei uma atitude demasiadamente agressiva. Não foi uma atitude digna e eu... peço desculpas. Está livre, senhor de Berkehell e pode partir no momento em que desejar.
– Só isso? – perguntou Milo cruzando os braços.
– Deseja mais alguma coisa? Uma retratação oficial, talvez? Eu posso faz...
Kamus não conseguiu prosseguir com sua fala, pois Milo aproximou-se tão rápido que, quando percebeu, sua boca estava sendo pressionada em um beijo inesperado.
Não havia nenhuma lógica, apenas uma energia no ar, uma linha que os conectava, uma fatalidade que levava ambos a vivenciar o desejo intenso, arrebatado e fulminante.
Ele o beijara em meio ao sono, porém agora era Milo quem o beijava e ele correspondia como se fossem amantes se reencontrando, pela manhã, após uma noite ardente.
Os dedos de Milo mergulharam nos cabelos ruivos e a boca se encontrou com a de Kamus numa sôfrega colisão. Ele entrou e saiu da boca de Kamus, passando pelos lábios, encostando a língua na dele, nos dentes até voltar ao lábio inferior e mordiscá-lo com avidez. Então sussurrou rente aos lábios que tomava:
– Agora sim, lobo... eu estou pronto para... pensar em aceitar a sua retratação.
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Ele estava sozinho e sua mente, como era de costume, viajava através da noite. Seus longos cabelos loiros ondulavam como se ele estivesse dentro da água, porém ele estava em pé e no centro de uma estrela de cinco pontas, traçada entre as gigantescas árvores-matter cuja folhagem dourada parecia um domo natural de um templo ao ar livre.
Seu corpo esguio flutuava em meio à bruma noturna, coberto por uma túnica marfim longa e justa cujo tecido aderia às formas do tórax e esvoaçava até o tornozelo. Como se fosse um fio condutor, ele atraía para si a energia telúrica e viajava, através dela, fosse para curar ou, como agora, para certificar-se que nada de mal ultrapassara a barreira de segurança erguida para proteger seu clã.
A mente do senhor de Irmied vasculhava todo o território que se descortinava em florestas, lagos, cachoeiras e montanhas altas. Sua mente visualizava cada folha, grão, rocha, animal e movimento em um esquadrinhar constante e cuidadoso, cumprindo seu ritual diário como protetor e guardião daquelas terras e, embora fosse conhecido como um homem santo, Shaka Deependra era apenas um homem e também jovem, mesmo que, raramente, se lembrasse disso ou o vissem desta forma.
A lua estava imensa e, magistralmente, brilhante. O som morno da brisa noturna se misturava ao rastejar dos insetos, das serpentes e lagartos, dos animais da noite e dos aromas florais que serpenteavam no ar...
Tudo estava em paz, como sempre. Vida e morte se entrelaçando na putrefação de folhas e carcaças, assim como o aroma fresco imiscuindo-se nas transformações de lagartas e mariposas, na vida que irrompia à noite e que também desabrocharia ao amanhecer...
Shaka respirava lenta e profundamente, sorvendo da pacífica lentidão noturna quando a brisa tornou-se quente e densa, subitamente.
Sangue, medo e preocupação... O ruído dos passos trôpegos e da voz dolorida rompeu o véu da paz.
A-Ajude... A-Ajude o meu irmão!P-Por favor!
Shaka fixou dentro dos olhos do garoto moreno. Ele estava coberto de sangue e folhas e olhava diretamente em seus olhos numa súplica angustiada, apesar da seriedade de seus ferimentos.
Ele está olhando direto em minha direção como se estivesse me vendo, mas... isso é impossível! Pensou o senhor de Irmied.
A pedra translúcida fixada em sua testa vibrou e ele, de imediato, buscou pelos dois homens que eram capazes de mover-se rápida e velozmente pelas florestas luxuriantes.
Mu! Misty! Tem um homem ferido próximo da barreira. Vão até lá, agora.
A grama orvalhada exalava o frescor da noite e os dois rolavam sobre o cobertor rindo e trocando carícias... Naquele momento, como fazia meses atrás, o casal jovem namorava, aproveitando a privacidade e a descoberta do prazer. O jovem de cabelos fartos e castanhos sorria, excitado, enquanto apoiava as mãos, uma de cada lado do corpo abaixo do seu e buscava os lábios entreabertos para beijar.
A respiração de Mu sibilava de prazer e seus dedos enterrados nos cabelos de Aiolia dançavam sôfregos, quando ele ouviu seu nome...
– O que foi? – perguntou Aiolia sentindo que os lábios de Mu se afastavam dos seus.
Mu suspirou.
– Shaka! Ele está chamando. – respondeu o jovem.
– Posso ir também?
– Não, Aiolia. Não podemos arriscar a sua segurança.
– Inferno! Eu me sinto um... idiota e um inútil!
– Não diga isso. Quando chegar a hora, você fará o que deve ser feito. Até lá, precisa ficar em segurança. – disse Mu e beijou-o nos lábios, fazendo-o esquecer a ira.
Mu levantou-se, rapidamente e já em estado de alerta, encontrando Misty que o olhava com malícia e o esperava com duas lamparinas no Portal das Flores.
– Fodendo com o futuro soberano, Mu? Espero que aproveite, porque não será para sempre. – disse ele sorrindo maldoso.
O jovem de cabelos cor de lavanda permaneceu impassível como se o companheiro não tivesse dito nada importante e então falou, sorrindo também.
– Nada é para sempre! Mas, como diz o nosso líder, “Tudo é transitório...” e eu, pelo menos, terei algo para lembrar. Agora vamos, pois creio que algo grave aconteceu.
Misty fez um muxoxo com os lábios e seguiu ao lado de Mu. Em segundos, graças ao conhecimento de cada recanto de Irmied e a capacidade de deslocar-se, rapidamente, Mu e Misty localizaram o local onde Shaka avisara que algo havia acontecido. O cheiro de suor e sangue era forte e, mesmo sob a luz fraca da lamparina, os dois constataram que havia um corpo caído sobre as folhas douradas que agora estavam encharcadas de sangue vivo.
– Esse aí já era! – disse Misty.
– Não, ele ainda respira. Pelos deuses da floresta ele é apenas um garoto! – disse Mu se aproximando do corpo ensanguentado.
– Ele foi cortado à espada e no ventre. Ninguém resiste a isso. – falou Misty.
Mu fechou os olhos e, em seguida, Shaka veio com uma expressão serena, porém diferente do habitual. Geralmente, quem procurava Irmied buscava a cura de alguma doença ou conselhos espirituais. Bandidos e salteadores se mantinham afastados, graças à barreira que ele, Shaka, havia aprendido a erguer quando seu mentor e pai, Asmita, o levara até o Umbral dos Esquecidos e o iniciara no segredo das estrelas.
Os passos do senhor do clã Vergni eram quase imperceptíveis sobre as folhas mortas. Ele abaixou-se e tocou no jovem que se esvaia em sangue e, aos poucos, ia ficando com o olhar vítreo. Não podia distinguir as feições do jovem, pois seu rosto estava sujo de lama e sangue, entretanto os olhos, teimosamente, abertos refletiam um brilho obstinado e febril.
– M-M-eu... i-irmão... S-Shun... – murmurou Ikki, numa voz abafada e rouca, agarrando o pulso de Shaka com tanta força que deixou a marca dos seus dedos na pele alva.
– Acalme-se... está muito ferido. Tenho que estancar esse sangue, antes de movê-lo. – disse Shaka em um tom forte e calmo.
Havia um grande corte no ventre do rapaz e se podia ver as vísceras, quase expostas. Um ferimento desta natureza fazia sangrar até a morte e era fatal. Porém, parecia que aquele jovem não se entregaria à morte tão facilmente e se mantinha consciente, apesar da dor e gravidade do ferimento.
Shaka murmurou uma prece, mentalmente, levando a mão direita ao ventre de Ikki e a esquerda para tocar na terra úmida. Em seguida, fechou os olhos e um filamento de luz dourada materializou-se, saindo de dentro da terra, e entrando em sua mão esquerda para depois sair na ponta dos dedos da direita.
Cada filamento “costurava” a carne fechando o ventre de Ikki fazendo-o estremecer e perder a consciência. Quando o procedimento terminou, Shaka gesticulou e cipós grossos se entrelaçaram construindo uma maca improvisada, na qual Misty e Mu colocaram o rapaz.
Ikki foi levado para a Árvore secular uma sequoia gigantesca que era a fortaleza do senhor de Irmied. Vista de fora, parecia apenas uma árvore estranha e enorme, mas por dentro continha aposentos e salas tão confortáveis e bem planejados como se fosse uma fortaleza construída pelo homem.
– Coloquem-no na ala leste e deitem-no na direção do nascer do sol. – disse Shaka.
Mu assentiu com a cabeça, enquanto Misty permanecia com uma expressão de desagrado.
– Não acho que devíamos trazê-lo para cá. Este ferimento é grave demais para alguém pacífico.
– Shaka sabe o que faz. Agora ajude-me aqui. – disse Mu.
Misty ajudou-o e depois se retirou. Assim que ele saiu, Ikki abriu os olhos, as pálpebras estremecendo com a febre que já se iniciava.
– S-Shun... – sussurrou ele.
– Durma. Vamos procurar seu irmão, fique tranquilo. – disse Mu sorrindo. – Você é muito forte rapaz! Já vi homens com ferimentos menores que o seu gritarem de dor e desfalecerem por muito menos.
Ikki tentou se mover e arquejou, gritando de dor. Sua cabeça latejava e seu corpo ardia em espasmos violentos. Shaka surgiu no aposento, franzindo o cenho. Aproximou-se do jovem e tocou-lhe a fronte. Ikki abriu os olhos e, agora com a luz do aposento, Shaka percebeu a intensidade dos olhos azuis.
– Feche os olhos, rapaz. Precisa descansar ou seu corpo não resistirá. – disse o senhor de Irmied.
Mesmo sem querer, Ikki fechou os olhos com aquele toque. Tinha a cabeça povoada de risos, bocas desdentadas e o som de guizos. Os rostos dançavam em volta dele, transformando-se em monstruosidades e ossos que saltitavam de um jeito macabro. De repente, tudo escureceu e a última imagem que ele viu foi a dos olhos úmidos de seu irmão...
Sério e preocupado, Shaka observou o rosto contraído do jovem. Nunca conhecera alguém como ele e nunca sentira uma angústia e um senso de dever tão veementes, em uma alma tão jovem. Sem que percebesse de imediato, viu-se tocando os cabelos negros e revoltos com uma ternura inédita e profunda, a qual disse para si mesmo, ser apenas... compaixão.
Notas finais
** Deus nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela, corre por nossa conta.
Essas duas frases são de Chico Xavier. Eu não sou espírita, mas honro a sabedoria deste mestre especial cuja doação e amor ajudou muitas pessoas. Eu fiz uma alteração na segunda frase para ficar mais condizente com as crenças de Kamus.
AGRADECIMENTOS: SEMPRE! Àquelas que encantam minha alma com suas sugestões, com seus comentários entusiasmados e carinhosos, com sua poesia e com o seu silêncio. OBRIGADA!
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